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2.   Historical Background and Nation-Building

2.7   The Road Ahead

Nos Estados Unidos, diversos setores da economia e da política erguiam suas vozes contra o governo de Jânio Quadros, a TIME era um deles. No entanto, apesar dessas discordâncias, inclusive muitas delas advindas do próprio Departamento de Estado, o qual propunha um “endurecimento com Jânio pelas suas atitudes desafiantes, havia uma concordância entre a maioria dos assessores de Kennedy de que não se poderia deixar de apoiar as medidas saneadoras do novo governo brasileiro, sob o risco de incorrer em grave erro político.”476 Nesse sentido podemos dizer que havia a possibilidade de se apostar em

Quadros.

A TIME voltou a comparar Jânio e Kennedy em abril de 1961. De forma irônica atribuiu a esta comparação uma espécie de esporte. O exercício consistia em ‘assistir’ e depois ‘comparar’. Apesar do olho republicano da revista, o papel de Kennedy era tão claro como o de Jânio, ou seja, absorver a América Latina nos limites do seu programa de governo, as Novas Fronteiras.

Um dos esportes mais intrigantes da América Latina nas últimas semanas foi assistir aos Presidentes mais novos e mais jovens do Hemisfério Ocidental, presidindo as duas nações mais populosas e como dimensionar um e o outro. O Presidente Kennedy, estava claramente ansioso para encurralar a América Latina para dentro de sua Nova Fronteira. 477

Ironizando Kennedy, a TIME também sugeriu que Jânio já tinha uma fronteira traçada, englobando os próprios EUA! Por fim, a política independente, um dos alvos da revista, parecia significar um distanciamento em relação aos EUA e uma real aproximação com os comunistas.

O presidente do Brasil, Jânio Quadros, de 44 anos de idade, estava muito ansioso para mapear sua própria Nova Fronteira – na qual a presença dos Estados Unidos seria ainda maior. Embora declarando-se irrevogavelmente pró-ocidente, Quadros distanciou-se bruscamente dos EUA em relação a China Vermelha na ONU, ele também deixou de lado todos os convites para cooperar contra Fidel Castro, e flertou

476BARBOSA, op cit, p. 123-124

477One of Latin America's most intriguing spectator sports over the past weeks has been watching the Western

hemisphere's newest and youngest Presidents, presiding over its two most populous nations, as they size each other up. President Kennedy, was plainly anxious to corral Latin American support for his New Frontier. jTime Magazine: Brazil: U.S. Bet On Quadros – 14-04-1961.

com o bloco soviético.478

TIME se voltou, por um momento, para o presidente Kennedy. Com o título da reportagem EUA aposta em Quadros, ela deu a atender que não concordava com essa aposta. O impasse de Kennedy, segundo a revista, seria se os EUA consideravam Jânio Quadros inimigo ou não. Até que ponto Kennedy poderia confiar na neutralidade de Jânio?

A questão era se Quadros podia ser considerado um adversário ou dar-lhe a chance, apesar de toda sua neutralidade, de que ele estava do lado certo. 479

Naquele mês (abril de 1961), Jânio se encontrou com o secretário do Tesouro americano, Clarence Douglas Dillon, que viajava para o Brasil para uma segunda reunião do Conselho de Governadores do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Dillon, juntamente com MacNamara, eram os dois republicanos no gabinete de Kennedy, sendo que o primeiro “tinha sido subsecretário de Estado de Eisenhower, o que lhe tinha proporcionado certa vivência dos problemas latino-americanos.”480 Ao contrário do que acontecera com Berle,

Dillon foi muito bem recebido. O secretário “discorreu sobre a disposição americana em ajudar nas negociações para a rolagem da dívida brasileira e que sua política corajosa de estabilização monetária era admirada em Washington.”481 Nesse sentido, os Estados Unidos,

segundo o secretário, iriam se empenhar junto aos credores europeus para ajudar o Brasil. Segundo Barbosa, os europeus consideravam importante conhecer a posição dos Estados Unidos para tomá-la como referência em suas decisões.482

Kennedy optou por apostar em Quadros e, de acordo com a TIME, os EUA depositariam novos recursos num país cujo presidente era dotado de uma grande excentricidade. A revista não poupou adjetivos e mencionou que o empréstimo de Kennedy foi, até aquele momento, o maior da história feito a uma nação latino-americana. Neste caso, a crítica subjacente da revista se pautou na maior aposta que os EUA já fizeram no Brasil. Talvez a revista ainda se perguntasse: por que naquele momento?

478Brazil's Jânio Quadros, 44, was just as eager to map out his own new frontier — in which U.S. influence

would loom less large. While declaring himself irrevocably pro-West, Quadros veered sharply away from the U.S. stand on Red China in the U.N., brushed aside all invitations to cooperate against Fidel Castro, and flirted with the Soviet bloc. Time Magazine, loc. cit..

479The question was whether to regard Quadros as an adversary or to take a chance that, for all his neutralism,

Quadros was on the right side. Time Magazine, loc. cit..

480BARBOSA, op cit, p. 125 481Ibid., p. 126

Na semana passada, Kennedy fez a sua escolha: colocar seu dinheiro no novo líder do Brasil. Na convicção de que Quadros, apesar de toda a sua excentricidade nos assuntos externos, favorece um Brasil economicamente viável e, portanto, saudável, Kennedy aprovou a participação dos EUA em um programa de ajuda internacional para o Brasil, que classifica como o maior pacote de empréstimo de concessão jamais dado a uma nação latino-americana. A soma em discussão: US$ 500 milhões, com mais ainda para vir. 483

A aposta, segundo a revista, era para ajudar na solução da dívida brasileira. A ida do secretário Douglas Dillon ao Rio de Janeiro referendava a ajuda.

