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A partir do século XIX, os pesquisadores começaram a observar que as explicações das peculiaridades do modo de ser humano e o conhecimento do mundo humano, não poderiam ser reduzidos aos critérios e parâmetros do modelo positivista (SEVERINO, 2007). Assim, buscando preservar as características complexas e históricas do fenômeno social, as metodologias de pesquisa de abordagem qualitativa foram sendo constituídas.

Nas pesquisas de abordagem qualitativa, segundo Terence e Escrivão Filho (2006), o pesquisador procura aprofundar na compreensão dos fenômenos que estuda, sem se preocupar com a representação numérica, generalizações estatísticas e relações lineares de causa e efeito.

Um modelo de metodologia que adota a abordagem qualitativa é a pesquisa- ação, a qual além de compreender determinada situação, busca intervir a fim de modificá-la. Ou seja, a pesquisa-ação faz parte de um projeto social da resolução de problemas coletivos, sendo que, para Thiollent (2009), a pesquisa-ação:

[...] é um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo e participativo (p.16).

Na pesquisa-ação, o papel do pesquisador no equacionamento dos problemas encontrados é ativo, acompanhando e avaliando as ações desencadeadas em função dos problemas encontrados. Desse modo, segundo Thiollent (2009), durante o processo da pesquisa-ação, se faz necessária a interação entre pesquisador e participantes, os quais planejam as ações que levam à produção de conhecimento.

Nesse sentido, Thiollent (2009) ressalta a função social democrática da pesquisa-ação:

Em geral, a ideia de pesquisa-ação encontra um contexto favorável quando os pesquisadores não querem limitar suas investigações aos aspectos acadêmicos e burocráticos da maioria das pesquisas convencionais. Querem pesquisas nas quais as pessoas implicadas tenham algo a “dizer” e a “fazer”. Não se trata de simples levantamento de dados ou de relatórios a serem arquivados. Com a pesquisa-ação os pesquisadores pretendem desempenhar um papel ativo na própria realidade dos fatos observados (p.18).

Na pesquisa-ação, segundo Thiollent (2009), é preciso definir qual a ação, quais são seus agentes, quais os objetivos e obstáculos e qual a exigência de conhecimento a ser produzido em função dos problemas encontrados na ação ou entre seus atores.

Com base no exposto, constatamos que esta pesquisa é de natureza qualitativa, com elementos da pesquisa-ação, pois, segundo Thiollent (2009), procuramos proporcionar uma ação por parte das pessoas ou dos grupos implicados no problema identificado, a fim de buscar o desenvolvimento de propostas de ações que possam contribuir para melhorar a realidade e o trabalho dos professores nas escolas. Ou seja, buscamos vincular o conhecimento da realidade à prática dos professores, proporcionando sua participação como pesquisadores de sua prática cotidiana na escola (BRACHT et al., 2002). Assim, a ação aqui proposta não é trivial, trata-se de uma “ação problemática merecendo investigação para ser elaborada e conduzida” (THIOLLENT, 2009, p. 15). Desse modo, visamos contribuir para a superação das dificuldades dos professores em trabalhar com o atletismo e com as TDICs nas aulas de Educação Física Escolar.

O planejamento de uma pesquisa-ação, segundo Thiollent (2009), é muito flexível, não seguindo fases rigidamente ordenadas, devido à dinâmica interna do grupo – pesquisador e participantes, sendo que há sempre uma variação de preocupações e ações a serem adaptadas na situação investigada. Desse modo, a

pesquisa-ação segue parcialmente uma ordem sequencial: no início, a “fase exploratória” e no final, a “divulgação dos resultados”; na “fase intermediária” não são ordenados uma determinada sequência temporal, pois as tarefas intermediárias da pesquisa-ação são adequadas à multiplicidade de caminhos a serem escolhidos em função das variáveis da pesquisa (THIOLLENT 2009, p.51).

A pesquisa-ação na área educacional, segundo Thiollent (2009), contribui para a produção de informações e conhecimentos de uso mais efetivo, como também promove “a participação dos usuários do sistema escolar na busca de soluções aos seus problemas” (p.81). Em alguns casos, a aprendizagem proporcionada pelo processo de investigação é sistematicamente organizada, podendo haver, paralelamente à pesquisa, “a produção de material didático, gerada pelos participantes e para ser distribuído em escala maior” (p.83). No caso desta pesquisa, desenvolvemos um software, com a colaboração dos professores participantes, o qual será disponibilizado gratuitamente.

