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4.4 The nature of RNAPII after depletion of WDR82/PNUTS-PP1
A crítica de Butler à teoria lacaniana reporta-se à identificação fálica sob a condição de ‘ser’ e ‘ter’, dentro de um caráter binário, em que, a depender da posição que é assumida diante do falo, uma sexualidade é excluída para conferir “as pretensões auto-referentes do sujeito (Butler, 2003, p.102)”, e como conseqüência desta exclusão, tal sexualidade passaria a ser a verdade do desejo.
Com efeito, Butler argumenta que uma sexualidade que é produzida fora do binarismo poderia promover uma ruptura com as pretensões auto referidas do sujeito.
Porém, ela contesta o caráter crítico da teoria psicanalítica, assim como seu aspecto subversivo concernente a problemática de gênero: a noção de inconsciente como fonte de subversão fica comprometida na medida em que se subordina a uma lei rígida que determina as identidades como fixas e fantasiadas.
Neste raciocínio, considerar a possibilidade de outras identificações na teoria psicanalítica sugere o caráter de vulnerabilidade e singularidade desta lei. Dito de outra forma, as identificações que não têm lugar na teoria psicanalítica se contrapõem ao binarismo masculino e feminino, por não se reduzirem às identificações originais, expondo o conflito e o caráter de marginalidade destas novas configurações de gênero.
A perspectiva alternativa sobre identificação que emerge da teoria psicanalítica sugere que as identificações múltiplas e coexistentes produzem conflitos, convergências e dissonâncias inovadoras nas configurações do gênero, as quais contestam a fixidez das posições masculina e feminina em relação à lei paterna. Com efeito, a possibilidade de identificações múltiplas (que finalmente não são redutíveis a identificações primárias ou fundadoras, fixadas em posições masculinas e femininas) sugere que a Lei não é determinante e que “a” lei pode até não ser singular (Butler, 2003, p. 103- 104).
Ainda sobre o caráter de validade destas identificações, Butler (2003) importa o argumento de Roy Schafer (1976) acerca do caráter fantasístico envolvido na melancolia. Assim, segundo o autor, a melancolia se realiza a partir da fantasia de incorporação, o que para Butler só faz sentido quando tal fantasia assegura um lugar imaginado, pois se esta fantasia é absorvida por um espaço psíquico interno, não sendo mais uma dimensão imaginada, isto se torna falho, pois não há como explicar o interno do corpo enquanto
abrigo desta incorporação. Todavia, para ela, esta incorporação poderia se justificar enquanto fantasia sobre o corpo, como o lugar a ser incorporado.
Dentro dessa linha de raciocínio, autores como Abraham & Torok (1987), ainda que dentro de uma perspectiva lacaniana, reforçam, em seus argumentos, a partir da releitura que realizam acerca do luto e da melancolia, a inscrição do corpo materno como uma criptografia sobre o próprio corpo, a partir da noção de incorporação como fantasia e não como processo, o que serve como subsídio aos argumentos de Butler para questionar a própria fixidez das posições masculina e feminina em relação à lei paterna, como pode-se ver a seguir:
Com efeito, a perda do corpo materno como objeto amoroso estabelece o espaço vazio a partir do qual se originam as palavras. Mas a recusa dessa perda – a melancolia – resulta na impossibilidade de deslocamento para as palavras; na verdade, o lugar do corpo materno é estabelecido no corpo, “criptografado”, para usar seu termo, ganhando ali residência permanente como uma parte morta e embotadora do corpo, ou então habitada ou possuída por fantasias de vários tipos (Butler, 2003, p. 105).
Abraham & Torok (1987) alegam que o que caracteriza o luto, diferentemente da melancolia, é a conseqüência da perda de objeto. No luto, o objeto é perdido definitivamente, ao contrário da melancolia, onde o objeto é preservado. Esta distinção é justificada pela diferença dos mecanismos de defesa que atuam em cada um. Pois, no luto, o mecanismo que opera para lidar com a perda de objeto é a introjeção. A introjeção da perda de objeto amoroso impõe ao sujeito um espaço vazio, e diante deste vazio cria a
condição de preenchimento deste espaço através da fala. Conquanto na melancolia, a perda é incorporada a fim de perpetuar a tristeza para o sujeito. No luto, através do trabalho da introjeção, a tristeza é projetada para fora do sujeito, oportunizando o campo de significação e elaboração desta tristeza na emergência das palavras, que ocupariam esta dimensão vaga, no escopo de uma eterna tentativa de preenchimento representado pelas palavras, de forma a superar essa falta de significação.
