A Escala de Preferência Alimentar foi utilizada para avaliar a preferência que as idosas atribuem aos alimentos na sua dieta atual, considerando que as escolhas alimentares são influenciadas por preferências, crenças e valores, refletindo o significado subjetivo, social e cultural da alimentação (SILVA; CÁRDENAS, 2007).
Após a aplicação desta escala de preferência alimentar, os itens foram categorizados a partir da Pirâmide dos Alimentos adaptada para população brasileira (PHILIPPI; 2005, 2008) (Figura 5), de forma a facilitar a interpretação e discussão dos dados obtidos (Tabela 15).
Figura 5. Pirâmide dos Alimentos adaptada para a população brasileira
Tabela 15. Fatores com respectivas categorias na Pirâmide Alimentar demonstrando a Preferência
Alimentar. Distrito Federal, 2011.
CATEGORIAS DA PIRÂMIDE ITENS DA ESCALA
Arroz, pão, massa, batata, mandioca 1, 2, 3, 4, 5, 6, 63, 64, 69, 70, 71, 78, 79, 80, 81, 82
Verduras e Legumes 42, 43, 44, 45, 46, 47, 48, 49, 50, 51, 52, 53, 54, 55, 56, 57, 58, 59, 60, 61
Frutas 17, 29, 30, 31, 32, 33, 34, 35, 36, 37, 38, 39, 40, 41 Leite, queijo, iogurte 10, 14, 15, 16, 18, 20, 21, 22, 27
Carnes e ovos 23, 24, 25, 26, 72, 73, 74, 75, 76, 77 Feijões e oleaginosas 28, 62, 65, 66, 67, 68, 83, 84, 85, 86, 87, 88 Óleos e gorduras 9, 11,
Açúcares e doces 7, 8, 12, 19, 89, 90, 91, 92, 93, 94, 95, 96, 97, 98 Não se encontra na pirâmide 13
Sabendo que a preferência alimentar foi avaliada a partir de uma escala que variou de 1 (não gosto) a 4 (gosto muito), os resultados médios de cada grupo da amostra total apresentam-se na tabela 16.
Tabela 16. Medidas descritivas dos grupos de alimentos pertencentes a escala de preferência
alimentar. Distrito Federal, 2011.
Grupos Mínimo Máximo Média DP
Legumes e Verduras 1,63 4,00 2,97 0,50 Café 1,00 4,00 2,80 1,29 Frutas 1,33 4,00 2,66 0,49 Leite 1,11 3,56 2,23 0,47 Arroz 1,41 3,59 2,21 0,40 Feijões + oleaginosas 1,20 3,60 2,17 0,56 Carnes 1,18 3,18 2,03 0,40 Óleos 1,00 4,00 1,83 0,73 Açúcares 1,00 3,25 1,83 0,56
A partir da tabela 16 é possível constatar que as idosas preferem o grupo dos legumes e verduras, das frutas e ao café, que é um alimento isolado que não se encontra incluído na pirâmide dos alimentos.
Resultados semelhantes foram encontrados por Melo et al. (no prelo) que verificaram que as idosas preferem os alimentos dos grupos dos legumes e verduras, e das frutas. Entretanto, ao avaliarem a diferença entre os sexos, os autores constataram resultados distintos, onde os homens preferiam moderamente estes grupos alimentares.
Melo et al. (no prelo) ao compararem o grupo de mulheres em função do IMC não observaram diferenças significativas quanto à preferência alimentar dos grupos dos legumes e verduras, e das frutas. Porém, ao se considerar as mulheres conforme a %GC, verificou-se diferenças significativas nestas categorias da pirâmide alimentar, onde as mulheres com níveis mais baixos de %GC (até 31%) preferiram estes alimentos, quando comparadas com as mulheres com níveis mais altos de %GC (acima de 32%)
Os alimentos pertencentes aos grupos dos legumes e verduras, e das frutas são considerados essenciais para promoção da saúde e prevenção de doenças e fazem parte das recomendações diárias para uma alimentação saudável (PHILIPPI; JAIME; FERREIRA, 2008).
A OMS (2004) através da “Estratégia Global para Alimentação Saudável, Atividade Física e Saúde” recomenda o consumo 400g/dia ou mais destes alimentos para prevenção de doenças crônicas e promoção de uma alimentação saudável. Seguindo esta recomendação, o Guia Alimentar para a População Brasileira sugere o consumo diário de três porções de frutas e três de legumes e verduras, ressaltando a importância de variar o consumo desses alimentos nas diferentes refeições ao longo da semana (Brasil, 2005).
Em relação ao café, apesar deste não fazer parte integrante de nenhum dos grupos pertencentes à pirâmide dos alimentos, sua inclusão na Escala de Preferência Alimentar foi fundamental, por representar uma bebida comumente consumida pelos brasileiros.
Uma nova perspectiva em relação ao papel do café na alimentação e saúde humana tem sido apresentada em publicações recentes, como na revisão de Dórea e Da Costa (2005), que destacam que seu consumo regular traz uma gama de efeitos positivos para a saúde em vários aspectos, como: respostas psicoativas (melhora do estado de alerta, modulação do estado de humor), desordens neurológicas (doenças de Parkinson e Alzheimer), desordens metabólicas, funções hepáticas e gonadais, benefícios estes associados a suas propriedades funcionais e nutricionais.
