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Na perspectiva dos Processos Educativos Escolares, destaco o trabalho de Borba (2008), que estudou as práticas pedagógicas que acontecem nas escolas do campo sobre a

perspectiva da educação do campo, como projeto político-pedagógico emancipatório construído no interior das lutas e da resistência dos movimentos sociais de educação do campo. Ela conclui que “há ainda muito que fazer para chegarmos a uma educação como processo de humanização dos seres humanos, a partir dos interesses e necessidades dos educandos e das educandas, na intenção de um projeto democrático aos povos do campo”.

Costa (2008), em sua dissertação sobre a emancipação como inédito-viável da educação do campo, realizou uma pesquisa cuja metodologia proposta trata de um estudo etnográfico no quotidiano de uma escola rural, cujo enfoque se volta para a compreensão, a interpretação e a narração da emancipação como inédito-viável no projeto de educação do campo. A autora preconiza, nesse trabalho, a contribuição das ideias de Paulo Freire para a emancipação de mulheres e homens do campo e observou que o MST qualifica o pensamento freireano, ao contemporaneizar a resistência da luta do oprimido nas muitas marchas que a escola promove e contribui para a resistência e a luta do movimento. Trabalhos com propostas desse tipo também foram localizados em outros programas de pós-graduação, o que tem sido significativo para repensar novas estratégias pedagógicas relativas à qualidade da educação escolar do campo.

Assim, as práticas educativas voltadas para o desenvolvimento sustentável e solidário, que se expressam nas experiências do Movimento de Economia Solidária, são espaços estratégicos de organização produtiva sob princípios da cooperação e da solidariedade entre o conjunto de trabalhadores(as). Nessa direção, destaco o trabalho de Lima (2006) sobre a solidariedade como um princípio pedagógico em um estudo de caso sobre a usina Catende/PE. A autora refere que

a solidariedade apresenta-se, como saber que recompõe a possibilidade de uma ordem social baseada no respeito às diferenças e na defesa das igualdades de direitos a partir dos princípios de reciprocidade e interdependência. E onde suas condições epistemológicas são também éticas na medida em que procuram não desarticular a cultura e a economia na construção da vida e do conhecimento.

Em outros dos catorze trabalhos do agrupamento - práticas educativas e desenvolvimento sustentável e solidário - também encontrei outras discussões, mesmo que subjacentes, como sobre a autogestão, o que enuncia outras possibilidades de organização e gestão participativa, pois as transformações, acentuadamente a partir da década de 1980, que têm delineado o mundo do trabalho, deflagrou um crescente número de pessoas expropriadas, sobretudo do emprego formal, e ativou uma onda de violência urbana e rural; promoveu a perda de direitos sociais e trabalhistas conquistados; desmontou a organização sindical que, de vanguarda das lutas da classe trabalhadora, passou a centrar sua luta na mera manutenção do

emprego. Contudo, nesse cenário excludente e de dificuldades enunciadas, outros modelos de organização socioeconômica que integram a dimensão do trabalho, numa perspectiva de produção coletiva e respeito ao ser humano, têm-se desenvolvido em várias experiências rurais e urbanas.

Essas experiências buscam devolver aos sujeitos sua dignidade, desenvolvendo um projeto de economia que propicia, nas relações sociais, uma dinâmica de colaboração solidária, que os (re)coloca como sujeitos efetivos das atividades que desenvolvem, sem que os veja como mera mercadoria, mas como seres que podem produzir, pensar e transformar sua realidade, diferentemente das relações que são praticadas pelo mercado capitalista, que se utiliza do trabalho humano e domina o lucro dessa produção em detrimento daqueles que o produziram de fato. Conforme Marx (1987, p.90), o capitalismo, em suas relações sociais, tende a transformar tudo em mercadoria, e nessa relação, inserido está o ser humano, e a “produção domina o homem, e não, o homem o processo de produção”.

Já sobre as aprendizagens nos processos organizativos e de formação política, foco de pesquisa em catorze trabalhos identificados, os trabalhos de Silva (2008), Veras (2007), Santos (2009) e Lins (2006) contemplam a centralidade discursiva acerca de conceitos como formação política, militância e práxis, que contribuem para evidenciar as estratégias de formação política e da produção de saberes dos sujeitos envolvidos nos movimentos sociais do campo, em particular, o MST.

Para Lins (ibid), a formação política que o MST realiza é resultante de seus princípios filosóficos, pedagógicos e ideológicos e se alicerça no princípio dos Conteúdos Formativos Socialmente Úteis, revelando-se, efetivamente, na prática dos seus(as) educadores(as), por meio da qual os conteúdos trabalhados na formação política relacionam-se com o princípio ideológico almejado e se tornam instrumentos para o desenvolvimento intelectual do indivíduo, porquanto o ajudam a se fazer um educador(a) dirigente9, um educador(a) da causa do povo, de sua classe e para sua classe. Nesse sentido, os conteúdos formais e não formais são elementos essenciais para o desenvolvimento e a constituição da práxis que subsidiam filosoficamente a educação do MST, o que contribui para se compreender a conjuntura em que estão inseridos.

Outro aspecto relevante desses trabalhos é sua articulação com a educação popular, como premissa educativa constituidora de um projeto emancipatório de mulheres e de homens. A emancipação é uma categoria presente nesses trabalhos e configura-se como um dos elementos fundantes da educação popular, porquanto indispensável ao pensar de uma prática educativa diferenciada, concebida como social. Nessa perspectiva, os trabalhos de Melo Neto (2004), Souza (2006a), Calado (2008), entre outros e outras, são referenciais para se

analisarem a emancipação e outros constituintes da educação popular, fundamentando as discussões acerca de suas significações e práticas.

Uma das prospecções atribuídas à emancipação é de “romper” com as amarras, seja de ordem econômica, política ou cultural, sobre as quais se encontra o ser humano. A educação, nessa perspectiva, como um pressuposto da emancipação, apresenta-se como um elemento de mudança, não que, por si só, ela seja propulsora de transformação, mas, sem ela, é pouco provável que se empreendam mudanças.

Sobre a questão de gênero relacionada aos aspectos educativos nos movimentos