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RQ1: Auditory Alarm Design for the Process Industry

4. Results

4.1 RQ1: Auditory Alarm Design for the Process Industry

Se considerarmos que existem pessoas que não têm acesso à essas informações, de que existem pessoas que não têm nem sequer acesso aos profissionais de saúde, e de que existem até mesmo profissionais de saúde que não recebem informações atualizadas sobre o tratamento das doenças, sobre os aspectos farmacoterapêuticos, que não têm acesso a tecnologias para um melhor diagnóstico da doença; assim, nessas condições, como pensarmos em uma correção dos desvios, como pensarmos num alfabetismo? Ora, o não acesso à verdade médico-científica pode se constituir numa desproteção. O indivíduo que não a conhece não poderá a ela obedecer e, consequentemente, não poderá experimentar seus efeitos “protetores”, podendo assim adoecer, se prejudicar. É a ideia do risco. O risco é a possibilidade de prejuízo, e a obediência vem atrelada ao comando que, nesse caso, encontra-se revestido do conhecimento, da informação. A informação sobre aspectos sanitários tem caráter de palavra de ordem.

O risco é o conceito organizador da maioria das práticas médicas. Ele está presente em quase todas as publicações leigas e médicas. Basta pensarmos que os cadernos sobre saúde, presentes em jornais comerciais são, sem dúvida, inteiramente voltados para o risco:

...uma nova vacina contra a catapora cuja eficácia ainda não foi comprovada; uma série de erros no rastreamento de câncer de colo uterino coloca as “vidas das pacientes em risco”; o risco de transmissão de hepatite B pela transfusão de sangue; o fracasso de uma vasectomia; a preocupação de que a anestesia peridual administrada durante o parto possa causar danos aos bebês; o temor de que a encefalopatia espongiforme bovina possa ter sido transmitida para a espécie humana na forma de doença de Creutzfeld-Kakob; dúvidas sobre a eficácia de drogas prescritas para o controle da hipertensão arterial; dúvidas sobre a precisão do diagnóstico da hipertensão arterial e elagações de que ela pode subir quando esta sendo medida; afirmações de que “o atual programa governamental de triagem [de saúde] não se justifique pelos resultados”; um sorteio realizado para escolher quem receberia uma droga rara e não testada para o tratamento da esclerose múltipla; e um membro do parlamento que morreu enquanto aguardava um transplante de coração, sendo a redução do número de doadores atribuída à lei do cinto de segurança. Até mesmo as páginas de jardinagem estão combinadas por problemas de tomada de decisão frente à incerteza: combinações de solo, clima, topografia, fungicidas e inseticidas

Todos os dias somos abordados por diversas “provas” que, neste mundo, nada é certo, a não ser a morte. Em qualquer situação, nossas decisões envolvem a ponderação das possíveis recompensas de uma ação contra as consequências adversas a elas associadas, segundo os postulados da ciência. São as condutas consideradas “não esclarecidas”, ao que poderíamos denominar de condutas “médico-transgressivas” – fumar, ter relações sexuais sem proteção, ingerir alimentos gordurosos, sedentarismo etc. Tais condutas acabam provocando, da parte dos profissionais de saúde e de pesquisadores, uma inflação de enunciados explicativos, associando essas condutas a experimentações de adoecimento. Temos, aqui, um modo curioso de como a vida condiciona-se à moral. Na expectativa de atenuar o conflito, uma política de racionalização e de condução da vida é instaurada. Assistimos à instauração e ao desenvolvimento de uma concepção de que é necessário informar a sociedade para que os indivíduos mudem seus hábitos, seus comportamentos sexuais, seus modos de alimentarem-se, de viver. Trata-se de uma ideia policial, de controle social, nascida dentro de uma batalha para exercício do poder.

O objetivo, pois, do repasse de informações em saúde aos indivíduos, é fazer com que esses se tornem hábeis em gerenciarem o risco em suas vidas, no sentido de reduzirem as chances de experimentarem danos. A vida torna-se gerenciável, empresa. Desse modo, os “informados”, cada um com seu programa pessoal, aprendem a administrar a empresa da vida ao comerem, beberem, amarem, odiarem, andarem, dirigirem, investirem, jogarem, economizarem, estudarem, trabalharem, lutando por uma condição de saúde e felicidade em um mundo do qual estão convencidos de que é incerto.

