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2. Literature Review & Hypotheses Development

2.4 Theories & Hypotheses Development

A variação linguística pode ocorrer na pronúncia, no vocabulário e na gramática. Porém, ao ser percebida como marca de uma determinada região ou de regiões diferentes, pode ser caracterizada como dialeto. Por isso, convém discorrer um pouco sobre o que rege essa modalidade responsável por caracterizar a linguagem falada em grupos definidos geograficamente, uma vez que o ALiPE procura analisar o falar pernambucano nessa perspectiva, não impossibilitando um olhar diferente sob as égides social e cultural e, futuramente, analisando a variação numa amplitude voltada para as questões diacrônicas.

1.2.4.1 Dialetos e falares: distinguindo os conceitos

O termo dialeto apareceu pela primeira vez na literatura francesa no texto Abrégé

del'art poétique de Pierre de Ronsard, escrito em 1565, conforme encontrado em Calvet

(1974, p. 40), que o caracterizou como o falar de uma região. Diz o trecho:

Tu saberás habilmente escolher e adaptar a teu trabalho as palavras mais significativas dos dialetos de nossa França, quando igualmente tu não terás nem o bom, nem o próprio para tu nação; e não necessitas te preocupar se as palavras são

Gascônicas, dos Poitevins, dos Normandos, dos Manceaux, dos Lyonenses ou de

outros países, desde que eles sejam bons e que significam propriamente o que tu queres dizer (tradução nossa).10

Trata-se, pois, de um vocábulo oriundo do latim dialéctós ou dialéctus e adaptado do grego ά τος. Enquanto o termo latino apresenta o sentido de linguagem particular de um país ou simplesmente maneira de falar, o termo grego oferece ao dialeto o sentido de conversa ou discussão.

Além da pioneira lexia francesa dialecte, Menéndez (1990) ainda faz referência a variantes usadas em outros idiomas, tais como dialecto em espanhol que surgiu primeiramente em 1611, na obra de Sebastián de Covarrubias Orozco. Há também o dialetto, que foi documentado em italiano em 1724, e a variante castelanizada dialecto usada em

10

Tu sauras dextrement choisir et approprier à ton œuvre les mots les plus significatifs des dialectes de notre France, quand mèmement tu n'en auras point de si bons ni de si propre en ta nation ; et ne te faut soucier si les vocables sont Gascons, Poitevins, Normands, Manceaux, Lyonnais ou d'autres pays, pourvu qu'ils soient bons et que proprement ils signifient ce que tu veux dire.

catalão desde o início do século XVIII. No Português Brasileiro, o termo surgiu pela primeira vez em 1920, quando foi publicada a primeira versão do Dialeto Caipira, de Amadeu Amaral. Dado o conhecimento das diferenças linguísticas na sociedade, quase todo mundo tem alguma compreensão do termo "dialeto". Contudo, o termo técnico usado em linguística é diferente de sua definição popular em alguns aspectos importantes, porém sutis. Há quem o use simplesmente como uma marca neutra de tratar qualquer variedade de uma língua que é compartilhada por um grupo de falantes.

A esse respeito, Wolfram & Schilling-Estes (2006) afirmam que:

[...] as línguas são invariavelmente manifestadas através de seus dialetos, e falar uma língua é falar de algum dialeto dessa língua. Não há dialetos inerentemente “bons” ou “ruins”; o dialeto é simplesmente como nós nos referimos a qualquer variedade da língua que tipifica um grupo de falantes de uma língua (tradução nossa).11

Os fatores sociais particulares que se correlacionam com a diversidade dialetal podem variar da geografia à noção complexa de identidade cultural. Contudo, é conveniente constatar que as variedades socialmente favorecidas constituem dialetos tanto quanto as variedades faladas por grupos socialmente desfavorecidos cujas diferenças linguísticas são perceptivelmente estigmatizadas, corroborando com Chambers & Trudgill (1998).

