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Sexual violence

In document Rape and Torture (sider 41-44)

A investigação foi estruturada com fundamento na estratégia de estudo de caso, num formato que procurou contemplar aspectos de caráter descritivo, exploratório e explicativo (GODOI; BALSINI, 2012; YIN, 2014) sobre o tema da avaliação de resultados em políticas públicas de fomento à C&T.

A escolha pelo estudo de caso teve diferentes motivações. Uma delas decorre da ampla utilização de estudos de caso em análises organizacionais, o que indica sua “pertinência e re- levância” (GODOY, 2012, p. 143) para estudos realizados na área da administração e da ges- tão pública.

A opção pelo caso do PPSUS decorreu não apenas das reflexões originadas no exercí- cio da prática e do cotidiano profissional da pesquisadora, mas agregou questionamentos de natureza teórico-conceitual que tangenciam o tema da avaliação de políticas públicas de fo- mento à C&T. Estes questionamentos relacionam-se particularmente ao uso do conhecimento científico na gestão da saúde e às relações que se estabelecem entre o conhecimento em ges- tão e as práticas de gestão (SOUZA; CARDOSO, 2012). Assim, o desenho da pesquisa não se propõe a avaliar o PPSUS, mas se inscreve numa proposta de explorar o cenário no qual o programa foi desenhado e implementado, procurando compreender como as relações existen- tes entre o seu desenho, expressas na sua institucionalidade, no formato da coordenação inte- rorganizacional e na especificidade do programa, explicam a ausência de avaliações de resul- tados.

A investigação procurou contemplar a contribuição discursiva de atores que participa- ram da concepção e da implementação do PPSUS, voltando-se para os processos que configu- raram o contexto da formulação e da implementação do programa (GODOY, 2012). Apesar do caráter único do programa sob investigação, a análise atentou para a oportunidade de com- paração entre as leituras (FLICK, 2009) provenientes das quatro organizações representadas no estudo: o Departamento de Ciência e Tecnologia (DECIT), do MS; o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), as Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) e as Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde (SES e SMS), representadas pelo

Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS) e pelo Conselho Nacional de Secretá- rios Municipais de Saúde (CONASEMS). Desse modo, foram observadas as possibilidades de exploração do fenômeno no que tange ao rastreamento dos processos de mudança, as pressões contextuais e a dinâmica dos grupos de atores, “na aceitação ou oposição a tais processos, em uma ou mais organizações, ou em grupos específicos no seu interior” (GODOY, 2012, p. 121).

A construção do desenho da pesquisa considerou o uso de quatro fontes de evidências, nas quais os dados foram coletados: (i) levantamento documental; (ii) pesquisa em registros, arquivos e sites governamentais; (iii) realização de entrevistas semiestruturadas; e (iv) obser- vação não participante (GODOY, 2012).

O levantamento documental incluiu a realização de pesquisas em bancos de dados ge- renciais e a realização de consultas a textos normativos, como Portarias e Leis, arquivos, sites governamentais, além de relatórios de conferências setoriais e intersetoriais. O acesso aos documentos institucionais ocorreu mediante pesquisa in loco ou mediante buscas realizadas em sites governamentais e institucionais. Os documentos governamentais consultados durante a investigação foram considerados como uma “forma contextualizada da informação” (FLICK, 2009, p. 234), representando versões específicas e tendo sido, portanto, construídos com objetivos específicos.

As entrevistas realizadas foram do tipo semiestruturado (FLICK, 2009; MANZINI, 2012), com a participação de dezesseis atores/especialistas que estiveram diretamente envol- vidos com a formulação e a implementação do PPSUS no âmbito federal e sub-nacional no período estudado. Vale registrar que todos os entrevistados têm curso de pós-graduação, sen- do que nove deles possuem titulação de doutor, ou realizaram pós-doutorado, em áreas relaci- onadas à gestão de políticas de saúde, dos quais três conduziram projetos de pesquisa sobre a avaliação de políticas de ciência e tecnologia em saúde (C&T/S) e a incorporação de resulta- dos de pesquisa ao setor saúde.

A decisão de contar com entrevistados detentores de um grau elevado de conhecimen- to formal sobre o tema pesquisado representou alguns riscos para a condução das entrevistas, descritos na literatura (FLICK, 2009; GODOI; MATTOS, 2012) como riscos de bloqueio do roteiro ou de tentativas de envolvimento do entrevistador em conflitos alheios ao objeto da investigação, além da realização de entrevistas de retórica, nas quais os especialistas pales- tram sobre o que sabem, sem “participar do jogo de perguntas e respostas da entrevista” (FLICK, 2009, p. 158). Entretanto, talvez pela prévia atuação da pesquisadora em atividades relacionadas ao tema sob investigação, que é uma condição de sucesso também prevista na

literatura para elencos de entrevistados com esse perfil (STRAUSS; CORBIN, 2008; OLI- VEIRA; FREITAS, 2012) a aplicação das entrevistas não enfrentou os problemas descritos.

A opção pela realização de entrevistas representou uma escolha financeiramente mais onerosa em relação ao envio de questionários ou a realização de grupo focal, por demandar a contratação de duas transcritoras especializadas, além de requerer maior dispêndio de tempo para aplicação e análise do que outras técnicas2. Contudo, a decisão pela realização de entre- vistas decorreu do reconhecimento de que seria a modalidade mais adequada ao tema propos- to, dado que as respostas para as perguntas e os objetivos pretendidos pela investigação seri- am mais dificilmente obtidos por meio da utilização de outras técnicas de observação isoladas ou coletivas.

