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The Gauss-Bonnet Theorem

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Em Alcântara, tanto na sede quanto nos povoados rurais, a brincadeira do Bumba-Meu-Boi sempre foi cultivada. Com o passar do tempo, contudo, elas foram gradativamente sendo abandonadas. Alguns brincantes antigos, ainda vivos, fornecem informações sobre essa época de apogeu da brincadeira, no município. Ao coletar informações sobre o Bumba-Meu-Boi de Peital, reconheci as performances cômicas como contribuição da cultura imaterial e material da comunidade, localizando os traços de identidade dos palhaços no povoado a partir de elementos naturais, simbólicos.

Vários anos após o deslocamento da comunidade rural de Peital de seu local de origem (povoado de Peital Velho) pelo CLA, algumas manifestações culturais começaram a ser reconstruídas no novo povoado, dentre elas a do Bumba-Meu-Boi. Ali, uma senhora, caixeira do Divino Espírito Santo, Marlene Silva, ao lado de mais alguns entusiastas da brincadeira, retomaram a manifestação cultural.

Marlene Silva, além de organizadora da brincadeira, também é mandante, cabeceira do Bumba-Meu-Boi. Assim como os homens, ela também faz

toadas, que integram o repertório do grupo: Tu vai lá pra Vila Maria / me leva uma lembrança pra Jacinto / que Marlene tá mandando / pra ele ficar sabendo / que dele eu tô me alembrando / que ele mande me dizer / como o novilho dele tem passado / que o meu até agora / dentro deste apropriado / está sendo procurado.

O grupo de Peitaladotou como base desse esforço de reconstrução a memória oral e visual (fotografias antigas) da brincadeira original, que existiu no passado numa localidade do povoado, chamada Camaleão, sob o comando do mandante Raimundo Gaju, com a intenção de manter viva essa tradição (Marlene Silva, 2008). Brincantes de vários povoados de Alcântara, remanescentes de antigos grupos, já extintos, foram convidados a participar da reconstrução do Bumba-Meu-Boi, dentre os quais os dePonta de Areia, Marudá, Mamuna, Mocajubal, Bom Viver, Rio Grande, Peru, Cajueiro, Ponta Seca, Espera, Peital e Só Assim.

A iniciativa de reconstrução se baseia na ideia de recuperação da manifestação tida como tradicional, e o grupo procura ser fiel à forma como ela era feita no passado. Sobre tal aspecto, elucida Hobsbawm (2002, p. 9-12):

Por “tradição inventada” entende-se um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado. Aliás, sempre que possível, tenta-se estabelecer continuidade com um passado histórico apropriado... ...Consideramos que a invenção das tradições é essencialmente um processo de formalização e ritualização, caracterizado por referir-se ao passado, mesmo que apenas pela imposição da repetição. Os historiadores ainda não estudaram adequadamente o processo exato pelo qual tais complexos simbólicos e rituais são criados.

O esforço de reconstrução envolve uma tentativa de retorno ao passado através de um processo de repetição, o que permite supor, segundo Hobsbawm (2002), que o Bumba-Meu-Boi de Peital se encontra inserido em tal situação. No conjunto da brincadeira de Alcântara, localizei há sete anos a realização das matanças ou comédias, performances que possuem características nitidamente cômicas. A utilização da palavra performance para designar a matança se deve ao fato de que esse conceito tem sido bastante utilizado, ultimamente, quando se trata de teatro, antropologia e folclore, dentre outros campos, segundo Dawsey (2007). No entanto, os palhaços só se referem às performances como comédias ou matanças.

A estratégia de repetição das matanças, baseada na ideia de que a tradição precisa ser mantida se refere a um tema básico comum. O enredo gira em torno de um boi que é o mais famoso da fazenda (com as figuras do patrão e dos empregados), e que desaparece através de um roubo, o que provoca um drama. Surge a necessidade de recuperar o animal e, em torno desse tema, é gerado um conflito, com variações que acontecem a cada nova matança elaborada. Segundo Marlene Silva (2012):

Depois da morte de seu Estêvão, de Marudá, com quem eu dividia o trabalho para botar o Boi eu chamei alguns palhaços para fazer a matança. Tem o Bijuca, o Maçã, os vaqueiros acompanham pra responder às perguntas, às conversas dos palhaços. Eles são vários, eles mesmos preparam o que vão dizer, criam toadas para dizer uns para os outros. Quando o Boi tá brincando no terreiro, aí os palhaços roubam o Boi. Então vão atrás deles, e os palhaços se fazem de brabos, só dizem onde o Boi está se derem pra eles mil e quinhentos reais, tem disso, tem umas cantigas que falam dessas coisas e tal. Eu me alembro de uma toada que fala disso: Meu amo / venho lhe dizer / que nossa fazenda o ladrão roubou / meu amo / eu campeei até o campo das Flores / e não encontrei, meu amo / o pai da malhada / o reprodutor da fazenda. Matança sempre teve aqui nesse Boi, desde que me entendi como gente, e cada apresentação tinha até três matanças, com estórias diferentes, e demorava muito. Antes era assim, mas, a geração vai mudando, e então eles criam a cada ano novas histórias, e assim vai mudando sempre, as comédias sempre são outras.

