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3. Institutional framework

3.1. The regulation of corporate governance

“O universal pelo regional”. Assim diz o lema da Universidade Federal do Ceará desde a primeira gestão do Reitor Antônio Martins Filho, iniciada com a instalação da instituição em 195583. Tal lema expressa o comprometimento da instituição com o papel social de expandir o ensino, a pesquisa e a extensão para assim produzir conhecimento, arte e cultura acessíveis à comunidade. Para isso, a UFC propõe que a sua produção acadêmica valorize os saberes locais/regionais, no sentido de constituir uma identidade própria da instituição, buscando-se assim alcançar o reconhecimento junto à comunidade (acadêmica e não acadêmica).

Durante o processo de formação e afirmação do Coral da UFC, na década de 1960, com o regente Orlando Leite, e ainda durante a década de 1970, com a regente Katie Lage, a lógica desse lema estava invertida. Podemos considerar que o grupo (seus regentes) ainda não apresentava uma visão clara de como tornar concreto por meio da atividade coralista, a divisa da Universidade, pois o coro assumia uma referência estética musical que partia, na realidade, do universal para o regional.

A primeira formação coral na UFC foi o Madrigal da Universidade do Ceará84, sob a regência do Maestro Orlando Vieira Leite. Na época, o Maestro era diretor do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno, e no final de 1958 começou a selecionar

83A criação da Universidade do Ceará (atualmente Universidade Federal do Ceará), com sede em Fortaleza, deu- se em 16 de dezembro de 1954, através da lei no 2.373, sancionada pelo Presidente João Café Filho e referendada pelo Ministro Cândido Mota Filho. Após inúmeros procedimentos legais, em 1955 foi definitivamente instalada.

84Segundo Schrader (Ibidem, p.89): “Até o momento o termo ‘Federal’ não aparecia junto ao nome da universidade. Somente a partir do final do ano de 1966 são encontrados documentos com a abreviação UFC (Universidade Federal do Ceará)”.

vozes para compor um Madrigal que, em abril do ano seguinte, em recital realizado na cidade de Sobral/CE, seria batizado com o nome de Madrigal do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno. “Com o Madrigal do CMAN Orlando Leite inicia também um projeto mais direcionado à Universidade através de recitais para alunos e professores nas diversas faculdades e centros da instituição” (SCHRADER, Ibidem, p. 64). Posteriormente, segundo Schrader (Ibidem, p. 79), após a criação do Curso de Canto Coral85, em 1963 começou a surgir nas matérias de jornal o nome Madrigal da Universidade do Ceará. Com a constante atuação do grupo representando a Universidade em diversos eventos e solenidades, o Madrigal do CMAN passaria a ser chamado de Madrigal da Universidade do Ceará.

Segundo depoimento de ex-coralista , o Madrigal apresentava

[...] um repertório de música erudita, de compositores contemporâneos, de compositores clássicos como Mozart, Bach, Beethoven, Brahms. Mas também compositores brasileiros86. Havia uma profusão de composições e arranjos musicais para atender à demanda dos corais. Fizemos muita música renascentista, que é exatamente o que caracteriza a formação madrigal: é uma formação coral para um grupo entre dezesseis ou vinte pessoas, um grupo de vozes equilibradas dentro dos naipes, vozes trabalhadas, e o madrigal também é uma forma musical que surgiu na Renascença. Os grupos corais que recebem o nome de Madrigais executam esse repertório que é um dos repertórios mais idiomáticos para a voz de que se tem notícia na música ocidental87. Assim os madrigais, os madrigalistas, é assim que eram chamados os compositores de madrigais, tiveram uma acuidade muito grande para escolher os timbres, escolher as regiões vocais, e explorar a voz de uma maneira inusitada. A gente ouve o madrigal renascentista e tem uma alegria uma sensação de prazer muito grande pela qualidade, a boa escolha da região, o que mais se adequa a cada naipe de voz humana. Na verdade, do que se tem notícia, o madrigal é a forma musical mais representativa da música para a voz.88

O grupo apresentava uma tradição europeia de fazer canto coral. Mesmo que executassem músicas de compositores nacionais, a impostação vocal do Madrigal pautava-se

85O Curso de Canto Coral (curso de nível médio) foi criado pelo Reitor Antônio Martins Filho, através da resolução n0 135, de 7 de janeiro de 1963,o qual era diretamente subordinado à reitoria e vinculado ao Departamento de Educação e Cultura, através da Divisão de Extensão Cultural. O curso tinha em sua direção Orlando Vieira Leite, e era destinado a estudantes universitários e a outras pessoas da comunidade em geral. O Curso de Canto Coral era academicamente vinculado ao Departamento de Educação e Cultura, e posteriormente a Faculdade de Artes e Arquitetura, funcionando em instalações do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno na Av. Visconde de Cauipe, onde também funcionavam o Curso de Arte Dramática e o de Artes Plásticas. Em 1965, transferiu-se juntamente com o Curso de Arte Dramática para as novas instalações do Conservatório, recém inauguradas, na Avenida da Universidade, 2210 (Nesse mesmo ano o CMAN havia sido incorporado à Universidade Ceará, por meio do projeto de lei enviado em mensagem pelo Presidente Castelo Branco ao Congresso Nacional). “A criação de tal curso objetivava alcançar a maioridade artística do Conservatório através de sua transformação em unidade acadêmica incorporada ao organismo da Universidade do Ceará”(Idem, Ibidem, p.71-74).

