• No results found

“O segundo problema... é aquele do risco e liberdade individual. Dedicamos muito tempo para nos proteger contra a ameaça de padronização. Mas, a rigor, a revolução da informação exige, ao contrário, uma capacidade de liberdade individual e autonomia muito maior. E é contra essa possibilidade de liberdade que a maioria das estruturas se revolta... O advento da tecnologia da informação é uma das manifestações da entrada das sociedades modernas em uma era de mudanças constantes. Isso significa, em suma, que a crítica sobre

os objetivos tem muito menos sentido que a crítica a respeito das instituições. Em outras palavras, não é essencial definir objetivos que rapidamente serão obsoletos, mas criar instituições capazes de inovar constantemente, retificando seus objetivos à luz dos novos dados e os resultados já obtidos”(CROZIER, 1970).

A fim de permitir que a revolução informática aconteça como um fato liberador é necessário dar transparência às relações humanas, para identificar e compreender seus conflitos e, assim, ser capazes de negociar estrategicamente, conscientes das possíveis consequências das suas decisões e comportamentos.

O estado de conflito percebido nos capítulos anteriores não pode ser considerado como um estado de exceção, mas, uma característica típica do ser social. Tampouco pode ser reduzido sob uma “Teoria da Conspiração” ao plano maléfico de um grupo que intriga para se apoderar do mundo. Harmonia e coerência não são os estados naturais da vida humana nem seu princípio de regulação (CROZIER, 1970); tampouco existe uma tendência nata para o equilíbrio. A contradição está sempre presente, com margens desconhecidas de regulação, mudando pontos diversos do sistema com ressonância em toda sua estrutura. A nossa realidade é entrópica e não vai melhorar para procurar equilíbrio nenhum.

A ação coletiva dentro de toda sociedade é mediada por soluções específicas e instituída por atores particulares, com recursos e capacidades exclusivas daquele sistema (CROZIER e FRIEDBERG, 1977). Para Crozier, a ação coletiva não é objetiva, contudo, a sociedade humana precisa de alguns padrões mínimos em comum para poder agir coletivamente. Em inúmeras circunstâncias esses “padrões mínimos” estão "naturalizados" pela história, os costumes e as crenças, mas nem por isso tais construtos deixam de ser uma proposta particular, que tenta orientar os comportamentos dos atores e condicionar a sua liberdade sob certas perspectivas. Para Crozier, o poder como mediação entre os projetos coletivos dos homens e sua realização tem várias características:

 A grade de poder de toda ação social cria e reproduz desigualdades, relações de dependência e mecanismos de controle.

 Impõe as suas próprias demandas e sua própria lógica.

 Assim como é instrumento para resolver problemas, suas limitações de foco e lógica o tornam também numa restrição para achar soluções.

 Fica suportada sobre o "natural".

 Seu alvo é resolver problemas e incertezas.

 Uma vez instituído transforma numa relação de domínio.

 A sua estrutura é o resultado da mobilização dos atores que controlam as fontes de incerteza dentro do sistema.

 Desenvolve uma estrutura de “jogos de relacionamentos e transações” entre os participantes e as suas metas.

 Os atores dentro do sistema não se adaptam passivamente às circunstâncias; são capazes de “brincar” estrategicamente com elas.

 Nem os atores ou o sistema são totalmente livres; estão permanentemente afetados e corrompidos pelas pressões e manipulações dos outros atores e sistemas.

 A liberdade depende da capacidade de recusar o que o outro ator ordena.

A mudança no poder é um processo de criação coletiva, não é um ato racional de aplicação de teorias. É a construção criativa de formas para desenvolver o jogo social de cooperação e conflito. Frente a toda estrutura de poder, Crozier formula duas perguntas que guiam como pesquisá-lo:

A. Que recursos têm as partes para garantir sua margem de manobra?

B. Quais são os critérios que definem a relevância destes recursos e a sua mobilidade? Crozier também define as quatro fontes do poder dentro de um sistema:

A. Saber técnico ou especializado.

B. O contexto e ambientes ligados à sociedade.

C. O controle de estruturas, fontes e conteúdos da comunicação e informação. D. As consequências da existência das regras do sistema.

A gestão do conflito para Crozier requer a desconstrução das estruturas vigentes e a criação de novos construtos de poder. O poder é um contínuo de possibilidades que vai da cooperação cooptada até o domínio total pela força, diferentes tipologias de relação definindo distintos tipos de jogo possível. Força, riqueza, prestígio, autoridade ou legitimidade, só têm influência na medida em que oferecem uma maior margem de manobra para aqueles que os possuem. A relação de poder só é estabelecida quando as partes estão integradas em um todo “organizado”. Os termos de troca das relações são definidos como resultado de um jogo de restrições, muitas vezes fortes, que determinam a estratégia dos atores. Estas restrições atingem os objetivos formais e informais dos participantes por meio de regras que não agem diretamente. Sua principal função é limitar a liberdade de ação dos participantes, e distinguir entre áreas onde a ação é previsível ou prevalece à incerteza.

O autor conclui que todo poder depende do controle das fontes de incerteza do sistema. Todo participante de um sistema tem poder, enquanto os elementos incertos do sistema que estejam relacionados com seus alvos se encontrem sob seu controle. Mas, também, sua ação está limitada pelas regras do sistema, que restringem o uso das suas cartas de influência e dão legitimidade a seu poder. A negociação aberta não significa eliminar os poderes, mas aceitá-los e levá-los para campo aberto, tirando a dicotomia entre o “mundo público” e o espaço privado. Crozier afirma que essa mudança de perspectiva permite higienizar o jogo e fazê-lo mais responsável. Com a discussão aberta do poder, a legitimidade perde sua aura e fica aberta a possibilidade de reconhecer a voz dos outros agentes envolvidos e fazê-los participar fluentemente.

É evidente que os problemas de poder da Sociedade Global são complexos, mas é possível fazer uma análise empírica e intervenção neles. Às vezes, a complexidade é mais uma cortina protetora para encobrir a falta de vontade para encarar discussões abertas sobre os problemas. Apesar da resistência, as ciências sociais estão começando a tornar em ciências experimentais do conflito (CROZIER, 1970).

Para ter uma negociação aberta é preciso identificar os poderes que interagem, a sua lógica autorreferida e as regras propostas. Esse é o alvo deste trabalho a respeito da Brecha Digital, partindo do domínio de criação das ideias sobre exclusão digital em comunidades tanto do “Centro” como da “Periferia”. Verificar se é possível perceber os rastros do “conflito informacional” descrito pelos autores aqui recapitulados, suas regras, e como acompanham as dinâmicas da estrutura de dominação do sistema Centro - Periferia.