No zen-budismo encontram-se muitas vezes desenhos de círculos concêntricos. Esses círculos simbolizam as etapas do aperfeiçoamento interior, a harmonia progressiva do espírito. (CHEVALIER & GHEERBRANT, 1993, p. 251)
Figura 25 - A água e o tempo (Serranópolis, julho de 2003).
Foto: Dulcinéia Schunck
A imagem mostrada acima talvez expresse a alma do zen - máxima espontaneidade e mínima interferência - deixar as coisas serem como elas são. A natureza estaria intacta se não fosse o delicado arremesso de uma pequena pedra a formar suaves ondas, representação do tempo e da presença humana. A efemeridade desse momento inspirou a vivência poético- lúdico-meditativa proposta para essa oficina: água, um jardim aquático não premeditado, vivo com seus ágeis peixinhos.
O estado estético é um transe de felicidade, de graça, de emoção, do gozo e de felicidade. A estética é concebida aqui não somente como uma característica das obras de arte, mas a partir do sentido original do termo aisthètikos, de aisthanesthai, "sentir". Trata-se de uma emoção, uma sensação de beleza, de admiração, de verdade e, no paroxismo, de sublime [...] (MORIN, 2002, p. 132)
Segundo Morin, "a estética e o lúdico têm em comum o fato de serem sua própria finalidade, inclusive quando comportam finalidades utilitárias" (Ibidem, p. 133).
Entre os vários caminhos para se alcançar o estado poético, há o caminho da relação estética com a natureza:
[...] a poesia chinesa, as Bucólicas e Geórgicas, de Virgílio, mil hinos ao sol e à lua, em todas as civilizações, foram manifestações disso: a partir de Rousseau e do romantismo, intensificou-se no mundo ocidental, realizando-se pela pintura, pela literatura, pela poesia, mas também diretamente nas viagens de férias, democratizou- se no século XX, com as excursões e o turismo nos montes, nas florestas, nos oceanos, nos desertos. (Ibidem, p. 137)
O curso intensivo de pintura zen que fiz na Índia52 vinha agora compor minha particular mandala da complexidade: uma peça inestimável para o curso Arte e Natureza. Cada experiência vivida naquele curso permanece viva no meu ser. Sempre quis reviver e replicar aquele estado mágico, mesmo consciente de que as práticas ali vivenciadas eram adaptações, aproximações das técnicas tradicionais.
Mais uma vez combinei uma série de estímulos à sensibilização: reciclagem das tintas minerais; aula teórica com projeção de slides digitais; personificação ou transferência imaginativa; pintura efemêra em prato raso; pintura mineral sobre papel; depoimentos escritos e orais compartilhados pelo grupo, gravação de voz e preenchimento de questionários53.
As tintas minerais restantes da primeira oficina foram recicladas e reaproveitadas pelo grupo. Além delas, foram preparadas mais duas cores sintéticas: o azul ultramar e o dourado que, por sua luminosidade e vibração profunda, têm sido utilizados há séculos em diferentes culturas, sempre que se deseja simbolizar o sagrado - tema a ser evocado nessa oficina. Exemplos dessa aplicação são os vitrais góticos de intensos azuis; os mantos sacerdotais das pinturas em retábulos e iluminuras medievais; as longilíneas janelas da Igreja Dom Bosco em Brasília que, banhadas pela luz solar, oferecem uma atmosfera azul de impressionante impacto sensorial.
Com o material de pintura pronto e disposto sobre as mesas de trabalho, foi dado início à segunda etapa da oficina: uma contextualização histórico-conceitual cuja ênfase foi uma farta mostra de slides sobre pintura zen tradicional e contemporânea, além de imagens de mandalas de várias origens e finalidades, feitas por crianças, artistas, monjes, terapeutas, até aquelas engendradas pela própria natureza.
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O curso ocorreu em Poona, Índia, em 1998, e teve a duração de um mês, em regime intensivo. Várias técnicas foram aplicadas, mas a ênfase das práticas recaiu sobre a relação entre pintura não-figurativa e meditação.
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Essa oficina aconteceu em 22/03/2005, quando estava sendo comemorada a Semana da Água. Dela participaram 14 pessoas. As mesas de trabalho foram dispostas em círculo.