(...) Enquanto a introjeção funda a possibilidade da significação metafórica, a incorporação é antimetafórica, precisamente porque mantém a perda como radicalidade inominável; em outras palavras, a incorporação é não somente uma impossibilidade de nomear ou admitir a perda, mas corrói as condições da própria significação metafórica (Butler, 2003, p. 105).
Tal explicação se remete à formulação lacaniana sobre a inscrição do campo simbólico para o sujeito, que estaria relacionado à recusa do corpo materno, como a condição fundamental para a emergência significante, inaugurada pelas palavras, onde a fala é metafórica, no sentido em que o objeto do desejo é um deslocamento perpétuo. Por isso é que se fala, para dar conta de elaborar as perdas que se remetem a essa perda original do corpo materno.
Ao contrário, na melancolia, o sujeito fica impedido de usar o recurso da linguagem como metáfora desta perda, para cristalizar o corpo materno sobre o próprio corpo, como uma criptografia, como dito anteriormente.
Para Butler (2003), a criptografia do corpo materno sobre o próprio corpo na melancolia condicionaria a sobreposição de um sexo que é tomado como o sexo radical do sujeito. Portanto, na ausência de significação, em conseqüência da recusa desta perda, a incorporação assume o sentido literal da perda no próprio corpo, determinando o assujeitamento por um sexo que é tido como o real. E nesse sentido, determinaria as proibições e os prazeres localizados nas zonas erógenas, constituindo a melancolia do gênero que envolve a esfera corporal.
(...) Como atividade antimetafórica, a incorporação literaliza a perda sobre ou no corpo, aparecendo assim como a facticidade do corpo, o meio pelo qual o corpo vem a suportar um “sexo” como sua verdade literal. A localização e/ou proibição de prazeres e desejos em zonas “erógenas” dadas constitui precisamente o tipo de melancolia diferenciadora do gênero que cobre a superfície do corpo. A perda do objeto do prazer se resolve mediante a incorporação deste mesmo prazer, resultando que o prazer tanto é determinado como proibido por via dos efeitos compulsórios da lei diferenciadora dos gêneros (Butler, 2003, p. 105).
Nesta perspectiva, para Butler, o tabu do incesto heterossexual, que condiciona uma identidade heterossexual, estaria relacionado ao processo de luto, que resultaria em uma tristeza a ser significada. Enquanto que no caso do tabu do incesto homossexual, que produz a heterossexualidade, a melancolia seria o meio pelo qual se resolveria este impasse. Pois, no caso da perda do objeto heterossexual, o que estaria em questão seria a perda de objeto, conquanto a perda homossexual, além da perda de objeto, a perda do objetivo também entra em questão.
A partir destas explicações diferenciadoras da consolidação do gênero via elaboração do luto, ou via preservação melancólica da teoria freudiana, Irigaray (1985) argumenta que a formulação freudiana sobre a melancolia e sobre a feminilidade se equivaleriam pela dupla onda de recalcamento sofrido pelas mulheres na constituição de sua identidade. Pois, tanto na construção da feminilidade como na melancolia, o que é observada é a renúncia tanto do objeto como do objetivo. Tal renúncia ressurge no momento da castração, a qual impõe uma perda que não pode ser representada. Logo, a melancolia seria um atributo da feminilidade no sentido que subjaz ao desejo do pênis e tal desejo jamais poderá ser conhecido.
Por esse viés de construção do gênero, pode-se pensar que sua constituição, na teoria psicanalítica, dá-se como naturalização deste processo, por se sustentar no tabu do incesto, e no seu anterior, não-dito, que é o tabu contra a homossexualidade. Assim, como a tendência do gênero é sofrer um processo de naturalização, pode-se apontar que esta naturalização dispõe sobre a constituição de corpos, cujos prazeres estariam localizados em zonas erógenas determinadas, como a vagina, o pênis e os seios, como decorrência de um corpo construído como natural. Mas Butler (2003) aponta que o prazer pode estar relacionado à melancolia, onde “alguns órgãos são amortecidos para o prazer e outros, vivificados (Butler, 2003, p.108)”.
