1 Introduction
1.4 Main proteins in this study
À luz dessas considerações, que apontam fissuras na teoria da linguagem desenvolvida por Lacan, sobre a estruturação do sujeito, apresentarei adiante a formulação freudiana da constituição do sujeito a partir da apreensão de sua sexualidade, propondo o modelo da melancolia como o fator fundamental na estruturação do caráter e do gênero no sujeito.
A elaboração freudiana sobre o modelo da melancolia e sua importância na formação do caráter, no comentário de Butler, deixa implícita a formação do gênero. Assim, o modelo da melancolia inaugura através da internalização da perda do objeto amoroso a constituição do gênero.
Veja-se o significado deste modelo elaborado por Freud (1917[1915]), para subseqüentemente relacioná-lo a constituição do gênero, assim como as questões suscitadas por Butler a partir desta interligação. Sinteticamente, tem-se que a perda do objeto amado dará início, através da fantasia de incorporação, à internalização do objeto perdido na estrutura do ‘eu’.
Uma vez que este objeto perdido é internalizado, seus atributos são preservados no sujeito por meio de manifestações imitativas deste objeto. Decorrendo disso, há a identificação do ‘eu’ com o objeto perdido como resultado da superação desta perda. Através do processo de identificação, que revela a apreensão de uma nova identidade, o outro passa a ser internalizado permanentemente na estrutura do sujeito. Nos casos em que uma relação ambivalente é interrompida, o que é internalizado é esta ambivalência sob a forma de uma depreciação e uma demasiada crítica, dirigidas para o próprio ‘eu’, assumindo uma parcela do supereu como decorrência dessa autocrítica.
Em O Ego e o id, Freud (1923) postula que o processo de identificação se relaciona à melancolia para que o id possa dar conta da perda de seus objetos, isto é, a identificação na melancolia representa a possibilidade de sobrevivência do sujeito diante da imposição real de aniquilamento proporcionada pelos amores perdidos. Sendo assim, a internalização da perda, segundo Freud, torna-se um processo compensatório de forma a preservar o objeto perdido para o sujeito, em uma tentativa de negociação com o id, cuja proposta é a preservação das características do objeto na estrutura do ‘eu’, como que tentando anular a perda, mas não a negação do investimento neste objeto, agora internalizado, pois os investimentos se voltariam para o objeto dentro do ‘eu’.
A importância da perda dos primeiros objetos amorosos é fundamental na estruturação do ‘eu’, pois, anteriormente a essa perda, a criança vive uma relação fusional com seu primeiro objeto de amor, podendo ser a mãe, ou quem ocupe o lugar da função materna. Portanto, a interrupção desta relação remeterá a criança à primeira sensação de perda, oportunizando a entrada da melancolia, de forma que o candidato a sujeito venha elaborar esse processo através da própria melancolia.
Outro aspecto apontado por Freud (1914) que também entra em questão nesta etapa da vida, é a escolha de objeto, que é marcada pelo processo de internalização e preservação dos amores perdidos. No momento do interdito à relação fusional, que fará a criança deslocar seus investimentos libidinais para fora do contexto doméstico, seus representantes, sob a forma das imagos materna e paterna, serão referências na escolha de seus objetos amorosos.
Portanto, a melancolia como processo resultaria no deslocamento de investimentos externos por investimentos internos, isto é, o investimento no objeto é substituído pelo processo de internalização da perda do outro amado que devolve a libido para o próprio ‘eu’ onde está localizado o objeto perdido/ preservado.
Por esta perspectiva, Butler (2003) argumenta que em O ego e o id o que está em jogo não é somente a estruturação do caráter através da melancolia, mas a aquisição de uma identidade de gênero. Explicitando melhor esta idéia, Butler observa que em decorrência do processo de internalização dos amores perdidos, estes amores são portadores de identidades de gênero distintas, que conforme a Psicanálise, são divididos em dois, masculino e feminino, sendo o feminino constituído na exclusão do masculino, ou seja, as identidades de gênero em Psicanálise são constituídas em oposição a partir desta dualidade.