Com o objetivo de estimular a sensibilidade de cada participante em relação ao elemento água, foi aplicada uma terceira prática. A leitura, inspirada na técnica de personificação imaginativa e acompanhada de sons de água correndo, foi mais ou menos assim54:
Feche os olhos. Respire profundamente. As águas são as veias da Terra.
Escute o som da água, impregne-se desse som.
Sinta-se água. Você é água, grande parte de seu ser é água. Perceba-se água correndo sobre as pedras, numa corredeira.
Procure sentir a temperatura da água, sua velocidade, seu movimento, sua textura, densidade, som,
sua força, sua suavidade, sua incansabilidade, a não-contenção de sua natureza.
Visualize a água girando em torno das pedras, sempre descendo, descendo, descendo, você água abre seus olhos de água, você vê o mundo como água.
Eu-água lavo a terra, lavo tudo, limpo tudo, passo por dentro do corpo humano, meu corpo-água se deixa levar pela água, lava, lava, limpa, limpa,
leva, leva.
Deixa a água me levar, deixa a água me lavar, por dentro, minhas veias, meus cabelos parecem com a água, eles dançam na água.
A água é a alma da natureza, tudo depende da água, a água é a rainha da floresta, a água é sagrada, a água é brava, a água destrói,
muita água mata.
A partir das sensibilizações iniciais, foi dado início a uma seqüência de pinturas espontâneas feitas a partir de manchas e cores, com o mínimo de intervenção manual e máxima atenção ao processo de interação entre o artista, os pigmentos, a água, o tempo e o
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Esse exercício foi acompanhado da música Water - Shiv Kumar Sharma, Living Media India, 1995 - Samudra Manthan (15 minutos). Gravações de água corrente natural podem ser utilizadas nessa vivência.
papel. Pedi que as observações, insights e associações de significados fossem anotados, a critério de cada um, para uma posterior reflexão e partilha com o grupo.
Nas artes plásticas, o termo espontâneo muitas vezes é associado a práticas aleatórias ou coincidências, sem qualquer significado relevante. Porém, "espontaneidade não significa aptidão para improvisar soluções organizadoras em quaisquer condições [...] toda a espontaneidade supõe e necessita de um substrato não espontâneo" (MORIN, 1999, p. 45). As coincidências são frutos da seletividade natural que as pessoas fazem enquanto a espontaneidade está por trás dos acasos mais significativos da criação artística.
Nas infindáveis combinações de eventos físicos e psíquicos, que geram as associações e evocações de todo tipo, e na vasta rede lançada em nossa volta pela imaginação, qual rede lançada ao mar, sondando incessantemente o sentido secreto das coisas, as chances de ocorrerem incidentes carregados de significados se renovam a todo instante. (OSTROWER, 1990, p. 257-258)
A recomendação aos participantes foi de que não se preocupassem com os resultados finais de suas pinturas, mas que usufruissem do percurso, prestando atenção às associações que fossem surgindo espontaneamente, ao longo dessa vivência da efemeridade.
A idéia radical da não-fixação pictórica emergiu da simplicidade de um prato raso com pouca água, no qual a composição abstrata dos pigmentos e cores iria acontecer quase que por si mesma, uma lúdica estratégia para vivenciar o presente e contemplar os processos vivos daqueles materiais. Orientei o grupo, no sentido de utilizar qualquer objeto, incluindo as mãos ou movimentos com o prato, como meio de provocar e organizar/desorganizar as formas e cores conduzidas pela água. Uma arte mais do que efêmera, sem fixação alguma.
As percepções compartilhadas ao final da oficina revelaram que a experiência com o efêmero, na pintura mineral no prato, reverberou com intensidade em boa parte do grupo. Ao observar como água e terra interagem, antagonizam-se, concorrem, como os acúmulos matéricos constituem as pequenas formações escultóricas, o olhar do artista em cada um, sem pressa, reencantou-se pelo mundo das formas naturais, extraindo delas seus significados mais ocultos. Kandinsky refere-se à essa magia como a alma secreta da natureza dizendo que "submeter-se às suas leis, adivinhar sua mensagem prenhe de sabedoria - tal é a maior alegria do artista" (KANDINSKY, 1990, p. 224).
Figura 26 - Pintura no prato. Stefania Foto: Stefania Montiel
Embora tão distantes no tempo e no espaço, tanto a pintura zen e as mandalas, quanto a arte ocidental do último século, parecem compartilhar de pontos comuns. Steven Connor (1996) aponta alguns princípios da sensibilidade modernista e contemporânea quando busca o efêmero55; a captação do presente fugaz e a valorização da experiência interior.