É, pois, Coseriu (1986, p. 27) quem insere o caráter geográfico ao conceito de dialeto:

Um dialeto é o sistema de isoglossas de uma região, delimitada em função de critérios puramente convencionais (embora objetivos), ou seja, tendo em conta apenas certos fenômenos característicos. O número de dialetos em um sistema linguístico, portanto, pode variar segundo os fenômenos e as regiões que são considerados (tradução nossa).12

A palavra dialeto está associada à ideia do conceito de falar, até pelo significado obtido em sua primeira realização na literatura francesa. A esse respeito, Coseriu (1979, p. 33) justifica que “a língua não existe senão no falar dos indivíduos, e o falar é sempre falar uma língua. Todo o modo de ser da linguagem gira necessariamente neste círculo”.

11[…]

languages are invariably manifested through their dialects, and to speak a language is to speak some dialect of that language. There are no inherently “good” or “bad” dialects; dialect is simply how we refer to any language variety that typifies a group of speakers within a language.

12 Un dialecto es el sistema de isoglosas de una región, delimitado sobre la base de criterios puramente

convencionales (aunque objetivos), es decir, teniendo en cuenta sólo ciertos fenómenos característicos. El número de los dialectos en un sistema de dialectos («lengua») puede, por tanto, variar según los fenómenos y las regiones que se consideren.

Marouzeau (1951), ao distinguir as duas perspectivas, afirma que dialeto é uma forma especial tomada por uma língua num dado domínio, ou seja, são as particularidades decorrentes de um ato de fala distinto de falas vizinhas, a despeito do parentesco que as une. O falar, por sua vez, se constitui de um conjunto de meios de expressão empregados por um grupo no interior de um domínio linguístico.

Já Lyons (1987) menciona diferenças entre sotaque dialeto e. Para ele, enquanto o primeiro prioriza as variedades de pronúncia, o segundo acrescenta distinções relativas à gramática e ao vocabulário, o que também é ressaltado em Chambers & Trudgill (1998). Isso acontece porque, na visão dos teóricos, o que é um dialeto uniforme em sua essência, tanto do ponto de vista da gramática quanto do vocabulário, pode ser associado a vários sistemas fonológicos mais ou menos diferentes.

Considerando que o Atlas Linguístico de Pernambuco permitirá identificar variantes distribuídas entre comunidades agrupadas na mesma região, optou-se, aqui, por adotar o conceito de falar.

Em Pernambuco, encontram-se catalogados vários trabalhos sobre o falar do Estado analisados sob diferentes perspectivas. A seguir estão relacionados alguns desses trabalhos seja como produtos de dissertações, teses, seja como resultados de pesquisa ou projetos ainda em andamento.

1.2.4.2 O falar pernambucano em alguns trabalhos

O pioneirismo de trabalhos descritivos do falar pernambucano ficou a cargo do professor e advogado pernambucano Mário Marroquim, nascido no município de Água Preta, mas criado em Alagoas, quando da publicação de “A Língua do Nordeste”, em 1934.

Porém, por ter afinidades com os dois estados vizinhos onde morou, o jornalista decidiu estudar apenas esses falares, unidos no mesmo perfil dialetal, já que a formação histórica e étnica dos pernambucanos e alagoanos era uniforme, tal qual parecia ser sua orientação linguística.

Além de um retrospecto histórico, encontra-se em Marroquim [1934](2008) um panorama de fatos específicos como a fonologia, as figuras de dicção, o léxico e a sintaxe na fala característica da Região Nordeste, em especial dos habitantes de Pernambuco e Alagoas.

Nada obstante, quase oitenta anos depois da publicação da primeira edição de sua obra e nenhum trabalho dialetal completo, tal afirmação sobre a dialetação, como ele mesmo

chama, parece não ser mais adequada, principalmente na perspectiva lexical, a julgar pelas pesquisas realizadas nos últimos anos, que têm mostrado variações diatópicas em Pernambuco e Alagoas não só nesse nível, mas também nos níveis fonético e morfossintático.

