Com base no relacionamento estabelecido entre as teorias que referenciaram a investi- gação e as escolhas feitas pela pesquisadora para a aproximação com o objeto de estudo, este trabalho pode ser caracterizado, mediante a adoção dos paradigmas identificados por Burrell e Morgan (1979), como uma abordagem de natureza subjetiva, cuja perspectiva ontológica ten- de ao construtivismo, já que a postura adotada aceita as “múltiplas realidades ou múltiplas verdades baseadas na construção da realidade e na sua constante transformação” (GODOI; BALSINI, 2012, p. 94), sendo o conhecimento dependente da percepção e da experiência hu- mana.
Dado que a investigação se pauta na perspectiva epistemológica de que o acesso à rea- lidade ocorre na dependência da mente humana e não da análise estatística, o estudo poderia ser enquadrado como interpretativista e não positivista (GODOI; BANDEIRA-DE-MELLO; SILVA, 2012; STRAUSS; CORBIN, 2008; SILVA; ROMAN NETO, 2012). Face às impli- cações dos pressupostos ontológico e epistemológico, a metodologia adotada é a ideográfica e a natureza da pesquisa pode ser definida como qualitativa por enfatizar os protocolos e a sis- tematização do processo e por fazer “referência a casos, à construção da realidade e à utiliza- ção de textos como material empírico” (FLICK, 2009, p. 83).
A pesquisadora optou por buscar os elementos para a compreensão dos eventos estu- dados com base no seu interior, nos pontos de vista e nas perspectivas dos diferentes sujeitos
e nas regras relevantes para o caso estudado (FLICK, 2009, p. 76), procurando compreender os agentes e os fatores que os levaram a atuar da forma como atuaram. Por esta razão os en- trevistados foram “ouvidos a partir da sua lógica e exposição de razões” (GODOI; BALSINI, 2012, p. 91), na condição de sujeitos da pesquisa.
A opção pela metodologia qualitativa acompanhou a tendência observada por Gree- nhalgh et al. (2004) para a análise organizacional e levou em consideração a escolha do tema, aceitando o argumento de McKinlay, citado por Flick, segundo o qual “na saúde pública, são os métodos qualitativos e não os quantitativos que levam a resultados relevantes no que diz respeito a temas e a relações sociopolíticas, devido à sua complexidade” (FLICK, 2009, p. 42).
A investigação teve finalidades explicativas, num recorte de caráter retrospectivo e longitudinal (FLICK, 2009), dado que compreendeu o período entre 2003 e 2010, o que de- mandou a realização do resgate histórico junto aos atores que participaram da fase inicial de implementação do programa. Por esta razão, face às características do estudo, foram adotadas como fontes registros documentais e entrevistas realizadas com atores escolhidos por sua par- ticipação, na condição de representantes das organizações envolvidas, dos processos decisó- rios que formataram o desenho programático do PPSUS ou que tiveram atuação gerencial na implementação do programa no período compreendido entre 2003 e 2010.
A investigação foi construída com a expectativa de atender demandas descritivas e ex- planatórias sobre os fatores presentes no contexto de formulação, de implementação e de ava- liação do PPSUS, aqui concebido como o “mundo físico e social, que interage com o texto para criar o discurso.” (GODOI; BALSINI, 2012, p. 98). As especificidades do contexto de formulação, de implementação e de avaliação adotados para a manutenção e a viabilidade do PPSUS foram analisadas com fundamento na premissa de que as estruturas criam o contexto para a ação/interação e dão “ritmo, compasso, forma e caráter” (STRAUSS; CORBIN, 2008, p. 175) aos processos, que, por sua vez, representam “a natureza dinâmica e evolutiva da ação/interação” (STRAUSS; CORBIN, 2008, p. 175), razão pela qual processo e estrutura foram considerados como interligados nesta análise.
A escolha do ano de 2003 para início do período estudado é devida ao momento da mudança na condução da Presidência da República, ocorrida em 2003, contexto que foi mar- cado por grandes expectativas no âmbito politico e institucional do país. O término do período de investigação em 2010 coincide com a finalização de um ciclo de poder e teve o objetivo de, ao não analisar fatos presentes, permitir aos entrevistados o oportuno distanciamento dos cargos e das posições ocupadas na condução do PPSUS no momento da entrevista. Contudo,
vale ressaltar que, apesar do cuidado que visaassegurar esse distanciamento temporal, três dos entrevistados permaneciam nas mesmas posições ocupadas durante o período estudado, mas face à importância das informações que detinham para a realização do estudo, foram mantidos no grupo de entrevistados. Entretanto, para evitar possíveis constrangimentos vinculados ao cargo, que pudessem interferir na espontaneidade dos relatos, foi adotada, e comunicada a todos os entrevistados, a decisão de não vincular as falas aos nomes dos entrevistados nas situações de transcrição literal de trechos das entrevistas.
