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Desde meados do século XIX quando começaram a ser elaborados os primeiros documentos dialetais agregando a Linguística à Geografia, que se começou a usar a expressão ‘atlas linguístico’.

Brandão (1991, p. 25) conceitua, a seguir, o atlas linguístico a partir do seu produto:

É um conjunto de mapas em que se registram os traços fonéticos, lexicais e/ou morfossintáticos característicos de uma língua num determinado âmbito geográfico. Em outras palavras, é um repositório de diferentes realizações que constituem as diversas normas que coexistem num sistema linguístico e que configuram seus dialetos e/ou falares.

Na visão de Pop (1950), as cartas linguísticas elaboradas para os atlas ratificam a interpretação dada a fenômenos e possibilita o estudioso a continuar a investigação, no intuito de justificar o porquê do surgimento de um dado traço dialetal.

Em suas palavras, ele afirma que:

[...]só as cartas linguísticas podem mostrar apenas a complexidade dos fatos da linguagem livre de qualquer convenção e a última fase do desenvolvimento dos dialetos locais de muitos séculos. Escritos de acordo com um plano amadurecido por um método livre de quaisquer preconceitos, só eles podem mostrar, em qualquer língua o destino das palavras e sua história, sua "luta" contra as palavras com uma constituicao sonora quase idêntica, as influências que sofreram sob a ação de centros culturais, econômicos e sociais, o modo como as palavras estão se adaptando às mudanças impostas pelo progresso da civilização moderna, assim como os dialetos que ainda mantêm as velhas palavras, testemunhas do passado. (tradução nossa) (POP, op cit. p. X)22

A despeito dos resultados já conhecidos de atlas linguísticos concluídos, a metodologia para a elaboração até a culminância com o produto final passa por etapas, necessitando ser, cada uma, executada seriamente pelo pesquisador.

22

[...]seules les cartes linguistiques peuvent montrer la complexité des faits du langage libre de toute convention, ainsi que la dernière phase du développement plusieurs fois séculaire des parlers locaux. Rédigées d'après un plan mûri et d'après une méthode exempte de toute idée préconçue, elles seules peuvent illustrer, pour n'importe quelle langue, le sort des mots et leur histoire, leurs « luttes » contre les vocables ayant un corps phonique presque identique, les influences qu'ils ont subies sous l'action des centres culturels, économiques et sociaux, la manière dont les vocables s'adaptent aux changements que leur impose le progrès de la civilisation contemporaine, ainsi que la façon dont les parlers locaux conservent encore des anciens termes, témoins du passé.

Por isso, convém que seja feita, a seguir, uma reflexão sobre a metodologia necessária para a elaboração dos atlas com exatidão, incluindo, também, a tipologia dos atlas, conforme sugestões encontradas na literatura específica.

2.2.1.1 Aspectos Metodológicos

A realização de um trabalho dialetal segue uma metodologia própria, de modo a propiciar melhor rentabilidade da investigação e dos resultados almejados. Para Ferreira & Cardoso (1994), é necessário levar em consideração quatro etapas:

a) Preparação da pesquisa b) Execução dos inquéritos

c) Exegese e análise dos materiais recolhidos d) Divulgação dos resultados obtidos

A preparação da pesquisa se inicia com a definição do campo linguístico a ser investigado, ou seja, dos pontos de inquérito. Essa escolha é realizada a partir do levantamento de informações de cunho geográfico, histórico, assim como as interferências de que foi objeto e sua situação econômica. Tais dados, portanto, são responsáveis por delimitar uma área em detrimento de outra.

Para apurar as informações sobre os pontos de inquérito, usa-se uma ficha de

localidade, já idealizada por Nascentes (1958) e, com algumas alterações, chegou-se ao

modelo encontrado em Cardoso (2010, p. 105), recomendado para a coleta de dados do Atlas Linguístico do Brasil (ALiB) e para outras pesquisas dialetais. Essa ficha contém dados toponímicos da localidade pesquisada, do modo de falar de seus habitantes, além da descrição de aspectos demográficos, econômicos e infraestruturais.