Logo depois da pintura no prato os alunos deram início às aguadas sobre papel canson, com aglutinante para que os pigmentos pudessem ser fixados permanentemente56. A paletinha de cores preparada por Paulo deu-me a impressão que ele sempre pintara com terra.
Figura 27 - Paulo preparando sua paleta natural Foto: Dulcinéia Schunck
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Ferreira Gullar, por exemplo, refere-se à arte conceitual, uma das manifestações artísticas da contemporaneidade, como uma forma de expressão que não propõe nada, "apenas adotou, como fundamento ideológico, o caráter efêmero que o consumismo impôs à sociedade atual. Efêmeros somos nós mesmos e quase tudo a nossa volta." (GULLAR, Ferreira. Revista Continente, agosto, 2002).
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Técnica usada com diferentes tipos de pigmentos, em que a tinta é diluída em água. O aglutinante utilizado foi o Liquibrilho da Suvinil, em baixa diluição na água.
Mais uma vez estabeleceu-se um clima de silêncio e concentração absoluta na sala. Apenas uma música suave de fundo inspirava o movimento dos pincéis.
Depois de aproximadamente uma hora, pedi que cada um fosse lentamente encerrando suas pinturas, colocando-as sobre uma mesa central. Passamos então a trocar as experiências.
Para Walquíria, o sentido foi de renovação: "a água renova, transforma, e eu, como professora, devo buscar constantemente a renovação". Ela revelou que, pela primeira vez, tinha "conseguido acompanhar toda a experiência expressando-se de uma maneira bastante plena". Sentindo-se "grávida" declarou: "finalmente meu canal criativo se abriu: como a água, comecei a fluir".
As qualidades da água foram percebidas por ela como qualidades a serem buscadas internamente: uma identificação entre experiência e autopercepção, ao transformar-se na coisa pintada.
O que mais surpreendeu Clarice foi "sentir a conexão com o momento no qual está acontecendo o processo". Isso a fez entender a "humildade do presente", e ainda, como o momento presente é "singular, intransferível e insubstituível". Sua fala refere-se à presença, estar presente, hic et nunc.
Hoje eu me emocionei muito, mexeu muito comigo perceber o pigmento se misturando à água formando canalículos e estalactites [...] num segundo momento a vontade foi só de reproduzir no papel o que eu vi naquele prato. Eu tentei reproduzir primeiramente a água [...] de repente vieram riscos e riscos na cabeça e eu resolvi colocar no papel, foi muito bom.
Uma questão gerou uma rápida, mas intensa reflexão entre alguns alunos: o fato de que "conhece-se muito pouco sobre o poder da água, o que fazemos com a água e o que ela pode fazer conosco". Além disso, o desconhecimento das "estreitas relações de interdependência que a água mantêm com as matas ciliares, as encostas, os cursos dos rios e córregos".
Tal observação demonstrou que a sensibilização artística evoca não só um sentido poético, mas também o pensamento crítico.
Larissa chamou a atenção para a imagem de descontrole que a água traz: "você não tem o domínio sobre a criação, não tem domínio sobre a água: você não sabe para onde ela vai levar, se vai ser rápido ou se vai ser devagar". Ela observou que "as águas, de um modo ou outro, se chamam" e concluiu dizendo que "quanto mais o homem puder compreender sem interferir, mais aprenderá sobre sua própria natureza, sobre si mesmo".
Ela descreveu assim sua "intuitiva e sensibilizadora" experiência:
[...] o pigmento dourado ficava em cima, as terras desciam para o fundo, algumas se espalhavam... Foi um movimento, que num pratinho desses, nós não tínhamos domínio, imagina o mundo, que é o Planeta Água, em que a água está em quantidade muito maior do que qualquer outra coisa!
Se é de alguém esse mundo, ele é da água. Isso é muito valioso: o homem sentir sua impotência diante da natureza. Tentamos dominar a natureza para conseguir avanços tecnológicos que são muito importantes, mas também é importante perceber: Olha! a água é dona desse mundo, se é que existe um dono. É tão bonito ver isso, porque dá esperança, a consciência da impotência do homem dá uma esperança de continuar, do ser humano conseguir se reestabilizar novamente.
