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2. Theory and evidence

2.4. The finance of family firms

No Brasil, as juventudes79 dos anos oitenta viveram o período que a historiografia nacional tendeu a denominar de a “década perdida”. Um período marcado pelos altos índices de inflação e pelo retrocesso econômico; passando por fases de euforia e crises de depressão na sociedade brasileira (GOHN, 2001; CARMO, 2003). Segundo Carmo (idem, p.154), no quadro mundial, havia uma falta de vontade política da juventude dos anos 1980, atribuída “à morte das utopias e ao fim das ideologias”80. No Brasil,

cada acontecimento vinha carregado de promessas e, em seguida, de frustrações: Diretas Já, morte de Tancredo Neves, Plano Cruzado. A juventude conviveu com várias crises do fim do governo Sarney. “A degradação moral competia com a corrupção política e esta com a corrosão econômica”, afirma Zuenir Ventura” (p.155).

A música “Ideologia”81, de Cazuza e Frejat, lançada em 1988, reflete uma situação de desencanto político que parte das juventudes daquela geração experimentavam ao final da década de oitenta:

Meu partido / É um coração partido / E as ilusões estão todas perdidas. / Os meus sonhos foram todos vendidos / Tão barato que eu nem acredito / Eu nem acredito / Que aquele garoto que ia mudar o mundo / Freqüenta agora as festas do Grand Monde. / Meus heróis morreram de overdose, / Meus inimigos estão no poder. / Ideologia / Eu quero uma pra viver. / O meu prazer agora é risco de vida, / Meu sex and drugs não tem nenhum rock’n’roll. / Eu vou pagar a conta do analista / Pra nunca mais ter que saber quem eu sou. / Pois aquele garoto que ia mudar o mundo / Agora assiste a tudo em cima do muro.

Um depoimento de Cazuza, citado por Araújo (apud CARMO, 2003) em “Cazuza, só as mães são felizes”, contribui para esclarecer a visão do cantor trabalhada na canção “Ideologia”, no que diz respeito ao posicionamento sócio-político de grande parte da

79Em vez de adotarmos um termo generalizante como juventude, ou geração jovem, preferimos nos embasar nas discussões de Matos (2009), a qual problematiza que a utilização da definição generalizada de juventude é uma forma de manipulação. Pois os jovens de uma mesma geração podem compartilhar ou não vivências e crenças semelhantes. Assim, devemos falar de juventudes, que convivem diversamente num mesmo tempo, com experiências múltiplas. Cristalizar uma “juventude ideal” é cercear a criatividade e as formas de expressões inovadoras dos jovens.

80Segundo Filho (200-), no curso dos anos oitenta, “ao lado dos comportamentos inesperados, do ritmo alucinante das mudanças, da crise da sociedade e da crise do socialismo, no âmbito da teoria sociológica ocorre a crise do funcionalismo, do estruturalismo, do marxismo e de outras teorias igualmente fundamentais. Apregoa-se o fim das utopias, das ideologias e da própria história – tudo acompanhado pelo anúncio do valor supremo da economia do mercado, das fórmulas matemáticas e do saber tecnocrático”.

81A música Ideologia faz parte do disco homônimo que é o terceiro álbum solo do cantor de rock brasileiro Cazuza, lançado em 1988. É considerado o seu melhor álbum de estúdio e ganhou o Prêmio Sharp de melhor álbum. "Ideologia" foi o primeiro disco de Cazuza a ganhar a certificação Ouro, pela ABPD, com vendas acima de 150 mil cópias.

geração que na década de 1980 vivia sua juventude. Segundo o cantor, naquele período havia uma

[...] geração sem ideologia, compactada entre os anos 60 e os dias de hoje. Eu fui criado em plena ditadura, quando não se podia dizer isso ou aquilo, em que tudo era proibido. Uma geração muito desunida. Nos anos 60, as pessoas se uniam pela ideologia. “Eu sou de esquerda, você é se esquerda? Então a gente é amigo”. A minha geração se uniu pela droga: ele é careta e ele é doidão. Droga não é ideologia, é uma opção pessoal (p.373).

Entretanto, essa é uma visão muito particular do contexto sócio-político geral dos anos 1980, assim não pode ser generalizada a toda aquela geração. Nesse sentido, não podemos esquecer dos movimentos sociais que ocorreram naquele período, e que revelam, do ponto de vista político, que a década não foi tão perdida assim. Para Gohn (2001, p.58), “ao contrário, ela expressou o acúmulo de forças sociais que estavam represadas até então, e que passaram a se manifestar”.

Realmente houve no período muitas perdas nos índices de crescimento econômico, com a queda em produtividade agrícola e industrial, e na qualidade de vida geral, com o aumento da criminalidade, da poluição, de doenças (aparecimento da AIDS), do número de desempregados e meninos de rua. Mas também não devemos perder de vista alguns ganhos que tivemos no plano sócio-político.

A sociedade como um todo aprendeu a se organizar e a reivindicar. Diferentes grupos sociais se organizaram para protestar contra o regime político vigente, para pedir “Diretas Já”, para reivindicar aumentos salariais. A sociedade civil voltou a ter voz. A nação voltou a se manifestar através das urnas. As mais diversas categorias profissionais se organizaram em sindicatos e associações. Grupos de pressão e grupos de intelectuais engajados se mobilizaram em função de uma nova Constituição para o país. Em suma, do ponto de vista político, a década não foi perdida. Ao contrário, ela expressou o acúmulo de forças sociais que estavam represadas até então, e que passaram a se manifestar (GOHN, 2001, p.58).

Assim, contrastando com a ideia de “década perdida”, a década de 1980 foi também o período da abertura política, na qual observamos um processo de expansão das lutas pela democracia. O Brasil passava pelo chamado momento da redemocratização.

A partir deste contexto, Matos (2006) discute a inserção do Coral da UFC no movimento da música coral em Fortaleza durante a década de oitenta, e traz a hipótese de que tal atividade teria sido uma modalidade de movimento social. Assim, o autor afirma ter havido uma efervescência do movimento coral em Fortaleza, “no qual o Coral da Universidade do Ceará lideraria todo um movimento de multiplicação de corais, politização de coralistas e experimentação estética” (p.243).

Segundo Schrader (2002), o movimento da contracultura82 brasileira, que contribuiu para a ocorrência de transformações no cenário cultural e educacional brasileiro a partir da segunda metade dos anos 1960 e no decorrer da década de 1970, traria novas perspectivas aos padrões estéticos do movimento artístico e principalmente de canto coral na Fortaleza da década de 1980. O movimento da contracultura trazia um espírito de experimentação e de questionamento, ao qual maestros como Samuel Kerr e Marcos Leite aderiram questionando a não adoção da música popular brasileira na maioria dos corais brasileiros da época, que procuravam reproduzir modelos europeus incoerentes com a realidade musical nacional.

Ainda de acordo com Schrader (Ibidem), esse espírito de experimentação e questionamento que buscava uma renovação na música coral propondo uma aproximação com a música popular brasileira passou a ter uma ressonância mais profunda no cenário coral de Fortaleza a partir da década de 1980. Nesse contexto, destacamos a atuação de Izaíra Silvino como regente do Coral da UFC, a qual protagonizou um movimento de transformação do fazer formativo-musical no grupo.