4.2 Valuation Methods
4.2.1 The Income-Based Approach
É importante recuperar alguns elementos históricos e contemporâneos para apresentar as abordagens referentes à implementação da autogestão na produção habitacional. Sem a intenção de conduzir ao significado desta modalidade, a exposição destas perspectivas demonstra o caráter plural da autogestão perante os autores.
A autogestão92, quando abordada sob uma perspectiva histórico-conceitual, apresenta duas vertentes reconhecidas, quais sejam: a autogestão sob o enfoque marxista e a autogestão sob o enfoque proudhoniano. Vale destacar que nenhum deles usou a palavra autogestão em seus estudos. Motta (1981, p.133) afirma que Proudhon nunca empregou o termo autogestão, todavia, ele empregou seu conteúdo, não restringindo o sentido de uma sociedade autônoma à simples administração de uma empresa pelo seu Pessoal. Proudhon deu, pela primeira vez, à sua concepção, o significado de um conjunto social de grupos autônomos, associados tanto nas suas funções econômicas de produção quanto nas suas funções politicas. Resumidamente, consideramos que a autogestão pode ser encontrada em Proudhon quando o mesmo fala sobre as associações mútuas; já em Marx, a autogestão aparece como o autogoverno dos produtores associados (Guillerm e Bourdet, 1976). Segundo Guillerm e Bourdet (1976: p. 9), o sentido original da palavra, numa perspectiva marxista, significa ―a livre associação de homens iguais numa sociedade sem classes‖. Estas concepções iluminam as práticas verificadas a partir dos anos 1980, mas com certa cautela. Tratando-se de autogestão na habitação social, ainda que não seja uma decorrência direta, esta é parte do processo da autoconstrução que ocorre nas cidades, como São Paulo, desde a década de 1920, mas é a partir da década de 1940 que a autoconstrução torna-se forma dominante nos loteamentos periféricos de São Paulo.
Bonduki (2000) mostra que é deste período as origens do modelo fundado no trinômio loteamento periférico / casa própria / autoconstrução. O loteamento da periferia de São Paulo se reveste, no início, de um caráter de especulação fundiária, através da ação de promotores privados que adquiriam grandes parcelas de terra na periferia. Outros fatores também contribuíram para o avanço da urbanização na periferia nos anos 1940, tais como:
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Não é nosso objetivo, neste trabalho, avaliarmos as experiências históricas da autogestão, como, por exemplo, a Comuna de Paris, a experiência da Iugoslávia, dentre outras. Para melhor esclarecimento dessas questões indicamos o trabalho de Guillerm e Bourdet (1976), Venosa (1981), Vilogorac (1986). Para aprofundamento nas ideias modernas de participação, que remontam ao socialismo utópico do século XIX, que surgiu como corrente filosófica articulada à nova situação criada pelo advento da indústria, iniciada na Inglaterra na segunda metade do século XVIII, sugere-se: Motta (1981), Venosa (1987), Follis (1983 a), (1983 b).
o afluxo dos migrantes, os congelamentos dos aluguéis que se manteve de 1942 a 1964 e por fim, o desenvolvimento dos transportes coletivos por ônibus (a Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos foi criada em 1947).
No entanto, a autogestão não pode ser um termo aplicado a toda forma de autoconstrução, já que o termo “autoconstrução”, segundo análise de Sachs (1999), recobre várias realidades. A autora estabelece algumas relações entre a autoconstrução e o setor não – mercantil, o setor privado mercantil e o setor público. Dentro do setor não-mercantil estaria a “autoconstrução integral”, fundada na ajuda mútua e nas relações de reciprocidade entre os membros de uma comunidade ou família, sem recursos de serviços como mão-de-obra assalariada e sem compra de materiais de construção, sendo assim, um mutirão estrito (ajuda mútua), praticamente inexistente em ambiente urbano. No setor privado mercantil encontra-se a “construção autogerida”, em que apela também para a ajuda mútua com a compra de materiais e serviços de mão-de-obra remunerada. Já no setor público há a “autoconstrução assistida” que sofre intervenção do setor público sob forma de assistência financeira, legal e técnica.
O que a autora aponta neste caso é que nem sempre é clara a divisão entre a construção autogerida e a “produção sob encomenda”, em que o futuro morador exerce o controle econômico direto da produção, enquanto o controle técnico é garantido pela mão-de-obra contratada, ou seja, pelo construtor profissional. O problema ainda se complica pelo fato das relações de ajuda mútua e as relações comerciais estarem estritamente ligadas.
Segundo Bolaffi (1986), o mutirão autogerido cria uma forma mistificada de participação. Esta deveria tomar a forma de uma participação política real, ao invés de se limitar ao campo da construção da habitação. O autor considera uma insensatez consultar a população sobre problemas técnicos, como a escolha de materiais de construção, quando ela é excluída do debate sobre a dívida externa, o emprego, etc. ―Resumindo, trata-se de uma participação ilusória, de um sucedâneo de democracia‖.
