O interesse em estudar o tema das mulheres camponesas e a agroecologia constituiu-se uma oportunidade em dar continuidade a uma trajetória academia trilhada desde a graduação, como já mencionada anteriormente. O envolvimento e a proximidade enquanto pesquisadora com o campo de estudo constitui-se um desafio em manter o controle da subjetividade. Mas, a combinação de técnicas e procedimentos metodológicos foi essencial para manter o controle da subjetividade e não comprometer o estudo. O estranhamento foi uma primeira dimensão exercitada durante o mestrado. É fato que demorei em entender que o controle da subjetividade seria mais importante para as mulheres camponesas, pois o meu distanciamento, possibilitaria, além da descrição (não menos importante), uma análise da “realidade” investigada para sua compreensão. Ciente dos limites da pesquisa e de meus limites, desafiei-me ir ao encontro com desconhecidos e a construção do “objeto da pesquisa” como nos instiga Cardoso (1999), considerando que a teoria do conhecimento oferece caminhos para compreender a realidade e não a encontrar verdades, mas ir ao encontro do desconhecido, da novidade que pode estar na descoberta de alguma coisa que não foi compartilhada entre o/a pesquisador/a e os/as pesquisados/as.
A pesquisa de campo foi desenvolvida em seis tempos no Assentamento Maceió, perfazendo um total de 25 dias, de 09 fevereiro de 2011 a 11 de maio de 2013 (QUADRO 1). Para realização desta etapa foram utilizadas como técnicas a observação participante, entrevistas semi-estruturadas e conversas informais, além de uso de instrumentos como máquina fotográfica, gravador e diário de campo, como já citado anteriormente.
Ressalta-se que após a “visita de reconhecimento” construí um cronograma de atividades e um roteiro provisório constando questões sobre o que perguntar e observar nas etapas seguintes. Todavia, o roteiro foi sendo modificado a partir do diálogo com as mulheres.
Quadro 1 – Etapas da pesquisa de campo
Etapa Período Síntese das Atividades da Pesquisa de Campo
1 09 a 12 de fevereiro de 2011
Pesquisa exploratória no Assentamento Maceió, de visita de reconhecimento. Através de reunião com presidente da Associação Comunitária do Imóvel Maceió - ASCIMA e em circunstâncias informais dialoguei com militantes de movimentos sociais, como do MMTR – NE e outras lideranças do Assentamento Maceió. Nesta etapa foi apresentada a proposta da pesquisa e obtidas indicações de possíveis comunidades em que
poderia ser realizado o estudo a integrar mulheres e Agroecologia.
2 14 a 20 de julho de 2011
Pesquisa exploratória realizada na comunidade Bom Jesus. Foi apresentada à comunidade a proposta da pesquisa e foi solicitada a autorização para sua realização. Com a aceitação pela comunidade, realizei as primeiras entrevistas históricas, além de conhecer a infraestrutura e elementos da forma de organização da comunidade Bom Jesus. Participei ainda, de atividades no Assentamento Maceió, como a “I Regata Ambiental de Paquete no Maceió”, de reuniões da ASCIMA, entre outras. Considero que a busca pela compreensão do “real”, do “objeto” de pesquisa requer uma visão holística, pensar o local numa teia de relações sociais.
3 De 21 a 27 de março de 2012
Realização de entrevistas com roteiro semi-estruturado junto às mulheres assentadas, além de entrevistas históricas e a convivência com as famílias camponesas.
4 De 19 a 23 de janeiro de 2013
Realização de entrevistas com roteiro semi-estruturado junto às mulheres e homens assentados/as.
5 De 27 de fevereiro a 03 de março de 2013.
Realização de entrevistas; participação na Oficina “Mulheres e Agroecologia” promovida pelo Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais - MMTR – NE em articulação com a Organização Não Governamental Centro de Estudos e de Assessoria ao Trabalhador - CETRA. Através da observação participante, foi possível buscar elementos para compreensão de como a agroecologia está se constituindo através do diálogo entre as mulheres e os/as mediadores/as externos.
6 09 a 11 de maio de 2013.
Participação na Oficina “Gênero e Geração: produzindo Agroecologia” promovida pelo PRA/UFC. A partir dos resultados parciais da pesquisa que realizei, da caracterização e identificação de práticas sob a perspectiva da Agroecologia, o grupo de pesquisadores/as do PRA ponderou ser importante realizar uma oficina com jovens inseridos em um Projeto coordenado pelo PRA, tendo as/os camponesas/es como mediadores/as de práticas de manejo agroecológico. Este seria, também, de validação dos resultados junto à comunidade, considerada etapa desta pesquisa. Porém, a não conclusão da análise dos dados, adiou a realização desta etapa neste encontro.
O trabalho de campo foi realizado em intervalo de tempo que considero ao mesmo tempo positivo e negativo. Positivo, pois me possibilitou durante os dois anos vivenciar em tempos diferentes o cotidiano das famílias camponesas. Negativo, por não ter conseguido realizar as idas a campo numa ordem cronológica de espaços de tempos conforme idealizado para conclusão da pesquisa de campo em 2012. Outro objetivo metodológico pretendido, mas não atingido foi não ter conseguido acompanhar os momentos em que homens e mulheres participaram da Feira Agroecológica do Território de Itapipoca, apesar dos contextos não vivenciados terem sido transmitidos através dos relatos das/os camponesas/es20.
Da elaboração preliminar à versão atual dos objetivos do estudo, alterações ocorreram na medida em que os resultados da pesquisa revelaram questões ainda não pensadas ou evidenciadas, indicando assim novas investigações. Isso é possível através da convivência com as famílias, uso de técnicas como “observação participante” e conversas informais com as famílias.
Para realizar a análise, também, foram consideradas as observações de vivências em outros espaços rurais com o intuito de interlocução e diálogo com o trabalho de campo. Em contextos externos à comunidade houve a participação em eventos acadêmicos nacionais e regionais que trouxeram o debate da Agroecologia e/ou das relações de gênero; encontros promovidos por ONGs e redes sob a perspectiva da Agroecologia e sob a crítica feminista que contribuíram para reflexões deste estudo.
Nas entrevistas realizadas com roteiro semi-estruturado considerei informações como idade, estado civil, nível de escolaridade, fontes de rendas e atividades desenvolvidas; questões para caracterização dos quintais no que se refere ao tamanho, identificação de sistemas e subsistemas, práticas e manejo dos agroecossistemas, uso de sementes, produção e destino de alimentos; atividades desenvolvidas pelas mulheres na comunidade; organização produtiva e sociopolítica das mulheres entre outros. A duração das entrevistas variou de aproximadamente 40 minutos a 1h50 minutos. Ressalta-se, que algumas entrevistas foram retomadas em momentos seguintes, após a escuta das gravações das entrevistas, de forma a esclarecer dúvidas ou buscar novos elementos para o estudo.
20 O uso da categoria camponesas/es foi uma escolha da pesquisadora por compreender a existência da lógica
camponesa, mesmo que subordinada a lógica do capital. Ressalto que apesar de algumas/uns sujeitos da pesquisa identificarem enquanto camponesas/es a pesquisa não teve o propósito de problematizar as identidades assumidas pelos sujeitos.