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No que concerne à elaboração de obras lexicográficas organizadas de modo onomasiológico, Oliveira (2011, p. 1) destaca que “os onomástica egípcios e clássicos, anteriores a era cristã, constituem os primeiros exemplos deste tipo de dicionário e correspondem a uma tentativa de organização e categorização do mundo, algo inerente à espécie humana”.39 A esse mesmo respeito, Riva (2009) menciona que o desenvolvimento de dicionários onomasiológicos, durante muito tempo, esteve relacionado ao estudo comparativo entre as línguas românicas, que geralmente partiam do latim, língua que definia os parâmetros para a comparação, abordando, por exemplo, o vocabulário da Flora e da Fauna e elementos da vida humana. De fato, ainda segundo Oliveira (2011), a Lexicografia onomasiológica é uma ferramenta de conhecimento que nasce com o objetivo de fixar os princípios universais que orientam o mundo e o ser humano.

Segundo Babini (2001), o termo onomasiologia tem origem em 1903 quando empregado por Zauner em seu estudo comparativo entre as línguas românicas sobre as partes do corpo humano. Em 1935, Vittorio Bertoldi publica a Enciclopedia Italiana di Scienze, Lettere o Arti, em cuja introdução escreve

Entende-se por onomasiologia um aspecto particular da pesquisa linguística que, partindo de uma determinada ideia, analisa as várias maneiras por meio das quais a mesma encontrou expressão na palavra. Uma vez que estuda os vocabulários, comparando-os entre si cronológica e geograficamente, a onomasiologia foi chamada de lexicologia comparada, e se aproxima, portanto, no que diz respeito aos objetivos e à metodologia, da semasiologia, isto é, a busca pelos significados. As

39 Los onomastica egipcios y clásicos, anteriores a la era cristiana, constituyen los primeros ejemplos de este tipo

de diccionario y corresponden a un intento de organización y categorización del mundo, algo inherente a la especie humana.

duas vertentes se completam e esclarecem uma à outra. (BERTOLDI, 1935, apud BABINI, 2001, p. 18).40

Em outras palavras, para Bertoldi, a onomasiologia lida com os aspectos relacionados à denominação, partindo da ideia para se chegar ao signo. Quando é feita a comparação entre várias línguas, tomando-se por base tais aspectos, estamos tratando, segundo o autor, de lexicologia comparada.

Ainda de acordo com Babini (2001), embora o termo onomasiologia tenha surgido em 1903 no estudo de Zauner, a ideia de organizar o vocabulário por domínios surgiu com o Thesaurus of English Word and phrases de Roget (1852). O objetivo da obra era propor uma nova forma de organização, isto é, dispor as palavras não em ordem alfabética, como tradicionalmente se propunha, mas sim ordená-las de acordo com a ideia que expressavam. Sobre essas duas formas de organização, Roget diz:

O objetivo de um dicionário comum é simplesmente o de explicar o significado das palavras; e o problema para o qual afirma fornecer a solução pode ser assim declarado: - à palavra dada, encontrar o seu significado ou a ideia que se pretende transmitir. O objetivo da presente proposta é exatamente o oposto a esse: a saber, - à ideia dada, encontrar a palavra, ou palavras, pelas quais essa ideia possa ser melhor expressa. Por isso, as palavras e frases são aqui classificadas não de acordo com o seu som ou a sua ortografia, mas estritamente de acordo com a sua significação (ROGET, 1956, p. xxiii apud BABINI, 2001, p. 71).41

40 Per onomasiologia s’intende un aspetto particolare dell’indagine linguistica che, movendo da una determinata

idea, esamina i vari modi con cui, essa ha trovato espressione nella parola. In quanto studia fatti di vocabolario comparandoli fra di loro nell’ordine cronologico e geografico, l’onomasiologia fu detta pure lessicologia comparata e venne quindi avvicinata nei fine e nei procedimenti alla semasiologia, la ricerca, cioè, dei significati. I due aspetti si completano e si lumeggiano dunque l’uno l’altro.