A importância da melancolia na formação do caráter e constituição do sujeito é justificada pela forma como o ‘eu’ encontrou para sobreviver à perda dos amores e ainda não incorrer no processo de luto, que também é decorrente da perda de amores. Todavia, o luto se distingue do processo de melancolia por não sustentar a permanência deste objeto perdido na estrutura do ‘eu’. O luto por meio de seu mecanismo de atuação trabalha para superar, no sentido de extinguir essa perda, de forma a continuar investindo libidinalmente nos objetos externos.
Com efeito, para que se possa entender melhor os argumentos de Butler (2003), faz- se necessário se deter sobre o conceito de narcisismo em Freud, para que se possa acompanhar o desdobramento deste conceito no raciocínio de Butler sobre a constituição de gênero. Portanto, farei uma breve exposição sobre narcisismo assim como as instâncias do
‘Eu Ideal’ e ‘Ideal do Eu’ de maneira a possibilitar melhor compreensão de minha argumentação.
Entende-se o narcisismo na teoria freudiana como sendo um retorno da libido ao próprio eu. No texto Sobre o Narcisismo: Uma Introdução, de 1914, Freud discorre sobre os cuidados exercidos pelos pais ao infans, cuidado esse que projeta no filho o próprio narcisismo dos pais.
Dito de outra maneira observa-se, pelo conceito de narcisismo, a constituição do sujeito a partir de duas instâncias fundamentais: O ‘Eu Ideal’ e o ‘Ideal do Eu’. Antes da explicação das instâncias ideais e, portanto, da constituição do ‘eu’, há a necessidade de descrever um pouco mais sobre a construção do narcisismo que nasce da ficção dos pais, e das inúmeras fantasias sobre o bebê. Entre elas, a fantasia de completude os remeteria a uma plenitude perdida e, por conseguinte, a uma suposta sensação de ausência da falta, inscrevendo o ser humano como total, absoluto e completo.
(...) Se prestarmos atenção à atitude de pais afetuosos para com os filhos, temos de reconhecer que ela é uma revivescência e reprodução de seu próprio narcisismo, que de há muito abandonaram. (...) ela será mais uma vez realmente o centro e o âmago da criação — ‘Sua Majestade o Bebê’, como outrora nós mesmos nos imaginávamos. A criança concretizará os sonhos dourados que os pais jamais realizaram — o menino se tornará um grande homem e um herói em lugar do pai, e a menina se casará com um príncipe como compensação para sua mãe (Freud, 1914, para. 15).
É no desenvolvimento real deste indivíduo que vai acontecendo a diferenciação dele em relação ao objeto, confrontando-o com a realidade de sua impotência, desencadeando
um movimento de retorno ao estado primitivo de uma onipotência perdida. Logo, o retorno deste estado primitivo se dá por meio da introjeção do objeto idealizado e, uma vez internalizado, este objeto passa a constituir um eu ideal junto ao eu real da criança, permitindo a restauração deste narcisismo perdido (Andrade, 1999).
A partir do momento que esta diferenciação começa a se realizar, toma forma o narcisismo secundário. Assim, o narcisismo secundário se deflagra na percepção de um objeto externo que é introjetado.
Antes, é imprescindível um esclarecimento sobre a identificação primária, para que eu possa prosseguir minha exposição. Na identificação primária não existe ainda a noção de algo externo ao próprio corpo, ou seja, o corpo e o objeto são a mesma coisa sob a condição de um fusionamento e totalização com o externo, o Outro. Desde já, fica registrado nesta etapa as sensações de prazer e desprazer, servindo de parâmetro diferencial para que ulteriormente se tenham noções de um 'eu' e um outro.
Nas elaborações lacanianas, entende-se o narcisismo primário como um estágio de indiferenciação, simbiótico, neste processo o Outro é reconhecido como uma imagem refletida em um espelho. É através dessa imagem que a criança passa a se reconhecer, resultando daí a identificação secundária.
Basta compreender o estádio do espelho como uma identificação, no sentido pleno que a análise atribui a esse termo, ou seja, a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem – cuja predestinação para esse efeito de fase é suficientemente indicada pelo uso, na teoria, do antigo termo imago (Lacan, 1998, p. 97).
Assim, é na identificação secundária que se observa a diferenciação de um ‘eu’ e um outro, registrando o final da incorporação das imagens paterna e materna, abrindo espaço a este outro tipo de incorporação depois da perda do objeto.