Do lado oposto, e a partir de uma reflexão sobre a renovação das práticas arquitetônicas e o lugar dos usuários finais, John Turner (1983) privilegia o termo “construção autogerida” pois, em sua opinião, o elemento essencial da autoconstrução é a capacidade de cada família conceber sua habitação e gerir sua construção; a poupança, na forma de aporte de mão-de- obra não remunerada parece-lhe o menos importante.
fundamentais na formação da proposta de Turner, que, elaborada no final dos anos 1960, influenciou grande parte dos programas e das políticas, cujo objeto era a habitação da classe de baixa renda na quase totalidade do terceiro mundo, por quase duas décadas. O ponto central do discurso de Turner era a autonomia e a participação dos usuários na construção da sua moradia. Ele enfatizava, nos seus diversos trabalhos, a ineficácia dos programas habitacionais baseados numa organização centralizada, contrapondo-os às formas desenvolvidas pelos grupos que trabalham com autoconstrução, na sua luta para resolver o problema da moradia (JACOBI, 1981: p. 33).
São fundamentais, segundo Turner, aspectos relacionados ao controle do processo pela própria população e às vantagens decorrentes da participação do usuário na solução dos seus problemas de moradia, visando à minimização dos gastos, com a possibilidade de geração de uma poupança.
Ele destaca que as realizações oficiais, distanciando-se das necessidades dos moradores, representam, em última instância, a exclusão do usuário do processo de decisão. Sua participação, ao contrário, adquire um significado determinante, na medida em que assegura o cumprimento das prioridades de cada família. Assim, para Turner (1972, p.51-70), "a intervenção dos governos e dos organismos internacionais deve limitar-se apenas a assegurar aos mais capazes de construir, para si mesmo, ou para seus vizinhos, o acesso ao instrumental, ou aos recursos básicos necessários a este trabalho", isto é, o terreno, a assistência técnica e a infra-estrutura básica.
A visão de Turner, segundo Jacobi (1981, p. 38), apresenta alguns equívocos. São duas as críticas principais:
- a substituição do valor de troca da habitação pelo valor de uso. O valor de troca é algo inerente ao modo de produção capitalista; a habitação é uma mercadoria e não deixará de sê-lo;
- o uso de procedimentos extremamente voluntaristas, que evidenciam uma inversão da realidade, reduzindo os problemas sociais a problemas pessoais: "problema habitacional se coloca sob a responsabilidade individual do morador".
Para Jacobi (Ibidem, p.37), Turner elimina o conflito, "privilegiando as relações entre os homens geralmente a partir de uma perspectiva harmônica ou, quando muito, disfuncional".
Sempre segundo ele, o equívoco de Turner é ―privilegiar a existência de problemas na ordem social, em lugar de entender a ordem social enquanto problema, centrando sua análise nas relações entre oferta e a demanda habitacional, onde as forças estruturais significativas que as determinam são ignoradas".
A discussão da autogestão é ampla no sentido que esta abrange também as relações sociais empregadas no processo construtivo. Esta modalidade é analisada por alguns autores, como Francisco de Oliveira, como um modo particular de execução da moradia. A análise, neste caso, não se reduz nas relações estabelecidas no canteiro de obras, é necessário também a incorporação da dinâmica política e econômica do processo autogestionário na produção habitacional.
AUTOCONSTRUÇÃO E RELAÇÕES SOCIAIS
A autoconstrução utiliza-se de processos tradicionais da construção civil para a produção de moradias e ainda, o trabalho dos futuros moradores na execução da maioria dos serviços. Para Bonduki (2000), esta prática utilizada nos programas habitacionais por mutirão é onde a participação do morador ocorre de forma positiva:
No mutirão, todo o produto do trabalho é incorporado pelo trabalhador, inexistindo, portanto, alienação entre produto e produtor. Trata-se pois, de um dos poucos momentos em que o trabalhador não tem o fruto do seu trabalho apropriado por outros, ou seja, em que não há exploração.
Já para Francisco de Oliveira (2006), a produção da habitação sob a forma-mercadoria implica necessariamente na produção capitalista, de um modo particular de execução que caracteriza seu valor de uso e valor de troca. Segundo o autor, a casa executada por mutirão não tem valor de troca, pois é impedida pelo seu próprio rebaixamento. Ela não constitui mercadoria, pois na decomposição do custo desta habitação, teremos somente o valor do próprio futuro morador e, ‖Na linguagem marxista é o não-valor, em que a autoconstrução não agrega valor a casa construída‖.
A construção da habitação por mutirão é realizada em grande parte por trabalho não pago, em que parte de sua mão de obra é composta pelos futuros moradores. Para Oliveira (1977), observa-se nesta forma de execução de moradia, o aumento da taxa de exploração do trabalho, já que a casa constitui num aparente custo de reprodução da força de trabalho, sendo que esta contribui para o processo de expansão capitalista, que tem ―uma de suas
bases e seu dinamismo na intensa exploração da força do trabalho‖.(Ibidem, p. 28).
Os valores de uso e de troca estão presentes no capitalismo e ambos integram as mercadorias, ao contrário do feudalismo em que somente o excedente produzido era transformado em mercadoria.