Após os estudos capitaneados por Marroquim, em que é abordada a linguagem dos pernambucanos, outros trabalhos foram sendo realizados, quais sejam:

a) Vocabulário Pernambucano, publicado postumamente, foi lançado por Francisco

Augusto Pereira da Costa em 1936, sendo, junto à obra de Marroquim, uma das obras

pioneiras de estudo lexical do Estado.

b) A Língua na Boca do Povo, escrita por Mário Souto Maior em 1992, apresenta expressões populares nas diversas regiões geográficas brasileiras, usando como universo, obras da literatura brasileira, dentre as quais a literatura pernambucana.

c) Fred Navarro publicou a primeira edição do Dicionário do Nordeste em 1998, a partir do qual foram retiradas expressões de letras de músicas regionais, receitas diversas e frases dos escritores do estado e se expressaram no linguajar rico de metáforas e metonímias. Como exemplo ele cita o item índio, como um tipo de papagaio ou pipa, também encontrado em Nove Novenas do escritor pernambucano Osman Lins.

d) José Brasileiro Tenório Vila Nova coordenou o Projeto NURC em Recife, dando ênfase à linguagem culta falada em Recife, já que esse projeto também visava à construção de

corpora de outras capitais do Brasil.

e) Nelly Medeiros de Carvalho, com os temas Neologismos na Linguagem Jornalística

Recifense e Léxico da Publicidade de sua dissertação e tese, defendidas em 1982 e 1993,

respectivamente, acaudilha os estudos linguísticos em nível stricto sensu no Estado.

f) Januacele Francisca da Costa, além de sua Dissertação de Mestrado, tem se dedicado a outras pesquisas sobre o Ya:thê, a Última Língua Nativa no Nordeste do Brasil, título que deu a sua Tese de Doutorado em 1999. O referido idioma indígena é falado pela tribo Fulni-ô, da cidade de Águas Belas, no Agreste do Estado.

g) Marlos de Barros Pessoa com sua Tese de Doutorado intitulada Formação de uma

Variedade Urbana e Semi-oralidade: o caso do Recife, defendida na Holanda em 1997, foi

uma das pioneiras sobre a variação da língua falada no Estado de Pernambuco.

h) Manuel Joaquim Leite Neto apresentou a primeira dissertação de que se tem notícia, abrangendo variação fonética e lexical. Defendida em 2001 com o tema A Fala do Sertanejo

de Cedro, o autor analisou a linguagem espontânea do município interiorano à luz de

i) Sandra Siqueira de Macedo concluiu seu Mestrado em 2004 com a dissertação intitulada A palatalização do /s/ em coda silábica no falar culto recifense, na qual ela analisou fatores linguísticos e extralinguísticos como influenciadores do fenômeno.

j) Usufruindo de uma interface entre a linguística e a literatura, Maria de Fátima

Oliveira concluiu seu Mestrado na UFPB, com a dissertação Um Olhar Léxico-Semântico sobre o Vocabulário Regional em Agruras da δata d’água de Jessier Quirino. Esse escritor

pernambucano apresentou na obra retratada na dissertação uma quantidade expressiva de regionalismos e neologismos, refletindo a linguagem cotidiana do Nordeste, com termos e expressões populares, observados na linguagem coloquial típica do sertão nordestino, como também, os valores culturais e socais.

k) Edmilson José de Sá fez investigação que resultou em sua Dissertação de Mestrado apresentada em 2007 à UFPE, com o título Variação do /l/ em coda silábica na fala de

Arcoverde. O corpus da pesquisa foi constituído de dados coletados nas zonas urbana e rural e

a análise foi realizada nas perspectivas sociolinguística e fonológica, através da Teoria da Otimalidade.