Para Sushma, a água representa uma polaridade: "uma grande paixão, mas um profundo medo". Durante a dissolução das tintas na água "o que vi na pintura me fez entrar em contato com a perda, a dissolução do corpo, da matéria, a idéia da impermanência que a água traz". Um pouco incomodada "por não conseguir o resultado visual esperado", ela considerou sua composição "bem harmônica e intuitiva". Por "não ter domínio da técnica, eu penso numa forma, mas não sai, sai uma outra".
Na dicotomia de sentimentos, a água fez emergir nela um "conflito entre dominar ou deixar acontecer", entre "racionalizar ou permitir que a intuição e a criatividade fluam livremente". Sua principal descoberta foi
[...] perceber a água como mediadora da relação que ocorre entre a substância terra-pigmento e a minha emoção. Sua fluidez me levou à felicidade da realização de uma forma inusitada, mas feliz, até a frustração da dissolução. Gostei do experimentar livre que expandiu a minha sensibilidade!
Em sua fala, Stefânia revelou que "a maior alegria foi mexer com esses pigmentos: achei muito interessante deixar a água fazer o caminho, pois eu tenho uma tendência à figuração". Ela referiu-se às dificuldades em obter um resultado pictórico não-figurativo satisfatório, já que a "pintura espontânea é muito mais difícil do que a gente pensa. Acho que é um caminho da alma, muito instintivo". Ao pintar sua aquarela, ela contou ter se sentido "intuitivamente num centro, num germinar, uma volta às origens" que ela não soube definir exatamente, mas que a fez experimentar uma "sensação muito positiva: vivi a fluidez da água que me acalma!"
A questão da não-figuração é relevante nesse trabalho. Sendo abstratas, as imagens não representam figuras, pessoas ou objetos. Embora "não representem nada, não se pode dizer que não signifiquem nada. Toda indicação de espaço contém para nós associações expressivas" (OSTROWER, 1983, p. 40).
As dificuldades, às quais Stefania fez menção, dizem respeito não só à execução das obras abstratas pelos artistas, mas na sua leitura e aceitação pelo público. Isso ocorre porque:
No fundo, as pessoas têm medo da sensibilidade, e também do senso de liberdade que ela proporciona. Diante de uma orientação interior a ser restabelecida cada vez de novo, e pela qual devemos aceitar a responsabilidade, a liberdade interna se afigura um tanto ameaçadora, como se fosse uma espécie de terreno baldio, escuro e intransitável. É melhor ter sinais de trânsito. (OSTROWER, 1990, p. 75)
Fayga nos lembra que a temática contemporânea, por exemplo, volta-se geralmente a questões íntimas e existenciais e à expressão dos sentimentos. É o caso de Paulo que se viu "conduzido a um estado íntimo de esvaziamento", que o ajudou a "conectar a intuição e a percepção de questões bastante universais":
O que eu achei mais fantástico foi visualizar o trabalho que a água fez: eu vi a água trabalhando o tempo todo. Então eu lembrei de muitos momentos agradáveis: nas férias, eu gostava de ficar na beira da praia olhando o vai e vem da água no pôr do sol. São muitas cores e vários canaizinhos que vão formando desenhos sempre diferentes na areia [...] sempre foi assim, eu vou para a praia e fico vendo esse trabalho do mar e da areia, descobrindo muita coisa dourada na areia.
Outra coisa que eu lembrei foi o trabalho da água, a força da água da chuva sobre a qual a gente não tem domínio: o que ela vai fazer a cada momento?
A gente só pensa na água materializada, mas 80% da atmosfera é água, estamos respirando água. A gente é quase um peixe! Nós somos água, nosso corpo é água. Esse vai-e-vem da água também acontece na atmosfera - tem nuvem arrastada, volumosa, riscada - parece que alguém deu uma pincelada no céu e arrastou o ar! O mesmo movimento que ocorre na água acontece nas nuvens! A água faz o que quer!
Figura 28 - Chuva. Paulo
Para ele, a "melhor experiência foi ver essa movimentação, a interação entre os elementos, encharcar bem o papel, ver os pigmentos correrem espontaneamente. Foi muito gostoso, é um mundo de leituras delicado, mas cheio de emoção".
Acredito que a coerência entre forma e conteúdo, alcançada por vários alunos nessa oficina, ocorreu graças a um profundo senso de concentração e envolvimento com o trabalho sensível, uma sincera busca de religação.
