4 Theory
4.4 Thermal network models
4.4.5 Thermal network model structures
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada. Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos: Que não são, embora sejam. Que não falam idiomas, falam dialetos. Que não praticam religiões, praticam superstições. Que não fazem arte, fazem artesanato. Que não são seres humanos, são recursos humanos. Que não têm cultura, e sim folclore. Que não têm cara, têm braços. Que não têm nome, têm números. Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local. Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata. (Eduardo Galeano)
Que paleta me fará pintar agora o pesquisador artista e educador, o lócus da pesquisa e os critérios para a seleção dos sujeitos e seus perfis?
Sei da dimensão desta de tese, tanto pela sua abrangência no que diz respeito aos conteúdos circunscritos aos lugares da pesquisa, quanto pela área de cobertura que a mesma se propõe: o dos olhares de onde sujeitos jovens falam e veem uma escola pública municipal de Fortaleza e um CAPS AD, ambos da SER III. Veem a rua que experienciam
como não lugar? Como percebem o entre destes lugares – suas margens?
Declaro diante desta tela em branco que é a tese, como quem se mune de tintas, pincéis e uma paleta para pintar, que trago como aportes empíricos e teóricos, contribuições não só do campo acadêmico, como professor desde 1986, mas também do campo da arte.
Artista visual desde 1979, eu tenho vivido entre o trabalho com as minhas produções em suas ruas de exposições e narrações, como também tenho percorrido longo caminho de vivências artísticas nas salas de aulas de escolas de diversa natureza. Como declarado anteriormente, atuei com a filosofia clínica e a arteterapia nos serviços CAPS
AD. São desses campos de experiência que me situo como pesquisador – fazendo o artista
inquirir o educador e vice-versa. Como bem nos alude Josso (2007, p.433-434):
[...] Um outro momento muito significativo para mim, porque criador, é constituído pela ligação entre minha atividade artística e minhas atividades biográficas profissionais.[...] Assim, é preciso poder imaginar ser – e tornar-se efetivamente-, tanto único porque singular como reconhecível porque socialmente identificável. Dito de outra maneira, no exemplo dado aqui: pesquisadora e artista, mas esta pesquisadora e esta artista.
No que diz respeito à seleção dos sujeitos desta tese, o grupo inicialmente era composto por doze pessoas, sendo que o núcleo pesquisado foi constituído de dez sujeitos, de ambos os sexos, todos tendo entre vinte (20) e cinquenta (50) anos de idade, com abertura de prontuários oscilando entre 2008 e 2011, moradores da periferia de Fortaleza, de baixa condição financeira, de pouca escolaridade e quase todos sem profissão definida; apenas duas das pessoas pesquisadas têm o ensino médio completo e duas exercem uma atividade profissional concreta. Um deles é vidraceiro, o outro trabalha com pintura sobre tela. Outro entre eles vive de fazer “biscates” e “fitas”. O restante faz “bicos” para sobreviver e manter suas necessidades existenciais. Entre os sujeitos pesquisados, alguns já
tiveram envolvimento com a polícia e/ou justiça e passagem pela prisão. Outros tiveram a rua como moradia por causa de sua dependência química.
Entre o grupo de sujeitos pesquisados, que aqui chamo de grupo-sujeito da pesquisa, alguns deles já fizeram parte de grupos terapêuticos os quais eu coordenei, ministrando atividades que envolviam arte-educação e arteterapia nos serviços CAPS AD, e outros foram agregados à pesquisa pelos perfis de adequação apresentados e encaminhados por outros profissionais do mesmo serviço. A escolha dos dez sujeitos- partilhantes se deu pela adesão deles e pela frequência aos nossos encontros. Ocorrera, contudo, intermitências próprias das pessoas que fazem tratamentos de dependência química, bem como por incidentes de percursos ocorridos durante a pesquisa; entre estes incidentes de percursos constam a evasão de um sujeito-partilhante por causa de um assassinato e a de outro sujeito-partilhante pela prisão por assalto à mão armada.
Todas estas questões me foram facilitadas, de certa forma, porque a “porta já
estava entreaberta” pelo fato de eu ter trabalhado no referido serviço atuando como arte
terapeuta e filósofo clínico por um período de quatro anos. No plano acadêmico, outros fatores que dispus em favor desta pesquisa de tese foi ter livre acesso aos prontuários, que continham informações pessoais dos sujeitos selecionados - o que muito facilitou o bom desenvolvimento desta tese.
Oportunamente declaro que todos os sujeitos pesquisados, nesta tese, foram cognominados com outros nomes, para preservação de suas identidades pessoais. Com o objetivo de prestar uma pequena homenagem à arte brasileira, eu resolvi renomear os sujeitos pesquisados nesta tese com nomes de artistas do Brasil. Assim é que os sujeitos desta pesquisa passarão a ser chamados daqui em diante por: Tarsila do Amaral; Lígia Clark; Iberê Camargo; Antônio Bandeira; Raimundo Cela; Vicente Leite; Aldemir Martins;
Chico da Silva, Estrigas e Nice – sendo os sete últimos nomes de artistas cearenses.
Neste ínterim uma questão me foi decisiva: é que eu estava pesquisando apenas os sujeitos que tinham vínculos com os dois lócus da pesquisa concomitantemente, ou que por algum momento tenham tido ligação com um deles, e agora esteja tendo com o outro. Em outras palavras, eu estava pesquisando apenas os sujeitos que estiveram ou ainda estão na escola envolvida nesta pesquisa, mas que já tenham prontuários abertos no referido CAPS AD, ou os sujeitos que estão no CAPS AD, porém tinham (ou têm) matrículas na escola escolhida. Ou excepcionalmente, os sujeitos que não têm ou não tiveram matrícula na referida escola, mas que moram na regional cartografada (SER III) nesta pesquisa de tese,
e que estão em tratamento nos serviços do CAPS AD em questão. Esse foi o critério norteador na seleção dos sujeitos que fizeram parte desta pesquisa de tese.