41 The purpose of an ordinary dictionary is simply to explain the meaning of the words; and the problem of

which it professes to furnish the solution may be stated thus: - the word being given, to find its signification, or the idea it is intended to convey. The object aimed at in the present undertaking is exactly the converse of this: namely, - the idea being given, to find the word, or words, by which that idea may be most fitly and aptly expressed. For this purpose, the words and phrases of the language are here classed, not according to their sound or their orthography, but strictly according to their signification.

O autor dividiu sua obra em seis classes de categorias: relações abstratas, espaço, mundo material, intelecto, volição, consciência e moral, cada uma com várias subdivisões. Assim, ele observou que algumas palavras poderiam ser inseridas em várias subcategorias. Por isso, incluiu um índice, a fim de auxiliar os leitores a encontrarem o item procurado. Landau (1989) cita essa obra criticando-a, pois afirma que se trata de um agrupamento conceitual não natural para todos os falantes de uma língua. Alguns falantes poderiam até encontrar a palavra com facilidade, mas a maioria não. Por esse motivo, as edições mais atuais da obra aconselham ao leitor a começar a busca pelo índice.

No entanto, foi em 1952 com a obra Begriffssystem als grundlage für die Lexikographie, de Hallig e Wartburg que os estudos sobre onomasiologia e sobre questões teóricas que giram em torno da Lexicografia onomasiológica ganharam força. Para Babini (2001, p. 51), tais autores apresentam um sistema de classificação de conceitos que, segundo eles, tem valor universal, o que reacendeu o debate sobre a escolha entre a classificação alfabética ou ideológica e culminou em milhares de críticas feitas aos autores.

No que concerne à estruturação dos dicionários onomasiológicos, Baldinger (1970) considera pertencente a essa tipologia aqueles que classificam as unidades lexicais em função dos conceitos por elas representados. Em contrapartida, são semasiológicos os dicionários que classificam as unidades lexicais em função da sua forma, ou seja, por ordem alfabética. Em trabalho anterior (BALDINGER, 1966), o mesmo autor destaca que os dicionários por ordem alfabética (ou fonológica) e os organizados por conceitos se complementam e, como acrescentado por Babini (2001), cada um busca resolver os problemas de uma forma inversa que o outro.

[...] na estruturação do léxico, a onomasiologia representa a face das designações, compreendendo todos os significantes de um dado significado, ao passo que a semasiologia representa a face das significações, compreendendo todos os significados possíveis que possam traduzir um determinado significante (TOSQUI-LUCKS, 2008, p. 232).

Em outras palavras, enquanto nos dicionários cuja classificação é feita pela ordem alfabética podemos apenas apreender o significado da palavra por meio de sua forma, os dicionários onomasiológicos nos permitem fazer relações de sentido entre itens pertencentes a uma determinada área do saber. Ao dicionário onomásiológico, então, cabe partir de uma ideia para examinar os vários sentidos que a ela estão relacionados, isto é, parte de um conceito para chegar à forma. Desse modo, todas as obras cuja nomenclatura estiver organizada sistematicamente serão consideradas onomasiológicas e possibilitarão o percurso ideia (ou noção/conceito) → unidade lexical, isto é, permitirão que uma unidade lexical seja encontrada a partir de um conceito.

No que diz respeito à tradição lexicográfica onomasiológica, Oliveira (2011) destaca que embora ela exista e seja relativamente forte, há uma desproporção entre o número de dicionários semasiológicos e os onomasiológicos, fato que pode ser explicado pela “supremacia da noção de palavra sobre a de conceito”42 (OLIVEIRA, 2011, p. 3), além, é claro, da complexidade de sua elaboração e dificuldade na consulta.

Com base em uma pesquisa feita em alguns dicionários onomasiológicos, a mesma autora aventa que existem algumas características acerca de sua estrutura e informações de uso que abundam em todos eles. Para ela, sobram índices, remissões e referências cruzadas, procedimentos que buscam revelar a facilidade da busca. No entanto, para a pesquisadora, na grande maioria das obras faltam informações sobre os seus pressupostos teórico- metodológicos, da mesma forma que abunda subjetividade na classificação, uma vez que os resultados obtidos a partir dessa classificação podem não ser satisfatórios para todos.