1. Introduction
6.2 The seawater cooling system and firewater system
Ao serem solicitados a descrever as suas ações de cuidado ao PD em ME, a maioria dos participantes referem que eles recebem os mesmos cuidados que os outros pacientes, conforme se observa nos depoimentos:
Os cuidados que são realizados são cuidados normais que tem diariamente como se fosse qualquer outro paciente. Eu acho que é como se seguisse uma rotina. Tanto os pacientes a gente acaba fazendo a mesma coisa de acordo com que está solicitado para cada um. (T9)
Os cuidados de enfermagem são sempre os mesmos. A gente prefere... A gente é... Decide não diferenciar de um paciente para o outro, independendo dele ser [...] Está em morte encefálica ou não. (T5)
Os cuidados de enfermagem é igual com o que eu faço com os outros os pacientes. Eu não tenho, não faço nenhuma diferenciação, certo? De a... Faço tudo de acordo com a prescrição médica. (T8)
Os cuidados são os cuidados básicos de um paciente de UTI [...] Os cuidados gerais. (E3)
Ao referir-se ao cuidado realizado como uma rotina a ser seguida, é possível identificar uma das características do cuidado de enfermagem nas UTI. Nascimento e Trentini (2004, p. 251) citam que neste setor onde a vida dos pacientes está em constante risco, seja pelas suas condições fisiopatológicas ou pelos procedimentos invasivos que ali são realizados, percebe-se uma predominância do modelo assistencial
biomédico na orientação das ações de enfermagem, de modo que ao cuidar a enfermagem se orienta por rotinas e procedimentos cuidadosamente elaborados e embasados cientificamente.
Esses depoimentos ainda denotam o pensamento dos profissionais de que essa ação automática de cuidar se realiza de forma padronizada a todos. Ou seja, não há uma consideração do indivíduo PD sob seus cuidados e seu estado. Pode-se observar, assim, que a ação se realiza sem reflexão acerca do receptor de seus cuidados.
Outro aspecto do cuidado ressaltado pelos participantes diz respeito ao controle das funções fisiológicas dos pacientes, através da monitorização contínua dos sinais vitais, instalação e controle da vazão das drogas vasoativas de acordo com os sinais encontrados, administração de medicamentos, controle rigoroso das perdas e ingestas hídricas, conforme demonstram as falas:
O principal é uma manutenção dos sinais vitais... Com... Verificação assim, de duas em duas horas. Se ele estiver fazendo uso de drogas que, normalmente, ele faz né? Uso de nora, de dopa. Sempre manter aquela vazão de acordo com os sinais vitais e de acordo com que o médico também fala né? (T4)
A questão da hidratação porque a gente tem que ser bem criterioso com a hidratação. Porque geralmente, esses pacientes de doação, potencial doadores, tem uma hidratação com volume bastante elevado. A questão da diurese, o débito urinário, porque para eles, principalmente, se ele for ser potencial doador de rins, a função renal tem que ‘tá’ boa. (E1)
[...] Uma atenção maior em relação à temperatura porque pode ser algum
sinal de infecção que pode é... Requerer a... É... A infusão de antibióticos né? A gente sempre tem uma atenção maior para repassar para os médicos pra eles terem um controle maior, pra ter um cuidado em relação, assim, uma profilaxia né? Pra o possível receptor não ter nenhuma complicação. (T18)
Em relação à administração de medicamentos, além de citarem o uso das drogas vasoativas (dopamina e noradrenalina) e a manutenção dos antibióticos, citam o uso da arginina-vasopressina (DDAVP) na correção da poliúria, bem como é feita a correção dos eletrólitos:
A questão da diurese. Você tem que observar porque se tiver com débito... O débito urinário muito elevado a gente já tem que também ver com o pessoal da, da OPO, pra ver já, as... Condições de uma medicação que no caso se usa o DDAVP. (E1)
O controle rigoroso da diurese, porque dependendo do que o paciente venha ter tido, para que ele tenha chegado à morte encefálica. Ele pode ter um... Um
volume de urina grande. Então, isso vai trazer prejuízos pra ele também com a queda de eletrólitos [...] (T11)
Estas falas dos participantes evidenciam o conhecimento da fisiologia da morte encefálica, na qual o diabetes insipidus é o distúrbio endócrino mais comum nos pacientes em ME. Provoca uma grande perda renal de água livre e elevação dos níveis séricos do sódio. Requer da enfermagem uma atenção para o controle rigoroso da diurese e da pressão, a fim de identificar a hipovolemia de modo que os índices de diurese se mantenham entre 100 a 300 ml/hora, o sódio abaixo de 150 mEq/L e a pressão arterial média em torno de 100 mmHg. Para isso, além da administração de soluções hipotônicas, muitas vezes é necessário reposição hormonal. (RECH; RODRIGUES FILHO, 2007a).