l) Solange Carlos de Carvalho, em sua Dissertação de Mestrado Estudo Variável do

Apagamento dos Ditongos Decrescentes Orais na Fala do Recife, defendida também em

2007, analisou o posicionamento dos glides /w/ e /j/ diante das vogais /a/, /e/ e /o/ .

m) Gustavo Siqueira de Amorim realizou, em 2009, outra pesquisa de cunho fonético em Pernambuco. Sua Dissertação de Mestrado teve o título de O comportamento do /e/ e do

/o/ pretônicos: um estudo variacionista da lingua falada culta do Recife .

n) Edigar dos Santos Carvalho realizou, em 2010, uma Descrição Segmental do

Português Falado pelos Índios Xukuru, em Pesqueira como Dissertação de Mestrado. O

estudo apresentado centrou-se na descrição da fonologia segmental do português falado pelos integrantes das tribos indígenas Xukuru, residentes nas regiões do Agreste, Ribeira e Serra, cujas áreas, situadas na zona rural de Pesqueira, pertencem a essas tribos.

o) Eraldo da Silva Neto concluiu seu Mestrado também em 2010, com a Dissertação

Uma Descrição das Proparoxítonas na Variedade Não-Padrão de Jaboatão-PE. O trabalho

dele já se tornou tema de comparação de outras pesquisas, já que a redução ou manutenção das proparoxítonas tem sido tema de preocupação de muitos estudiosos da linha descritiva do português.

p) Odailta Alves da Silva defendeu sua Dissertação de Mestrado com o título A

concluí-la em 2010, a autora selecionou 29 poemas dos três livros do escritor pernambucano, a partir dos quais foram encontrados sessenta vocábulos de origem africana e também alguns fenômenos linguísticos da oralidade e do português popular atribuídos à influência africana, como o apagamento do /r/ no final das palavras e a falta de concordância nominal, no português não-padrão.

q) Recentemente, em junho de 2013, foi defendida uma dissertação sob o título O falar

do Vaqueiro de Garanhuns: uma análise sócio e etnolinguística de autoria de Helenita

Bezerra de Carvalho Tavares. Em seu trabalho orientado pela professora Socorro Aragão, na UFPB, a autora elaborou um glossário com 270 verbetes, contemplando palavras e expressões presentes na fala do profissional do gado.

Vale a pena destacar as pesquisas dos professores Adeilson Sedrins, Marcelo Sibaldo,

Cleber Ataíde, Emanuel Cordeiro e Rafael Bezerra e Renata Lívia da UFRPE junto a seus

alunos bolsistas, que têm desenvolvido, desde 2010, trabalhos relacionados à morfossintaxe

do Português falado no Sertão Pernambucano, a partir de perspectivas distintas, quais sejam:

a diacrônica, a funcionalista e a sociolinguística.

Ainda sobre a morfossintaxe, consta o trabalho Pernãobuco: a variação dos

marcadores de negação em Pernambuco de Thiara de Deus e Marcela Paim (UFBA), usando

o corpus coletado em Pernambuco para o Atlas Linguístico do Brasil (ALiB) e objetivou analisar variações em relação ao uso dos operadores de negação referentes a estruturas sentenciais.

No Sertão do Estado, Rebeca Lins Simões de Oliveira fez uma pesquisa sobre a neologia dialetal, publicada no livro Criação Neológica: Teoria de Prática, sob a organização da professora Nelly Carvalho, com o objetivo de analisar as motivações significativas de termos e expressões regionais e populares encontrados no município de Belém de São

Francisco. Para esse fim, a autora realizou uma diagnose centralizada em campos semânticos

referentes ao homem e à terra, bem como ao local em que vive.

Quanto a estudos dialetais metodologicamente guiados pela Geolinguística, ainda não há muito em Pernambuco, a despeito de pesquisas já realizadas no Estado para o (ALiB) e de dois trabalhos de pequeno domínio.

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DIALETOLOGIA E GEOGRAFIA