Após ter escolhido os pontos de inquérito, procede-se à procura do informante ideal e, para tanto, também há alguns critérios quais sejam: a naturalidade, o grau de escolaridade, a tipificação etária, a profissão e a verificação de alguns aspectos de ordem patológica. É necessário, além disso, levar em conta alguns critérios pertencentes aos pais do informante e dos cônjuges, para que se percebam as influências por eles exercidas. Tais dados são documentados numa ficha do informante, igualmente inspirada em Nascentes (op cit) e aperfeiçoada para o ALiB.

Essa ficha auxilia na catalogação dos dados pessoais do informante, seu contato com os meios de comunicação e com o lazer. Além disso, há uma seção a ser preenchida após a

realização do inquérito, em que são mencionadas informações de natureza psicológica do informante durante a pesquisa.

Tendo o informante ideal sido selecionado, inicia-se o inquérito. Nele são aplicados questionários de acordo com as prioridades ambicionadas. Atualmente, usa-se o método do ALiB, para a elaboração do qual foram construídos questionários de várias vertentes.

No projeto ALiB, averíguam-se aspectos fonético-fonológicos por meio de um questionário com 159 perguntas. O léxico é verificado a partir de 202 questões distribuídas em 14 campos semânticos: acidentes geográficos, fenômenos atmosféricos, astros e tempo, atividades agropastoris, fauna, corpo humano, ciclos da vida, convívio e comportamento social, religião e crenças, jogos e diversões infantis, habitação, alimentação e cozinha, vestuário e acessórios, vida urbana.

Do ponto de vista da morfossintaxe, são aplicadas quarenta e nove questões que visam a apurar aspectos relacionados à concordância e outros casos de morfologia e sintaxe. Ainda se acrescentam questões pragmáticas, metalinguísticas, além de indagações de nível semi- dirigido e um texto para leitura, responsáveis por confirmar realizações previamente mencionadas pelo informante, mas que se encontram num momento em que ele já se encontra mais familiarizado com o inquérito.

Após a conclusão da pesquisa, procede-se à transcrição das respostas, de modo a facilitar a seleção dos traços linguísticos mais relevantes nos níveis fonético-fonológico, semântico-lexical e morfossintático. Em seguida, são construídas as cartas linguísticas, a partir das quais as realizações mais abrangentes são distribuídas diatopicamente.

2.2.1.2 Tipologia

Desde que os atlas linguísticos passaram a servir de base para documentação dialetal, muito se modificou no tocante à metodologia de pesquisa e do tratamento cartográfico. Assim, Cardoso (2010) classifica os atlas de acordo com o espaço geográfico, a natureza e a cartografia dos dados.

Do ponto de vista geográfico, Cardoso (op cit) também menciona uma classificação para os atlas linguísticos como nacionais, regionais, de grupo linguístico e de natureza

continental.

Os atlas nacionais são aqueles em que se representam as características linguísticas de uma nação ou território linguístico, de forma ampla e contemplando sua unidade política, a

exemplo do Atlas Linguístico da França (ALF), já concluído, e o Atlas Linguístico do Brasil

(ALiB), em que se está investigando toda a sua extensão territorial. Já os atlas regionais são

construídos a partir da investigação fragmentada, calcada pela “necessidade de aprofundar o conhecimento de uma região, propiciada pelos atlas nacionais”(CARDOSO, 2010, p. 68), como é o caso do Atlas Linguístico-Etnográfico da Região Sul (ALERS).

Considerando as observações quanto à metodologia da pesquisa geolinguística, além dos atlas nacionais e regionais, é possível construir atlas de natureza estadual, como Rossi, Isensee & Ferreira (1963) iniciaram na Bahia e se chega ao décimo-quarto do gênero produzido com o falar de Pernambuco.

Quanto aos atlas de grupo linguístico, são descritas as famílias de línguas, delimitando os seus espaços políticos, buscando esquematizar o perfil espacial do domínio da família que envolve territórios separados politicamente, identificando os seus limites convenientes. Isso ocorre com o Atlas Linguistique Roman (ALiR), segundo o qual são analisados os caminhos das línguas românicas.