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Havia músicas de compositores brasileiros baseadas em temas folclóricos.

87Além da música Renascentista também havia o repertório Spiritual (também chamado de Negro Spiritual), que é um gênero musical cuja aparição se deu nos Estados Unidos da América, sendo inicialmente interpretada por negros escravos, os quais faziam uso de moimentos rítmicos do corpo e batiam palmas como acompanhamento da música.

no bel canto89europeu. Dessa maneira, consideramos que essa era uma perspectiva que partia do universal (cultura europeia) para o regional (cultura brasileira, nordestina, cearense).

O repertório, a postura, as vestimentas, a atitude vocal, são elementos do grupo que também refletem uma cultura coral europeia. “Um coral embecado, fardado, tudo igual, cantando cantigas antigas, com voz diferente, parado, sossegado, onde o único movimento que havia era o braço do regente” (MORAES, 2007, p.172).

Figura 9 – Madrigal da UFC na sede da Revista O Cruzeiro, no Rio de Janeiro (julho de 1964).

É importante, no entanto, perceber que quando o Madrigal foi ao 2° Festival de Coros da América, realizado em Viña del Mar, no Chile, no ano de 1965, e acabou se destacando como o melhor grupo do evento justamente quando fez um repertório constituído só por músicas brasileiras. Como declarou uma professora do CMAN e ex-madrigalista: “Nós fizemos um repertório muito bonito de música brasileira. Valorizando o folclore, valorizando a nossa gente, o nosso povo. Tinha um maracatu muito bonito que a gente cantava, além de compositores cearenses e brasileiros”.90

Nessa ocasião, o Madrigal havia chegado ao universal (o melhor coral da América) pelo regional (a partir de um repertório de música brasileira). Foi um momento que a grande maioria dos ex-coralistas do Madrigal entrevistados91 destacou como o mais

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O bel canto (“belo canto” em italiano) denomina toda uma tradição vocal, técnica e interpretativa da Ópera italiana a qual originou-se no fim do século XVII, alcançando seu auge no início do século XIX durante a era da ópera de bel canto.

90Entrevista com a Professora Marialice Franco de Almeida em 26/03/2009. 91

Os oito ex-coralistas entrevistados participantes do Madrigal destacaram a participação do grupo no Festival de Coros no Chile como um momento memorável para a sua história.

significativo durante o percurso artístico do grupo, já que o grupo assumiu naquela ocasião o papel de representar a música coral brasileira em um evento de grandes proporções.

Figura 10 – Capa e contracapa do livreto do II Festival de Coros da América, realizado em Viña del Mar – Chile. O Coral era composto em sua maioria por professores e alunos do Conservatório Alberto Nepomuceno, a maior parte de seus integrantes lia música, pois o nível de dificuldade de muitas peças que o grupo executava exigia certo nível de desenvolvimento do conhecimento musical dos coralistas. “Os ensaios eram duas ou três vezes por semana. Quando havia oportunidade de uma viagem, ou de uma apresentação mais séria, com repertório novo, então havia ensaios extra”.92

De acordo com estes depoimentos coletados de ex-coralistas, o Madrigal teria contribuído para incentivar a difusão do canto coral na cidade de Fortaleza.

[...] a partir do Madrigal, a gente viu que o movimento coral foi se espalhando, as pessoas foram se interessando pelo movimento coral. E outros corais foram aparecendo. Alguns membros do Madrigal já trabalhavam com coral e outros foram começando a fazer esse trabalho. Eu acho que esse gosto pela música coral o Madrigal foi o grande incentivador.93

[...] o Maestro Orlando Leite sempre foi uma vocação para a música, ele com todo o seu talento de regente, com todo o seu talento de cantor, ele tinha uma boa voz de tenor, e com toda a sua preparação vocal, ele foi o marco indelével na vida cultural na cidade de Fortaleza. Não se pode falar de maneira nenhuma do desenvolvimento cultural e artístico de Fortaleza sem dar ao Maestro Orlando Leite a posição de destaque, de ser o pioneiro, de ser ele a primeira pessoa que deu status grande a atividade coral.94

Essas falas confluem com a consideração de muitos dos ex-madrigalistas que em seus depoimentos chamaram a atenção para a contribuição do trabalho realizado pelo Madrigal ao desenvolvimento da atividade coral na capital cearense.

92Entrevista com a Professora D’Alva Stela Nogueira Freire em 22/04/2009. 93

Entrevista com a Professora Marialice Franco de Almeida em 26/03/2009. 94Entrevista com a Professora D’Alva Stela Nogueira Freire em 22/04/2009.

Segundo Schrader (2002), em 1968, com a saída de Martins Filho do posto de reitor da UFC e com a nomeação de Fernando Leite para ocupar o cargo de reitor95, o Madrigal da UFC passou a não contar mais com as subvenções da Universidade e, dessa maneira, o grupo teve de encerrar suas atividades em abril do mesmo ano por falta de verbas para a sua manutenção.