7 Theoretical Perspectives on Cooperation and Room of Manoeuvre
7.2 The Perspective of Neoliberal Institutionalism
A atividade econômica determinante na sociedade industrial estava baseada na produção de bens materiais, com base na produtividade, isto é, produzir o maior número de objetos para o mercado no menor tempo possível. Na produção dos bens materiais, o trabalhador produzia algo que não lhe pertencia e cujo destino, depois de pronto, escapava ao seu controle; nem mesmo o trabalhador se reconhecia no produto acabado, pois se tratava de algo que para ele não teria utilidade alguma, somente para o mercado.
O trabalho material empregado pelo trabalhador no processo de produção capitalista foi denominado por Marx (1982) de trabalho abstrato, responsável pela criação de valor de uso do produto na sociedade capitalista. Como o valor é um fenômeno puramente social, a extensão lógica dessa afirmação indica que o valor de um bem material é uma função social e não função natural adquirida, por representar um valor de uso ou trabalho nos sentidos fisiológico ou técnico material.
Essa abstração objetiva feita por Marx (1982) de que ‘um valor de uso ou bem possui valor, apenas, porque nele está objetivado ou materializado o trabalho humano abstrato’ permaneceu dominante no debate acadêmico por muito tempo, até que Negri e Hardt (2006),
no livro Império, deslocaram a análise do trabalho humano do plano da abstração objetiva para a abstração subjetiva, em decorrência da importância que passou a assumir o trabalho intelectual na atualidade, o trabalho imaterial, não considerado até então essencial na produção de bens.
Agora, na sociedade pós-industrial, o foco da economia está na produção de bens imateriais, entendidos na forma de serviços, de informações, de símbolos, valores e estética, ou seja, uma nova economia baseada em recursos intangíveis. Esse novo momento decorre de fatores que se conjugam na atualidade, como o progresso tecnológico cada vez mais acelerado; as globalizações econômica, financeira e dos meios de comunicação; a ampliação das redes sociais que se estabelecem na internet, entre outros.
De Masi (2003) analisa a sociedade pós-industrial e aponta cinco fatores que a caracterizam, colocando como primeiro numa escala de relevância a passagem da economia de produção de bens para a economia de serviços. Essa inversão também é ressaltada por outros autores, ao observarem uma grande concentração de trabalhadores no setor terciário, em relação aos trabalhadores na agricultura e na indústria.
Segundo Pochmann (2009), 70% dos postos de trabalho no Brasil são ocupados por trabalhadores no setor terciário, um percentual 20% menor que nos países mais avançados que chegam a ocupar 90%. Mesmo com esse percentual elevado de trabalhadores no setor terciário, os setores primário e secundário da economia continuam a ser importantes em qualquer situação enfatiza ele, pois neles é que são aplicados os princípios, as ideias e as tecnologias desenvolvidas pelo trabalho imaterial.
Essa assimetria que ocorre hoje na distribuição dos empregos nos diferentes setores da economia, com prevalência dos serviços, já havia sido prevista por Offe (1984) quando prognosticava que a sociedade industrial se encaminhava para uma sociedade pós-industrial de serviços, de grande heterogeneidade, na qual não era possível se estabelecer critérios semelhantes de produtividade ou racionalidade técnica, ou seja, uma situação em que a referência unitária ao trabalho se dilui.
Com isso, o trabalho assalariado para Offe (1984) perde sua centralidade na vida humana e estimula a Sociologia a buscar outras categorias básicas para construir seu objeto de estudo, não mais plenamente determinado pelo âmbito do trabalho e da produção, como o espaço vital, o modo de vida e o cotidiano, que traduzidos para uma forma mais real, seriam encontrados na família, nos papeis dos sexos, no comportamento divergente, entre outras.
O segundo fator que marca a sociedade pós-industrial para De Masi, se refere à prevalência de profissionais e técnicos com formação especializada e capacidade de incrementarem a amplitude das tarefas, mediante o envolvimento em múltiplas atividades nas empresas e não apenas uma específica, uma realidade em concordância com o pensamento de Giddens (2008):
A produção em grupo e o trabalho de equipe são vistos como promotores de uma força de trabalho ‘polivalente’, capaz de levar a cabo um conjunto alargado de tarefas, o que, por sua vez, conduz ao aumento da produtividade e da qualidade dos bens e de serviços. (GIDDENS, 2008, p. 388).
Outro fator está no caráter central do saber teórico, gerador de inovações, encontrados no planejamento social, na pesquisa científica, na produção de ideias e na educação. Agora, o conhecimento relevante é aquele que está em constante readaptação e não mais aquele acumulado pela sociedade industrial.
Essa ampliação da capacidade intelectual do ser humano e que leva inclusive a eliminação com êxito do trabalho humano na produção de bens e de serviços por meio da automação, provoca no âmbito da economia, no entender de Schaff (1990), uma redução da demanda do trabalho humano e o consequente agravamento do desemprego estrutural. Porém, o desaparecimento do trabalho não significa o desaparecimento da atividade humana, que pode adquirir as formas das mais diversas das ocupações.
Para resolver a questão do desemprego, Schaff (1990) sugere a realização de atividades que dessem sentido à vida, “ainda que seja somente para assegurar o bem-estar psíquico dos homens que não trabalham.” (FRIGOTTO, 1996, p. 101), situação em que a sociedade, por meio de suas instituições apropriadas, deveria proporcionar, por direito, um rendimento a todo indivíduo e a sua família. Além do que, as mudanças que estão ocorrendo na sociedade pós-industrial irão levar à produção de um cidadão do mundo, do homem universal. “Este Homo universalis também caminhará à procura de um novo estilo de vida, que se deslocará do Homo laborans para o Homo ludens. Isto significará uma nova ética e, portanto, novos valores.” (ibidem, p. 101).
Para Schaff (1990), mesmo parecendo uma utopia acreditar que nesse novo tempo o homem se livrará da maldição bíblica ‘ganharás o pão com o suor do teu rosto’, as condições objetivas estão colocadas pela nova sociedade para que o homem possa produzir-se e autocriar-se, tarefa essa que só poderá resultar do homem enquanto ser social, isto é, como resultado do conjunto das condições sociais. Pode-se acrescentar a essa esperança manifestada
por Schaff (1990) ao quarto fator que marca a sociedade pós-industrial, o que é indica o surgimento de valores e de uma cultura centrados no ócio.
Por fim, De Masi (2003) entende que haverá um declínio da luta de classes polarizada, substituída agora por uma pluralidade de conflitos e de movimentos, em decorrência da presença de novos atores sociais.