A arginina-vasopressina tem sido considerada como agente de escolha para tratamento da diabetes insipidus, porque, além do seu efeito antidiurético, tem potente efeito vasoconstritor contribuindo para a melhora da função dos enxertos renal, pulmonar e cardíaco, razão pela qual alguns autores recomendam seu uso como fármaco vasopressor de primeira escolha no manuseio de potenciais doadores. (RECH; RODRIGUES FILHO, 2007a; WESTPHAL et al , 2011).
Na presença de infecção bacteriana deve ser obedecido o seguinte critério de seleção para o doador falecido: com consentimento pós-informado do receptor e são considerados viáveis aqueles cujo processo infeccioso é localizado ou de origem primária não renal, incluindo-se infecção do sistema nervoso central. As infecções sistêmicas são descartadas. Nestes casos, a Organização de Procura de Órgãos (OPO) deverá colher material de secreções para cultura ou para diagnóstico específico. (SOCIEDADE BRASILEIRA DE NEFROLOGIA, 2001).
Ao relatar uma preocupação com a temperatura como um indicador de infecção este técnico de enfermagem evidencia o conhecimento científico. Ferreira (2007, p. 70) traz que além do conhecimento científico, também estão explícitos o saber individual, conforme conceituado por Carper (1978) devido ao fato que foi adquirido através da busca pessoal por meio de estudo e pesquisa, caracterizando, assim, uma aprendizagem concreta.
É possível, também, visualizar o aspecto ético do cuidado na preocupação com o paciente que irá receber aquele órgão, evidenciado pela conscientização de que ao fazer o que é correto, essas ações de cuidado refletem não só no PD em ME, mas também no receptor.
Os participantes referem que mesmo que este paciente esteja em ME, os cuidados relacionados ao corpo, tais como higiene corporal e oral, massagem de conforto, mudança de decúbito, troca de roupa de cama, troca de fraldas e aspiração de secreções é essencial para a sua preservação e integridade, favorecendo a doação, conforme suas falas:
Bem, como eu trabalho pela manha, e de manha a gente sempre dá os banhos, então, este paciente também ele é higienizado. É cavidade oral, é... É barba, né? Faz tricotomia, faz higiene corporal. É assim, basicamente isso, dá os cuidados é... Que é para todo paciente. (T2)
A higienização corporal, higienização oral, é... Hidratação da pele com uso de hidratantes, fazendo massagem de conforto, aspiração, é... Troca de lençóis de cama, lençol cobertor, fraldas [...] (T7)
Limpinho para evitar infecções. (T8)
Estas ações revelam que ao cuidar a enfermagem se orienta por técnicas básicas próprias visando o conforto e bem-estar do paciente, as quais são possíveis de observar através das suas ações relacionadas ao cuidado com o corpo. No entanto, estas ações não visam unicamente o conforto do paciente, mas também, oferece segurança de modo que uma pele limpa e seca evita que se formem portas de entrada para infecção.
Assim, ao realizar atividades com zelo e capricho denotam uma atitude de desvelo, de preocupação e inquietação pelo bem do ser cuidado, e transmite à família segurança e tranquilidade, pois percebe que o seu ente enfermo está recebendo os cuidados que precisa para a sua recuperação ou mesmo o conforto necessário para que evolua ao óbito com dignidade.
De modo que, o contrário leva os familiares a entenderem que há um descaso com o ser cuidado que os fazem se sentirem impotentes e angustiados, e contribui para que desperte sentimentos de insatisfação, tristeza e revolta diante da qualidade da assistência. No caso do PD em ME, este fato influencia na decisão da família sobre a doação. (DEL AGNOLLO et al, 2009).
Assim, em uma ação aparentemente simples como um banho, é possível emanar uma atitude na qual a arte de enfermagem seja visualizada. Ao realiza-lo de acordo com técnicas que favoreçam a sua eficácia põe em evidência o aspecto estético do cuidado, no qual a arte da enfermagem está representada, de modo que ao cuidar meios e fins sejam visualizados. (CESTARI, 2003).
Para isso a criatividade, a sensibilidade e a intuição associadas à habilidade manual, a experiência e ao conhecimento se integram na ação de cuidar em prol do ser cuidado, mesmo que este não participe de seu plano terapêutico. (CESTARI, 2003).
Assim, no padrão estético é possível identificar outros padrões de conhecimento como o ético e o pessoal, sugere, portanto, que ao realizar uma ação o sujeito lança mão de vários padrões de conhecimento para orientar esta ação. (CESTARI, 2003).
Ao citar que ao manter o paciente limpo evita infecções, um técnico de enfermagem (T8) exemplifica uma ação mediada pela reflexão, considerando-se que a higiene é fundamental para evitar infecções, e que de acordo com o grau e localização das mesmas, estas se classificam como uma contraindicação médica para o transplante. Assim, pode-se considerar que a mesma tem conhecimento sobre o tema infecção e suas consequências para o PD e o futuro receptor e aplica este conhecimento para orientar-se em sua prática.