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Conhecida como Comadre Vasthi, nasceu em 1o de maio d e 1922, na Cidade de Goiás, é parteira di plomada pela Escola de Enfermagem Florence Ni ght gale, em Anápolis. Realizou mais de quinhent os pa rtos e foi enfermeira-chef e do Hospital São Ped ro de Alcântara, da Cidade de Goiás. Teve quat ro filh os, dos q uais o p rimeiro ela mesma realizou o parto; os demais nasceram no hospital. S ua mãe Lei dina Lucas da Sil va foi par teira também.

No relato de Do na Vasthi, podemos notar a presença do discur so mé dico q ue, ao mesmo tempo que a fo rtalecia, servia c omo instrumento pa ra desqualificar as part eiras conhecidas co mo cu riosas.

Ressalte-se que a m ãe de Dona Vasthi f oi um dos po ntos de ref erência de sua memória acerca das mulheres partei ras da Cidade de Goiás.

Mamãe era parteira curiosa, não sabia ler nem escreve r, mas mesmo assim f azia vário s part os. Uma dia, ela estava la vando ro up a lá no fundo da casa de Abizai e vie ram chamar para aparar uma criança. Eu na época nem pensa va em estudar, semp re ela q ueria que eu acompanhasse pra aj udar. Neste dia, eu f ui também com ela. Chegamos lá, a mulher te ve hemorra gia e minha mãe ficou doida, não sabia o que fazer, até mesmo po rque e ram duas crianças e a mulher sof ria de Chagas. A pri meira criança minha mãe salvou, mas a segunda criança minha mãe perdeu. Mas ela não entendia de nada coitada, nenhuma parteira cu riosa sabia f azer parto dir eito.

Quanto às técnicas usadas pelas parteiras curiosas, Don a Vasthi af irma que eram muit o p rej udiciais às partu rientes, muitas delas, inclusi ve, eram consideradas sinôn imo de suj eira.

Mamãe tinha as me smas técnicas das outras partei ras curiosas e aqui sempre existi u muitas partei ras curiosas. Lambu za va a barri ga, as partes da mulher toda de óleo, até mesmo de banha de porco quente. Quand o não tinha óleo, não usava lu va , não fazia a limpeza das mãos. Muitas ve zes elas pendura vam as mulheres em um pedaço de madeira, cura vam o u mbi go esquentando a colhe r no f ogo e colocavam no umbi go ou, às vezes, curava m com sarro e é claro que muitas vezes da va mal do umbigo, porque elas deixavam o umbi go to do suj o e olha q ue min ha mãe, mesmo assim, conse gui u f azer m ais de duzent os partos aqui na cidade. Eu bri gava muito com ela por ela fazer assim, mas nunca adiantou nada, nunca quis aprender o certo. Minha mãe ap rend eu a fazer pa rto aj udando uma parteira cu riosa tam bém chamada Dona Margari da, esta mulher era até missionária. Eu aj udava minha mãe

desde os 14 an os de idade a fazer pa rto, mas aprendi o certo só quando eu comecei a estudar em Anápolis.

Dona Vasthi, diferentemente de out ras parteiras, via nessa atividade uma f orma de se r reconhecida socialmente, mas t ambém de se r remune rada pelas suas clientes. Porém re lata que muitas veze s nada recebeu por desen vol ve r essa atividade:

Minha mãe era muito requisitada, saía a noite, saía de dia, qualquer hora que vinham chamar pra ela aparar criança ela ia. Quase sempre eu ia com el a. Quando era tarde da noite, meu pai n os acompanha va, ela quase não ganha va din heir o, era mais coisas qu e davam a ela. Eu não, depois que eu me formei, eu cobra va 250 cruzeiros na é poca, a maioria que me chamava pa gava, mas quando elas eram muito pob res e u não co brava não. Eu cob ra va porque eu sabia f aze r parto. Quando eu vim embora de Anápol is, muitas mulheres queriam ter os seus bebês co mi go porque eu sabia mais que as outras.

Ficou cla ro nos rela tos de Dona Vast hi a falta de integração das partei ras diplom adas com as curi osas. Aquelas tin ham na medicina seu modelo e seu ref lex o, o q ue servia de base para desqualif i car as o utras parteiras.

Eu conhecia a Úrsula, que era alemã, morava na colônia, é um povoado aqui que a mai oria é alemão. Ela era parteira mas não era diplomada não. Conhecia a Gentil, a Dona Rut he, que era muito f alada. Todas essas era como a m inha mãe, parteiras curiosas. Elas não gosta vam mui to de mim porque eu sabia mais que elas e conseguia gan har mais di nhe iro que elas também.

A partei ra Úrsula, a quem Dona Vast hi se ref ere, era da colônia de imi grant es alemães de Uvá, pert o de Vila Boa. Essa mesma parteira fa z-se p resente na b io grafia do Coronel Li nd olpho E miliano, como podemos conf eri r:

Nasci na Cidade de Goiás, anti ga capital do Es tado, aos dezoito dias do mê s de feverei ro de 1900, as cinco horas da manhã, na casa número 47, na rua do Comércio, mais co nhecida por rua d’ águas. Fo ram meus pais, o ouri ves Antonio Emilian o dos Passo s, e Cândida Mi lameixas Passos, doméstica, com vinte e oito anos. A pa rteir a foi a vel ha Ursula, conhecida de todos pela alcunha S á Ursula e comadre alemã.80

Tendo como base os di scursos j á apresentados, podemo s af irmar que a relação das par teiras d iplomadas com as curi osas podem se r pensadas em te rmos de uma desqualif icação, num primeiro momento, e poster ior distância das manobras populares na arte de partej ar.

Certamente, a atuação do médico transf ormará, embor a lentamente, as práticas ref erentes à medicina r ústica, pri ncipalmente na área da obstetrícia. Será, no entanto, um trabalho lent o, porque encontrará vá rios tipos de resist ência. Assim sendo, alguns aspectos per manecerão por mais tempo, tendo em vista que há condições p ropíci as para sua conser vação.81

Os pr óp rios médic os tin ham con sciência de que a práti ca médica na Cidade de Goyaz encontrou várias resistências por parte do

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feminino, sobret udo em relação à gra vi dez e ao parto. Portanto, é bom ressaltar que, no discurso mé dico, não há menção à falta de conhecimento, por parte das m ulheres parteiras curiosas relati vos às man obr as do part o. A preocupação esta va volta da mais para as questões de higienização e complicações pós-pa rto.