3.1.1 Técnicas para a coleta de dados

Para o levantamento dos dados desta pesquisa foram utilizadas diferentes técnicas. De acordo com Severino (2007), “as técnicas são procedimentos operacionais que servem de mediação prática para a realização das pesquisas” (p. 124). Assim para obtermos informações necessárias para a realização desta pesquisa, nas diferentes situações que ela aconteceu, as quais serão apresentadas posteriormente, optamos em utilizar diferentes técnicas, sendo elas: aplicação de questionários; realização de discussões durante os encontros de formação continuada; elaboração de diários de campo pelos professores participantes da pesquisa e pela pesquisadora; observação de algumas intervenções dos professores e entrevista semiestruturada com os professores participantes das duas etapas da pesquisa.

Os questionários possibilitam levantar informações escritas dos sujeitos participantes da pesquisa, ou seja, suas opiniões a respeito dos assuntos abordados na pesquisa (SEVERINO, 2007). A opção pela utilização do questionário, no primeiro encontro com os professores, para a realização do diagnóstico das dificuldades em trabalhar com o atletismo nas aulas de Educação Física Escolar e dos conteúdos que gostariam que fossem contemplados no software foi feita para

garantir a coleta de informações de todos os participantes, uma vez que motivos como a timidez em falar em público, poderiam comprometer a coleta das informações por meio das discussões do grupo. Esse levantamento foi realizado por meio da aplicação do Questionário Inicial (Apêndice II).

As discussões durante os encontros foram realizadas para favorecer a socialização e troca de experiência entre os participantes, a reflexão e o aprofundamento do conhecimento sobre a prática dos professores e sobre os temas trabalhados nos encontros. Todas as discussões que ocorreram durante os encontros foram filmadas por uma acadêmica do curso de Educação Física, monitora do projeto e, posteriormente, foram transcritas e analisadas pela pesquisadora. A escolha pela filmagem se deu pelo fato desse recurso possibilitar a identificação dos sujeitos, facilitando a organização e análise dos dados.

O diário de campo é uma forma de sistematização e registro dos dados e informações obtidas, possibilitando a análise do pesquisador (SEVERINO, 2007). Ao elaborar um diário de campo, é importante que ele contenha a parte de descrição sobre as ações e atividades desenvolvidas ou observadas e a parte de reflexão, na qual é feito o registro mais subjetivo sobre as ações observadas ou atividades desenvolvidas (BOGDAN e BIKLEN, 1994).

Nesta pesquisa, o diário de campo foi elaborado pelos professores participantes e também pela pesquisadora. Para os professores, o propósito do diário de campo foi o registro de suas ações, acontecimentos e reflexões durante suas intervenções nas escolas. A pesquisadora fez o diário de campo ao final dos encontros com os professores nas duas etapas da pesquisa e durante as observações das intervenções feitas por eles, a fim de registrar as ações, acontecimentos e reflexões.

A observação é uma técnica que permite coletar informações por meio do exame dos fenômenos que estão sendo estudados (SEVERINO, 2007). Segundo Marconi e Lakatos (1982), a observação faz com que o pesquisador se aproxime de forma mais direta da realidade, contribuindo para a obtenção e identificação de provas. Nesse sentido, optamos em realizar as observações das intervenções dos professores e realizar o registro dessas observações para complementar as informações obtidas pelo diário de campo elaborado pelos professores e das socializações das atividades desenvolvidas por eles, possibilitando uma análise mais aprofundada dos dados.

A entrevista semiestruturada deve seguir um roteiro organizado pelo pesquisador combinando perguntas fechadas e abertas, que serve de apoio para a sequência das questões que serão realizadas. Nessa modalidade de entrevista, o entrevistado tem a possibilidade de discorrer sobre o tema em questão sem se prender à indagação formulada (MINAYO, 2013). Assim, optamos por essa técnica de pesquisa, para realizar a avaliação final de todo o processo, considerando que esta possibilita uma maior interação com os professores e aprofundamento nas questões apresentadas. Para a realização das entrevistas, foram elaborados dois roteiros: um direcionado aos professores que realizaram as intervenções (Apêndice IX) e o outro direcionado aos professores que não realizaram as intervenções nas escolas (Apêndice X). As entrevistas foram filmadas pela pesquisadora, transcritas e analisadas.