O Atlas δinguistique de l’Europe (ALE) é exemplo de um atlas continental, iniciado

nos primórdios dos anos setenta. Contudo, segundo Alinei et al.(1972), a ideia não era tão recente, pois, desde 1929, já se pensava em organizá-lo. Tempos mais tarde, em 1936, Jakobson almejava realizar o mapeamento europeu em termos fonológicos e deixou claro seu intuito num Congresso Internacional de Linguistas de Copenhague, naquele ano. Em suas palavras:

Uma vez que as isófonas, por cruzarem os limites das línguas, são casos quase sempre frequentes na Geografia Linguística, e a tipologia fonológica das línguas não é visivelmente desconectada de sua distribuição no espaço, seria importante para a linguística (tanto diacrônica quanto sincrônica) implantar uma atividade coletiva e construir um atlas de isolinhas fonológicas de qualquer língua do mundo ou, pelo menos, de continentes inteiros. (tradução nossa) (JAKOBSON, 1971, p. 245)23

Além de sua caracterização espacial, os atlas linguísticos podem ser classificados de acordo com a maneira como os dados são inseridos e tal classificação se baseia na geração a

23

Étant donné que les isophones franchissant les limites des langues sont des cas fréquents, presque habituels, semble-t-il, en géographie linguistique, et que visiblement la typologie phonologique des langues n'est pas sans rapport avec leur répartition dans l'espace, il serait important pour la linguistique (tant historique que synchronique) de déployer une activité collective et de dresser un atlas isolignes phonologiques du monde linguistique tout entier ou du moins de continents entiers.

que pertencem. A seguir, portanto, é possível compreender a distinção dessa tipologia, ilustrando cada item adequadamente.

Os da primeira geração são assim chamados por contarem apenas com a apresentação cartográfica de dados, a exemplo do Atlas Linguístico da Paraíba (ALPB). A carta 30 a seguir ilustra o tipo do atlas.

Figura 4: Exemplo de carta de um atlas de primeira geração (ARAGÃO & MENEZES, 1984)

Os atlas de segunda geração, por sua vez, possuem, junto às cartas, a interpretação dos fatos considerados sob a égide de comentários inseridos após essas cartas ou na forma de estudos vinculados a elas. Isso ocorre no Atlas Linguistique Roman e no Atlas Linguarum

Figura 5: Exemplo de carta de um atlas de segunda geração encontrado em Cardoso (2010)

Já os atlas da terceira geração permitem ao elaborador inserir dados “vivos” (CARDOSO, 2010, p. 78), ou seja, a possibilidade de se ouvir as realizações linguísticas tal como ocorreram nos inquéritos. São, portanto, os atlas parlants, que permitem a interação falante-ouvinte, como ocorre com o Atlas Linguístico Sonoro do Pará, exemplificado na figura 6:

Os atlas linguísticos também são diversificados em relação à forma como seus dados são cartografados. Comparando as cartas do Atlas Linguístico-Etnográfico Del Sur de Chile e

do Atlas Linguístico de Sergipe II, percebe-se a evolução em sua constituição, como as

figuras 7 e 8 ilustram:

Figura 7: Carta do Atlas Linguístico-Etnográfico Del Sur de Chile (ARAYA, 1973)

Conforme as figuras 7 e 8, enquanto a primeira carta se caracteriza apenas pela visão diatópica dos dados, a segunda possui informações complementares, visando a uma melhor interpretação das realizações inseridas, como Cardoso (2010, p. 83) sugere:

a) O conhecimento de aspectos etnolinguísticos;

b) A possibilidade de consideração de aspectos sociolinguísticos; c) A identificação de características morfossintáticas;

d) A inserção de aspectos semântico-estilísticos.

No âmbito de sua manifestação linguística, as cartas passaram a ser divididas em

fonéticas, que consideram as realizações sonoras de determinado segmento; lexicais, que

visam estabelecer ligações vocabulares entre os falantes das comunidades inquiridas, e as consideradas propriamente linguísticas, por se valerem de expressões comprovadas em cada ponto investigado dentro dos limites fonéticos e morfológicos.

Já do ponto de vista da apresentação, as cartas podem ser sintéticas, que instituem os limites das áreas correspondentes às formas peculiares e as pontuais, que armazenam integramente as formas comprovadas em cada ponto de inquérito.