5 Software Implementation
5.2 Data treatment application
5.2.2 Data operations classes
Produção visual da fase exploratória que possibilitou as bases estruturais do projeto de tese.
A minha inserção no campo de pesquisa se deu no ano de 2007, quando após eu ter concluído o mestrado em educação na UFC, a prefeitura municipal de Fortaleza me contratou como artista (arterapêuta e arte-educador) para trabalhar nos serviços CAPS AD
e GERAL das Secretarias Regionais (SER) III, V e VI de Fortaleza. Nasce a partir deste momento a fase exploratória do que posteriormente veio a ser o projeto de tese que transcorreu entre as linhas do meu tempo e deu vida a esta tese. Foram quatro anos trabalhando e pesquisando a temática que dar sustentação à minha tese. Durante este período supracitado eu fiz uma grande coleta de dados compreendida entre fotos, gravações em DVD, gravação em áudio e entrevistas que passaram a compor a fase exploratória desta tese.
No ano de 2010 quando eu fui selecionado para o doutorado em educação da UFC, eu pedi demissão dos serviços CAPS para dedicar-me exclusivamente à pesquisa. Como um dos lócus escolhidos para a realização da pesquisa foi o CAPS AD da SER III, eu retornei ao CAPS AD, porém, agora como pesquisador; entretanto, continuei atuando com os mesmos usuários dos serviços CAPS AD que antes faziam parte dos grupos terapêuticos os quais eu coordenava.
A escolha do campo de pesquisa e dos sujeitos não se deu por acaso, ela foi fruto de desejos e de um projeto idealizado alguns anos antes do meu ingresso no doutorado, e culminou quando sua efetivação passou a ser realidade construída na interseção feita com os sujeitos pesquisados. Sujeitos estes que “habitavam/habitam” o CAPS AD e uma escola pública municipal da SER III de Fortaleza.
Para que a pesquisa pudesse ser implementada dentro dos serviços CAPS AD, porém, em primeira instância eu tive que saber me desvencilhar das dificuldades impostas pela gestão dos serviços CAPS AD e de suas burocratizações impeditivas. Mas com jeito e paciência as coisas foram se ajustando. Neste percurso a ajuda dos sujeitos pesquisados foi fundamental, pois eles de imediato abraçaram a causa e mergulharam de cabeça na pesquisa. Isso me dava forças para continuar.
No meu primeiro contato com a gestão dos serviços CAPS AD eu fui comunicado que caso fosse possível à pesquisa ser desenvolvida lá dentro, seria bom eu saber que o serviço não dispunha de nenhum material a colocar à minha disposição, a não ser o espaço físico para que os encontros se dessem. Como o pouco para quem não tem nada já é alguma coisa, nós aceitamos de pronto, e nós - eu e os sujeitos-partilhantes- providenciamos todos os materiais que foram necessários para a realização dos trabalhos produzidos durante os nossos encontros acadêmicos e terapêuticos.
Os nossos primeiros momentos dentro da pesquisa sinalizaram que nós estávamos no caminho certo, e nós cada vez mais nos permitíamos caminhar juntos na busca de nossos ideais. De saída nós formulamos um contrato que deixava bem claro que mesmo existindo todo o processo e postura de um grupo terapêutico, de fato e de direito nós, também, estávamos fazendo parte de um grupo de pesquisa, destinado a fazer parte de uma tese de doutorado; o que para todos os sujeitos pesquisados soou como uma honra.
O passo seguinte foi traçarmos uma linha de atuação. Discutimos quais seriam as necessidades e desejos de cada um dentro do grupo, e passamos a planejar as linhas de ação. Primeiro para eles/elas tornava-se evidente a necessidade de serem tratados como pessoas que estavam naquele lugar à busca de saídas para as suas problemáticas, no que diz respeito ao uso/abuso de álcool e outras drogas.
Depois, eles/elas fizeram questão de demonstrar o quanto eram/são capazes de produzir algo de bom para si mesmo e para os outros. E estes dois pontos foram bússolas que nos guiaram até o final dos nossos encontros.
Para que os nossos encontros tivessem caráter de grupo de pesquisa, sem perder o caráter terapêutico, nós formulamos acordos que nos serviram de suportes. Um desses acordos foi que iríamos produzir imagens, objetos e textos que deveriam ter como referência a arte. E que estes produtos resultantes dos nossos processos e procedimentos deveriam ser registrados em fotografias, em filmagens, e posteriormente deveriam servir como elementos de reflexão para os depoimentos/narrativas que cada um/uma faria para servir como parte da pesquisa, que teria a duração de seis meses, podendo ser estendida há um ano. Para tal, todos concordaram e assinaram um termo de compromisso.
