1. Introduction
1.3 Thesis Goals
Evidentemente, o homem quer sobreviver e viver intensamente; em outras palavras, ele quer ir além da sobrevivência. No caso da medicina, temos as doenças e as enfermidades que ameaçam a integridade do corpo e, consequentemente, a sobrevivência do homem. Para sobreviver, o homem estabeleceu como um de seus objetivos vencer a doença. E isso, esse objetivo, dá sentido à vida.
Para vencer a doença o homem utilizou a razão, usou seu intelecto para estabelecer toda uma lógica em torno da qual a doença é explicada como efeito de uma causa ou de uma somatória de causas. A busca do domínio sobre a doença levou-o à criação de uma racionalidade, a cujos olhos a doença não pôde escapar. Assim, foi construído um mundo onde há garantia da dominação da verdade sobre a doença; contudo, nele, o homem não é capaz de viver a vida com tudo o que ela pode trazer de sofrimento, de alegria e de outros sentimentos, sem necessidade de classificá-los em bem e mal, verdade e mentira.
Desse modo, o “instinto de conhecimento” nada mais é do que instinto de sobrevivência, e, por conseguinte, os discursos elaborados por esse instinto são “indiscutivelmente” moralizantes. Mesmo míopes, não nos contemos e, ainda assim sem conhecimento de causa, classificamos e dividimos as pessoas e suas ações em más e boas, nocivas e úteis.
Não sei mais se você, caro próximo e semelhante, é capaz de viver em detrimento da espécie, ou seja, de forma “irracional” e “má”; o que poderia ser nocivo à espécie já se extinguiu talvez há milênios e está entre as coisas que nem Deus pode mais conceber. Siga os seus melhores ou os seus piores desejos e, sobretudo, pereça! Em ambos os casos você provavelmente ainda é, de algum modo, fomentador e benfeitor da humanidade, e por isso tem direito a seus apologistas – mas também a seus detratores (NIETZSCHE, 2005, p. 52).
Os fundadores da moral14, que estabelecem novas metas para a
humanidade, novos rumos para os homens, novos horizontes, os anunciadores de
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A palavra moral é ambígua. Por “moral médica” trago duas compreensões. A primeira como sendo o conjunto de valores e regras de ação proposto aos indivíduos e aos grupos por intermédio de prescrições e/ou regras médicas; uma compreensão que se fundamenta no conceito geral de moral. Todavia, por “moral médica”, entendo igualmente o comportamento real dos indivíduos, doentes ou não, em relação às regras e valores que lhes são propostos pela medicina: designa-se, assim, a maneira pela qual os indivíduos doentes ou a adoecer se submetem mais ou menos completamente a um princípio de conduta, pela qual eles obedecem ou resistem a uma interdição ou a uma prescrição, pela qual eles respeitam ou negligenciam um conjunto de valores (adaptado de FOUCAULT, 2006b, p. 26).
um “novo horizonte”, eles advém desse instinto de sobrevivência. É evidente que esses profissionais da salvação, trabalhando no interesse da espécie, em prol da vida da espécie, promovem a fé na vida. “Vale a pena viver”, “proteja a sua vida”, “prolongue sua existência”, são alguns dos gritos anunciados. E este impulso à conservação está presente em todos os tipos, e com especial atenção me dirijo aos estudiosos, aos cientistas da área médica.
O aparecimento desses profissionais promoveu mudanças na sociedade, de modo que a existência humana passou a ter uma necessidade crescente e renovada de tais mestres e de seus ensinamentos de sobrevivência. As mudanças advieram e advém de alterações nos comportamentos; o estabelecimento da vitória do conhecimento sobre o que ameaça a vida da nossa espécie requer o emprego de uma artilharia específica, de um determinado regime, da adoção de uma postura.
Ora o querer em sobreviver e em viver intensamente, que leva-nos a um esforço em manter-nos ‘saudáveis’ e que aqui considero como uma ascese médica, tem dois componentes complementares: a submissão do corpo à autoridade e a realização de exercícios em conformidade com as regras predefinidas. No caso dos profissionais de saúde, esses devem se submeter à autoridade do discurso científico; autoridade confirmada pela sua publicação em revistas e/ou jornais “qualificados”. E essa submissão é verificada pelo emprego das conclusões e das recomendações desses trabalhos publicados. Todavia, os mesmos profissionais de saúde que se submetem à autoridade da literatura biomédica são igualmente autoridades em confronto com seus pacientes. Por isso que, no caso dos pacientes ou dos não-médicos, essa submissão do corpo se dá pela obediência às recomendações e às prescrições desses profissionais. Em tudo isso encontramos o disciplinamento do corpo.
