6.5 Results
6.5.2 The Stretch Step
Ao longo das últimas décadas, o papel da educação na chamada sociedade do conhecimento tem sido tema muito debatido, pois o conhecimento passou a ser considerado fator decisivo para a vida em sociedade, cada vez mais impregnada de informações vindas de diferentes fontes. Como ressaltam os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN),
A sobrevivência na sociedade depende, cada vez mais, de conhecimento, pois diante da complexidade da organização social, a falta de recursos para obter e interpretar informações impede a participação efetiva e a tomada de decisões em relação aos problemas sociais. Impede, ainda, o acesso ao conhecimento mais elaborado e dificulta o acesso às posições de trabalho (MEC, 1997). Ter autonomia para buscar informações, ser autor de seu próprio texto são “bandeiras” educacionais na sociedade atual. No entanto, como tornar esse ato real, se na escola não assegurarmos as competências básicas de leitura e escrita ao aluno-leitor? Das experiências da leitura, geralmente saímos transformados, ou porque assumimos nossos pontos de vista ou porque nos modificamos em função do “diálogo” com o(s) autor(es) do texto lido, isto é, interagimos não somente com o texto, mas com os sujeitos imersos neste.
Sabemos que as tarefas de leitura e escrita foram tradicionalmente atreladas ao ensino de Língua Portuguesa, e que as demais disciplinas não se sentiam diretamente implicadas nesse processo, mesmo quando atribuíam o mau desempenho de seus alunos a problemas de leitura e escrita. No entanto, como destaca Bortoni-Ricardo (2010), no ato da leitura com compreensão, o leitor tem que mobilizar conhecimentos estocados nas diversas áreas e disciplinas para dialogar competentemente com o texto;
entendendo-se a leitura como um processo sintetizador. Portanto, o desenvolvimento da competência leitora e escritora depende de ações coordenadas entre todas as disciplinas, pois o conhecimento vem embrenhado de informações vindas de diferentes fontes. Entende-se, enfim, que todo professor deve ser professor de leitura, visto que ler faz parte da aprendizagem.
Para apresentar esse professor letrador, retomamos as ideias de Antunes (2009). Para ela, a figura do professor é aquela que dá visibilidade ao ato de ler. Aquele que apresenta o livro, que expõe e lê o texto, analisa-o, fala sobre ele, traz notícias sobre os autores, sobre novas publicações; enfim, aquele que transita pelo mundo das páginas, que deixa o rastro de sua experiência de leitor. É o mediador, entre o aluno-leitor e o autor do livro.
Enfatizando, o professor letrador é aquele que convida o aluno a fazer parte do diálogo com o texto, os conhecimentos prévios de ambos são constituintes dessa conversa que possibilita não só sair da superfície das palavras, mas caminhar nas linhas e entrelinhas do texto. Nesse sentido, Sacristán (2000) indaga: Quem, a não ser o professor, pode moldar o currículo em função das necessidades de determinados alunos, ressaltando os seus significados, de acordo com suas necessidades pessoais e sociais dentro de um contexto cultural? O currículo pode exigir o domínio de certas habilidades relacionadas com a escrita, mas é trabalho do professor a sensibilidade de escolher textos que despertem no aluno o interesse pela leitura.
A essas considerações acrescentamos outras perguntas: Quais leituras têm norteado a sala de aula? O texto pronto do livro didático tem cedido espaço a outras experiências que requerem níveis de leitura mais sofisticados? Entende-se que a leitura acomodada entre parágrafos tem sido terra firme para muitos professores. Essa leitura inquilina de uma prática antiga não tem deixado extrapolar as paredes da sala de aula, nem convidado todos os atores desse cenário para o diálogo com o texto. Esse desafio parece não ter sido posto, ainda; esse encontro não foi promovido.
Como bem analisa Bortoni-Ricardo (2010), a escola tem apresentado dificuldades para ajudar seus alunos a construírem habilidades como ferramenta de apreensão do conhecimento. Contudo, quando os professores têm acesso a uma Pedagogia da Leitura, veem seu trabalho pedagógico bastante melhorado. A descrição de metodologias, a discussão de projetos e a partilha de experiências sustentam o trabalho pedagógico, cujo objetivo é tornar alunos leitores mais proficientes.
Sentir-se instigado e interrogar-se sobre o texto lido é visto, então, como um trabalho de mão dupla. Professor e aluno estão juntos nessa dinâmica, não é um caminho solitário, muitas mãos se dão na busca do entendimento do texto. Às vezes, é o professor que precisa construir pontes entre as palavras, mas, em outros momentos, janelas são abertas na leitura pelo olhar do aluno. Daí a singularidade desse ponto de encontro, na sala de aula. Histórias de vida, conhecimentos prévios, apreensões, suposições, implícitos, tudo concorre junto no alinhavo dos vazios do texto. A leitura vista nessa perspectiva faz a mediação entre professor e aluno, de fato ela dá a chance de eles se encontrarem no texto. Portanto, ler é um processo que se estende desde a habilidade de decodificar palavras escritas até a capacidade de compreender textos escritos. Portanto, a leitura e a escrita não são categorias polares, mas complementares: “ler é um processo de relacionamento entre símbolos escritos e unidades sonoras, e é também um processo de construção da interpretação de textos escritos. Tal como ocorre com as habilidades e conhecimentos de leitura, as habilidades e conhecimentos de escrita devem ser utilizados para produzir uma grande diversidade de materiais escritos: desde a simples assinatura do próprio nome ou a elaboração de uma lista de compras até a produção de um ensaio ou de uma tese de doutorado” (SOARES, 2003, p. 31-32).