Na sociedade do risco19

, é inadmissível que o perigo não seja conhecido. Verificamos que um dos objetivos daquilo que Foucault denominou de biopoder é o de fazer com que os indivíduos, a massa de modo geral, sejam atingidos pelos processos de disseminação e internalização do saber biomédico. Como disse

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Esse termo foi cunhado por Ulrich Beck em sua obra publicada em 1986, sob o nome de

Risikogesellschaft, disponibilizada em inglês com o título de Risk Society em 1992, exercendo

profundas influências sobre as discussões sobre o risco. Para Beck, “aquilo que nós chamamos de natureza há muito se integrou ao processo de industrialização e vem se transformando em riscos e perigos que são negociados no processo de socialização e se desdobram em uma dinâmica política autônoma. Esse fato eu denomino sociedade de risco ou sociedade mundial do risco” (BECK, 2003, p 24).

anteriormente, esses processos de “conscientização” sanitária dão-se entre dois distintos grupos de pessoas. Um grupo, os dos especialistas, que conhece sobre um determinado tipo de risco, e um outro grupo, os das pessoas leigas, que elabora uma avaliação prévia de suas condutas e, geralmente, é bem divergente daquela dos peritos. Assim, o risco conhecido pelos especialistas é o risco que é calculado, estatístico, e, por isso, objetivo. Por sua vez, o risco que é antecipado pelas pessoas, conhecido pela somatória de suas vivências com as informações que obtém dos especialistas, é chamado de risco percebido.

O que me parece importante salientar aqui, é o fato, indiscutível, que as pessoas veem o mundo de formas diferentes, e por isso se comportam de maneiras distintas. Em geral tendemos a nos associar com espíritos semelhantes no intuito de reforçarmos nossas perspectivas particulares sobre a realidade e sobre o risco em particular. Sob esse olhar, tanto aquele risco percebido pelas pessoas, como o risco estatístico, objetivo, são inerentemente subjetivos. Por isso, o maior problema na mensuração do risco é o fato de que as pessoas, dos modos mais diversos, modificam seus comportamentos de vigilância sobre si mesmos de acordo com a exposição que fazem ao perigo, em resposta, justamente, às percepções sobre o risco.

John Adams, em sua obra publicada no Brasil em 2009, denominada de Risco, na intenção de explicar sua construção cultural, traz um modelo que mostra o que ele chama de “circularidade das relações que frustram o desenvolvimento de medidas objetivas do risco”, ou o “Termostato” do risco (cf. Anexo 2).

Para Adams, segundo o modelo do “Termostato”, o equilíbrio é um ajuste que varia segundo os comportamentos dos indivíduos ou grupos de indivíduos. Alguns obtêm prazer vivendo sob o perigo, como aqueles que tem relações sexuais sem proteção com indivíduos portadores de doenças que podem ser transmitidas sexualmente; outros gostam de viver tranquilamente, como os pacifistas. Tanto a falibilidade humana – característica intrínseca do ser humano de cometer erros – como a sua propensão a correr riscos são, em geral, consideradas as causas que originam os acidentes. Tomo por acidentes todos os resultados das condutas humanas que resultam em danos físicos e/ou psíquicos ao homem, bem como ao meio em que esse vive. Esse raciocínio, porém, está profundamente baseado na crença de que a responsabilidade por esses infortúnios seja a natureza humana.

A princípio, admite-se de que ninguém queira um acidente; argumenta-se que, se um infortúnio acomete uma pessoa, esse é resultado primeiro do desconhecimento que esta pessoa tem sobre o perigo associado à conduta adotada, uma ignorância dos fatos, do risco objetivo. Assim, na prática, o que se pretende não é, segundo Adams, o equilíbrio entre custos e benefícios do risco, mas que o indivíduo, gerenciando sua vida reduza a frequência dos acidentes; logo, do risco.

Adams ainda menciona o Homo prudens, que é o que ele chama do homem do risco zero, “a personificação da prudência, da racionalidade e da responsabilidade” (ADAMS, 2009, p. 50). Ora, o Homo prudens seria, na perspectiva de Foucault, o homem que luta constantemente para não errar, aquele que busca internalizar os ensinamentos, as dicas, os avisos de perigo, as normas do bem viver e que, toda vez que falha, confessa sua falta. Mas como se dá essa confissão?