Com efeito, os transexuais representariam essa desvinculação e ruptura dos prazeres relacionados à determinação das zonas erógenas, fora de uma perspectiva desenvolvimentista do ser humano, a qual considera a maturidade sexual localizada no pênis, na vagina e nos seios.
Butler aponta o exemplo dos transexuais, para recusar o caráter patológico que é atribuído a tal identidade de gênero e ainda, reafirmar a construção de um corpo segundo ideais normativos que encerram o gênero no binário. Assim, os prazeres corporais estariam determinados pelo modelo melancólico do gênero, onde partes deste corpo estariam amortecidas ou vivificadas na obtenção de prazer.
Dessa forma, ao se pensar em prazer, isso exigiria uma participação imaginária de partes corporais, como orifícios, apêndices, os quais a pessoa pode ou não possuir, mas o prazer pode acabar solicitando imagiriamente tais partes corporais de maneira diminuída ou acentuada (Butler, 2003).
(...) É claro, o status imaginário do desejo não se restringe à identidade transexual; a natureza fantasística do desejo não revela o corpo como sua base ou sua causa, mas como sua ocasião e seu objeto. A estratégia do desejo é em parte a transfiguração do próprio corpo desejante. Aliás, para desejar, talvez seja necessário acreditar em um ego alterado, o qual, no interior das regras de gênero do imaginário, corresponda às exigências de um corpo capaz de desejo (Butler, 2003, p. 108).
Sendo assim, Butler põe em questão a dimensão do corpo, onde este pode ser entendido como um signo cultural, signo este que comporta significados imaginários estando à mercê das construções fantasiadas. O corpo para esta autora distingue-se em corpo imaginário e real, onde o significado do primeiro depende do imaginário cultural. Quanto ao segundo, sua dimensão é produzida dentro da matriz heterossexual que
naturaliza os corpos, para servir aos propósitos de literalização, onde o que é o literal é o físico e este como causa direciona o desejo concernente à anatomia.
Nesse sentido, Butler tece suas considerações acerca da indistinção do desejo com o real. Trata-se de um o tipo de fantasia literalizante, na qual as partes do corpo como o pênis e a vagina são apreendidos como o desdobramento desta fantasia, como órgãos produtores do prazer e do desejo. Dito de outra forma, tanto a vagina como o pênis adquirem caráter de legitimidade como partes corporais onde se localiza o prazer e o desejo, a partir de uma elaboração teórica que institui estas partes corporais como sendo o “real” deste desejo e prazer, modelando um corpo como natural que respeite as categorias de gênero, ou como sendo masculino ou como sendo feminino.
A homossexualidade renegada que subjaz à heterossexualidade melancólica ressurge como fato anatômico do sexo, em que este determina o laço entre anatomia, identidade natural e desejo natural. A perda recusada e incorporada é esquecida e recalcada. A esfera corporal sexuada vem à tona como o signo de um desejo e identidade sexual natural. “(...) A perda da homossexualidade é recusada e o amor é preservado ou codificado nas partes do próprio corpo, literalizado na facticidade anatômica ostensiva do sexo (Butler, 2003, p. 109)”.
Tal estratégia da literalização como modo de esquecimento deixa explícita a falta de articulação com a dimensão imaginária. O que se oculta é a própria homossexualidade imaginária, como é o caso do heterossexual masculino melancólico, que se apóia nas suas práticas sexuais com mulheres. A fim de comprovar sua heterossexualidade. Porém, Butler (2003) argumenta que o literal de uma anatomia não comprova absolutamente nada, assim
como revela “uma restrição literalizante do prazer no próprio órgão asseverado como signo da identidade masculina (p. 109)”.
Nesse sentido, a identidade masculina é assegurada pela identificação paterna que, em seu aspecto reducionista, é garantida no amor pelo pai, representado na supervalorização do pênis. Logo, à mulher caberia o lugar da garantia do desejo heterossexual em detrimento do desejo homossexual, e a mulher se assujeitando a esse papel teria que deslocar e ocultar a “história pré-heterossexual em favor de outra (Butler, 2003, p.109)”, a fim de assegurar a estabilidade heterossexual.
