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3. Institutional framework

3.2. Financial accounting regulation

Em 1973, depois da dissolução do Madrigal e de um período de silêncio na movimentação coralista na UFC, houve a reativação da atividade já com o nome de Coral da UFC, sob a regência de Katie de Albuquerque Lage. Ela assumiu a função de regente do novo coral a convite do Pró-Reitor de Graduação Professor Antônio Gomes Pereira, durante a gestão do Reitor Walter Cantídio.

Nesse período, o Coral passaria a ser constituído principalmente por estudantes da Universidade, o que não ocorria no Madrigal que, como destacamos anteriormente, era composto em sua maioria por professores e estudantes do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno. Assim, Katie Lage trabalhou com um grupo no qual poucos integrantes possuíam alfabetização musical.

Para contornar esse “analfabetismo musical”, que Moraes (2007, p.152) apresenta como “um ‘hiato intelectual’: a ausência de um processo de alfabetização musical já instalado anteriormente no âmago de cada coralista”, Katie Lage aplicou o ensino de flauta doce. Segundo depoimento de ex-coralista desta segunda fase:

[...] ela fazia conosco alguns grupos de estudo de flauta doce, eu participei de um desses grupos. Com isso, com esses grupos de estudo com flauta doce nós aprendíamos a ler partitura com a flauta, e isso nos fazia preparados para o solfejo96, porque a leitura com a flauta preparava para o solfejo.97

95Sobre tal fato Schrader ainda esclarece (2002, p.93): “Em janeiro de 1962, passou a vigorar a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional que limitou a recondução dos reitores das Universidades oficiais a dois mandatos. Com base na Lei, todos os Reitores que haviam ultrapassado o limite do tempo no exercício do cargo, teriam de deixar os seus postos [Martins Filho já estava há mais de dois mandatos no exercício de reitor, desde o ano de 1955, assim já contava treze anos de ocupação do posto]. A partir de 1968, Fernando Leite, um dos três conselheiros indicados na lista tríplice elaborada pelo Conselho Universitário e enviada ao Presidente da República, seria o escolhido para ocupar o cargo de reitor da Universidade Federal do Ceará.Com a saída de Martins Filho do comando da instituição, todas as ações administrativas não mais passariam a prestigiar as atividades musicais na Universidade, havendo uma descontinuidade no trabalho da gestão anterior”.

96Exercício para se aprender a ler notação musical tradicional (partitura), geralmente marcando o compasso com a mão ou o pé; leitura musical por notas, por vocalização ou por sílabas sem nexo, para se apreender a melodia e ritmo escrita.

Outra maneira de superar essa dificuldade da leitura musical, que era a realidade da maior parte do grupo, foi a ajuda que os coralistas leitores de música prestavam aos seus colegas de coral e a regente. Nas palavras de ex-coralista do período:

[...] os ensaios do Coral se apoiavam muito nas pessoas que já tinham alguma vivência na música, como o Francisco José, a Maria Helena, tinha duas professoras lá que eram professoras do Conservatório, que também participaram do Coral na época”.98

Sobre essa situação, na qual os poucos coralistas que possuíam o saber-fazer da escrita musical ajudavam os colegas de coro que na sua maioria não sabiam ler música, Moraes (2007, p.153) argumenta que essa é uma realidade comum em quase todo Brasil e devido a isso há corais onde é institucionalizada a figura do “ensaiador de naipes”, o qual não é um regente assistente, mas é quem ensina a partitura. Para Moraes (2007), a situação mínima adequada seria que o coralista tivesse domínio sobre a leitura musical, para assim, juntamente com o regente e os demais coralistas, ser capaz de interpretar o pensamento musical registrado por dado compositor, pois

um coral é visto como uma instituição musical que tem como atividade única interpretar pensamentos musicais compostos por compositores de todas as épocas e lugares, pensamentos estes que, normalmente, estão expressos por escrito numa grafia própria, que é musical. O pensamento do autor poderá ter surgido em qualquer tempo ou lugar. O mínimo que se deve esperar dos integrantes de um coral é que sejam cantantes, e que saibam, também, ler aquela grafia específica (p.152). Os ensaios durante essa nova fase iniciaram no Centro de Cultura Germânica da UFC99, contando com o apoio e a participação do Professor Günther Kipfmüller, então diretor do centro naquele período (SCHRADER, 2002). Posteriormente, o Coral passou a ocupar um espaço que ficou conhecido como “torre do coral”, um antigo laboratório da Escola de Engenharia, localizada ao lado da quadra do CEU.100 “Na Torre do Coral, os alunos, integrantes frequentaram cursos de Teoria Musical e Técnica Vocal dados por professores convidados, de outras universidades”. Assim, Katie buscou dar uma formação musical básica aos coralistas, necessária ao entendimento e a interpretação das composições que o coro cantava (MORAES, 2007, p.185-185).

Em sua essência, o repertório do Coral permanecia enfatizando a música europeia: madrigais renascentistas; compositores eruditos como Bach, Haendel, Vivaldi; além de um repertório natalino. Mas havia certo espaço para a música erudita e popular brasileira, pois

98Entrevista com Cleudon Chaves Júnior em 15/05/2009.

99Atualmente, na UFC, possui o nome de Casa de Cultura Alemã.

100Segundo Rogério (2008), o Clube dos Estudantes Universitários (CEU), localizado dentro da UFC, no bairro Benfica, abrigava o Restaurante Universitário e uma quadra de esportes, onde houve importantes manifestações políticas e artísticas durante a década de setenta.

faziam parte do repertório músicas do folclore brasileiro, como “Galo Garnizé”101 e músicas com arranjos do Maestro Orlando Leite, por exemplo, o “Bonde e as Moças”, cuja composição é de autoria do compositor cearense Ramos Cotoco102. No período, a regente também chegou a escrever um arranjo para a música “Águas de Março” de Tom Jobim, compositor com bastante popularidade em sua época.

Figura 11 – Coral da UFC sob regência da Maestrina Katie Lage, em apresentação no Salão Nobre da Reitoria da Universidade Federal do Ceará (s/d; década de setenta).

Um dos ex-integrantes do grupo declarou que durante as apresentações o grupo chegou a esboçar algo de percussão corporal, entretanto “[...] naquela época o Coral ainda era aquele coral parado, mas a Katie ainda começou um movimento e a Izaíra consolidou isso, coisa com muito movimento, com dança no palco, mas a Katie começou alguma coisa”.103

Nesse período, o repertório do Coral da UFC ainda era prioritariamente composto por músicas de compositores eruditos europeus e brasileiros, e sua postura, suas vestimentas e sua atitude vocal permaneciam sobre alicerces da tradição coral europeia. Porém, o grupo já esboçava adotar o lema da Universidade em sua forma original: “Chegar ao universal pelo regional”. Em 1979, o Coral sofreria uma nova ruptura, quando Katie Lage foi acometida por um câncer que interrompeu precocemente a vida e carreira da regente.

101De acordo com Schrader (2002, p.136): “O contato com o maestro Carlos Alberto Pinto Fonseca fez com que vários de seus arranjos de música folclórica mineira fossem executadas pelo Coral da UFC, como “Galo Garnizé” e “Trenzinho” (cânone)

102

Tal música foi composta no início do século XX, no contexto histórico conhecido como período da Belle Époque em Fortaleza.