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Dona Iracema, nascida na Cidade de Goiás, tem 75 anos d e idade, foi p rofesso ra e trabal hou no Arq uivo Ci vil da Fu ndação Frei Simão

Dor vi. Emb ora nã o exercendo o ofí cio de partei ra, contou-nos da experiência de sua mãe em ter tido os f ilhos com o auxílio da parteira Bina e relatou também as suas lembranças que f icaram re gist radas a partir da memória de sua família relacionadas às mulheres partei ras d a Cidade de Goya z.

Se, num p rimei ro m omento, nossas entre vistadas desc re vem as parteiras como mul heres boas, cuidadosa s e que gostam de f azer o bem, em outr o, vamo s perceb er que existiam al gumas partei ras que somente eram chamadas em últim o caso. Isso mostra que nem t odas ela s go zavam de prestí gio social, criavam-se também determinados di scursos para esti gmatizá -las.

Se gu ndo Dona Irac ema, na Cidade de Goiás semp re existiu muitas pa rteiras. Umas conhecidas e muito bem requisitadas; já outra s quase ninguém a chamava:

como exemplo Do na Cândida. Era uma parteira ne gra, bem velha que anda va p or aí. Ela chego u até vir aqui na minha casa, quando min ha tia teve Fábio. Lembro- me bem, eu j á era gr andinha, a Dona Fáti ma da f amília Soa res que recomen dou esta parteira pra minha tia. Na hora do pa rto, ela j udiou demais da minh a tia e não foi só com a tia Carm o. Lembro que na f amília de Si ron Franco, quando a m ãe dele f oi dar à lu z do p rimei ro f ilho dela, mandaram chamar a Dona Cândida e ela também j udiou dema is da mulhe r e da cr iança. Queria tirar a criança na f orça, só que ela não deu conta e a f amília vendo tamanho sof rimento mand aram chamar o Dout or Ast úlio e aí ele conseguiu tirar o menino, o menino f oi t irado a fórceps. Muita gente falava na época que Cân dida não era b oa pa ra f aze r pa rto porque muitas crianças morr iam com ela.

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Iracema enumera as parteiras que go zavam de maior p resti gi o social na Cidade de Goiás:

A Dona Bina, o nome dela era Corumbina, foi parteira da minha mãe, ela pegou o Chico meu irmão e eu. Minha mãe adora va a comadre Bina, sempre ela vinha aqui nos vi sitar. Ti nha a Do na Ruth, a Dona Genti l, da f amília Renij o Moreira. A mãe da Dona Gentil foi parteira, a avó dela foi partei ra e a filha da Dona Gentil também f oi parteira. Ela era uma das melhores aqui, tinha noite que ela atendia um, dois, três mulheres. Tin ha a Dona Benedita, ela é a parteira mais vel ha daqui hoj e, não apara mais cri ança. Tinha a comadre Din dinha, essa f oi embora daqui. Essas parteiras todas eram curiosas, aprendia m uma com as outras, e todas e ram boas parteiras, muito difícil perderem criança. Elas não tinham não e ntendiam nada de teoria, aprendia m somente na prática, as mulheres só que riam ter seus f ilhos se fossem com uma dessas parteiras.

Percebe- se, no relato de Dona Irace ma, a confiança das partu rientes nas parteiras:

Nin guém chamava m édico, até mesmo p orque às ve zes tinha somente um médico na cidade. E as mulheres não cria vam no Hospital São Pedro elas gostavam de dar à luz em casa mesmo, se sentiam melhores, porque era um momento que se reuniam vá ri os mulheres para aj udar na limpeza da casa, na lavagem de roupa e para auxiliar as partei ras caso elas precisassem. Chamar médico só quan do não tinha jeito mesmo e às vezes, mesmo assim, as parteiras que termi na vam de fazer o parto mesmo difícil, porque às vezes eles manda vam dize r que não podi am vi r ou ni n guém encontra va o médico e elas eram obri gadas a darem um j eito mesmo.

Saberes e técnicas utili zados entre as mulheres par teiras da Cidade de Go yaz e ram reconhecidos pelas parturie ntes. Dona Iracema observar que as part eiras curiosas c onhe ciam muito bem as manobras e os segredos d os part os, faziam de tudo pa ra sal var a criança e a mãe. Elas conheciam várias técnicas, tais como:

Dar banho de chá de mentrasto para acabar com a f riagem da mulher. Al gumas amar ra vam um pa no na barri ga da mulhe r para a criança não subi r, outras preferiam q ue as mu lheres ficassem a gac hadas. Minha mãe mesmo te ve assim o C hico. Da vam bebidas para acalmar as mulheres, mandavam o mari do dar volta ao redor da casa, colocavam o chapéu dele na cabeça da mulher. Para vi rar a criança, elas passavam bastante azeite na mão para colocar dent ro da mulher, para colocar a criança no luga r certo de nasc er. A parteira Gentil era mestra nisso, de vi rar a criança, e elas nasciam que era uma beleza. Eu nunca ou vi falar que ela perdeu uma criança porq ue estava f ora do lu gar. Po r o rdem da partei ra, a minha mãe ficou no quarto sete dias com i go mais a parteira poi s a c omadre Binha só me entre gou pra mamãe quando meu umbi go ficou curado. Elas cura va m o umbigo com f umo e azeite, mamãe ficou também quare nta dias sem la var a cabeça. Tudo isso era a part eira que man da va e era f eito desse j eito.

Os co nhecimentos e as técnicas das mu lheres pa rteiras era m empre gados também no au xílio a abortos. Do na Iracema conta que al gumas parteiras curi osas aj udavam as mulhe res que que riam i nterr omper a gestação.

as parteiras curiosa s aj udavam f azer o abo rto, até mesmo porque na Cidade de Goiás sempre f oi comu m

aborta r, pri ncipalme nte as m ulheres pobres, mas as mulheres r icas também pediam aj uda para as parteiras pra poderem tirar a criança. A moça fic ava grá vi da, a f amília queria evita r comentári o e aí arruma va uma parteira que f azia at é mesmo a m oça sem a permissão da família pedia a aj uda de uma parteira. E as parteiras aj uda vam, até mesmo porque c omo aj udavam a vir a vida, aj udava m a matar também, elas j á sabiam como fazer mesmo, tinham as técnicas.

Seja como f or, encontram os certas diferenças na maneira de agi r e também de pensar s ob re o par to. As par teiras di plomadas que di vidiam seus espaç os com as parteiras curiosas ut ili za vam- se do discur so médico para garantir a confiança também das partur ientes.