Assim, nós procedemos e passamos a nos encontrar uma vez por semana por duas horas a cada encontro, e desenvolvemos uma miríade de sensações e sentimentos pessoais e coletivos que tiveram a arte como mediadora. O resultado desta convivência, que durou aproximadamente um ano meio, foram centenas de desenhos, de pinturas, de mosaicos, de modelagens, de colagens, de fotografias, de gravações fílmicas, de visitas a galerias de arte e a centros culturais, e uma produção de sentido para nós sempre em aberto, como a vida o é.
Todos estes materiais foram compilados em dois DVDs que compõem um capítulo e os anexos da tese. Neles constam suas descrições e processos como guia de referência e rastros a serem seguidos de perto por quem desejar ter grau de proximidade com os processos e procedimentos realizados dentro do grupo terapêutico e de pesquisa da tese.
Esta parte da “busca investigativa” não seria completa se eu não expusesse os procedimentos da pesquisa e seus meandros, como já venho de expor os passos metodológicos dados. Deste modo, fez-se necessário perceber que o primeiro esforço para fugir da superficialidade – da obviedade do olhar acostumado - foi realizar uma ampla revisão da bibliografia, possibilitando-me, assim, a (re)organização dos conceitos chaves, na busca de trilhas que me conduziriam aos caminhos metodológicos escolhidos.
Seria preciso realizar estranhamentos, sem descartar o papel de meu envolvimento com os sujeitos da pesquisa, uma vez que isso me possibilitaria tocar de uma forma viva
um objeto de estudo – um objeto de estudo que era sujeito - vivo.
Como segundo passo, ajustando o foco do olhar, e amparado pelos suportes metodológicos elencados, eu realizei ações participativas, nas quais os sujeitos aprendentes narraram suas vidas através de atividades artísticas, tais como desenhos, pinturas, modelagens, esculturas, colagens, poesias e/ou textos, e que eu fiz registros fotográficos e fílmicos, entre olhares e percepções nos percursos vividos pelos sujeitos pesquisados, flagrando e registrando o que eles sentem, pensam, acreditam, produzem, veem e como são vistos em suas vidas pessoais e coletivas, como nos revela a fala de um dos sujeitos aprendentes pesquisados.
A respeito do que pensa, sente e acredita nos diz Iberê, um dos sujeitos- partilhantes da pesquisa:
[...] Eu podia me dar mal também, porque se eu... Porque se eu matasse aquela criatura lá, eu aí ia me dar mal na hora que... Quando eu fosse embora também, lá embaixo... É assim, né? Na hora de ver assim... Eu pequei né? Um casão grande e tal... Derramar sangue assim e tal... É cruel, né? Até que... Eu digo assim, tipo... Que eu me ferrei assim, né? Porque assim... Nesse caso, né? E também eu escapei da morte, né? O cara poderia atirar, né? Como ele atirou, poderia pegar em mim e tudo...
Também tive como instrumentos de ligações nas práticas da construção desta tese, junto aos sujeitos-partilhantes, as narrativas existentes nas exibições de filmes e as visitas às exposições de artes plásticas. Em uma delas nós fomos ao vernissage na galeria Vicente Leite que fica na faculdade 7 de Setembro. Desta experiência estética, destaco três aspectos: 1ª) O evento foi à noite e aos convidados eram servidas bebidas alcoólicas e petiscos. 2ª) Entre os artistas participantes da exposição havia um que era ex-presidiário. 3ª) Entre os sujeitos-partilhantes pesquisados que foram à exposição comigo, havia mais de um que tinha dependência química ligada ao álcool. Entretanto, correu tudo bem. É verdade que houve uma preparação para que todos nós pudéssemos ir à exposição com uma relativa tranquilidade. Digo relativa tranquilidade sem exageros, pois sempre há riscos em se tratando de pessoas que estão em recuperação de dependência química.
Em relação a estas experiências vividas nesta exposição três comentários me são valiosos, e merecem ser destacados neste contexto. Um deles foi quando uma das pessoas que participam desta tese falou logo ao chegar à galeria:
Barrinha deixa eu te falar umas coisas. Eu me sinto totalmente deslocada. Acho que eu não tô vestida da mesma forma que as outras pessoas. E mais, é como se aqui todo mundo soubesse que eu sou uma drogada... Outra coisa: como é que a gente se comporta em um lugar como esse? Assim... A gente pode também pegar as comidas que eles estão servindo prás outras pessoas normais?