O caráter interpretativo da abordagem assumiu materialidade em todas as etapas de condução da pesquisa, que contou com análises das entrevistas, triangulação entre os dados coletados por diferentes fontes, assim como o contraste e a comparação constante das desco- bertas feitas ao longo da investigação (FLICK, 2009, p. 375). A presença dos elementos inter- pretativos da abordagem foi assegurada mediante a “observação direta detalhada das pessoas no ambiente natural, a fim de chegar à compreensão e interpretação de como as pessoas criam e mantêm o seu mundo social” (GODOI; BALSINI, 2012, p. 94).
O modelo de construção teórica adotado para a investigação pode ser ainda compreen- dido mediante os modelos miméticos e do modelo circular do processo de pesquisa, descritos por Flick (2009), bem como do modelo condicional/consequencial, presente em Strauss e Corbin (2008).
De acordo com Flick (2009, p. 86), “a experiência cotidiana é traduzida em conheci- mento por aqueles que estão sendo estudados, enquanto os relatos dessas experiências ou eventos e atividades são traduzidos em textos pelos pesquisadores”. Assim, o processo de construção da realidade pressupôs as construções cotidianas e subjetivas da parte dos que fo- ram estudados e a construção codificada pela pesquisadora, que coletou, tratou, interpretou e apresentou suas descobertas com a finalidade de ampliar o conhecimento científico sobre os fatos. Desse modo, a pesquisa foi modelada sob o fundamento de que o conhecimento cientí- fico decorre de distintas abordagens e de diferentes processos de construção da realidade, cujo caráter subjetivo deve ser codificado “na coleta, no tratamento e na interpretação de dados, bem como na interpretação de descobertas” (FLICK, 2009, p. 86).
Segundo Flick (2009, p. 91), “a diferença entre a compreensão cotidiana e a científica na pesquisa qualitativa está na sua organização metodológica no processo de pesquisa”. Nesse sentido, a construção da investigação buscou contemplar o exame dos dados obtidos no pro- cesso de pesquisa documental e em arquivos gerenciais do programa, aos quais foram agrega- dos os elementos teóricos e práticos presentes nas experiências apresentadas pelos entrevista- dos (FLICK, 2009, p. 86). O processo de leitura, interpretação e compreensão das entrevistas
realizadas pela pesquisadora pode ser definido como um processo ativo de “produção da rea- lidade” (FLICK, 2009, p. 86), que se situa “como a interação da construção e da interpretação de experiências” (FLICK, 2009, p. 87). Flick (2009) denomina de miméticos os modelos que envolvem a compreensão prévia, a interpretação, a construção e a compreensão, como “pro- cesso ativo de construção, envolvendo aquele que compreende”. O encadeamento das etapas que compuseram a investigação aproximou-se do modelo circular do processo de pesquisa, descritos por Glaser e Strauss, e que se encontra reproduzido em Flick (2009).
A metodologia de aproximação com o ambiente teve caráter indutivo, sem que tenha havido teste de hipóteses. Embora a investigação tenha se pautado por três proposições inici- ais, que em muito contribuíram para a construção dos instrumentos de pesquisa, prevaleceu a ideia de que a teoria emergiria do trabalho de campo, alicerçado na reflexão e na comparação feita com os dados obtidos (GODOI; BALSINI, 2012, p. 96). Assim, o termo hipótese foi substituído por proposição, para evitar confusões com o uso do mesmo termo, que ocorre na condução de estudos quantitativos.
O modelo condicional/consequencial usado nesta pesquisa (STRAUSS;CORBIN, 2008) busca apreender as interações existentes entre os processos, as estruturas (condi- ções/consequências) e a natureza dinâmica evolutiva dos fatos. Este modelo adota como pre- missa que a contextualização dos fenômenos estudados envolve a construção de um “relato sistemático, lógico e integrado, que inclui especificação da natureza das relações entre fatos e fenômenos relevantes” (STRAUSS; CORBIN, 2008, p. 178). Para o estudo de um caso como, por exemplo, o do PPSUS, o modelo condicional/consequencial propõe a compreensão de um conjunto de ideias, que podem contribuir para a compreensão das interações (processos), com condições/consequências (estrutura) e a natureza dinâmica evolutiva dos fatos.
De acordo com Strauss e Corbin (2008), as ideias que contribuem para o modelo con- dicional/consequencial são: (i) as condições e consequências não estão sozinhas; (ii) a distin- ção entre macro e micro é artificial; (iii) condições e consequências geralmente existem em grupos e podem se associar ou covariar de muitas formas diferentes, umas com as outras e também com as ações/interações relacionadas; (iv) a ação/interação não está confinada às pessoas; ao contrário, pode ser executada por nações, por organizações e mundos sociais, e também pelas pessoas dentro dessas instituições que representam nações, organizações e mundos sociais.
O ideário proposto por Strauss e Corbin (2008) prevê um quadro de análise composto por padrões de conectividade múltiplos e diversos que, todavia, demandam a realização de
escolhas analíticas capazes de contemplar apenas as associações consideradas pertinentes e capazes de explicar os acontecimentos relativos ao caso estudado.