Ásgrímur Angantýsson
2. Theoretical background
Samir, Josineide e eu seguíamos para um novo encontro com a Lagoa do Piató. Josineide é pesquisadora permanente do Grecom. Ela defendeu sua tese de doutorado em Educação intitulada A formação pela escrita do amor (2004), junto ao grupo, sob orientação de Ceiça, pelo Programa de Pós-graduação em Educação da UFRN. Samir é coordenador do Grupo de Estudos da Transdisciplinaridade e da Complexidade - GETC, grupo formado por professores do CEFET-RN que teve como impulso de sua emergência as idéias advindas do Grecom, e atualmente cursa o doutorado em Educação junto à mesma base de pesquisa, tendo como tema a relação entre educação e a ética de São Francisco de Assis inspirada na contemplação da natureza. Sentia-me muito à vontade com meus companheiros de viagem. Acredito, no entanto, que nossas afinidades resguardam algo de muito mais precioso para mim, que se estende desde nossa ligação com o Grecom até o prazer pela filosofia e pelo sagrado.
O caminho da estrada de terra estava, como sempre, preenchido de carnaubeiras. No entanto, muitas delas decepadas e outras com muitas de suas folhas soltas no chão. Chico nos contou depois que as máquinas de cortar palhas de carnaúba haviam trabalhado nas noites anteriores, evento que se repete todos os anos na região para fins de sua comercialização. Até então, eu não havia me deparado com esse aspecto da paisagem, que causava a impressão de tempos de seca. Não se via quase verde, mas o marrom das folhas no chão se misturando com a cor da terra. Essa mescla de cores cobria a paisagem de uma tonalidade mais escura, não menos bonita, mas selvagem e misteriosa.
Dessa vez, o sopro do vento também estava diferente. Não era o vento do Norte do início do mês de setembro, mas o vento do Sul. Chico nos disse que seu pai afirmava ser o vento do Norte a promessa de um inverno excelente no ano
seguinte. Fiquei pensando no conteúdo de suas palavras. Talvez fosse um caminho natural a ser seguido pela razão deduzir que, se o vento do Norte promete um bom inverno, do vento do Sul se seguiria um inverno ruim. Não necessariamente. Para Chico Lucas, algo de novo estaria para acontecer. Um sopro distinto estava a exigir novos desafios para o pensamento: como será o inverno do próximo ano?
Durante a primeira tarde, caminhamos em direção à Vazante. Chico nos conduzia com a mesma segurança demonstrando sempre familiaridade com a paisagem, mesmo nas suas mais variadas transformações. Sentados à margem da Lagoa, cujas águas se moviam bravamente sob a orquestra do vento, surpreendidos de minutos em minutos por revoadas de garças no céu que se dirigiam ao seu ninhal, ouvíamos o seu testemunho acerca daquelas águas que um dia pertenceram ao mar, se transformaram em Lagoa do Piató e que hoje vêm evaporando cerca de um centímetro por dia em decorrência da intervenção humana. Fiquei imaginando como deve ser difícil para as pessoas que ali viveram momentos de mais fartura perceber que esses tempos estão se tornando cada vez mais escassos e que agora aumentam a cada dia os tempos de incerteza.
Quando lembro que Chico se referia à Lagoa do Piató como o seu “paraíso”, que “conhecendo a Lagoa não precisa conhecer o Rio Grande do Norte”, como se o mundo já estivesse contido ali, onde “nunca se sente só”, como se a natureza se encarregasse sempre de oferecer oportunidades para pensar e se indagar, vejo que a paisagem é o prolongamento, a expressão da existência humana. Sendo assim, ela se oferece como o seu horizonte, motivo de sua dedicação e possibilidade de respostas.
Como que transpassada pela exuberância da natureza e pelos significados que dela decorrem, Josineide dizia admirada sobre o céu que envolvia a Lagoa naquele instante, “mesclado de lilás e azul”, e acrescentava sobre o privilégio dos seres humanos em poder participar do sagrado na natureza contemplando sua beleza e plenitude. Esse sentimento de participação nos recorda que em cada fragmento do universo está a presença humana, como argumenta o astrofísico Trinh Xuan Thuan. Ao ser observado, o universo ganha existência. Há sempre uma parte de transcendência que nos escapa. No entanto, o ato de contemplar, prestando atenção aos pequenos detalhes da vida e da natureza, aciona o princípio criador que anima o universo. Somos, dessa maneira, invadidos por instantes de eternidade (THUAN, 2002). Aquela mescla das cores lilás e azul no céu, anunciando o cair da
tarde e a entrada da noite, expunha com todo o seu esplendor a relação de interdependência dos fenômenos da natureza e o seu processo de renovação contínuo.