Neste momento eu disse a ela que o fato dela se sentir deslocada era natural, pois a natureza dela estava processando algo novo nela. Eu disse também que ela deveria tentar tirar essas ideias da cabeça, porque o local dela ali era ela mesma quem deveria construir naquele momento. Ela me disse:
“- Eu não entendi, como assim?”
Foi então que eu lhe disse: “- Tarsila, se você está aqui hoje, vivendo este momento, é porque você de certa forma construiu esta possibilidade. Você fez por onde isso fosse possível.”
Ela pensou por um instante e falou:
Eu prossegui dizendo que em relação ao fato dela ter a sensação de que todas as pessoas presentes ali sabiam que ela usava drogas, eu lhe disse:
- “- Fica tranquila, pois quase todas estas pessoas que estão aqui também usam
drogas de alguma forma. Umas consomem álcool, outras fumam cigarro. Umas tomam comprimidos tranquilizantes para relaxar e dormir. Outras são dependentes de cafeína e passam o dia a tomar café. E uma boa parte faz uso de drogas ilícitas, tais quais: maconha e cocaína. Como você pode perceber, nós todos aqui temos muito em comum uns com os outros. Ou seja: somos todos normais. Quanto à comida, claro que você pode comer tudo que está sendo servido aqui, afinal de contas, você é uma convidada igual a qualquer outra pessoa que esteja aqui. Porém, lembre-se do que nós conversamos a respeito das bebidas alcoólicas”. Ela, então, me disse:
-“Fique tranquilo, eu sei que não devo nem chegar perto!”
Enquanto procedimentos desta tese, afirmo que nos lócus da pesquisa foram realizadas atividades e observações, seguidas de entrevistas, gravações em CD´s e em DVD´s, feitas com os sujeitos-partilhantes participantes dos grupos, que servem de referências subsidiais, na elaboração dos relatórios que fomentam as estratégias e os instrumentos na identificação das teias de complexidades que urdem as bases estruturais dessa tese de doutorado, e que certamente, possibilitam compor em linhas gerais as considerações finais da minha tese, bem como, com o corpus do trabalho de campo foi feita uma analise textual e uma seleção que possibilitou ser incluído no bojo desta tese em forma de Videonarrativas.
Por Videonarrativas deve ser entendido e aceito os registros e as análises dos percursos visuais contidos nas produções estéticas e nas escritas; os registros e interpretações das falas dos sujeitos pesquisados e de suas respectivas famílias que foram produzidos e gravados em dois momentos distintos da pesquisa: fase exploratória e fase de biografizações.
O que fora organizado como produção destes momentos – fase exploratória e
biografizações - foram transformados em um capítulo da tese, tendo, pois, suas elaborações de sentidos e suas compreensões abordadas.
Para explicitar o movimento acima descrito, devo anunciar que procedi a um
desmonte – desconstrução dos textos – e à sua unitarização, que implica dar certa inteireza
ao corpus da pesquisa. Moraes (2003) pronunciava-se a respeito da catalogação de materiais da tese, mostrando como da importância das etapas de desconstrução e unitarização contidas na organização dos textos em pesquisa:
Iniciamos nossa discussão com o primeiro elemento do ciclo de análise: a desmontagem dos textos. Ao examinar esse elemento, fazemos, em primeiro lugar, uma incursão sobre o significado da leitura e sobre os diversificados sentidos que esta permite construir a partir de um mesmo texto. Daí nos movemos para tratar do
corpus da análise textual, atingindo a partir disso, o cerne desse primeiro estágio da
análise, que é a desconstrução e unitarização do corpus. Concluímos esta discussão destacando a importância de um envolvimento e impregnação aprofundados com os materiais analisados no sentido de possibilitar a emergência de novas compreensões em relação aos fenômenos investigados.
Com o objetivo de evidenciar as falas dos sujeitos pesquisados foi incluído um
glossário que traduz as gírias, as “viagens” e os neologismos contidos nas falas dos sujeitos
pesquisados, e que foi alocado no apêndice desta tese, bem como legendas abaixo das fotos contendo as respectivas descrições, quando elas anunciam aspectos que por vezes possam não parecer textos visuais que fazem continuar ou adensar a escrita da tese, mas que de
fato são, mesmo que funcionando como “ilustrações”. Nesse sentido, julgo que de alguma
forma elas passam a pertencerem ao “dentro” do corpo do texto da tese.