Sem dúvida, dado que as cores estarão sempre inseridas no interior de cada cultura, a utilização de unidades lexicais cromáticas pela Teoria Universalista comprovaria a existência dos universais, pois sua presença no léxico das mais variadas línguas é certa. No entanto, como toda teoria tem sua crítica, alguns autores questionaram a proposta de Berlin e Kay. Grossmann (1988) cita McNeil (1972), o qual afirma que as unidades lexicais são determinadas pela frequência de uso de cada cultura; já Cardona (1976) aponta que a concepção dos autores só seria apropriada para sociedades muito avançadas, ao passo que Tornay (1978) discute o aspecto evolucionista da teoria de Berlin e Kay e argumenta que uma teoria de percepção já bastaria para explicar o fenômeno de categorização das cores. Por sua vez, Wald (1978) explicita que os estímulos para a organização dos universos cromáticos diferem de uma língua para a outra.
Já na década de noventa, Wyler (1992) critica o privilégio dos aspectos antropológico e neurofisiológico em detrimento do linguístico, estando o problema muito mais relacionado à estabilidade interlingual dos focos cromáticos do que ao sentido dos nomes de cores. Arcaini (1991) e Wyler (1992) ressaltam que, numa abordagem linguística, não seria possível abrir mão do contexto linguístico em que esses nomes ocorrem, o que não é analisado na pesquisa feita por Berlin e Kay (1969). Não obstante, estes autores realizaram seu estudo levando em consideração apenas um falante (bilíngue) de cada língua, o que não garante representatividade. Para Wyler (1992), o estudo das cores não é o estudo da distância entre focos, mas o estudo semântico. Segundo o autor, perguntas como “Que propriedades os nome de cores têm dentro dos limites de uma língua natural?”10 e “Como essas propriedades são
utilizadas pelos falantes e compreendidas pelos ouvintes da língua?”11 (WYLER, 1992, p.18) não são analisadas. Kay e Regier (2003) afirmam que o trabalho é inconsistente, pois é intuitivo e puramente visual e, além disso, dezessete das vinte línguas analisadas são línguas escritas de sociedades industrializadas, fato que não suporta a generalização da existência de universais. Ainda segundo Kay e Regier (2003),
[...] a pior evidência contra as hipóteses universalistas é a de que existam línguas que parecem não se ajustarem ao padrão de universalidade proposto. Curiosamente, estas tendem a ser línguas ágrafas, de sociedades não industrializadas, fato que reafirma a ideia de que as similaridades na nomeação das cores podem estar limitadas a um escopo interlinguístico (KAY; REGIER, 2003, p. 9085).12
Não obstante o fato de que Berlim e Kay (1969) levaram em consideração apenas um falante de cada língua, os dados não foram recolhidos em ambiente em que se falava aquela língua, estando os falantes influenciados pela cultura estadunidense.
Segundo Fresu (2006, p.154), nas décadas posteriores, “discutiu-se amplamente sobre o valor cultural e simbólico que as cores podem assumir em cada sociedade e sobre a implicação de tal aspecto com as estruturas linguísticas na denominação das cores”.13 Em contrapartida aos pressupostos universalistas, a Teoria Relativista demonstra que
1. o recorte linguístico do espectro é feito de maneira arbitrária, 2. não existe uma relação biunívoca entre palavra e cor e
3. dependendo do sistema lexical, a tonalidade, luminosidade e saturação apresentam valores diferentes.
11 How are these properties used by speakers and understood by hearers of that language?
12 […] the most damaging evidence against the universality hypothesis is that there are languages that appear
not to fit the proposed universal pattern. Interestingly, these tend to be unwritten languages of non industrialized societies, consistent with the idea that similarities in color naming may be limited in cross-linguistic scope.
13 Si è lungamente discusso sul valore culturale e simbolico che i colori possono assumere per ogni società e
Ademais, cada comunidade linguística percebe e concebe o mundo de uma forma diversa, existindo uma relação de casualidade entre a estrutura cognitiva dos membros de tal comunidade e a sua língua, um condicionamento linguístico da percepção e da concepção da realidade (GROSSMANN, 1988).