Roberta confessou que sentiu dificuldades em se concentrar, visto que para ela "as visualizações são muito demoradas". Mesmo assim, a vivência lhe agradou: "gosto muito de estar concretizando, experimentando. Fico pensando como levar tudo isso para a escola".
A questão levantada por Roberta é fundamental: como expandir esse trabalho em âmbito social e institucional? Expliquei ao grupo que estávamos dando corpo a uma experiência-piloto cujos objetivos não se voltavam para o indivíduo isoladamente, mas para a experimentação compartilhada de técnicas e exercícios a serem multiplicados e adaptados em diferentes meios, principalmente nas escolas, com jovens e crianças.
Abordar conteúdos de implicação social é objetivo de toda a educação, inclusive da arte-educação e principalmente da Educação Ambiental. Uma de suas linhas é utilizar a arte como meio de "clarificar os modos pelos quais o mundo social, econômico e político atua e como isso pode ser incrementado. Isso significa, naturalmente, a arte a serviço da responsabilidade social" (LANIER57 in BARBOSA, 1999, p. 44 - 45).
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Observei que o fato de a maioria do grupo ser constituída por formadores em Educação Ambiental e educadores do ensino fundamental e médio era muito significativo: não havia impedimentos para que as práticas fossem aplicadas e adaptadas com seus próprios alunos, embora alguns cuidados tivessem que ser tomados, a depender das faixas etárias envolvidas, especialmente o grau de inserção e profundidade da abordagem histórica nas práticas.
O historiador Ernest Gombrich, em entrevista a Ana Mae Barbosa (1999, p. 27 - 41), orienta que não se deve forçar a compreensão da história da arte para as crianças, mas oferecer alternativas tais como permitir uma apreciação mais livre de obras de arte relevantes, onde a criança faça suas próprias associações e descobertas.
Frisei ainda que as oficinas faziam parte de um processo de trabalho que demandaria um certo tempo para ter seus resultados sistematizados e apresentados ao público. Lembrei que, por ora, o mais importante é que a porta da dimensão poética da sustentabilidade havia sido aberta. Teríamos de dar tempo ao tempo, observar e refletir sobre a experiência e seus reflexos em nosso interior.
Pegando a questão do tempo, Roberta retomou a palavra falando de sua rotina, do ritmo acelerado em que vive: "o tempo é o que incomoda [...] penso que não mudei a minha percepção, apenas mergulhei no tema água, deixando-me levar pelas sensações".
Embora cerceada pelo tempo cronometrado, Roberta resistiu poeticamente ao imergir na experiência. Segundo Morin, os fatores que estimulam, por efeito contrário, as resistências poéticas na sociedade são
[...] a invasão do tempo cronometrado em detrimento do tempo natural, o aumento da pressão das cadeias burocráticas sobre um mundo fragmentado, compartimentado, atomizado, monetarizado e, recentemente, o desabamento das grandes esperanças poéticas de mudar de vida, seguido pela prosa do liberalismo econômico triunfante [...] (MORIN, 2002, p. 139)
"Meu vazio é sempre muito cheio", segredou Rosana. E continuou: "hoje estou muito satisfeita porque consegui vivenciar todo o processo, todas as coisas”. Para Rosana, a experiência com a água reafirmou seus sentimentos “de amor e gratidão mobilizados pela água, dentro e fora de mim".
A afirmação de Rosana indica que ela passou por um processo de interiorização, mas não no grau de profundidade zen. Nesse, o vazio é realmente vazio. Uma vida inteira de treinamento às vezes não é suficiente para alcançá-lo. Portanto, o vazio julgado por Rosana
como vazio é ainda "muito cheio", o que não a impediu de se expressar imbuída do zen, ou seja, com liberdade, clareza, economia e determinação.
Figura 29 – Díptico. Rosana
Patrícia, por sua vez, fez uma "descoberta muito interessante, que confirmou o depoimento das pessoas: a presença das polaridades do elemento água".
A água é fluidez e sensibilidade, mas ela condensa também. Ela tem a estabilidade, mas ela também desestabiliza. Se a gente coloca uma água e movimenta, a gente não sabe onde vai dar, mas se colocar a água num copo e deixar ali, ela vai ficar na forma do copo. Para mim, foi uma descoberta ver essas polaridades do elemento água. Dei-me conta de minha tendência de focar apenas um aspecto das coisas. Em