Em diversos momentos de debates nos encontros, observamos em Mika uma postura de reflexividade e de autonomia crítica frente ao dado, assim como frente à subjetividade social do grupo. Apontamos dois momentos em particular.
O primeiro consistiu um debate sobre o tema de regulamentação, discriminação ou liberação do uso de drogas, no módulo V, Comunicação e Mobilização. Neste momento o seguinte diálogo se coloca:
[...]
Participante 1: A liberação terminaria com o tráfico.
Monitor 1: Liberação, regulamentação e descriminação do uso de drogas são coisas diferentes. [...]
Estela: Na França, fumantes são muitos. É uma questão cultural. Camile: Só uma pequena parcela é que sabe dos prejuízos.
Mika: Faltam maiores campanhas de conscientização...
Monitor 1: Vale lembrar que “conscientizar” é uma normatização. É dizer que “aquilo é certo e aquilo é errado.” O diálogo é diferente. No diálogo a gente negocia. “Será que sabemos o bastante?”
Participante: É pode pensar em dar aos poucos.
Monitor 1: [Explica a política de redução de danos onde o drogado tem acompanhamento do Estado na hora de receber sua dose diária. Explica que poderia se pensar em regulamentar o cultivo próprio como política de redução de danos. Por fim, sugere que na Holanda, a maconha é regulamentada pelo Estado; e que muitas vezes, a política de criminalização gera a vontade de experimentar.]
[Segue-se grande discussão em que a defesa da regulamentação e a
condenação à política de internação compulsória parecem prevalecer.]
Mika: Todos estão falando contra a internação compulsória. Mas e quando o indivíduo perde a própria capacidade de vontade? Tem muitos casos em que a própria família não dá mais conta. E precisa de ajuda pra se afastar.
168 [...]
Aqui, observamos em Mika uma autonomia de pensamento que a permite não só pensar em situações diferenciadas mas, inclusive, ir contra a subjetividade social que se conformou fortemente a favor das políticas de regulamentação e de condenação à internação compulsória. No calor do debate, este tipo de situação não parecia intimidar Mika que, com frequência, de forma similar a Camile, demonstrava, nos debates, autonomia crítica e capacidade de articulação de novas associações e novas perspectivas. Apontamos como um outro momento, o fechamento do Fórum, depois de todas as palestras dos especialistas, das apresentações das análises do DRP, e dos debates nas rodas dialogadas. No momento de avaliação final, em frente a todo o auditório, Mika é a primeira a levantar a mão para sugerir um encaminhamento prático, como resultado de sua preocupação e reflexão sobre a continuidade das ações discutidas no encontro, no processo de implantação do PSE nas escolas. Neste momento, de forma muito pragmática e audaciosa, sugere, que sejam organizados, em cada escola, “pequenos grupos com o apoio da coordenação e dos professores da comunidade escolar para efetivamente conseguirmos mudanças.”
Ressaltamos que estavam presentes no auditório coordenadores pedagógicos, diretores, autoridades da Regional de Ensino, professores e alunos. Ressaltamos, ainda, que grande parte das discussões do Fórum denunciou a ausência de instâncias de diálogo nas comunidades escolares. Enfatizamos a condição de sujeito, em Mika, expressa em sua tentativa audaciosa, neste momento final, de buscar assegurar o compromisso de todos os envolvidos no Fórum com as ações discutidas no evento.
4.3.3.3 A geração de ideias novas
Para além da reflexividade crítica e da confrontação com o dado, ressaltamos diversos momentos em que Mika desenvolveu novas ideias frente a questões e problemas colocados. Apontamos duas situações em particular.