Para Wyler (1992), os relativistas não basearam suas pesquisas no reconhecimento e nomeação das amostras de cores, como fazem os Universalistas, mas sim, estiveram baseados em teorias do campo léxico/semântico que argumentam que há correlação entre conceitos de um determinado campo. A principal questão para esses pesquisadores é “‘Como o campo semântico está representado numa determinada língua?’ou ‘Quais as relações entre essas unidades ou membros de um campo? Podemos perceber as fronteiras dos nomes individuais ou membros do campo, ou dos setores do campo e do campo como um todo?’” (WYLER, 1992, p. 19-20).14 Merece destaque o fato de os estudos não se restringirem aos nomes de cores básicas, mas observarem também as designações descartadas pelos universalistas. Desse modo, surgem outras questões, tais como, “De que forma os nomes são utilizados pelos usuários das línguas?’ ou ‘Como eles correspondem ou diferem entre as culturas”15 e ainda “‘Como uma comunidade de fala segmenta e, consequentemente, verbaliza o contínuo cromático?’” (WYLER, 1992, p. 20)16 São perguntas que procuram ilustrar o processo mental de transformação dos objetos da natureza para a linguagem humana.
Tal vertente tem como defensores Ray (1952, 1953), que abre caminho para pesquisas empírico-culturais, Arcaini (1991), que faz uma análise comparativa do uso das cores em expressões nas línguas italiana e francesa, e Zavaglia (1996) que, influenciada pelo trabalho de Arcaini, analisa o uso dos nomes de cores nas línguas italiana e portuguesa do Brasil e,
14 ‘How is the semantic field represented in a particular language?’ Or ‘What relations hold between these terms
or members of a field? Can we discern the boundaries of the individual term or field members, or the field sectors and of the field as a whole?’
15 ‘How are the terms actually used by language users? Or How do terms correspond or differ across cultures?’ 16 ‘How does a speech community segment and consequently verbalize the colour continuum?’
devido ao grande número de expressões cromáticas nestes dois universos culturais, propõe a elaboração de um dicionário composto apenas por cromônimos.
Arcaini (1991) sustenta que, partindo do relativismo cultural, cada língua natural teria um modo singular de perceber e, por conseguinte, de descrever e representar o universo cromático. Segundo o autor,
[...] cada língua assumiria uma modalidade particular de perceber e, por consequência, de representar o espectro cromático que, portanto, estaria isento de objetividade. Linguisticamente, o problema consiste em correlacionar – por meio da análise de fatos empíricos – as descrições propostas por sistemas determinados de mundos que poderiam apresentar soluções bem delineadas no universo sensível (ARCAINI, 1991, p.238).17
No que concerne ao aspecto linguístico-cultural do estudo das cores, destaca-se a convicção de que há influência das características sócio-históricas e culturais de um povo em tal emprego. Para o autor, é necessário aproximar à descrição das cores o seu uso pela sociedade, isto é, há a necessidade de analisarmos o uso simbólico da cor ao longo da história, sincrônica e diacronicamente. Zavaglia (2006) estabelece, inclusive, que
Partindo-se da premissa de que cada língua tem uma maneira própria de compreender e divisar o mundo, o universo das cores é representado de acordo com as particularidades de cada cultura, ou seja, conotativamente e subjetivamente. Por conseguinte, a percepção das cores será representada linguisticamente de forma diferenciada de uma cultura para outra (ZAVAGLIA, 2006, p.26).
Contudo, Arcaini (1991) admite que é muito mais fácil conhecer a resposta linguística do interlocutor às solicitações de percepção do que as realidades psicofísicas e neurobiológicas. Tanto ele como Zavaglia (2007) defendem que é possível estabelecer uma
17 [...] ogni lingua assumerebbe una particolare modalità per percepire e, di conseguenza, per rappresentare le
gamme cromatiche che risulterebbero pertanto prive di oggettività. Linguisticamente il problema consiste nel correlare – attraverso l’analisi dei fatti empirici – le descrizioni offerte da sistemi determinati a mondi che potrebbero avere soluzioni ben delineate nell’universo sensibile.
tipologia das cores, como a proposta por Berlin e Kay (1969). Porém, o autor frisa que “não existe nenhuma consideração de caráter histórico e a descrição sincrônica traz como subjacente uma relação entre percepção e existência denominativa, independente do dinamismo da língua”18 (ARCAINI, 1991, p. 239).
