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CHAPTER 3: THE THEORETICAL FRAMEWORK
3.1 Political Recruitment: A Theoretical overview
3.1.1 The Political Leadership Recruitment Framework
Antes de abordarmos o que detalhadamente é, e o modo de funcionamento do Projeto Formare, cremos ser necessário, para melhor situar o leitor, fazermos algumas considerações sobre a empresa (e sua respectiva Fundação) que o iniciou.
Segundo informações do Relatório Anual da Companhia Iochpe-Maxion61, idealizadora do Projeto Formare, ela data de 1918, período em que se destacou por atividades no ramo madeireiro no Estado do Rio Grande do Sul.
Ao longo do tempo, a empresa mudou seu perfil diversificando suas atividades para o setor financeiro e industrial. Na década de 1980, adquiriu diversas empresas industriais no segmento de equipamentos agrícolas. Em 1990 passou por novas transformações visando concentrar sua atuação nos segmentos de autopeças e equipamentos ferroviários os quais marcam e mais destacam a empresa atualmente.
Em 1998, iniciou um processo de reestruturação produtiva, tanto no âmbito operacional, quanto na definição de estratégias de negócios. Paralelamente, realizou uma reestruturação societária e financeira que culminou com o aporte de recursos na Companhia por parte da BNDESPAR (empresa do sistema BNDES) e do Banco Bradesco S.A., que passaram a compartilhar o seu controle societário juntamente com a Iochpe-Maxion.
No início de 2000, cinquenta por cento do negócio de equipamentos ferroviários foi alienado para a Amsted Industries (líder dos Estados Unidos na fabricação de fundidos ferroviários, mais especificamente rodas, truques e engates para vagões), o que originou a formação do empreendimento conjunto (joint venture) “Amsted Maxion”.
Alinhada às suas estratégias de negócio, em 2002, ela alienou sua participação na empresa Maxion Nacam Ltda., fabricante de colunas de direção para veículos de passageiros, e, em setembro de 2004, vendeu seus ativos relacionados à fabricação de levantadores de vidro para automóveis. Ainda em 2004, desarticulou-se do Banco Bradesco que vendeu a totalidade da sua participação na Companhia. Parte das ações foi comprada pela própria Companhia, outra vendida em bolsa.
A Iochpe-Maxion é, atualmente, pelas informações disponíveis no sítio eletrônico da própria empresa, a maior fabricante nacional de rodas e chassis para veículos comerciais e de vagões de carga e fundidos ferroviários. Segundo consta, ela emprega mais de 6.500 trabalhadores distribuídos em seis unidades fabris localizadas nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Recentemente, inaugurou novas fábricas na China e na Índia. Assim, sua magnitude e peso na economia capitalista hodierna são consideráveis.
No segmento de rodas e chassis para veículos comerciais, segundo estima, em 2007, detinha cerca de 60% do mercado nacional de rodas para caminhões, ônibus e máquinas agrícolas e 67% do mercado nacional de chassis e componentes estruturais estampados para caminhões, ônibus e picapes. Já no segmento de equipamentos ferroviários, atuando por meio da mencionada joint venture “Amsted-Maxion”, estima que em 2007 possuía aproximadamente 89% do mercado nacional de vagões de carga e 80% do mercado nacional de fundidos ferroviários.
Os produtos da Companhia são comercializados em mais de 42 países. Em 2007, os dados do seu comércio internacional, em termos de valor, dos principais destinos de suas exportações foram os EUA (49%), a América Latina (23%), Canadá e México (4%), a África e Oriente Médio (16%) e a Europa (9%).