Desta forma, é na identificação secundária que se abrem as portas para um reconhecimento objetal cada vez mais abrangente, fazendo com que este tipo de identificação imponha a presença da castração e entrada no Complexo de Édipo. Neste momento de constituição do sujeito, a fixação libidinal – onde o sujeito se mantém ligado a formas de satisfação arcaicas de objeto ou de relação - e a identificação se tornam os meios de ligação, primitivos, com os pais, ou seja, um dos pais é tomado como objeto de desejo e o outro como objeto de identificação primária, determinando assim a maneira pela qual o sujeito irá se relacionar com os outros ao longo de sua vida.
Com efeito, cabe ressaltar o papel exercido pelo complexo de Édipo que marca a presença de uma alteridade, sustentada pela castração na qual se rompe com a falsa idéia de uma simbiose, permitindo que o sujeito venha a ser. Portanto, a identificação significa a possibilidade de um sujeito se assemelhar a outro, no sentido de assumir imaginariamente o lugar de alguém.
Por agora, fica a identificação definida como um processo pelo qual a identidade do sujeito vai se constituindo em oposição ao próprio estado de indiferenciação. O que se verifica no narcisismo primário ou estado simbiótico é o retorno da libido para o próprio eu, ou seja, o sujeito toma a si como objeto de amor, ainda não estando consolidadas as relações objetais, eu e o outro. Já na passagem ao narcisismo secundário registra-se essa
separação, no sentido em que o interno e o externo vão progressivamente se constituir como realidades diferentes uma da outra (Athanassiou, 1997).
Assim, é no narcisismo secundário que se manifesta a separação eu-outro consolidada no complexo de Édipo, no qual, uma vez alcançada esta alteridade imposta pela castração por meio da interdição do incesto, emerge o supereu como a instância herdeira deste complexo e com uma dupla função. A primeira função seria a de manter um distanciamento do ‘eu’ com relação ao objeto do desejo incestuoso, atravessado pela angústia da castração e, a outra função seria a constituição de um Ideal do Eu, que propõe ao ‘eu’ um modelo identificatório (Athanassiou, 1997).
O ideal do ego impõe severas condições à satisfação da libido por meio de objetos, pois ele faz com que alguns deles sejam rejeitados por seu censor como sendo incompatíveis onde não se formou tal ideal, a tendência sexual em questão aparece inalterada na personalidade sob a forma de uma perversão. Tornar a ser seu próprio ideal, como na infância, no que diz respeito às tendências sexuais não menos do que às outras — isso é o que as pessoas se esforçam por atingir como sendo sua felicidade (Freud, 1914, para. 38).
Nesse sentido, ao supereu caberiam duas funções: uma parte do supereu estaria disponível para um trabalho de reparação fundamentado na culpa e a outra parte potencializaria o ‘eu’ idealizado na obtenção de seu objetivo, assim como a imagem do objeto idealizado se submeteria por meio de uma leve reparação ao esforço de união entre objeto real e objeto ideal (Athanassiou, 1997).
Cabe considerar, por fim, que a introjeção do supereu marca a entrada do sujeito na cultura e, portanto, no social. Então, se o narcisismo pressupõe um retorno a si, pode-se dizer que isto também é realizado mesmo na presença do supereu, pois o amor de si é um querer do outro, da cultura, do social, evidenciando uma elevada exigência deste supereu localizado na cultura. Portanto, a onipotência almejada é imposta pelo social e a perfeição que se deseja é a da cultura.“Enfim, seu auto-erotismo tem como guia o olhar do outro, a cultura, a sociedade, o desejo exacerbado de agradar segundo os padrões estabelecidos (Martins, 1998, p.59)”.
Com base nestas considerações acerca do narcisismo, pode-se entender que as perdas internalizadas no ‘eu’ são restauradas pelo ideal do ‘eu’- herdeiro do complexo de Édipo, que funciona como uma instância moral. Uma vez que tais perdas são internalizadas, diz-se que a raiva e a culpa, advindas desta perda, também são internalizadas, retornando para o próprio ‘eu’, onde tais sentimentos são ampliados quando ocorre sua preservação. Com efeito, o ‘eu’, ao ceder lugar ao objeto, instaura o movimento do ideal do ‘eu’ de retornar contra o sujeito, investido nessa raiva e culpa, através de uma censura acentuada, podendo até em determinadas situações, nas quais essa raiva é internamente reinvestida no eu, provocar o suicídio do sujeito.