A razão que determinou a decisão do uso de entrevistas foi a concordância com a con- cepção de que essa técnica tem se mostrado adequada aos estudos de fenômenos com uma população específica, assim como a concepção de que há maior adesão das pessoas para acei- tar participar de entrevistas do que para responder a questionários, especialmente quando exis- te algum tipo de proximidade profissional entre o entrevistador e os entrevistados3. De acordo com Boni e Quaresma (2005) a proximidade pesquisador-entrevistado deixa os convidados para participar de estudos mais seguros e colaborativos. Além disso, no cálculo dos fatores que determinaram esta opção, pesou a opinião de Flick (2009) de que é mais provável que os sujeitos entrevistados expressem seus pontos de vista em entrevistas do que quando submeti- dos à aplicação de questionários. Por fim, embora as técnicas coletivas sejam recomendadas para investigação na área de gestão, a exemplo do que ocorre com os grupos focais, sua apli- cação neste caso enfrentaria dificuldades (OLIVEIRA; FREITAS, 2012) relacionadas à com- plexidade das agendas dos entrevistados e ao fato de que cinco deles atualmente residem e trabalham fora de Brasília.

A utilização de um roteiro semiestruturado, com questões abertas (Anexo 1), apresen- tou a vantagem de possibilitar a inserção de questões adicionais nas situações nas quais o rela- to do entrevistado indicou a necessidade de que fossem esclarecidos aspectos que não ficaram suficientemente claros na abordagem inicial. As entrevistas semiestruturadas permitiram mai- or elasticidade na duração do tempo passado com os entrevistados, o que também favoreceu o aprofundamento sobre determinados assuntos (MANZINI, 200?). Outra vantagem a ser real- çada no uso do roteiro semiestruturado foi a garantia de que o conjunto de perguntas previsto

2 Há autores que designam as entrevistas como métodos, outros como instrumentos de pesquisa e outros como

técnica (MANZINI, 2012).

para ser feito aos entrevistados seria, de fato, feito. Essa condição revelou-se bastante efetiva durante a realização do estudo, contribuindo sobremaneira para a comparabilidade das respos- tas no momento de realização da análise dos conteúdos (MANZINI, 2012). Mesmo que algu- mas das vantagens descritas também pudessem estar presentes em entrevistas não estrutura- das, essa modalidade de entrevista, que tem início com uma pergunta geradora, sem que o pesquisador controle o fluxo das informações prestadas pelo entrevistado, foi preterida por ser considerada difícil de ser manejada por uma pesquisadora menos experiente, como era o caso (MANZINI, 2012).

As entrevistas foram gravadas em meio magnético e transcritas, como forma de regis- tro que visou assegurar “a autenticidade das falas do entrevistado e credibilidade científica para o processo de análise dos dados” (MANZINI, 2012, p. 160).

Durante o processo de planejamento, de realização e de análise das entrevistas foi mantida a clareza de que os relatos obtidos representavam as opiniões, concepções, percep- ções, interpretações e as versões do mundo dos entrevistados sobre os fatos e acontecimentos que estão no foco da investigação (STRAUSS; CORBIN, 2008; FLICK, 2009; GODOI, 2012; MANZINI, 200?). Cabe ainda precisar que, para os fins da presente investigação, o termo discurso corresponde à “linguagem posta em ação, a língua assumida pelo falante, sendo, por- tanto, sinônimo de fala” (ALVES; BLIKSTEIN, 2012, p. 405), representando a maneira pela qual o conteúdo é transmitido e “como” a história é mostrada (ALVES; BLIKSTEIN, 2012, p. 406). A análise das entrevistas envolveu a validação das interpretações, sendo considerada como um processo dependente da “coerência argumentativa; da razão, da consistência e da honestidade do teórico; da adequação à comunidade em que se realiza; dos objetivos sociais da interpretação” (GODOI, 2012, p. 394).

No desenvolvimento da investigação, a pesquisadora também participou de eventos setoriais, na condição de observadora-investigadora, na modalidade caracterizada como ob- servação não participante (FLICK, 2009; GODOI; BALSINI, 2012). A aplicação da técnica da observação não participante como uma das ferramentas de obtenção de elementos de análi- se adicionais sobre o programa justificou-se pela oportunidade de observação dos representan- tes das organizações que integram a coordenação do programa em espaços públicos4, nos quais ocorreram os eventos como uma atividade natural dessas organizações. Esta condição

4 Os eventos citados são: (i) A gestão da propriedade intelectual pelasinstituições de fomento à ciência, tecnolo-

gia e inovação, realizado pelo MCTI, em Brasília, em agosto de 2012; (ii) Ciência, Tecnologia e Inovação no SUS. Integração entre conhecimento científico e políticas de saúde, realizado pelo MS, em Brasília, em 2013;

(iii) Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Resultados e avanços da pesquisa estratégica para o SUS, reali- zado pelo MS, em Brasília, no período de 12 a 14 de novembro de 2014.

foi adotada como complementar à coleta de depoimentos nas entrevistas porque, a priori, fa- voreceria maior autenticidade comportamental dos participantes da implementação do PPSUS (FLICK, 2009).

Os dados obtidos durante a análise documental, a realização das entrevistas e a obser- vação não participante foram submetidos a sucessivos processos de validação e de triangula- ção, repetidos sempre que necessário ao longo do desenvolvimento da investigação e da reda- ção do texto final. A triangulação é um processo descrito e recomendado por vários autores (FLICK, 2009; MACLE, 2012; YIN, 2014). Macle (2012) identifica quatro tipos de triangula- ção: de dados, do investigador, da teoria e da metodologia, cujo objetivo comum a todos eles consiste em avaliar as informações obtidas durante o processo investigativo, no sentido de minimizar possíveis vieses, sendo designada como “a combinação de diversos métodos, gru- pos de estudo, ambientes locais e temporais e perspectivas teóricas distintas para tratar de um fenômeno” (FLICK, 2009, p. 361).

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