Partindo desta genealogia da teoria psicanalítica, percebe-se que o recalcamento tem equivalência com a lei jurídica, por instituir o masculino e o feminino, como gênero, regulando a matriz heterossexual. Para se opor a isso, as teorias feministas se debruçaram nas formulações pré-edipianas e edipianas, buscando situar a construção do gênero nesta teoria.
Uma posição feminista, que procura discutir o gênero a partir da teoria psicanalítica, é a de Gayle Rubin (1975). Tal autora fundamenta seus argumentos nas leituras de Lévi- Strauss, Lacan e Freud, dentro de uma perspectiva Foucaultiana.
Conforme Butler (2003), Rubin (1975) se apóia em Foucault no sentido em que este analisa as possibilidades de produção cultural através da lei de proibição do incesto fundamentada na teoria da sublimação de Freud (1930[1929]) no Mal-estar da civilização. Para este autor, os efeitos da sublimação estariam relacionados às produções culturais e ainda na constituição das instituições sociais, cujo preço seria o de um mal estar generalizado advindo do deslocamento da sexualidade.
Porém, a distinção entre Foucault (1971) e Freud (1930[1929]) na pressuposição de uma lei produtiva é que, para o primeiro, o que está por trás das possibilidades de produção cultural são as relações de poder e não um desejo original. Já para Freud seria o deslocamento da sexualidade, onde o que se oculta é um desejo original.
Na perspectiva foucaultiana, através das palavras de Butler, tem-se,
(...) o tabu do incesto não reprimiria nenhuma predisposição primária, mas criaria efetivamente a distinção entre as predisposições “primárias” e “secundárias”, para narrar e reproduzir a distinção entre uma heterossexualidade legítima e uma homossexualidade ilegítima. De fato, se concebermos o tabu do incesto como primariamente produtivo em seus efeitos, então a proibição que funda o “sujeito” e sobrevive como lei de seu desejo torna-se o meio qual a identidade, e particularmente a identidade de gênero, se constitui (Butler, 2003, p. 111).
Conforme pressupõem as regras do parentesco, o tabu do incesto cria a condição de permanência de um grupo social, por meio da união sexual exogâmica. Isto é, ele determina as escolhas sexuais entre parceiros que são permitidos e os que são impedidos. A partir do estabelecimento desta lei, poder-se-ia pensar que os princípios biológicos fundamentam seus argumentos em conformidade com esta lei, primeiro, por estabelecer a união exogâmica, na qual uma das finalidades seria a continuidade da espécie, no ato da procriação e, em segundo lugar, a renegação da homossexualidade, como um tipo de união em que não há possibilidades de continuidade da espécie, pela ausência da procriação. Portanto, o tabu do incesto torna-se o argumento de garantia de uma identidade social, por meio da filogenia.
Nesse sentido, Rubin (1975) aponta que a Psicanálise lacaniana se apropria da elaboração de Lévi-Strauss, sobre o sistema de parentesco, para fundamentar sua proposta filogenética da sexualidade e regulamentar o gênero na correlação desta sexualidade, como sendo o seu resultado cultural. O gênero assim regulamentado serviria aos propósitos de controle das instituições culturais, como é o caso da família, das trocas residuais de mulheres e da própria heterossexualidade presumida, e ainda, a subordinação à lei que produz a dimensão psíquica na estruturação da subjetividade dos sujeitos.
Para Rubin (1975), a subordinação do gênero ao sexo, nesses termos, paralisa as possibilidades de ampliação da própria sexualidade, já que, segundo ela, na própria constituição do sujeito, este teria um leque de opções do exercício de sua sexualidade distinto da pressuposição de uma lei que assegura as posições masculina e feminina e o gênero decorrente deste binarismo.
Nesse sentido, tal autora se beneficia da pressuposição de um desejo original, na teoria psicanalítica, pois tal desejo torna-se a conseqüência desta lei, para formular sua proposta de uma sexualidade anterior à lei, e a própria ruptura com o sistema de relação de identidade entre sexo e gênero sustentado pela teoria psicanalítica.