Como ver-se-á mais adiante, a construção do ideal do ‘eu’ também envolve a internalização da identidade de gênero, justamente por ele ser o substituto do complexo de Édipo, o qual tem por função consolidar a masculinidade e feminilidade no sujeito. A partir da internalização da proibição do incesto, cabe ao ideal do ‘eu’, como instância reguladora, a permanente lembrança sobre essa proibição.
Retomando a argumentação de Butler (2003), a autora afirma que o caráter do ‘eu’ seria um precipitado de investimentos objetais abandonados que contêm essa história. Pensando dessa forma, o ‘eu’ comportaria essas duas identidades de gênero, masculina e feminina, além do potencial de representação dessas duas formas a ser manifestado pelo sujeito na sua relação com o mundo. Porém, isso só é possível de ser entendimento na Psicanálise, quando se recorre ao modelo da melancolia que mantém a ambivalência em relação ao objeto. Uma vez que essa perda é ressignificada na recusa e preservação, em que o ‘eu’ encontra recursos para se recuperar desta perda, a fase subseqüente se daria através da força do recalque, no qual ressurgiria uma estrutura de identidade sustentada em identificações anteriores, marcada pela interdição do incesto.
Dito de outra forma, no caso de uma ligação heterossexual proibida, como pressupõe o complexo de Édipo, a negativa se reporta ao objeto e não ao desejo, pois tal desejo é deslocado para outro objeto de sexo oposto. Entretanto, no caso da homossexualidade proibida, tanto o desejo quanto o objeto exigem essa dupla renúncia, evidenciando os recursos da internalização da melancolia. Para que fique mais claro, na questão edipiana do menino, verifica-se que o mesmo precisa recusar a mãe como objeto do desejo e deslocar esse desejo para outras mulheres de forma a se identificar com o pai.
A partir desta elaboração, fica exposta uma tendência à heterossexualidade na teoria freudiana. Nesse raciocínio, Butler (2003) ressalva que Freud (1905) postula a predisposição da libido à bissexualidade, como sendo anterior à aquisição do caráter e do gênero e, portanto, relativo à melancolia. Tal autora questiona o caráter dessa predisposição à bissexualidade da libido em Freud, pois não fica clara a origem deste pressuposto. No
entanto, a finalidade desta suposição seria a de servir aos propósitos da heterossexualidade presumida. De que forma?
Ora, ao expor esta predisposição à bissexualidade da libido, Freud a justifica, argumentando que o processo de identificação do filho com o pai não decorre do amor perdido ou proibido daquele por este, mas pelo caráter dúbio desta libido. Desta bissexualidade libidinal, o menino transitaria da posição feminina à masculina na tentativa de seduzir a mãe, ficando implícito o amor do filho pelo pai.
Nesta perspectiva, eclode o complexo de Édipo nas explicações freudianas, que seria o impedimento do filho pela mãe em função da castração atribuída pelo pai. Uma vez proibido, pelo tabu do incesto, a relação do menino com a mãe, ele se identificaria com o pai, por este possuir o amor da mãe, para deslocar seu desejo por outras mulheres, primeiro pelo medo da castração e segundo pela identificação com o pai (Freud, 1924).
Butler (2003) argumenta que a justificativa do repúdio do filho pela mãe e sua ambivalência pelo pai se relaciona à recusa da feminilidade, que em sua finalidade se torna uma recusa da homossexualidade masculina. Freud alude à importância da crise edipiana para a consolidação da masculinidade ou feminilidade na criança, por sua determinação inconsciente que, associada à predisposição da libido, tende a desembocar na heterossexualidade.
Butler põe em questão a estruturação do caráter encerrado pelo complexo de Édipo, pois tal estruturação toma por base o estabelecimento da heterossexualidade sobre a homossexualidade, onde o medo da castração revelaria não o apelo à perda do pênis, mas a
assunção da feminilidade, que de alguma maneira se associa à idéia de homossexualidade, no interior das culturas heterossexuais.
