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“O ponto de partida desta reflexão era, as mais das vezes, um sentimento de impaciência frente ao "natural" com que a imprensa, a arte, o senso comum, mascaram continuamente uma realidade que, pelo fato de ser aquela em que vivemos, não deixa de ser por isso perfeitamente histórica: resumindo, sofria por ver a todo o momento confundidos, nos relatos da nossa atualidade, natureza e história, e queria recuperar na exposição decorativa do-que-é-óbvio, o abuso ideológico que, na minha opinião, nele se dissimula.

A noção de mito pareceu-me desde logo designar estas falsas evidências; entendia então essa palavra no seu sentido tradicional. Mas já desenvolvera a convicção de que tentei em seguida extrair todas as consequências: o mito é uma linguagem.”. p. 7 (BARTHES, 2001).

Roland Barthes estudou dois fenômenos da interação entre poder, discurso e representação no estruturalismo: o Mito e a Conotação. Nos finais do século XX, Saussure havia já percebido a arbitrariedade do signo linguístico e seu caráter de consenso social, Greimas havia criado técnicas para revelar as narrativas que moravam nos níveis profundos de todo texto, e Hjelmslev advogava por uma semiologia da conotação para explorar estes níveis profundos (NÖTH, 1995; 1996). Neste contexto, Barthes fez as suas pesquisas semiológicas e

concluiu que todo objeto podia passar de uma existência silenciosa a um estado aberto de apropriação social, enquanto pudesse ser falado. Como todo o falado inclui uma narrativa conotada, qualquer objeto expressado pela língua poderia ser ponderado por um discurso e, assim, virar mito.

Barthes (BARTHES, 2001) definiu o Mito como o resultado de um processo dinâmico de reciclagem de uma fala sensorial que podia ser lida através de canais perceptivos múltiplos. O Mito é um sistema duplo que, em relação a seu significado (sua forma ou objeto linguístico), inclui uma segunda fala urdida de conceitos e associações que ele chamou respectivamente de metalinguagem e metassignificado. A correlação entre estes dois níveis designa, notifica, explica e impõe um sentido conotado. O metassignificado é uma realidade sensorial completa, rica, suficiente e de valor próprio; define um saber, uma memória, um sistema de valores, umas categorias e inclusive uma literatura. Estabelece uma corrente de causas e efeitos, de motivações e de intenções. O Mito é vívido e espontâneo, inocente e indiscutível, contudo, afastado demais para ser testado pelos fatos. Os mitos são de ordem pessoal e oferecem vias de identificação para os indivíduos e de identidade para as sociedades.

Os “Produtores de Mitos”, segundo Barthes, permanentemente fornecem neologismos para criar jargões especiais, particulares e misteriosos. Socialmente, o mito se valida na iteração: a repetição infinita dos “fatos”, sempre aumentados, pelas inúmeras pessoas que se afirmam testemunhas da sua veracidade, e que colocam por evidência o que “todos sabem” e “todos aceitam”. O mito é uma constatação constatada em si mesma. Suas motivações se expressam por meio de símbolos e ícones não arbitrários, entrelaçados entre analogias e fábulas. A linguagem mítica perde sua arbitrariedade com a reiteração, e se naturaliza como uma versão objetiva do mundo. O mito não é uma mentira, é uma inflexão da “verdade”.

Para Barthes, a conotação era uma função profusamente utilizada na sociedade ocidental, pelas características do discurso burguês capitalista. De seu estudo sobre a moda (BARTHES, 1967), suas conclusões sobre mitos e conotações se aplicam à Sociedade da Informação, cinquenta anos depois:

A. É uma imagem retórica que fomenta uma representação do mundo sob uma ideologia universal. Luta por uma conversão do “real”, mas omite mostrar suas preferências ideológicas ficando em sistemas de significado geral, que inclui em um panteão de divindades inquestionáveis (a interatividade, a galáxia informacional, a inteligência artificial, a exclusão digital).

B. A conotação dissimula a alienação construída sobre significados implícitos atrás da máscara, um sistema retórico que confunde utopia e realidade.

C. O axioma central é o conceito de “avanço”, extraído das utopias das elites da sociedade ocidental. Nunca se declara que esta é uma visão particular das elites, que percebem tal representação como a mais adequada entre todas as representações das outras comunidades.

D. Cria-se um paradoxo semiológico: por um lado, a sociedade ocidental tentando penetrar no real da significação e formar sistemas semiológicos fortes de granularidade fina. Por outro, estas mesmas sociedades desenvolvendo uma atividade massiva e diligente para mascarar estas estruturas e convertê-las em uma racionalidade axiomática universal.

Para Barthes, estas estruturas conotadas nasciam da aplicação do que ele chamou de “Máquina Retórica” (BARTHES, 1993): um exercício social de institucionalização do poder para produzir o que “pode existir”. Um sistema criado para fabricar discursos que, por um lado, recebem fragmentos de razoamento temático, e pelo outro, a joga discursos estruturados

completos e prontos para serem consumidos. Mas qual é a importância da conotação e da mitificação discursiva em um tema como a Exclusão Digital?

A primeira resposta vem de Izidoro Blikstein (BLIKSTEIN, 2003), que afirma que para mover no tempo e o espaço social, o indivíduo estabelece e articula traços de diferenciação e de identificação com os quais pode classificar e diferenciar os estímulos do universo amorfo que o rodeia e construir o "real". Esses traços acabam por adquirir, por conta da práxis, um valor de verdade e se transformam em traços ideológicos que configuram guias semânticas que atuam como moldes para a significação. Blikstein os chamou estas guias ou moldes de “isotopias da cultura”. São padrões perceptivos, estereótipos de percepção que filtram tudo como “óculos sociais". A interação entre língua e práxis cria uma retroalimentação circular que alimenta essa estereotipia e a materializa por via da práxis, ao ponto de considerar o nosso universo particular de referências e realidades fabricadas como “real e objetivo”.

Mas a língua, também, pode desenvolver uma ação dialética e criativa, desarranjando as articulações entre a práxis e as isotopias, para desmontar seus estereótipos. Para Blikstein, esta saída dialética e criativa está nas artes e a poesia. Dentro deste tralho, a saída é a pesquisa crítica baseada em evidências.