Quanto aos alimentos pertencentes aos grupos do arroz, leite, feijão e oleaginosas, e carnes, verificou-se que as idosas apresentaram preferência moderada aos mesmos. Resultados similares foram encontrados por Melo et al. (no
prelo), demonstrando uma semelhança entre as preferências alimentares dos idosos.
Melo et al. (no prelo) não observaram diferenças significativas quanto à preferência alimentar das categorias do arroz, leite, feijão, oleaginosas e carnes, ao compararem as mulheres em função do IMC. Porém, ao se considerar as mulheres conforme a %GC, verificou-se diferenças significativas nas categorias dos feijões e do arroz, onde as mulheres com níveis mais baixos de %GC (até 31%) preferiam mais estes alimentos, quando comparadas com as mulheres com níveis mais altos de %GC (acima de 32%).
O grupo do arroz, pão, massa, batata e mandioca encontra-se presente na base da base da pirâmide alimentar e é constituído por cereais, tubérculos e raízes, que fornecem predominantemente o nutriente carboidrato em sua composição. As atuais recomendações enfatizam a importância do papel desses alimentos e encorajam o consumo de integrais, visando garantir o aporte energético dentro dos limites recomendados para uma dieta saudável (55 a 75% do valor energético total da dieta) (EGASHIRA; MIZIARA; LEONI, 2008.).
O grupo do leite, queijo e iogurte são alimentos formados principalmente por proteínas completas, denominadas de alto valor biológico, e nutrientes essenciais como cálcio, fósforo, vitamina A, D, B2 e biotina, devendo fazer parte diariamente (três porções) de uma dieta equilibrada e saudável (DUNKER; ALVARENGA; MORIEL, 2008). De acordo com o Guia Alimentar para população Brasileira (Brasil, 2005), recomenda-se o consumo de alimentos deste grupo com baixo teor de gorduras, objetivando a prevenção de doenças crônicas não transmissíveis.
O grupo das carnes e ovos também é composto por proteínas de alto valor biológico, além de fornecerem quantidades significativas de nutrientes essenciais como vitaminas, minerais e ácidos graxos. A recomendação de consumo desse grupo é de uma a duas porções/dia, devendo-se evitar o consumo excessivo de carnes vermelhas, de embutidos e produtos com carne processada, dando-se preferência a carnes magras, aves e peixes. Em relação aos ovos, seu consumo deve ser moderado, principalmente entre indivíduos dislipidêmicos, devido à grande quantidade de colesterol encontrada na gema (COZZOLINO; COMINETTI; BORTOLI, 2008; Brasil, 2005).
O grupo dos feijões e das oleaginosas é fonte de proteínas, ácidos graxos insaturados, vitaminas e minerais antioxidantes, fitoquímicos e fibras, e atuam na
redução do risco de doenças crônicas não transmissíveis e conseqüentemente na promoção da saúde. Entretanto, no que diz respeito às oleaginosas, deve-se evitar o consumo excessivo devido ao seu alto valor energético (COZZOLINO; BORTOLI; COMINETTI, 2008).
Os resultados demonstraram que as idosas gostavam pouco dos alimentos do grupo dos óleos e açúcares. Esse resultado é benéfico, visto que os óleos e gorduras, juntamente com açúcares e doces, encontram-se no ápice da pirâmide, justamente pela recomendação de se ingerir moderadamente esses alimentos, visto que seu consumo em excesso está diretamente associado ao desenvolvimento das doenças crônicas não transmissíveis, como doenças cardiovasculares, obesidade e diabetes (SANTOS; AQUINO, 2008; PHILIPPI; SILVA; PIMENTEL, 2008; BRASIL, 2005).
Resultados diferentes do presente estudo foram encontrados por Melo et al. (no prelo) que verificaram que as mulheres apresentaram preferência moderada aos alimentos dos grupos dos óleos e açúcares, enquanto os homens não preferiam essas categorias.
Ao compararem as mulheres em função do estado nutricional avaliado pelo IMC, Melo et al. (no prelo), averiguaram diferenças significativas na categoria de óleos, sendo constatado que as mulheres que apresentavam sobrepeso preferiam os alimentos deste grupo, quando comparado com mulheres com adequado estado nutricional.
A partir da aplicação da Escala de Preferência Alimentar, foi possível observar que a maioria das idosas apresentaram atitudes positivas em relação à alimentação, sendo constatado que as preferências das idosas apresentam-se adequadas. A utilização deste instrumento torna-se relevante para os profissionais da área de nutrição por permitir identificar as preferências alimentares, de forma que estas possam ser utilizadas juntamente com os princípios da alimentação saudável na elaboração de planos alimentares individualizados, adequados ao estado nutricional e de saúde destes indivíduos, objetivando a maior aderência da dieta e satisfação do indivíduo.
Entretanto, vale ressaltar que o planejamento de uma alimentação saudável depende de mudanças na atitude e no comportamento dos indivíduos, que implicam superação, entendimento e aceitação das formas de convívio com o alimento desde a infância, sendo necessário que as mudanças de hábitos inadequados sejam
alcançadas no tempo adequado, sob orientação correta, levando-se em consideração valores culturais, sociais, afetivos/emocionais e comportamentais, que precisam ser cuidadosamente integrados às propostas de mudanças (BRASIL, 2005; PHILIPPI, 2008; FISBERG; MARCHIONI; COLUCCI, 2009; WOO, 2011)