Os ladrões (palhaços) são identificados e perseguidos pelos índios tapuios e vaqueiros, a mando do patrão (mandante). O boi some sempre de uma forma diferente, de acordo com a criatividade dos palhaços, compondo uma narrativa que culmina com a recuperação do animal, que ressurge ou ressuscita, e que urra para alegria geral (trecho da brincadeira que se denomina Urrou). As narrativas, que procuram provocar o riso na assistência, são as mais complexas possíveis, envolvendo situações inusitadas, estapafúrdias, absurdas, com características cômicas.

O riso festivo, dessa forma, se estabelece nas matanças. Durante a realização do folguedo do Bumba-Meu-Boi, sendo a festa, cuja organização se torna necessária para os grupos sociais, uma ocasião ímpar para a eclosão do riso, coletivo e organizado, de acordo com Minois (2003). A festa reforça a coesão social das comunidades, assegurando a continuidade da ordem humana. Aprofundando tal reflexão, diz Minois (2003, p. 31):

O parêntese festivo do riso desenfreado serve, pois, à recriação do mundo ordenado e ao reforço periódico da regra. Ela é também uma reintegração do homem ao mundo do sagrado, um retorno físico ao numinoso, cuja plenitude se confunde com a do estado primordial. É o avesso do cotidiano, a ruptura com as atividades sociais, o esquecimento do profano, um contato com o mundo dos deuses e dos demônios que controlam a vida. É, assim, um retorno às origens que permite reproduzir os atos fundadores, para regenerar o mundo e os homens, para interromper o declínio.

A dramatização das performances cômicas acontece no espaço físico de uma fazenda que, nas apresentações do Bumba-Meu-Boi, fica delimitada pelo espaço ocupado pelas fileiras de brincantes e demais integrantes da brincadeira, cada qual desempenhando seu papel. É criado, assim, um espaço sagrado no qual as matanças se materializam. Como elucida Eliade( 2004, p. 36):

Para viver no mundo é preciso fundá-lo – e nenhum mundo pode nascer no “caos” da homogeneidade e da relatividade do espaço profano. A descoberta ou a projeção de um ponto fixo – o “Centro” – equivale à criação do Mundo, e não tardaremos a lembrar exemplos que mostrarão de maneira maximamente clara o valor cosmogônico da orientação ritual e da construção do espaço sagrado.

A matança gira em torno das posições contrárias dos mandantes e dos palhaços, com a participação dos vaqueiros, sempre com o Boi como eixo do conflito e da tensão predominante na narrativa. Como explica Prado (2007: p. 191 / 192):

Os próprios brincantes ao descreverem o Boi o discernem como sendo constituído por dois campos antagônicos que denominam de “comarca”: a comarca dos mandantes, e a comarca dos palhaços. São os interesses opostos desses dois lados os responsáveis pelo dinamismo desencadeador da ação. E é necessário que nunca os objetivos se emparelhem porque, do contrário, o lado dos palhaços “imita” – para empregar um termo do próprio informante – o lado dos mandantes, anulando a tensão e consequentemente a ação. Se jamais a fala de um pode concordar com a proposição do outro, é porque razões fundamentais estruturam os dois campos em facções adversas.

Na ação das performances cômicas do Bumba-Meu-Boi, esse antagonismo gerador da ação possui uma função catártica, que afunda suas raízes na comédia latina. Esta, por sua vez, se alicerça na contestação do poder despótico e apresenta um personagem que lembra, curiosamente, o Pai Francisco, o palhaço das matanças do Bumba-Meu-Boi, assim como esclarece Minois (2003, p. 101):

De início, a importância, nas comédias latinas, do escravo Expedito, astuto, que engana, com sucesso, seu dono. É ele, na verdade, o verdadeiro herói de várias peças que, nesse sentido, se aproximam do espírito do mundo às avessas das saturnais.

O Pai Francisco rouba o boi, o mata e dá a língua do animal à sua esposa grávida, Catirina. Ardiloso, o palhaço procura dissimular a ação do roubo através de várias artimanhas nas quais o riso é desencadeado, caracterizando a comédia da brincadeira.Geralmente, as matanças são realizadas nas apresentações após o Guarnicê, ao Lá Vai, à Chegada / Licença, e antes do Urrou, quando as toadas anunciam o ressurgimento / ressurreição do Boi (PRADO, 2007). Sobre as matanças no Bumba-Meu-Boi de Peital, comenta Marlene Silva (2012):

Nas matanças tem o roubo do boi. Depois o ladrão, o palhaço, mata o boi e aí a confusão começa; isso só da certo numa fazenda onde tem sempre um boi que come a horta de um vaqueiro. Aí ele quer saber quem vai pagar o prejuízo e as estórias começam assim. Aí tem o primeiro ensaio, cada um vem com uma estória, os palhaços e os mandantes, e aí a melhor das estórias a gente tira e faz completa depois, a gente emenda, conserta, melhora, e sempre sai uma coisa nova, mesmo que a gente já tenha feito aquela matança de forma parecida antes, não tem problema, sempre sai uma coisa nova, engraçada.

In document Geodesics on Surfaces (sider 53-62)