“Por mais que estas construções teóricas pretendam ser construções neutras em termos de valores, era impossível esconder a evidência de que se considerava a sociedade moderna, que nascera na Europa e se afirmava nos Estados Unidos da América, como um ideal a alcançar e uma meta sócio política a conquistar. Era mais ou menos evidente também uma aceitação tácita de que a instalação desta sociedade era uma necessidade histórica incontestável.”, p.4 (DOS SANTOS, 1998) O cenário mundial do século XXI é de grande mobilidade global para o capital produtivo, que arrastra consigo os saberes e alta tecnologia que ele mesmo gesta. Este cenário
está produzindo uma distribuição internacional dos aumentos em produtividade que favorece amplamente os “Trabalhadores do Conhecimento” e especialmente aqueles qualificados na TI, e diminui os ingressos dos trabalhadores confinados nas tarefas de baixa qualificação. Esta tendência de distribuição desigual está ocorrendo tanto na “Periferia” como no “Centro”, no chamado “processo de terceiro-mundização dos países desenvolvidos”. Além das fronteiras entre países desenvolvidos e não desenvolvidos, as fronteiras do conhecimento entre trabalhadores especializados e não especializados estão delimitando a distribuição dos ganhos em produtividade (DI FILIPPO, 1998). Drucker vaticinava que o maior desafio do século XXI seria esta dualidade entre os “Trabalhadores do Conhecimento” e “Trabalhadores dos Serviços”, que foi como ele nomeou aqueles trabalhadores não especializados (DRUCKER, PETER F, 1999).
Brechas entre as forças produtivas e brechas entre os países. Trinta ou mais anos depois do surgimento do Modelo Centro - Periferia na CEPAL, apesar das mudanças de forma, “os problemas de fundo” continuam agindo de forma similar: uma economia internacional que multiplica e perpetua “Centros" e "Periferias", baseados na desigualdade dos termos de transferência de recursos e intercâmbio entre as populações. As economias dependentes da “Periferia” geram modelos de desenvolvimento com tensões extremadas entre a produção, o ingresso e o consumo, levando à sobre-exploração dos recursos naturais, que se mantém como a base do seu funcionamento e a ancoram a seu estado de dependência e subdesenvolvimento (OSORIO, 1995).
A visão de Centro - Periferia tentou mostrar que a economia internacional não é uma estrutura homogênea, nem se movimenta em direção a um objetivo universal, único e globalmente aceito chamado “desenvolvimento”. Pelo contrário, assistimos a uma ampliação e reprodução sistemática dos termos de desigualdade entre comunidades desenvolvidas e não desenvolvidas, entre trabalhadores qualificados e não qualificados. O dano nos termos de
troca é um fator chave nesta situação. Nas palavras de Prebish (PREBISCH, 2008), subdesenvolvimento e desenvolvimento são duas formas maduras que expressam um único processo: a criação e expansão do capitalismo como o sistema universal global.
A cópia do modelo de industrialização que a América Latina impulsionou como promessa para o seu desenvolvimento gerou processos que terminaram criando mais problemas que soluções. No século XXI, a aplicação do padrão da Sociedade da Informação na procura de um novo milagre econômico e social reiterou a mesma receita, levando aos mesmos problemas: modelos de desenvolvimento inviáveis e maior dependência.
A transferência direta dos modelos produtivos e tecnológicos do “Centro” tenta penetrar com seus padrões a estrutura social heterogênea da “Periferia”, que é muito diferente. Este processo de violência simbólica termina resolvido por meio da imposição velada ou aberta e com perda de aproveitamento. O retorno da classe trabalhadora fica reduzido, embora existam aumentos de produtividade, porque além de alimentar os “Centros”, também têm que satisfazer as elites locais, que são satélites do “Centro” e mantém o sistema de dependência, por via da colaboração técnica, militar, econômica e política (PREBISCH, 2008).
Como parte da transferência de modelos produtivos e tecnológicos do “Centro”, a importação do modelo da Sociedade da Informação e os conceitos de Inclusão e Exclusão Digital, podem estar causando mais dano que benefício. A pergunta não é como reduzir o custo dos PC e acelerar a transferência da TI dos países desenvolvidos. O problema é como gerar condições para o desenvolvimento do domínio da técnica e a sua transformação criativa por parte das populações majoritárias da Periferia (AMIN, 1977). Uma das grandes dificuldades deste processo, segundo Amin, é que pela conversão da tecnologia em um objeto comercial controlado por monopólios que podem bloquear ou limitar a apropriação dos seus benefícios, a transferência tecnológica efetiva fica muito fraca. Para Amin, esta transferência controlada de tecnologia, o que transfere são as relações de produção capitalistas que a
sustentam, e renova os elementos de domínio e dependência que caracterizam a relação com o “Centro”.
A passagem entre o século XX e XXI e a sua revolução científica, técnica e informática, para Dos Santos, (DOS SANTOS, 1998) favoreceu o crescimento da exportação industrial dos países dependentes de desenvolvimento médio, como Brasil, concentrando neles indústrias obsoletas e poluentes. Entretanto, o Centro se especializava em tecnologia de ponta, geradoras de setores novos, voltados para o conhecimento e a informação, assim como na automação de processos produtivos extensos, fechando eles em “Caixas Pretas” onde o “Know Why”16 ficava protegido.
As “Indústrias de Caixa Preta” geraram crescimento econômico exportador na “Periferia” sem produzir qualificação nos trabalhadores ou desenvolvimento de competências inovadoras. Em consequência, nestes países as atividades típicas das sociedades desenvolvidas nunca progrediram, assim que a classe média profissional iniciou processos de migração massiva para os países “Centro” produzindo um “brain-drain”.
Esta fuga de cérebros coadjuva os problemas de reflexão crítica sobre a Sociedade da Informação na América Latina: se encara um clima intelectual, político e institucional pouco amigável com a pesquisa crítica. A reafirmação do Estado Burocrático Autoritário e da sua forma tradicional de controlar os desequilíbrios criados pela drenagem de recursos originada no “Centro” é mantida pelo reavivamento recente e popularização do pensamento neoliberal e neoconservador na agenda política global e local. Mas, na “Periferia” o capitalismo deixou de ser um projeto modernizador, e no mundo desenvolvido, o modelo entrou em crise do ponto
16 Toda labor produtivo com produtos tecnológicos (máquinas, ferramentas) implica dois tipos de conhecimento:
o Know Why ou a explicação teórica que permite entender porque os processos da máquina funcionam, e reformulá-los criativamente. E o Know How, que é o conhecimento de como operar a máquina. Dependendo do nível de complexidade do produto tecnológico, o Know How pode precisar de treinamento ou de assistência na origem. O Know Why sempre fica na origem como segredo industrial e protegido pelo desenho de “Caixa Preta”, além das restrições patentearias que controlam a sua exploração comercial. Para extrair esses conhecimentos, a única saída são os processos de “Engenharia em Reverso”, mas para isso, devem existir equipes capacitadas técnica e juridicamente para encarar tais desafios, e políticas que os estimulem e protejam.
de vista ético, social, ecológico e prospectivo, pela sua impossibilidade de atender às necessidades das gerações futuras (OSORIO, 1995).
Segundo Dos Santos (1998), a relação de dependência entre “Centro” e “Periferia” têm múltiplas arestas que se expressam em todos os âmbitos da atividade humana, o lazer, a cultura, a educação, a saúde, etc. Na continuação, revisamos estas expressões relacionadas com as TIC e a significação da Brecha e a Exclusão Digital.