Atualmente, é fulcral perceber que a escola é um espelho fidedigno da sociedade, particularmente dos problemas, preocupações e adversidades que uma determinada população enfrenta no seu quotidiano, atendendo ao local onde a escola está inserida, pelo que, como Vilar (1993) salienta, a escola “é uma célula social” (p. 30). Deste modo, o crescimento e o progresso da escola e dos seus diversos intervenientes ocorrem quando é tido em consideração um conjunto de relações internas, mas também com a comunidade, sem nunca esquecer que a escola deve apresentar-se como uma instituição aberta ao exterior e que privilegia o contacto com os saberes, tradições e costumes das gerações passadas, de forma a perpetuar uma herança e um legado cultural. Para Teixeira (1995), é necessário promover uma simbiose entre os contributos que a escola
possibilita à sua comunidade e, por sua vez, o meio envolvente deverá valorizar e proporcionar os apoios necessários ao processo de evolução da escola.
Aquando da minha práxis, as metodologias pedagógicas utilizadas tinham como objetivo evidenciar e enaltecer o papel fulcral da criança no processo de ensino/aprendizagem. Contudo, foi valorizado o vasto território pedagógico que apresentam as diversas entidades culturais, sociais e recreativas presentes na comunidade escolar, tendo em consideração que a atividade docente “é uma actividade psicossocial que se desenvolve em contextos espaciais, temporais, sociais, organizativos com valor educativo e em que cada circunstância tem aspectos singulares e únicos. Por isso, o conhecimento dos contextos é fundamental” (Alarcão, 2010, p. 45), não só para a valorização das vivências e dos interesses das crianças, como também no momento de definir, identificar e delinear objetivos e estratégias de intervenção pedagógica.
Para além dos diferentes contextos anteriormente referenciados, de que o docente deve ter conhecimento, particularmente do meio social envolvente, cabe-lhe ainda explorar, conhecer e distinguir as diferentes interações entre os contextos que promovem o desenvolvimento da criança, como: a instituição, a sala de aula, a turma e os ambientes familiares em que os alunos estão inseridos.
As inferências que cada contexto poderá propiciar à aprendizagem das crianças deverão aparecer referenciadas no Projeto Educativo de Escola (PEE), visto que, segundo Leite, Gomes e Fernandes (2001), “é um instrumento que formaliza as intenções e as acções da política educativa e curricular de uma escola” (p. 68). Para Vilar (1993), o PEE é um “produto específico que reflecte a realidade interna, embora referenciada a um contexto mais amplo que a influencia” (p. 30). Por conseguinte, dá-se a criação do Projeto Anual de Turma (PAT), que, numa primeira abordagem, reconhece e promove algumas das orientações patentes no Projeto Educativo de Escola, mas, acima de tudo, possibilita a operacionalização e gestão do currículo (Leite, 2000). Na perspetiva de Roldão (1999), o PAT é:
a forma particular como, em cada contexto, se reconstrói e se apropria um currículo face a uma situação real, definindo opções e intencionalidades próprias, e construindo modos específicos de organização e gestão curricular, adequados à consecução das aprendizagens que integram o currículo para os alunos concretos daquele contexto (p. 44).
De salientar que, no contexto Pré-Escolar, temos a elaboração do Projeto Curricular de Grupo (PCG), que pretende elencar um conjunto de necessidades e objetivos, dando assim resposta a um determinado grupo de crianças.
Facilmente se constata a relevância de documentos e instrumentos como o Projeto Anual de Turma e o Projeto Curricular de Grupo, que são fundamentais para uma eficaz compreensão do meio envolvente, bem como da escola, do grupo e da turma de crianças em que estamos inseridos. No entanto, estes documentos não são referenciados ao longo do presente capítulo, pelo facto de se encontrarem em fase de construção e por questões de confidencialidade dos dados presentes. Deste modo, os dados a seguir explorados são o resultado de observações, do contacto direto com os intervenientes e das entrevistas informais estabelecidas ao longo da prática pedagógica.
4.1.1 O meio envolvente.
A Escola Básica do 1.º Ciclo com Pré-Escolar de Santa Cruz situa-se no meio urbano do concelho de Santa Cruz, mais propriamente na pitoresca freguesia homónima. Destaque-se que Santa Cruz é atualmente o ponto de chegada e partida dos inúmeros turistas que impulsionam e promovem a economia madeirense, uma vez que esta freguesia acolhe o Aeroporto Internacional da Madeira. Dados dos Censos de 2011 indicam a existência 7226 habitantes (46,5% do sexo masculino e 53,5% do sexo feminino). Em termos de estrutura demográfica, as informações revelam o envelhecimento da população, com um aumento da população ativa e uma diminuição da natalidade, refletindo assim uma realidade que se verifica a nível nacional.
O envelhecimento da população é encarado com alguma apreensão por parte das entidades de poder local, como a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia, as quais se têm empenhado não só em apoiar e acompanhar esta faixa etária, com cursos e atividades de entretenimento, mas também em incentivar à natalidade na freguesia, mediante a constante promoção da mesma junto dos jovens casais, para que façam desta a sua nova residência. Estas iniciativas parecem estar a surtir efeito, se atentarmos no aumento da população nos últimos anos.
