4 Framework and Hypotheses
4.1 The Who-question
8.2.1. Casos Clínicos
A M tem 11 anos, é do género feminino e apresenta Organização da Personalidade Bordeline. Apresenta-se subdesenvolvida fisicamente para a idade. É a mais nova de uma frateria de quatro irmãos. Foi retirada aos pais juntamento com a irmã por maus tratos, e atualmente e desde Maio 2009, encontra-se numa casa de acolhimento temporário. Os dois irmãos mais velhos vivem com a mãe, e um deles apresenta deficiência intelectual e desenvolvimental e toxicodependência. O motivo da consulta prende-se com problemas ao nível da imagem corporal, problemas de
56 comportamento (impulsividade, agressividade e provocação), baixa tolerância à frustração, imaturidade emocional, e dificuldades de aprendizagem. A entrada para o 1º ciclo ocorreu com 9 anos de idade, e tem Plano Educativo Individualizado. Iniciou o acompanhamento pela Psicomotricidade em Maio de 2011, e reiniciou em Outubro.
O F é do género masculino e tem 7 anos de idade. Apresenta diagnóstico de PHDA. Foi retirado à família aos 4 anos de idade por maus-tratos físicos e negligência parental, juntamento com a irmã, e vive desde Maio de 2009 num centro de acolhimento temporário. Atualmente está em curso um processo de adoção do F e irmã por parte de um casal de Itália, o qual será concretizado. A mãe biológica apresenta um historial de depressão e esteve também institucionalizada, e o pai tem um historial de alcoolismo e violência. O parto do F foi prematuro, tendo ficado internado cerca de seis meses. O desenvolvimento psicomotor e da linguagem ocorreram dentro dos padrões normais. Atualmente o F mantém fala infantilizada. Iniciou o acompanhamento pela Psicomotricidade em Outubro de 2011.
O I tem 8 anos de idade, é do género masculino, e tem diagnóstico de PHDA, Perturbação do Comportamento e do Humor SOE. Foi encaminhado por queixas de comportamentos auto e hetero-agressivos e por grande irrequietude motora. Tem um irmão mais novo e vivem com os pais. Têm relação próxima com família alargada (avós e tia). A mãe foi vítima de abuso sexual e tem historial de depressão, e o pai é referenciado como saudável. Os problemas de comportamento iniciaram-se no pré-escolar. Iniciou acompanhamento em 17 de Outubro 2011, e teve presença assídua até início de Fevereiro de 2012. Atualmente não vem à Psicomotricidade por motivos relacionados com a disponibilidade de horários da mãe.
8.2.2. Avaliação e Objetivos de Intervenção Tabela 9: Resultados avaliação inicial da M, F e I
DAP BASC-pais BASC-escola
M Bordeline Problemas Comportamento, Depressão, Agressividade, Problemas Atenção, Atipicidade.
Dificuldades Aprendizagem, Problemas Atenção, Atipicidade, Ansiedade. F Médio-Baixo Atipicidade, Problemas Atenção, Hiperatividade, Problemas
Comportamento.
Dificuldades Aprendizagem, Problemas Comportamento, Hiperatividade e Depressão. I Deficitário Comportamento, Depressão, Agressividade, Problemas
Atipicidade, Problemas Atenção.
Problemas Comportamento, Depressão.
Em função das avaliações iniciais (tabela 9), definiram-se os seguintes objetivos: M: aumentar a autoestima e o autoconceito; aumentar a iniciativa e
participação; melhorar a atenção sustentada; melhorar a consciência corporal; estimular a capacidade de resolução de problemas e raciocínio prático através do faseamento, análise e verificação das tarefas; promover a interação em grupo; estimular a expressão verbal como meio relacional e de organização do pensamento.
F: aumentar a capacidade de espera e inibir comportamentos impulsivos; favorecer o autocontrolo; aumentar a atenção sustentada; aumentar a autoestima e autoconfiança; aumentar a tolerância à frustração; aumentar a tomada de iniciativa e decisão.
I: melhorar a consciência dos limites e segmentos corporais e sua representação topográfica; promover a consciencialização da modulação dos estados tónicos; melhorar o autocontrolo e estratégias de autorregulação; desenvolver a capacidade de atenção sustentada e focalização; aumentar a
57 tolerância à frustração; estimular a autoestima, promovendo sentimentos de autovalorização; aumentar a aceitação e cumprimento de regras; favorecer as competências sociais (partilha, escuta e cooperação).
8.2.3. Análise da Intervenção
Inicialmente o grupo foi composto pelas três crianças, mas no início de Fevereiro 2012, ficou apenas a M e o F em intervenção. Em fim de Abril, o grupo ficou apenas formado pela M. No global a M teve 21 sessões, o F 18 sessões, e o I nove sessões. Não há resultados da avaliação final do I e F, por já não se encontrarem em intervenção.
Ao longo da intervenção as crianças foram desenvolvendo atividades individualmente, e por vezes a pares, mas atividades desenvolvidas em grupo foram poucas. Foi um grupo que apresentou dificuldades em cumprir os rituais da sessão.
A M inicialmente apresentou uma postura passiva e pouco relacional, colocando- se fora das atividades. Contudo com o decorrer da sessão foi incentivada a dar a sua opinião e participar, observando-se uma resposta positiva nesse sentido. Passou de muitos momentos de humor depressivo, para uma atitude mais expressiva e de prazer. Apresenta-se mais espontânea e segura. Observou-se numa fase final da intervenção muita procura relacional e da atenção da terapeuta, sobretudo durante a intervenção individual. Ao nível psicomotor, observou-se dificuldades na coordenação visuo-motora e na organização temporal, situação que manteve.
Nos instrumentos de avaliação, no DAP manteve o perfil Bordeline, e apresentou uma evolução positiva no desenho do homem – associou-o a um namorado. A M está a iniciar a sua entrada na puberdade, observando-se nas representações do DAP alusões a caracteres sexuais. Na BASC dos pais apresentou melhorias significativas na Agressividade e Depressão, e ligeiras melhorias na Atenção e Adaptabilidade. O índice de sintomas comportamentais baixou de 64 para 60, refletindo melhorias globais nos comportamentos. Na BASC da escola, a M apresentou piores resultados em todas as escalas clínicas, mas melhorias nas competências adaptativas. Salienta-se que a avaliação inicial foi preenchida pela professora de ensino especial, e a final pela professora de ensino regular.
O F apresentou ao longo de toda a intervenção uma atitude muito solícita para com os pares e adultos, parecendo sempre ter necessidade de agradar ao outro. Inicialmente, nos jogos simbólicos assumia sempre personagens de menor importância, e escolhia sempre participar na atividade dos outros, não apresentando as suas escolhas. Demonstrava preferência por atividade de construção e jogos simbólicos de reis e rainhas. Com o decorrer da sessão o F foi incentivado a assumir personagens superiores e a indicar as suas escolhas. Observou-se maior autoestima e capacidade de afirmação e assertividade. Apresentava as suas intenções, mas tinha tendência a utilizar a birra como manipulação. Apresentou-se no global mais organizado nas tarefas, e com melhor focalização da atenção.
O I demonstrou preferência por atividades de construções. Esta criança apresentava muitas dificuldades de interação em grupo, sobressaindo a sua individualidade e dificuldade de escuta, nas relações que estabelecia.