Em primeiro, citamos uma reflexão colocada por Mika em um encontro do Projeto de avaliação das informações levantadas após a aplicação do DRP nas escolas. A partir de suas análises das informações expressas nos dois dias de dinâmicas, Mika conclui:
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Mika: Eu tava conversando com Estela sobre o 1º e o 2º dia. Todas as informações saíram da realidade de cada um ali. Todos os meninos ...[dizem coisas que] têm alguma ligação com o dia a dia. ... “Não faz parte do meu cotidiano, mas eu quero tanto ir lá que eu vou citar”. [Sugerindo que as falas não expressam a realidade e sim os
desejos e interesses do participante sobre a realidade.]
Monitor 2: [...] Isso!! ... Não se fala dos mendigos da escola porque todo mundo acha isso normal.
Notamos, aqui, a profunda reflexão de Mika para, em sua análise, elaborar que o expressado nos diálogos do DRP de sua escola eram informações carregadas de um valor simbólico que, em muitas vezes, correspondiam a atenções, desejos, vontades das pessoas e grupos participantes do DRP, e não às “reais” condições sociais e físicas vivenciadas na escola e na comunidade. A partir dessa ideia, Mika e Estela demonstram a necessidade de uma profunda mudança na forma como realizar a análise interpretativa do DRP. Entre todos os participantes do Projeto, Mika é a única que consegue chegar neste nível de reflexão, que não havia sido nem apresentada, nem vivenciada, nesta profundidade de análise, nos encontros preparatórios e nas simulações prévias. Consideramos que essa reflexão criativa em Mika se conforma em meio ao exercício da condição de sujeito em sua reflexão autônoma e implicada sobre a análise do DRP, à confrontação com o dado posto e à geração de uma interpretação nova frente ao problema percebido. Enfatizamos o quanto esse momento de criatividade em sua aprendizagem se constitui enquanto expressão da da configuração subjetiva da ação do aprender no contexto não-formal, em Mika, marcada por sentidos subjetivos associados à subjetividade social do Projeto e ao núcleo de sentidos subjetivos de sua autopercepção como pessoa sociável, que favoreciam sua autoconfiança em sua capacidade e sensibilidade para a comunicação interpessoal.
4.3.3.4 A personalização da experiência de aprendizagem
Com base em nossas análises, consideramos que Mika, apresentou momentos de criatividade na aprendizagem tanto em suas atuações no Projeto, quanto em suas reflexões sobre sua experiência. Conforme já apontamos, na atuação de sua dupla com Estela na aplicação do DRP na escola, o equilíbrio entre o estímulo para a participação do grupo e o controle do grupo se mostrou um dos principais desafios da mediação. Dessa maneira,
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embora Mika fosse responsável pela relatoria, com frequência a observávamos realizar intervenções para auxiliar Estela na condução da dinâmica.
Nesses momentos, a capacidade de comunicação interpessoal de Mika se expressava de formas diversas e sutis. O trecho de diálogo abaixo nos parece ilustrativo. Nele, Estela inicia com uma pergunta ao grupo:
Estela: O que vocês acham da segurança da [cidade]? [Ninguém se pronuncia e o silêncio se prolonga.]
Mika: O que vocês acham da segurança da [cidade]; tá legal ou tá assim razoável? [Gesticulando com as mãos e fazendo careta.]
Ao notar a desmobilização dos participantes, Mika rapidamente busca uma forma diferente de comunicar a pergunta. Para facilitar a compreensão e provocar o maior envolvimento dos colegas, Mika se utiliza intencionalmente de estratégias como a repetição da pergunta de Estela, a indicação de possíveis respostas em uma linguagem informal e acessível e o uso de expressão corporal. Em diversos momentos, evidenciamos essa capacidade comunicativa em Mika.
Mika ainda demonstrou uma capacidade reflexiva de análise sobre as informações que emergiam da dinâmica, buscando intencionalmente explorar temas que lhe pareciam relevantes. No Mapa Falado, quase ao fim da dinâmica, Mika acertadamente retoma um tópico sobre violência na região da cidade que lhe pareceu importante e pouco explorado.
[Depois de um longo momento, já ao final da dinâmica...]