Outro problema atual na freguesia de Santa Cruz é a elevada taxa de desemprego que atinge as famílias, com ambos os progenitores desempregados, o que conduz à instabilidade financeira e emocional e, por vezes, se transfigura em problemas de alcoolismo e toxicodependência no seio familiar. Atualmente existe um número elevado de famílias a viver com apoio do rendimento de reinserção social.
Os principais recursos económicos assentam no aproveitamento turístico da zona, uma vez que a freguesia é conhecida pelos magníficos jardins e, claro, pelo famoso parque aquático, que no verão faz as delícias de miúdos e graúdos, atividade que proporciona emprego a um número relevante de jovens habitantes, particularmente durante a época balnear. Por sua vez, a população
tem ao seu dispor várias instituições, como a Casa da Cultura, o Centro Cívico, o Centro de Saúde, entre outras, que permitem um vasto leque de serviços, contribuindo para o bem-estar da população. Um dado interessante prende-se com o facto de as ilhas Desertas, que se localizam a sudeste do arquipélago da Madeira, dependerem administrativamente do concelho de Santa Cruz. De enaltecer que o subarquipélago é considerado Reserva Natural desde 1995, o que valoriza o património deste concelho.
4.1.2 A instituição educativa.
A Escola Básica do 1.º Ciclo com Pré-Escolar de Santa Cruz é uma escola recente, que iniciou a sua atividade nesta nova infraestrutura em Setembro de 2006. Apresenta uma excelente imagem, com várias estruturas que possibilitam aos alunos evoluir de forma eficaz e divertida. Este estabelecimento de ensino funciona em regime de escola a tempo inteiro. Além das salas de aula e outros espaços interiores, esta infraestrutura é também servida por um polidesportivo em tartan. De referir a existência de um elevador, que permite a mobilidade de crianças com necessidades educativas e motoras especiais, as quais, não raras vezes, são olvidadas aquando da construção de novas infraestruturas.
Facto curioso é a escola apresentar três zonas de recreio distintas, utilizando um sistema de rotatividade nas horas de lazer das crianças, ou seja, no intervalo da manhã uma determinada turma está num espaço de recreio, mas na hora de almoço e no intervalo da tarde mudam de zona. Esta estratégia permite reduzir o sobrepovoamento dos espaços, diminuindo assim o risco de quedas e pequenos acidentes e transformando igualmente o recreio numa constante aventura.
Atualmente, a escola tem doze turmas inseridas no 1.º Ciclo do Ensino Básico (1.º CEB) e cinco salas vocacionadas para o ensino Pré-Escolar, num total de quatrocentos e dez alunos que constituem a população escolar. Segundo o Projeto Educativo de Escola, os alunos são, na sua maioria, oriundos de famílias de nível socioeconómico médio. Ainda assim, existem cerca de duzentos e setenta alunos provenientes de famílias acompanhadas pelos serviços competentes, mediante a situação e contexto familiar, nomeadamente o Tribunal de Menores, a Comissão de Proteção de Menores e a Segurança Social.
O corpo docente é composto por vinte e nove professores do 1.º CEB e quinze educadores de infância ao nível do ensino Pré-Escolar. A escola tem ainda ao seu dispor vinte e três elementos de pessoal não docente, que têm a seu cargo garantir todo o funcionamento logístico escolar, bem como
zelar pelo bem-estar das crianças. São igualmente proporcionadas todas as atividades extracurriculares necessárias para um bom desenvolvimento das crianças.
Em suma, trata-se de uma escola moderna, que trabalha para a formação intelectual, mas também para os valores fundamentais do ser humano, tendo em atenção o futuro papel das crianças como cidadãos conscientes, ativos e interventivos. Este estabelecimento de ensino procura também o contacto com a comunidade, aliando projetos escolares a outros desenvolvidos por diferentes entidades sociais.
4.1.2.1 O Projeto Educativo de Escola.
No decorrer da prática pedagógica, foi tido em consideração o Projeto Educativo de Escola (PEE), subordinado ao tema central Eu e o Outro, tendo como objetivo sensibilizar a comunidade escolar para o comportamento cívico ao nível das atitudes adequadas e inadequadas. Deste modo, a instituição pretende maximizar o desenvolvimento da formação social e pessoal de toda a comunidade educativa, com inúmeras iniciativas dirigidas aos diferentes públicos-alvo (PEE da EB1/PE de Santa Cruz, 2012). Importa, assim, referir que:
O Projecto Educativo é um documento de carácter pedagógico que, elaborado com a participação da comunidade educativa, estabelece a identidade própria de cada escola através da adequação do quadro legal em vigor à sua situação concreta, apresenta o modelo geral de organização e os objectivos pretendidos pela instituição e, enquanto instrumento de gestão, é o ponto de referência orientador na coerência e unidade de acção educativa (Costa, 1992, citado por Beltrão & Nascimento, 2000, p. 98).
Nesta ordem de ideias, o PEE permite adequar e flexibilizar certas nuances do currículo, tendo em consideração o contexto escolar onde este é aplicado, e desta forma delinear um conjunto de estratégias, fazendo face às adversidades que a escola enfrenta. O objetivo máximo é edificar a própria identidade, baseada na cooperação entre os vários elementos constituintes da ação educativa (PEE da EB1/PE de Santa Cruz, 2012).