Segundo Csaba Déak,
Enquanto no feudalismo a forma-mercadoria era restrita ao excedente, produzido pelo servo, apropriado pelo senhor - na forma de renda - e levado ao mercado nas cidades, sendo os meios de reprodução da força de trabalho providos mediante produção para subsistência, tornam-se mercadorias diretamente como valores de uso, no capitalismo, ambos, excedente e meios de subsistência, tornam-se mercadorias (assim como a própria força de trabalho) (DÉAK, 2001).93
No capitalismo, portanto, estes dois momentos (excedente e a subsistência) se confundem por meio do trabalho assalariado. A produção de valores de uso enquanto mercadoria (valor de troca) no capitalismo é denominada “generalização da forma-mercadoria”.
A principal força motriz do capitalismo continua sendo o mesmo processo que o trouxe à luz, através da transição do feudalismo para o capitalismo, a saber, a generalização da forma-mercadoria (...). Valores de uso são produzidos enquanto mercadorias, vale dizer, enquanto valores de troca, e a primazia do valor de troca sobre o valor de uso tende a estender-se a toda a produção. Os trabalhadores, desprovidos de seus meios de produção e assim, de subsistência, são obrigados a vender sua força de trabalho, ela própria agora mercadoria, pelo salário, para com esse salário comprar no mercado seus próprios meios de reprodução (Ibidem).
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Deste ponto de vista pode-se observar a existência ou não de relações capitalistas no desenvolvimento dos programas habitacionais por mutirão. Buscando as formas de produção habitacional no feudalismo, segundo Michael Ball (1992), sob o regime feudal, a maioria dos camponeses construía suas próprias casas, ou então eram encomendas pelos futuros proprietários e eram consumidos diretamente como valor de uso pelos mesmos. Não havia assim, relações capitalistas, para que as houvesse, seria necessário que o consumo das moradias fosse feito através da compra e do aluguel.
AUTOCONSTRUÇÃO, AUTOGESTÃO E O MUTIRÃO.
Segundo Bonduki (2000), tem sido comum análises que veem no mutirão um processo atrasado de produção habitacional, além de mistificador. As críticas apontam que o mutirão exige enorme aparato administrativo para seu suporte, que utiliza sistemas construtivos arcaicos, geram desperdícios, alonga o tempo da obra, e que assim os custos indiretos seriam tão elevados que anulariam as vantagens da utilização da mão-de-obra gratuita. Bonduki aponta que estes problemas com o mutirão são relacionados com a sua forma de gestão, e que as dificuldades encontradas poderiam ser superadas se a gestão estatal fosse substituída pela autogestão.
Mutirão ou autoconstrução administrados pelo Estado eliminam boa parte das vantagens que essas práticas sociais apresentam quando promovidas de forma autônoma pela população. O que sempre garantiu rapidez e agilidade não tão expressivo processo de autoconstrução em lotes próprios, que, durante décadas viabilizou a moradia popular em São Paulo e outras cidades brasileiras, foi o fato de seus promotores terem total liberdade para empreender suas casas, buscando as melhores alternativas (...). A não interferência do poder público possibilitava rapidez e agilidade (...) (BONDUKI, 2000: p. 44).
Ainda o autor:
A junção de autogestão ao mutirão - por meio da transferência da responsabilidade pela administração do empreendimento do Estado para entidades públicas não estatais, associações comunitárias ou cooperativas – supera uma parte importante dos entraves presentes nos mutirões geridos pelo governo (Ibidem: p.45).
Bonduki (2000) entende autogestão na produção por moradia ―um processo de gestão do empreendimento habitacional em que os futuros moradores, organizados em associações ou cooperativas, administram a construção das unidades habitacionais em todos os seus aspectos, a partir de regras e diretrizes estabelecidas pelo poder público, quando este participa financiando o empreendimento‖. (Ibidem, p.35).
Para Abiko (1995), a participação do mutirante na construção de suas moradias visa, em primeiro lugar, diminuir os custos do empreendimento. Outros benefícios também são
obtidos, tais como a melhoria da qualidade do conjunto habitacional e das unidades habitacionais e a identificação do usuário com o produto de seu trabalho, o que propicia a manutenção e seu uso adequados.
Um dos aspectos considerados por Abiko (2006) como o mais problemático nas obras realizadas em mutirão é o prazo de execução, sendo comum, por exemplo, empreendimentos que levam 24 meses ou mais para serem concluídos. Isso ocorre, segundo ao autor, devido ao fato de que o mutirão não funciona em tempo integral, no decorrer da semana, mas apenas nos fins de semana. Outro fato é a menor produtividade da mão-de-obra mutirante, predominantemente não qualificada nem treinada para a construção civil. Essa mão-de-obra envolve-se nos empreendimentos em regime de sobretrabalho, pois os mutirantes estão construindo suas moradias em um período que deveria ser utilizado para o descanso e para o lazer.
O objetivo em distinguir as diversas análises do mutirão autogestionário é o da compreensão da abrangência desta temática. Não é a intenção desta pesquisa imprimir algum significado novo desta modalidade, mas apresentar a forma que esta foi conduzida pelos autores citados. Não pretendo, com a exposição destas críticas, solucionar a questão, mas sim, apresentar os elementos de um debate ainda aberto.