A história da Fundação Iochpe62, o braço da empresa Iochpe-Maxion no desenvolvimento e implementação de ações sociais, data de 1989. Presidida por Evelyn Berg Ioschpe, co-fundadora e ex-presidente do GIFE, contribuiu para racionalizar as intervenções na questão social por parte da empresa, estruturando as políticas de “responsabilidade social corporativa” e renovando iniciativas para o “terceiro setor”. Sua idéia primordial era oferecer direcionamento, foco e unidade aos projetos sociais que há algum tempo vinham sendo desenvolvidos pela empresa:
A Fundação Iochpe nasceu como braço social da Iochpe-Maxion, com o propósito de implementar ações que vão além das que alcançam a
62 Sua sede localiza-se no bairro Cerqueira César, em São Paulo, entre a Avenida Rebouças e a Rua da
comunidade imediata das unidades fabris. Desde o início de seu trabalho, a Fundação Iochpe vem priorizando questões que dizem respeito à educação, buscando, assim, tornar estratégico o investimento social da Empresa. O ponto de partida dessa evolução foi o Programa Formare, os centros de educação instalados no interior das fábricas e estruturados na forma de escolas de educação profissional de nível básico. A partir de 1994, o Programa foi assumido pela Fundação Iochpe, que o transformou na primeira franquia social do Brasil sem fins lucrativos. Com isso, multiplicou o alcance dessa rede de excelência, ampliou seus resultados e estabeleceu as bases para a sua sustentabilidade. Síntese do pioneirismo da Iochpe-Maxion em relação à prática do investimento social privado. (IOCHPE-MAXION,
Relatório Socioambiental, 2007, p. 28)
O movimento de racionalização das práticas e experiências pode ser muito bem observado no histórico da Fundação Iochpe disponível no Relatório Socioambiental (2007) da Iochpe-Maxion. A iniciativa ainda tímida da empresa em 1988, de criação da “Escola Técnica Iochpe-Maxion” (ETIM) em Canoas (RS) e da implantação da mesma experiência um ano depois na unidade Iochpe-Maxion de São Bernardo do Campo (SP), ficaria, em 1994, a cargo da Fundação Iochpe, que além de assumir completamente a coordenação das ETIM’s, daria um novo formato e uma nova denominação à experiência: Formare.
A Fundação Iochpe nutre em seus discursos que objetiva ampliar o alcance de seus projetos sociais educacionais, pois seriam instrumento de “inclusão social” de crianças e adolescentes, e promoveriam a geração de “capital social”.
Atualmente, ela age em quatro frentes: 1ª) pelo Formare, que pretende ofertar ensino profissionalizante para jovens de população de baixa renda nos ambientes empresariais, transformando a empresa em escola; 2ª) pelo “Arte na Escola”63, o projeto pioneiro da Fundação Iochpe, que visa “qualificar” processos educacionais (e professores) em arte da rede pública de ensino; 3ª) pelo “Programa de Investimento Social Paritário” (PISP) que visa racionalizar ainda mais o “investimento social privado” por meio da ação voluntária dos trabalhadores da empresa e 4ª) pelo “Memória Iochpe” que tem como objetivo preservar os mais de 80 anos de história da Companhia Iochpe-Maxion e das comunidades em que a empresa atua ou já atuou.
Tal retrospecto, acúmulo de experiência com projetos sociais, e ao contribuir para inovar práticas e ações do chamado “terceiro setor”, rendeu e rende à Fundação Iochpe diversos reconhecimentos e premiações de instituições como o Ministério da Educação (MEC), Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Organização das Nações Unidas Para Educação (UNESCO), Câmara Americana de Comércio (AMCHAM - Prêmio Eco),
63 Para mais informações acerca da atuação da Fundação Iochpe em escolas públicas do país o leitor deve acessar
Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE), as quais fazem questão de exibir em seu sítio eletrônico.