Arcaini (1991) considera ainda que
- o conhecimento e o estudo comparativo dos sistemas linguísticos podem e devem levar em consideração as diversidades tipológicas;
- o estudo comparativo das diversas entidades culturais deve ser feito a partir das cores fundamentais (dominantes) hierarquizadas, o que permite analisar com precisão as formas idioletais e as variantes alocromáticas;
- o estudo sincrônico é o ponto de partida para a pesquisa das “justificativas” diacrônicas e para a compreensão dos movimentos devido ao dinamismo linguístico e cultural que leva à interpenetração dos sistemas mesmo quando são sustentados por uma forte tradição histórica, como ocorre com o francês e o italiano (ARCAINI, 1991, p.239).19
Em sua análise comparativa entre os universos da língua francesa e da italiana, Arcaini (1991) conclui, em primeiro lugar, que ambas reconhecem quase do mesmo modo o espectro cromático, sendo mínimas as diferenças; em segundo, que algumas denominações da cor são conexas a fatos etimológicos, condições históricas e fenômenos culturais. O mesmo autor reflete sobre a noção de universalidade, interando que as fronteiras entre os conceitos limítrofes não são precisamente delineadas e que tal noção pode assumir nuanças diversas. Por exemplo, em relação às cores primárias e secundárias, o autor afirma que tal distinção tem um valor relativo, uma necessidade de acordo com o uso social e cultural, que faz com que um determinado matiz seja percebido por uma sociedade.
18 [...] non appare nessuna considerazione di carattere storico e la descrizione sincronica dà come sottesa una
relazione tra percezione e esistenza denominativa, indipendente dal dinamismo della lingua
19 - la conoscenza e lo studio comparativo dei sistemi linguistici può e deve tener conto delle diversità
tipologiche; - lo studio comparativo delle diverse entità culturali deve essere effettuato a partire dai colori fondamentali (dominanti) che sono gerarchizzati e questo consente di analizzare con maggiore finezza le forme idiolettali e le varianti allocromatiche; - lo studio sincronico è il punto di partenza per la ricerca delle “giustificazioni” diacroniche e per la comprensione dei “movimenti” dovuti al dinamismo linguistico e culturale che porta all’interpenetrazione dei sistemi, anche quando sono sostenuti da una forte tradizione storica, come accade per il francese e l’italiano.
Passando para uma análise semântica mais profunda do espectro das cores e seu uso, Arcaini (1991) argumenta que o estudo linguístico não deve ser o estudo da tipologia das cores de uma língua, mas da combinação delas com elementos a elas ligados e que caracterizam um determinado uso. Dessa forma, tal estudo deve priorizar as propriedades estabelecidas entre os nomes de cores e as linguagens naturais e como essas propriedades são usadas e compreendidas pelos falantes. Zavaglia (2006) frisa que
[...] se em determinadas culturas verifica-se a ausência de certas unidades lexicais cromáticas, isso não significa que os falantes dessas línguas não possuam habilidades fisiológicas de percepção do universo cromático. Antes, acreditamos que essas cores não sejam relevantes ou, ainda, não desfrutem de referências para tais universos culturais (ZAVAGLIA, 2006, p.27).
Arcaini (1991) ainda destaca a ocorrência de combinações de palavras, como adjetivos e substantivos, com as diversas cores que irão formar as expressões cromáticas (as combinatórias sintagmáticas) características de cada língua. Para o autor, “as combinatórias sintagmáticas não representam construções neutras. Uma determinada expressão requer em uma língua alguns adjetivos, ao mesmo tempo que outra língua adota uma solução permitida, às vezes a única possibilidade, em uma língua específica e que não está presente em uma outra língua ainda”20 (ARCAINI, 1991, p. 240), frisando as diferenças de percepção entre as culturas, uma vez que duas línguas podem perceber e denominar a mesma realidade física, porém de formas diferentes, com um subdomínio cromático diverso.
20 Le combinatorie sintagmatiche non rappresentano delle costruzioni neutre. Una determinata espressione
richiede in una lingua alcuni aggettivi, ma un’altra adotta la soluzione consentita, a volte l’unica, in una lingua specifica e che non è presente in un’altra.