Reiko Niimi, representante do UNICEF no Brasil, perguntou: “Que escola queremos para nossos filhos?” Ele mesmo respondeu:
Queremos uma escola que lhes seja útil na construção de uma vida e de um mundo melhor que o nosso. Uma escola que proporcione a seus alunos algo que vá além daquilo que convencionamos chamar de ensino
fundamental. Uma escola que oriente as crianças no desenvolvimento das
habilidades necessárias ao exercício de uma vida saudável e sintonizada com as características mutantes do meio ambiente e do meio social (NIIMI, 2000, p. 9, grifos do autor).
A escola que fala Reiko Niimi, na apresentação do III EDUCAIDS (Encontro Nacional de Educadores na Prevenção de Aids), é também uma escola objeto-alvo das estratégias de normalização. Não diferentemente das escolas de ensino superior para a formação dos médicos, as escolas para crianças e adolescentes são igualmente permeadas de discursos que buscam incitar a adoção de medidas de proteção contra o adoecimento. Uma escola onde aquela “voz” das crianças, de que fala Niimi, pode ser tão simplesmente uma confissão, um modo de fazê-las falar o que pensam, o que sentem, o modo como experimentam sua sexualidade, um outro modo de discipliná-las e de controle.
Os discursos cujo conteúdo expressa a vontade de condução da consciência dos indivíduos. Discursos de verdades fabricados nos aparelhos pedagógicos do Estado, com função disciplinadora e reguladora. Discursos criados nas escolas médicas e escoados até os ambulatórios de consulta, onde se verifica o emprego de tecnologias cristãs-pastorais, onde a ritualização do encontro entre médico e doente faz do primeiro um técnico-pastor e, do outro, uma ovelha que necessita falar de si, escutar seu guia e seguir suas recomendações. Discursos que são fabricados sob encomenda.
sob a sua coordenação, tem definido o aconselhamento que deve ser dado na relação entre profissionais de saúde e pacientes e/ou usuários do sistema de saúde, como sendo “um processo de escuta ativa, individualizado e centrado no cliente”, que:
Pressupõe a capacidade de estabelecer uma relação de confiança entre os interlocutores, visando ao resgate dos recursos internos do cliente para que ele mesmo tenha possibilidade de reconhecer-se como sujeito de sua própria saúde e transformação (BRASIL, 1999, p. 8).
Trata-se, segundo a Coordenadoria Nacional de Saúde, de uma atividade destinada a certos grupos ou indivíduos que podem estar em situação de risco de adquirirem uma doença infecciosa, dentre os quais têm-se: homens e mulheres com múltiplos parceiros sexuais praticando sexo com penetração, sem proteção. Ora, no contexto de programas desenvolvidos que objetivam a prevenção de contágio por agentes patogênicos, por meio de relações sexuais, o aconselhamento tem por objetivos a promoção “de reflexão que possibilite a percepção dos próprios riscos e a adoção de práticas mais seguras; a adesão ao tratamento; e a comunicação e o tratamento de parceria(s) sexual(is) e de parceiros de uso de drogas injetáveis (BRASIL, 1999, p. 9).
No que se refere ao repasse de conselhos para o emprego da camisinha, o Conselho Nacional de Saúde é claro quando diz que:
A recomendação ao uso de preservativo é considerada como um dos pilares da prevenção. Esta questão, inclusive, faz parte de qualquer aconselhamento ou conteúdo informativo no que se refere às DST e AIDS. Contudo, a maneira como tem sido trabalhada a recomendação ao seu uso padece de alguns equívocos, cotidianamente reproduzidos nos serviços. O primeiro dos equívocos observados foi o de falar sobre o uso do preservativo sem uma real demonstração do uso correto. Aula teórica sobre como usar preservativo não significa, de maneira alguma, a compreensão de como usá-lo [...] Poucas foram as ocasiões que a recomendação ao uso do preservativo correspondeu a uma atitude do profissional no sentido de ouvir o que o usuário realmente pensava sobre o seu uso, quais eram seus sentimentos, valores e dificuldades. (BRASIL, 1999, p. 30).
Ora, à luz do pensamento de Michel Foucault, o aconselhamento pode constituir um modo de direcionar a conduta dos homens, e a bandeira de que esteja
centrado no paciente, reflete que a postura de escuta é similar àquela do confessionário da pastoral católica. Aqui, o paciente expõe sua opinião, sua perspectiva, seus afetos e emoções, sua compreensão sobre a doença, suas dificuldades no emprego da camisinha em suas relações sexuais, sua compreensão dos riscos, dos conteúdos informacionais sobre a melhor maneira e o melhor momento de empregá-la. Ao falar de si mesmo, ao confessar-se, ao narrar sobre si e sobre suas práticas o paciente está constituindo-se como paciente, como aquele que é conduzido. Mas também está constituindo sobre si uma espécie de orientador e guia, alguém que reclama confiança e confidência, alguém que dirá que não adoecer é possível sob a condição de que aquele que se confessa se reconheça como responsável e gestor de sua vida, de sua saúde.
Quais os pontos ou eixos sobre os quais se apoiam as práticas de aconselhamento, e que podem ser verificados nos ambulatórios médicos? Três, diria: o do poder médico, na medida em que o médico se institui como sujeito agindo sobre os outros; o eixo da verdade, na medida em que o doente é constituído em objeto de saber e; o eixo da subjetivação, já que o sujeito tem de fazer suas as normas impostas sobre ele.
Com relação ao poder médico, a questão é analisar os direitos com e pelos quais o médico exerce seu poder. Em nome de quem, para quais benefícios. No que se refere ao saber e à verdade, vemos o hospital, mas igualmente as unidades de saúde e os consultórios particulares como integrantes do sistema disciplinar médico; lugares de formação de certos tipos de discurso de verdade. São nesses espaços que tecnologias de poder, como a camisinha e medicamentos, se articulam com os jogos de verdade. São lugares onde são fabricados subjetividades, verdades e provas de verdades. São espaços onde a verdade é convocada como legitimadora de tais discursos e práticas, a propósito dos quais o poder médico organiza seu exercício. E, por fim, a obediência ao mando, ou a sujeição, em que o terapeuta que aborda o exterior do indivíduo a proteger, ao mesmo tempo recorre a procedimentos que lhe possibilitam tirar deste a interioridade da sua subjetividade, por meio de interrogatório, anamnese, exames clínicos e anatomofisiológicos, etc., colocando o sujeito em posição de ter de interiorizar as orientações e as normas que lhe são impostas.
mesmo, cujas observações que faz sobre suas próprias práticas e sobre suas relações com os demais, que deverá possibilitar a constituição do saber médico. A nova disposição tática do poder médico constitui o paciente como o mais íntimo aliado do médico, numa relação confessional, em que a prevenção é a submissão da vontade e da verdade do paciente à verdade e à vontade do médico.
No aconselhamento objetiva-se o estabelecimento de uma estreita dependência entre o médico e os doentes, que são identificados como “necessitados”. O poder médico acaba por identificar o analfabetismo sanitário e a instaurar a “alfabetização sanitária”. O aconselhamento em saúde, nesse sentido, é uma tecnologia de controle e de normalização da sociedade, um feixe disciplinar, “uma forma terminal, capilar, do poder que constitui o doente como alvo, como parceiro, como par na relação do poder médico” (FOUCAULT, 2006b, p. 70).