Na contemporaneidade, diferentemente daquilo que se verificou por dezenas de anos na sociedade ocidental, em que as faltas eram confessadas pelo exercício de uma oralidade: a do crente ao sacerdote, dos filhos aos pais, dos estudantes a seus mestres, do infrator ao juiz; o que temos é uma confissão do erro que se dá mediante os registros. É o caso, por exemplo, da fotografia do excesso de velocidade em uma auto-estrada; pela condução de um veículo sob o efeito do álcool, que é comprovado pelo uso do bafômetro; do diagnóstico de uma doença, verificada pela coleta e análise sanguínea ou por exames físicos. Observe-se com esses exemplos que todo infortúnio é seguido de um inquérito. Esta é a busca de uma garantia de que nunca mais as práticas de desobediência ocorram novamente.

Com relação às recompensas, essas vêm numa variedade de formas: saúde, elogios, sensação de poder, satisfação da curiosidade ou da experimentação dos efeitos da adrenalina. As perdas, por sua vez, variam muito mais do que as recompensas. Segundo o modelo de Adams, quanto mais riscos uma pessoa corre, maior, em média, serão as recompensas e também as perdas. Se tomarmos o caso do tabagismo, uma prática bastante estudada em todos os continentes, e os riscos a ela associados, temos desde o câncer de pulmão, que geralmente leva a óbito os fumantes, até insuficiência respiratória, disfunção erétil, mutilações de membros e uma enorme custo para o sistema público sanitário. E é justamente visando a redução dos gastos públicos com os infortúnios decorrentes das práticas de danação, que o Estado adota a estratégia de informar sobre saúde os seus

governados.

As previsões do comportamento das enfermidades e das doenças, tão privilegiadas pela medicina preventiva, é que constroem na sociedade a sua percepção de ameaça, que, por sua vez, influencia os orçamentos para as pesquisas, para a elaboração e adoção de estratégias para as mudanças dos comportamentos das pessoas, e estas, por sua vez, influenciarão umas às outras. Por isso tudo, John Adams dirá: “A incansável busca da redução do risco transformou a segurança em uma enorme indústria” (ADAMS, 2009, p. 65). Assim, enquanto não se descobre a vacina contra a AIDS, os indivíduos exigem educação para o sexo, instrução moralizante e camisinhas. Enquanto não são descobertos meios de extrair-se os genes que tornam a espécie humana susceptível a doenças como a hipertensão arterial, neoplasias e diabetes, a educação constitui-se numa espécie de vacina universal contra as mesmas.

A crença constituinte dessa indústria da segurança é a de que quanto mais bem informadas são as pessoas sobre o perigo e quanto mais hábeis elas forem em seus julgamentos – a autoperitagem sinalizada por Ortega –, menor será a exposição que farão às circunstâncias, aos fatores de risco. Só que a segurança, dirá Foucault, “a segurança é uma certa maneira de acrescentar, de fazer funcionar, além dos mecanismos propriamente de segurança, as velhas estruturas da lei e da disciplina” (FOUCAULT, 2008b, p. 14). Assim, para a indústria da segurança, o claro objetivo de reduzir os níveis diversos de ignorância ou de analfabetismo é alcançado com a disseminação do saber, com a redução do desconhecimento, ele mesmo, tão danoso ou superior à própria exposição ao perigo.

Penso que nos dias atuais a impossibilidade de acesso a verdade médico- científica pode se dar de alguns modos. Creio que uma das possibilidades para não se conhecer a verdade médico-científica é, primeiramente, a incapacidade de decifrá-la. Refiro-me à falta de habilidade em decodificar a verdade, a impossibilidade de ler seus registros, de interpretá-la. Basta pensarmos que, no Brasil, por exemplo, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira (cf. Mapa do analfabetismo no Brasil. Disponível em: <http://www.inep.gov.br>), a taxa de analfabetismo entre pessoas com idade acima de 15 anos, segundo os dados disponibilizados pelo INEP naquele período foi de 13.6, ou seja, para cada 10 brasileiros, 01 (um) não sabia ler. Em 2000, segundo