Perguntado sobre visões de “seres diferentes” na Lagoa, Chico recordou de situações de pesca em que isso ocorrera. Uma dessas situações foi de madrugada. Ele e um amigo tinham ido pescar e, ao bater a buia na água, ouviram alguém do outro lado bater na beira d´agua. Desistiram da pesca e voltaram para as margens da Lagoa. Fazendo alusão ao milagre dos peixes operado por Jesus Cristo, Chico Lucas contou que, na manhã seguinte, quando raiou o dia, ele e o amigo foram presenteados com a malha cheia de peixes. Muitas vezes, ele diz, também ocorreu de, durante uma pescaria feita à noite, eles verem carnaúbas caírem diante dos seus olhos e, ao amanhecer, elas aparecerem novamente de pé. Chico recordou de uma outra situação semelhante à dos peixes, em que havia levado dona Santa para o Porto do Piató. Na volta, ao chegar na ponta da Lagoa, viu “uma tocha bem grande pulando dentro d´água. Não havia nenhuma lancha ou barco. A tocha de fogo veio até a proa da canoa e depois apagou”. Ele diz que ficara olhando fixo e tranqüilamente para aquela tocha e que, logo em seguida, àquela “luz” agradeceu. Ele acrescenta que, depois disso, “se seguiu um tempo muito bom para mim, pois estava vivendo em dificuldade”. Interpretações e significações dadas a vivências como essas se oferecem como respostas para situações concretas da vida. É preciso reforçar que fazemos parte de uma conexão de relações que abriga um mistério a desafiar vários tipos de conhecimento e que tende a explorar dimensões mais profundas da existência humana e da natureza. Essa comunhão de saberes passa igualmente pela preservação da memória individual e coletiva, pela repetição das histórias e pelo envolvimento ético e amoroso consigo e com os outros.
Figura 40: O(s) rosto(s) Foto: Paula Vanina Cencig
No dia seguinte pela manhã, passeamos de barco até a croa, uma imensa pedra que fica próxima às margens do Porto do Piató, preenchida de muitas galerias. Durante algum tempo, ficamos contemplando uma de suas formações, que ora brotava como “um velho leão adormecido”, ora como o “rosto de Cristo da Serra do Marfim”, ou como “a lateral do rosto de uma pessoa”, ou ainda com “os olhos e lábios cerrados de alguém” – as múltiplas faces da mesma obra de arte. Íamos produzindo analogias à medida que tentávamos imaginar que rosto seria aquele. E isso ampliava e aprofundava o nosso olhar. Percorrendo as laterais e crateras da velha pedra, também íamos reconstituindo uns com os outros sua história de vida que seguira os princípios da desordem e da auto-organização. Com o avanço da água, a pedra havia criado suas próprias formas de proteção, o lodo e as crateras. Com o recuo da água, a camada de lodo foi escurecendo e aderindo à própria pedra, que assim foi se transformando numa pedra maior, regenerada. E esse processo sempre se repete continuamente. Seguimos de volta ao barco com o motor desligado e, sem que nos déssemos conta de seu movimento, ele já havia se distanciado das margens. Seguira o rumo do vento do Sul.
Voltamos para casa. Antes do almoço, fiquei sabendo por intermédio de Chiquita, uma das filhas de Chico Lucas, que Mateus tem cantado bastante. “Ele usa um pau de vassoura como se fosse o seu microfone e fica cantando pela casa”. Dona Maria e eu também ficamos a conversar um pouco sobre seu cotidiano envolvendo os cuidados com os filhos, o marido e a casa, e para os quais se dedica integralmente. Lembrando que a maternidade lhe conferira momentos de muita
emoção, dona Maria acredita que uma boa educação dos filhos deve contribuir para um mundo bem melhor. Retomando algumas de suas memórias, eu soube que foi professora, atividade que gostava muito de exercer e que considera importante e bonita. Quando já nos dirigíamos para a cozinha, dona Maria me contou sorridente que no seu tempo de adolescência, ela e suas amigas brincavam de apanhar algodão no meio da mata e de pastorar passarinhos evitando que comessem o trigo das plantações. Essa breve conversa com dona Maria e a novidade de Mateus me trouxeram uma grande sensação de bem-estar. No início daquela tarde de domingo, voltamos para Natal.
Figura 41: Dona Maria Foto: Paula Vanina Cencig
Compreendo melhor quando Teresa Vergani diz que “cada cultura oferece uma ‘forma de vida’ capaz de possibilitar esta globalidade de bem-estar humano original e histórica. As pessoas aderem às tradições que lhes proporcionam satisfação, bem-estar, prazer partilhável” (1994, p. 24-25). Certos vínculos abrem possibilidades para que os estranhamentos mútuos, aos poucos, cedam à partilha de algumas senhas, alguns momentos de intimidade entre os locutores distintos e que podem repercutir num diálogo mais aberto e polifônico. Essa proximidade pode oferecer pontos de bifurcação que emergem do sentimento de pertencer ao mesmo lugar de fundação antropológica, produzindo em outras referências topológicas o desdobramento dos valores dessa escuta sensível da natureza, e que podem inspirar a projeção de espaços de vida no mundo contemporâneo.