Rubin (1975), ao postular uma sexualidade polimorfa, anterior à fase edípica, não se utiliza da idéia freudiana das predisposições, e por conseguinte da bissexualidade, pois a própria idéia de uma bissexualidade primária fundamentada na idéia das predisposições já remeteria ao binarismo, masculino e feminino, como formas de expressão da sexualidade humana.
Sua proposta vai no sentido de revolucionar as estruturas de parentesco, no escopo da extinção da troca de mulheres, pois uma vez essa troca sendo extinta, isso romperia com a institucionalização da heterossexualidade obrigatória e com a própria idéia de regulamentação da dimensão psíquica, que preserva nessa dimensão, os padrões da sexualidade e da identidade de gênero da matriz de inteligibilidade. A partir dessa idéia de ruptura com a heterossexualidade compulsória, na perspectiva de Rubin oportunizaria a emergência das culturas gay, lésbica, bissexuais e transgêneros – GLBT’s, onde o gênero estaria ameaçado em sua função.
Acerca deste afrouxamento do gênero, por meio da emergência das culturas LGBT’s, poder-se-ia pensar em alguns questionamentos: o primeiro, sob que forma se daria esta emergência? E se assim for, como a extinção da troca de mulheres poderia servir a outros propósitos de subjugação do gênero, mediante as hierarquias que se impõem ao próprio gênero? E ainda, o gênero, ainda que regulamentado na estrutura de uma heterossexualidade compulsória, é de alguma maneira responsável pela produção marginal de sexualidades que escapam a esses padrões. Então, na liberação destas outras formas de expressão sexual, será que estas mesmas formas permaneceriam com suas características próprias, ou sofreriam um processo de mutação em decorrência da extinção do gênero?
Até que ponto esse raciocínio de Rubin não estaria comprometido com um sistema discursivo fundamentado numa proposta de subversão, funcionando na mesma lógica de operação deste próprio sistema? Pois, em meu raciocínio, não é a sobreposição de uma estrutura pela outra que encerraria este impasse.
Butler argumenta que Rubin idealizou um mundo sexual alternativo, a partir de um estágio utópico da sexualidade infantil, um anterior à lei que pretende ressurgir na diluição desta lei. O que remeteria tal proposta a uma esfera romântica infantil (polimórfica), que escapa às complexidades do gênero, e que, de uma certa forma, comprometeria toda uma estrutura social. Não que Butler defenda tal estrutura, mas o que ela aponta é o caráter idealizado desta proposta, que confere um aspecto ingênuo sobre as formas de resolução da opressão do gênero.
Voltando à problemática deste trabalho, que concerne à universalização da Lei pressuposta pelo tabu do incesto, Butler dialoga com Foucault a partir da crítica que este faz sobre a consolidação do poder que está por trás da regulamentação desta Lei. Ou seja, para Foucault, no comentário de Butler, a Lei pode ser entendida “ como uma formação de
poder, (...) e como produtora ou geradora do desejo que supostamente ela reprime. (...) o
desejo e seu recalcamento são uma oportunidade para a consolidação das estruturas jurídicas; o desejo é fabricado e proibido como gesto simbólico ritual pelo qual o modelo jurídico exerce e consolida seu próprio poder (Butler, 2003, p. 114)”.
Tal argumento deixa entrever a construção de subjetividades marcadas por características de gênero na conformação de suas identidades. Porém, quando esta lei é questionada em sua universalização, isso decorre no próprio questionamento de sua funcionalidade como estrutura dominante no interior das relações sociais (Butler, 2003).
Nesta perspectiva, Foucault põe em questão a funcionalidade do tabu do incesto, através de uma perspectiva histórica, de forma a desconstruir a idéia lacaniana do desejo original, pois o desdobramento desse desejo remeteria ao deslocamento do mesmo para
uma sexualidade legítima, a heterossexualidade. A produção de uma sexualidade original, para sempre recalcada e proibida, torna-se assim o efeito desta lei, que funciona a partir desta repressão.
Tem-se, então, no discurso psicanalítico, a bissexualidade como a forma de subversão da sexualidade, por estar fora do campo simbólico. Porém, esse estar fora, como aponta Butler, faz parte de uma estratégia discursiva, pois a bissexualidade é uma forma cultural concreta que, por permanecer fora dos padrões estabelecidos, é recusada e quando se realiza é tida como incompreensível, justamente por gerar o medo de um declínio destas