esse o mesmo órgão, cerca de 16.295 milhões de pessoas com idade acima de 15 anos tinham comprometida a capacidade de gerenciarem riscos, já que, a priori, tinham dificuldade de usar adequadamente as informações circulantes sobre doenças. As verdades podiam até está diante de seus olhos, mas não eram capazes sequer de reconhecê-las. Elas, lhes sendo inacessíveis, não podiam exercer sobre elas seus efeitos. Elas escapam da verdade. E o não estar sob seus efeitos é, na perspectiva biopolítica, estar numa situação de desproteção, de perigo.

O analfabetismo é, na medicina preventiva20

, uma condição de vulnerabilidade, de risco de adoecimento, já que a ignorância abre, para aquele que não sabe nem sequer ler, inúmeras oportunidades de experimentar a enfermidade e a doença. O analfabetismo é, ele mesmo, um desvio, uma anormalidade. Esse analfabetismo, segundo o INEP, tem a sua geografia; ele está localizado, ele tem seus susceptíveis. No Brasil ele se concentra predominantemente na Região Nordeste, com uma taxa de 24,3 percentuais; ou seja, para cada 10 brasileiros, 02 (dois) não sabem ler. E será essa localização da ignorância que justificará uma redistribuição da verdade, uma disseminação do saber, uma política de alfabetização que promova a circulação da verdade. Só que essa circulação da verdade, essa disseminação geográfica do saber, ocorre simultaneamente aos processos de ensino da leitura e da decodificação da verdade médico-científica. É o caso, por exemplo, do surgimento dos diversos Centros de Informação sobre Saúde em todo o mundo.

Sob uma perspectiva foucaultiana, sabemos que a circulação da verdade, que sua disseminação tem efeitos de subjetivação. Basta pensarmos que estas informações serão capazes de constituir uma moralidade, pois são compreendidas como portadoras de um valor, de uma norma que não pode ser contrariada, negligenciada e muita menos desobedecida. Trata-se de uma informação cujo não seguimento articula o indivíduo à doença, já que o seu não cumprimento traz para o infrator a “promessa” de padecer do infortúnio do adoecimento.

Mas essa subjetivação vai se dar na relação entre o sujeito e uma racionalidade; melhor dizendo, entre o sujeito e uma verdade; uma verdade que pode ter sido adquirida pelos processos de escuta e/ou de leitura, ou que pode ser aquela somatória de suas experimentações. Assistimos à constituição, em nossos

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Medicina preventiva é “A ciência e a arte de evitar doenças, prolongar a vida e promover a saúde física e mental e a eficiência” (BARBOSA, 1994, p. 501).

dias, do estabelecimento de uma sociedade que é alvo de um contínuo assédio de uma vontade de educar, de esclarecer, de informar, de saber, de fazer circular, de disseminar questões relacionadas à saúde, ao cuidado com o corpo, à preservação e à conservação da vida. Uma busca frenética pela longevidade, pela saúde e pela preservação do corpo. E, esse movimento não tem à sua frente médicos ou cientistas isolados.

Em 2003, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) lançou um livro intitulado: Construindo uma saúde melhor, cujo sub-título nos diz com muita precisão o objetivo: Um guia para a mudança de comportamento. De autoria do Médico David Jenkins, o livro em versão portuguesa chegou ao Brasil em 2007, e é divido em cinco partes, das quais uma em particular, a última, expressa a provocação do autor a seus leitores: “A boa saúde é alcançável e sustentável?”, mas a optar pela “verdade” é uma questão de pura escolha?

Embora o homem sinta os impulsos corporais impelindo-o por prazeres, na perspectiva platônica, considerados inferiores (os prazeres da carne), o homem tem a capacidade de escolher. Mas, seja qual for sua escolha, haverá consequências. Se optar pelo desprezo das recomendações sanitárias, correrá o risco de adoecer. Ora, foi essa associação entre doença e práticas de desobediência, entre doenças e falta de disciplina, entre doença e ignorância, que origina, entre outras coisas, os discursos médicos de proteção da sociedade. Nesse sentido, David Jenkins dirá que:

Quando o público – e os profissionais de saúde – pensam sobre as causas de morte, pensam sobre coisas como doença cardíaca, câncer, doença do fígado ou acidentes com veículos motorizados. Esses são apenas diagnósticos finais, contudo. Quais são as verdadeiras causas que levam a esses desfechos?