Nesse sentido, Butler (2003) argumenta que não é o desejo pela mãe que é punido, mas o investimento homossexual, do filho pelo pai, que deve ser subordinado a uma heterossexualidade instituída. Portanto, fica duvidoso o complexo de Édipo como instância que direciona as escolhas objetais na suposição de uma anterioridade bissexual, cuja função é renegar a feminilidade, por supor que a posição feminina se atrelaria à homossexualidade masculina.
O que fica duvidoso para Butler sobre a imposição edípica como o momento de aquisição de uma identidade sexual é a determinação da heterossexualidade compulsória, reificada pela teoria psicanalítica. O argumento desta autora é que Freud, ao postular a predisposição à bissexualidade da libido, leva a pensar que o repúdio vivenciado na circunstância edípica decorreria desta predisposição sexual e não da rivalidade pela conquista do objeto do desejo, que no caso é representado pela mãe, e o medo da castração não significaria a perda do pênis, mas o medo de uma feminização que estaria atrelada à homossexualidade masculina.
O complexo de Édipo inauguraria e consolidaria o gênero nesta teoria. Mas o gênero aqui deve ser entendido como a consolidação de uma identidade sexual pressuposta pelo complexo de Édipo. Não há aí possibilidade de pensar o gênero como algo que escapa da predisposição suposta por Freud. E, como questiona Butler (2003), tal predisposição não dá a ver seu fundamento. Apesar de ter sido indagada pelo próprio Freud, este a utiliza, reificando a própria heterossexualidade.
Assim sendo, o complexo de Édipo se torna uma justificativa para explicar o repúdio do menino pela mãe e a ambivalência pelo pai. Esta ambivalência estaria presente nas explicações freudianas sobre a bissexualidade da libido e não em uma identificação a partir da rivalidade. O mote desta ambivalência não seria a escolha de objeto, mas a escolha entre as predisposições masculina e feminina, na suposição da bissexualidade primária, que produz no menino o medo da feminilidade e sua ambivalência em relação ao pai.
A partir deste raciocínio, o conflito edipiano fica duvidoso: a autora põe em questão a veracidade deste complexo no que concerne ao desejo incestuoso pela mãe. Não caberia aí, portanto, uma rivalidade entre filho e pai na obtenção desse objeto de amor. O que põe em questão o próprio caráter da predisposição libidinal aludida por Freud, pois, com base nas explicações teóricas concernentes ao complexo de Édipo, percebemos a tendência que este assume em direcionar o sujeito à heterossexualidade, pois já está predisposto a esta escolha.
Dentro da idéia do complexo de Édipo associada à idéia da predisposição, quando o menino renuncia à mãe como objeto do desejo, essa perda é internalizada através da identificação com a mãe, que permanece na estrutura deste sujeito como uma instância autocrítica. Uma vez isso consolidado, a feminilidade preservada teria a função de desorganizar a masculinidade, a fim de instituir as disposições libidinais femininas em seu
lugar. Aqui podemos perceber o trabalho que é operado por essa libido bissexual, na
internalização dessa perda para justificar uma escolha de objeto heterossexual.
Na menina, o complexo de Édipo também pode ser positivo, na medida em que esta menina se identifica com a mãe e passa a eleger o pai como objeto de amor, tornando esta
mãe o alvo da hostilidade. Sendo negativo, a menina se identifica com o pai e a mãe permanece como objeto de amor. Porém, a perda do pai como objeto de amor consolidada pelo tabu do incesto pode ocasionar uma identificação com o pai, o que nas explicações freudianas representaria a consolidação da masculinidade como componente libidinal e não uma escolha de objeto do mesmo sexo.
Vale ressaltar que, para a menina, o primeiro objeto de amor é a mãe, e, mediante o complexo de castração é que torna possível a passagem para o complexo de Édipo positivo. Portanto, segundo Freud acerca da problemática da identificação proposta pelo complexo de Édipo, o que definirá a identificação será o fortalecimento ou enfraquecimento da masculinidade e da feminilidade na sua predisposição, deixando entrever a aquisição da heterossexualidade como uma conquista sobre a homossexualidade.