A ascese médica teria, assim, a função de submeter o corpo à verdade científica, com a expectativa de que essa o corrija, o aperfeiçoe, o auxilie no combate contra o mal. É na busca de um corpo ideal que os cientistas não cessam de produzir a verdade, que as instituições estimulam continuamente a leitura e a aplicação de novos saberes.
É possível considerarmos, a partir de Nietzsche, que na ascese médica podemos encontrar dois tipos distintos de ascetas: um asceta afirmativo da vida, e um asceta negativo. Esses dois tipos caracterizam igualmente dois tipos humanos
bem distintos. O primeiro tipo humano, o adepto da ascese afirmativa, não vê no corpo a fonte de um mal, como causa do adoecer e nem do sofrimento e, por isso, não busca a verdade na perspectiva de que ela o auxilie na luta contra o corpo, como ferramenta de seu aperfeiçoamento. Emprega, sim, uma “verdade”, mas como auxiliar no fortalecimento do corpo contra forças adversas, contra aquilo que pode destruí-lo; todavia, não vê na vulnerabilidade algo do qual possa envergonhar-se.
O segundo tipo, o asceta negativo, procura um corpo ideal porque busca uma “vida ideal”, desprovida de sofrimento e de doenças. O asceta negativo busca dirigir sua vida pela “verdade” em todos os sentidos, pois não suporta a falta de sentido. Daí ter optado por viver crendo na verdade, na perspectiva de um além. Ao invés de empregar a verdade a seu favor, como um elemento com a qual possa unir- se contra a doença, o asceta negativo anula-se por inteiro, a entroniza, a cultua e dela se faz servo.
Na perspectiva nietzschiana, essa é a doença que aflige a humanidade contemporânea: a busca de um corpo ideal, livre do mal, da “capacidade” de adoecer, da vulnerabilidade. O decadente, para o filósofo, é aquele que considera o corpo e o intelecto como elementos separados. A ascese afirmativa não pressupõe a ausência de regras, só que nela não há combate contra o corpo, mas corpo e intelecto são vistos como uma coisa só e estão, ambos, engajados num disciplinamento de forças que podem proteger o corpo contra o perigo da doença.
Uma das críticas de Nietzsche à civilização de sua época foi o depreciamento do corpo em relação à alma. Não que ele admitisse a existência duma alma, mas ele combateu esse dualismo, que é platônico. A ascese, em Nietzsche, pressupõe a união do espírito ao corpo, em permanente devir. Para o asceta afirmativo o que vale a pena não é a finalidade, que a ascese negativa vai conceber como verdade, mas, sim, a vida.
Para o médico, pesquisador ou não, o que ampara sua prática é um a priori, que é a verdade, o achado, os resultados das investigações, as recomendações dos mais recentes estudos publicados. O problema é que ele crê que essa verdade é a realidade, quando, de fato, só existem aparências. Em contrapartida, na ascese afirmativa não há preocupação com essa “verdade”, mas com os equívocos de concebê-la como perspectiva única, pela qual a vida do enfermo, do paciente, do não-doente, da sociedade em geral, deve ser avaliada e medida.
O asceta afirmativo não sente a vida como peso e não se remete à transcendência. Ele sabe que não pode dispensar os exercícios, as práticas de cuidado com a saúde do corpo, mas de modo algum nega que sua perspectiva é tão somente mais uma dentre tantas outras de olhar a vida. Na ascese afirmativa não há cultivo da doença, nem negligência com as recomendações do médico; todavia, não há a busca de uma vida ideal ou de uma saúde ideal. Há, sim, luta, combate contínuo para se viver, dia-a-dia, a vida como ela é.
A filosofia de Nietzsche é a tentativa de suprimir esses dualismos: corpo e alma, sensível e inteligível, imanência e transcendência. Daí a sua crítica ao platonismo, que, segundo Nietzsche, é a negação autêntica da vida em mais alto grau. Mas o que, do platonismo, a medicina contemporânea ainda conserva? E que críticas nietzschianas feitas ao platonismo podem ser aplicáveis à medicina atual?