Eu queria saber um pouco mais sobre a AR12. Como é lá? Você mora lá? Um pessoal que mora em outra AR não pode ir lá, não?
[Os meninos se animam e todos começam uma grande e rica discussão
sobre a violência na AR12.]
Consideramos, assim, que níveis de criatividade na condução e na análise do DRP foram, em Mika, precisamente marcados por sua implicação emocional e por sua capacidade e sensibilidade para comunicação interpessoal.
A reflexão crítica sobre a atuação de sua dupla no DRP e a proposição de uma solução inovadora sobre a forma como apresentar a dinâmica do Mapa Falado para o grupo de sua escola consistiu outro momento de criatividade na aprendizagem em Mika. Sua principal preocupação antes e após as dinâmicas era garantir que os participantes se
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sentissem a vontade e motivados para falar. No encontro de avaliação do DRP, Mika comenta: “Eu achei que se a Estela tivesse apresentado o Mapa Falado como a Fofoca Falada de [cidade], todo mundo ia falar.” No encontro de avaliação do Projeto por uma equipe externa, Mika volta a propor esse novo nome. Em nosso último encontro, da entrevista semiestruturada IV (APÊNDICE F), realizado em dezembro, três meses após o término do Projeto, Mika aponta novamente sobre o DRP:
Tinha medo da galera não entender. Tinha medo de não conseguir o resultado esperado, as informações necessárias. O Mapa Falado tinha que ter sido explicado como “Fofoca Falada”.
Interpretamos que, frente a sua autoavaliação sobre a atuação de sua dupla no DRP, Mika desenvolve uma nova ideia para o problema encontrado, buscando imprimir um clima de comunicação próprio de si, com base em sua sensibilidade para a expressão e o diálogo com o Outro. Com efeito, ressaltamos novamente que esse tipo de reflexão ocorre em Mika, como expressão de sua produção subjetiva marcada por sentidos subjetivos associados aos núcleos de subjetivação do uso da brincadeira e do humor nos espaços sócio-relacionais e da autovaloração como pessoa sociável, conforme nossas elaborações prévias.
Pontuamos, por fim, que os diversos momentos de criatividade na aprendizagem analisados apresentam processos característicos da aprendizagem criativa conforme apontado nos estudos da área. Consideramos em Mika o exercício da condição de sujeito na sua autonomia crítica frente às temáticas que emergem nos debates dos encontros e na sua profunda intencionalidade reflexiva frente à conteúdos e atividades como a da análise das informações do DRP. Pontuamos, em Mika, as formas contraditórias com que ela subjetiva sua própria sensibilidade e capacidade de comunicação interpessoal em relação a processos de aprendizagem. Interpretamos que, nos momentos de debate nos encontros do Projeto, pela dinâmica pedagógica e pela subjetividade social do Projeto, sua produção subjetiva com relação a essa capacidade de comunicação interpessoal favorecia sua abertura para incorrer em novos processos de aprendizagem nesse contexto. Retomamos, aqui, a sua fala na entrevista semiestrutura da IV:
“[O Projeto] me ensinou a aprender na escola. [...] Pode falar, não tem medo de colocar sua opinião. [...] Isso [me] melhorou muito. Nem tanto o conteúdo, mas mesmo sem muito conhecimento, o importante é falar.
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Ressaltamos, assim, em Mika, a geração de sentidos subjetivos que recursivamente alimentaram o próprio processo do aprender na realização de uma pesquisa de natureza qualitativa, promovendo reflexões e mudanças sobre suas próprias representações sobre o “ser aluna” e o aprender. Consideramos, nessa movimentação subjetiva, uma expressão da dimensão funcional de sua aprendizagem criativa no Projeto. Aprofundaremos essa análise na síntese integrativa dos casos, na próxima seção.
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4.4 Síntese Integrativa dos Casos: considerações sobre processos constitutivos