O único anúncio formal de Washington foi uma breve declaração do secretário do Tesouro C. Douglas Dillon observando que o Brasil precisa de novos fundos para o desenvolvimento e consolidar a sua esmagadora dívida. Esta semana, o secretário irá ao Rio para uma reunião do conselho do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Com os planejadores brasileiros, ele vai começar a trabalhar os detalhes do programa de ajuda.484

No trecho seguinte, a revista apresentou uma breve trégua a Jânio. Ao contrário de Juscelino que, segundo a TIME, levou o Brasil à dívida e negava-se a aceitar propostas do FMI, Jânio fez o caminho inverso, mesmo sofrendo ‘chiados’.

As despesas do Brasil, numa crescente espiral, sem uma considerável ajuda externa desde 1959, se deram devido à recusa do presidente Juscelino Kubitschek em dar um fim em suas agressivas despesas e de não aceitar as recomendações do Fundo Monetário Internacional por austeridade deflacionária. Quadros está preparado para aceitar os termos do FMI. Ele já introduziu reformas monetárias drásticas, as quais tem como efeito a elevação dos preços através do fim dos subsídios às commodities tais como pão (77%) e da gasolina (até 80%). Ele demitiu 35.000 funcionários do governo, e reduziu em 30% o salário dos funcionários do alto escalão público. O resultado foi um barulhento chiado ameaçando as determinações de Quadros para estabilizar a economia.485

Para a TIME, a excentricidade era uma das grandes marcas de Jânio. O leitor da

483Last week Kennedy made his choice: to put his money on the new man in Brazil. In the conviction that

Quadros, for all his eccentricity in foreign affairs, favors an economically sound and therefore healthy Brazil, Kennedy approved U.S. participation in an international aid program for Brazil that ranks as the biggest loan- grant package ever given a Latin American nation. The sum under discussion: $ 500 million, with more to come. Time Magazine, loc. cit.

484Washington's only formal announcement was a brief statement by Treasury Secretary C. Douglas Dillon

noting that Brazil needs new funds for development and to consolidate its crushing debt. This week the secretary goes to Rio for a board meeting of the Inter-American Development Bank. With Brazilian planners, he will start working out the details of the aid program. Time Magazine, loc. cit.

485Brazil, its costs spiraling higher and higher, has been without substantial foreign aid since 1959, when ex-

President Juscelino Kubitschek refused to end his wild spending and to accept International Monetary Fund recommendations of deflationary austerity. Quadros is prepared to accept IMF terms. He has already introduced drastic currency reforms that have, in effect, raised prices by ending subsidies on the retail price of such commodities as bread (up 77%) and gasoline (up 80%). He has fired 35,000 government employees, and slashed the salaries of upper-rank government employees 30%. The result has been noisy grumbling that threatens Quadros' determined drive to stabilize the economy. Time Magazine, loc. cit.

revista estava diante do presidente de um país importante e que, na frente de uma TV, executava as mais incríveis encenações teatrais. Para a TIME, tudo isso era feito apenas para não perder a admiração do povo ao mesmo tempo em que o fazia sofrer.

Naquela mesma noite, durante 100 minutos na televisão, Quadros usou toda sua habilidade política para expor o seu ponto de vista. Ele gritou, sussurrou, sacudiu seu cabelo. Enfatizando os pontos principais da sua a vitória eleitoral, a maior da história do Brasil no ano passado - sua honestidade inquestionável - ele lembrou os brasileiros que ele não tinha prometido milagres. "Eu prometi um governo honesto, um governo justo, um governo forte, um governo de sacrifícios". 486

Qual seria o sentido de tratar a inflação como um vetor para a ditadura? Tal fato nos parece antecipar 1964. Jânio Quadros, segundo a reportagem, executava essa possibilidade. Ao mesmo tempo, não poupava o fato de que ditaduras não escolhem cor partidária ou ideológica.

Ele prometeu reformas fiscais - um excessivo imposto sobre os lucros, uma lei antitruste e limites para remessa de lucros de empresas estrangeiras. Mas ele guardou o seu mais pesado ataque para o assunto da inflação que segundo ele “é a razão pela qual muitas democracias desapareceram. Elas se tornaram ditaduras de direita ou de esquerda, estados comunistas. Enquanto eu viver, isso não vai acontecer com esta república, não comigo no governo’’.487

486That same evening, for 100 minutes on television, Quadros used every trick in the Brazilian political book to

get his point across. He shouted, whispered, tossed his hair. Emphasizing one of the major points that won him the greatest electoral majority in Brazilian history last year — his undoubted honesty — he reminded Brazilians that he had not promised miracles. "I promised an honest government, a just government, a hard government, a government of sacrifices." Time Magazine, loc. cit.

487He promised reforms — an excess-profits tax, an antitrust law, limits on profit remittances of foreign

companies. But he saved his heaviest thunder for his theme that inflation is the reason "many democracies have disappeared. They became dictatorships of the right or of the left, Communist states. As long as I live, that will not happen to this republic, not with me in the government." Time Magazine, loc. cit.