Sua composição reúne profissionais e colaboradores da própria empresa Iochpe- Maxion e estrutura-se em três níveis: 1º) no Conselho Curador, com as presenças de Ivoncy Brochmann Ioschpe (Presidente), Mauro Knijnik (Vice-presidente), Antônio Carlos Gomes da Costa, Dan Ioschpe, Guilherme Ary Plonski, Gustavo Ioschpe, João Carlos Silveiro, Waldey Sanchez; 2º) no Comitê Fiscal, composto por Antonio Carlos Foschini, Oscar Antonio Fontoura Becker, Ronald John Aldworth; 3º) na Diretoria, que conta com Evelyn Berg Ioschpe (Diretora-presidente), Gilmar Pedrosa, Paulo Marcio Almada dos Santos, Roque Bitinger.64
Juridicamente65, a Fundação Iochpe está formatada como sendo uma organização sem fins lucrativos, qualificada como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) em 24 de outubro de 2003, nos termos da Lei nº 9.790/99, que o leitor teve oportunidade de entender na exposição realizada no capítulo dois deste trabalho.
Em seus relatórios socioambientais, a empresa Iochpe-Maxion sustenta utilizar “recursos gerados pela sua atividade produtiva em favor do desenvolvimento do capital social”. Afirma que, diferentemente de outras instituições, não se vale de recursos da Lei Rouanet66 para desenvolver seu trabalho social o que “Equivale a dizer, portanto, que a Iochpe-Maxion, apesar das facilidades que a legislação oferece, não lança mão de verbas públicas para fortalecer a sua marca ou valorizar o seu papel junto à sociedade.” (IOCHPE- MAXION, Relatório Socioambiental, 2007, p. 8).
Em relatórios mais recentes, como o de 2008, insiste na afirmativa, acrescentando que sua fundação (Fundação Iochpe) ao longo de sua trajetória especializou-se no estabelecimento de “pontes de co-responsabilidade” 67 e dessa forma vem criando “parcerias” com governos,
64 Informações obtidas na página 32 do Relatório Socioambiental 2007 da Iochpe-Maxion.
65 Informação obtida em: <http://www.fiochpe.org.br/>. Na seção Quem Somos < Relatórios Sociais. Acesso: 13
jul. 2009.
66 Trata-se da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei nº 8.313 de 23 de dezembro de 1991). Seu cerne é sua
política de incentivos fiscais que possibilita às empresas (pessoas jurídicas) aplicarem uma parte do imposto de renda devido em ações culturais. Resulta num mecanismo governamental de oficialização do mecenato empresarial. As empresas, com tal iniciativa, ainda valorizam sua marca junto ao público legitimando-se socialmente.
67 As parcerias que a Fundação Iochpe travou visando aprimorar o Projeto Formare expandem-se. Conta
inclusive com universidades privadas, integrando o programa de bolsas de estudo conferidas aos melhores alunos da rede Formare. A lista das parcerias institucionais específicas travadas pela Fundação Iochpe para o Projeto
Formare pode ser conferida toda em:
<http://www.formare.org.br/site/index.php?option=com_content&task=view&id=88&Itemid=208>. Acesso em: 18 set. 2009.
universidades, associações e outras empresas com o intuito de ampliar o alcance de seus projetos.68
Como demonstramos, a própria Lei de Oscip’s (1999) foi quem conferiu maior possibilidade das empresas, por meio de seus institutos e fundações, estabelecerem “parceria” com a administração pública, trocarem experiências, conhecimento e know-how, visando atendimento de objetivo comum a ambos, além da possibilidade de dedução de impostos69.
Somado a isto, a iniciativa empresarial parece tentar nos ludibriar com suas assertivas. Insistir que, por não se valer da Lei Rouanet, não se utilizaria de recursos públicos é, no mínimo, estranho. Parece tentar ocultar algo. Como veremos posteriormente, por matéria noticiada no jornal Folha de São Paulo, um dos aspectos de orgulho dos gestores do Projeto Formare é terem sido a única instituição, entre muitas, que cumpriram integralmente um contrato de três anos firmado em 1999 com o governo federal, o qual envolveu repasse de dinheiro do Programa de Expansão da Educação Profissional (Proep) para a Fundação Iochpe desenvolver o Projeto Formare. Dessa forma, longe de certa autonomia (“auto- sustentabilidade”) tão desejada e propalada em seus discursos, podemos considerar que a Fundação Iochpe funcionou, em boa medida, como captadora de recursos públicos.