As dez “verdadeiras” causas principais de morte

• uso de tabaco

• nutrição inadequada ou excessiva (hábitos dietéticos)

• exercícios aeróbicos inadequados

• consumo excessivo de álcool

• falta de imunização contra agentes microbianos

• exposição a venenos e toxinas

• armas de fogo

• comportamentos sexuais arriscados

• trauma por veículo motorizado

• uso de drogas ilícitas

de comportamento e pela mudança social (JENKINS, 2007, p. 19-20).

Ou seja, a real causa de morte, para David Jenkins e para a OPAS, é o comportamento do homem. Ele, o homem, deve mudar, deve abandonar condutas e hábitos “maus” e adotar outros, se quiser viver. Daí que Jenkins dirá que a educação constituir-se-á numa espécie de “vacina universal”; ou seja, é preciso “imunizar” todos os indivíduos mediante a educação.

A educação é a “vacina universal” para o século XXI? Não totalmente, é claro, mas seu avanço disseminado na saúde têm sido suficientemente documentado em todo o mundo. Na verdade, podemos alcançar benefícios mensuráveis em saúde a médio e longo prazo ao acreditar – pelo menos parte do tempo – que a educação é a vacina universal (JENKINS, 2007, p. 108).

Ora, a vacina não exerce seus efeitos imediatamente quando administrada ao corpo humano. A vacinação consiste em expor o corpo humano a “agentes” cuja presença induzirá o corpo a produzir “defensores”, mediadores de proteção contra os agentes, caso esses entrem em contato com o corpo em um momento posterior. Isso é, grosso modo, a imunização. Quando David Jenkins disse que a educação é uma vacina, certamente está afirmando que ela tem caráter de proteger a sociedade contra a doença, que a educação tem a capacidade de tornar o corpo social imune contra a doença, no sentido de que, não havendo ignorância, as pessoas não adoecerão. Como se adoecer estivesse na dependência de não está “educado” que seria, segundo ele, não está “imunizado”.

Jenkins propôs, no Guia, diversos modos de se viver que, segundo ele, propiciam a saúde; são condições que ele denomina de salutogênicas. A expressão, que ele tomou de Aaron Antonovsky, significa “dar à luz a saúde”. E Jenkins apresenta por todo o livro diversas recomendações para que a saúde seja promovida junto aos indivíduos, aos grupos, à sociedade. A preocupação da OPAS é, definitivamente, o comportamento humano.

“A saúde”, diz Jenkins, “é a primeira e mais importante forma de riqueza”, um recurso que deve ser preservado e protegido. A saúde aparece como uma condição inestimável para o que chama de desenvolvimento econômico de uma

nação. Assim, estamos em um período histórico em que:

... a prioridade não é a realização de mais descobertas nas ciências básicas físicas e biológicas, mas sim a aplicação da psicologia e de outras ciências sociais e comportamentais na sociedade como um todo, para colocar e prática as medidas preventivas de saúde já comprovadas (JENKINS, 2007, p. 20).

Jenkins é um psiquiatra, tem suas convicções particulares sobre o tema. Não tenho capacidade alguma para lhe fazer críticas no que se refere ao papel da psiquiatria na promoção da saúde. Todavia, a concepção da saúde como um “bem” que é preciso proteger não é de sua autoria, e nem é recente. Foucault já demonstrou que foi sobre o corpo que o capitalismo, primeiramente se ocupou, visto que conceberá que sem um corpo saudável não haveria mão de obra disponível.

O controle da sociedade sobre os indivíduos não se opera simplesmente pela consciência ou pela ideologia, mas começa no corpo, com o corpo. Foi no biológico, no somático, no corporal que, antes de tudo, investiu a sociedade capitalista. O corpo é uma realidade biopolítica. A medicina é uma estratégia biopolítica (FOUCAULT, 1998, p. 80).

Nossa sociedade contemporânea admite e reconhece que o corpo é naturalmente defeituoso. Ela crê nisso. Ela é platônica. E é justamente porque