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The First Fundamental Form

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trunfos dos agentes que compõem as ONGs são decisivos a ponto de considerarmos os mesmos, nesta pesquisa, como formadores das instituições. Assim, percebemos as ONGs como somatórios dos trunfos de seus agentes.

Para relembrarmos a referida questão dos trunfos ressaltamos que estes, na nossa visão, são os conjuntos de recursos mobilizados pelos agentes para tornarem possíveis os seus objetivos. E, para nós, os quatro trunfos mais levados em conta para a inserção dos agentes nas ONGs, ao menos, seriam o capital militante, o capital social, o capital escolar e, finalmente, a posse de gramática e de noções especializadas e imersas no espaço social das ONGs. Um ou dois trunfos ao menos, dentre os aqui citados, sempre se combinam e se sobressaem em um agente.

Nossa hipótese referente à posse dos quatro trunfos fora verificada por nós nas três ONGs. E é sobre esta abordagem que versaremos a partir de agora, buscando uma correlação lógica entre os agentes, as entidades das quais os mesmos fazem parte e as premissas destas últimas.

Em relação à Legião da Boa Vontade, escolhemos como representante para consecução de perfil uma assistente social da referida instituição. Utilizaremos, novamente, a visualização de quadros para que se possa empreender, com mais facilidade, a articulação dos dados gerais do entrevistado com os nossos argumentos. Vale mencionarmos que para

mantermos a privacidade dos entrevistados os mesmos serão denominados como “agentes”. Assim, recomendamos a atenção para o quadro 15.

A entrevistada da LBV possui perfil altamente complementar em relação à instituição da qual faz parte, pois tanto seu capital escolar como a gramática especializada (e técnica) que possui fazem parte fazem da representante da LBV um indivíduo que reúne as características mais marcantes para potencializar os pressupostos da entidade.

Quadro 15 – Dados para a realização do perfil do representante da LBV.

Nome Agente um

Idade 33 anos

Cargo na Instituição Assistente social Tempo de Trabalho na Instituição 09 anos

Escolaridade Ensino superior completo em Serviço

Social com Especialização em Terapia Familiar e Terapia de Casais

Escolaridade dos Pais Ensino superior completo (mãe); Ensino médio completo (pai)

Entendemos como objetivos da LBV a preconização da assistência social e o desenvolvimento de medidas socioeducativas para a diminuição do que a ONG citada chama de “vulnerabilidade social”. E os objetivos mencionados, para a entidade, sempre perpassam pela junção entre educação e religião, já que a mesma sublinha como objetivo formar uma educação ecumênica em seus centros de assistência social.

A agente um, desta forma, tem seus objetivos em consonância com os da instituição, pois acredita piamente na junção de fatores assistenciais e de fatores emocionais dentre os quais podemos destacar a chamada “educação dos sentimentos”, isso no que é relativo à posse de gramática especializada consoante com os pilares da instituição que fomenta.

O capital escolar desta representante é todo voltado para a área de Assistência Social com especialização na mesma o que a credencia para ocupar o cargo de assistente social da entidade, do mesmo modo que a agente também ocupa posições no Conselho Gestor Distrital na área de saúde, na comunidade da Madre Deus, igualmente como a mesma participa do Fórum da Criança e do Adolescente de São Luís.

O capital militante, no caso da agente citada, foi agregado após a entrada da mesma na instituição, por meio da participação dela no conselho e no fórum citado, assim como a

mesma participa de seminários educativos. No que tange ao capital social, o mesmo não fora verificado como posse da agente citada nesta análise.

Já no que é relativo à ONG Formação, escolhemos como agente representante da mesma a fundadora da instituição porque ela agrega todos os requisitos para a inserção de um agente da ONG citada. Isso ficará claro a partir da visualização do quadro 16 e das nossas exposições.

Quadro 16 – Dados para realização do perfil do representante da Formação.

Nome Agente dois

Idade 44 anos

Cargo na Instituição Consultora voluntária em projetos Tempo de Trabalho na Instituição 13 anos

Escolaridade Doutoranda em Educação

Escolaridade dos Pais Ensino superior (mãe) Ensino fundamental (pai)

A agente dois teve uma trajetória escolar e profissional ascendente e que corroboram para as realizações da instituição da qual faz parte. A fundadora da Formação possui graduação em Serviço Social, mestrado em Educação, especialização em desenvolvimento local e, hoje, está prestes a concluir o doutorado em Educação, sendo que este último vem sendo realizado em São Paulo. Assim, percebemos que o capital escolar da agente citada vai ao encontro do perfil que traçamos da instituição da qual ela faz parte, ou seja, percebemos ambos como “militantes especializados em Educação”.

O capital militante da representante da Formação também é elevado, já que a mesma participou desde a época de sua graduação, ainda em 1986, de movimentos sociais. Depois de uma estada no México, a agente citada regressou ao Brasil e foi trabalhar em uma ONG para educação de jovens e adultos. A agente dois se autodenomina militante da área de educação e ainda conta com experiência como secretária adjunta de educação.

No que é relativo ao seu capital social, o mesmo também é verificado, já que a mesma contou com a colaboração de outros militantes em educação para fundar a ONG Formação, e a experiência em movimentos sociais dos mesmos e a junção de seus capitais escolares especializados na área citada foram fundamentais para a ONG ser considerada, hoje, a com maior expressividade na questão educacional concernente ao espaço social das ONGs no Maranhão.

A gramática especializada na área também é encontrada na análise do perfil da agente aqui mencionada, já que insere vários elementos da Pedagogia e da literatura da chamada sociedade civil, o que podemos verificar tanto nas respostas de suas entrevistas, e também, sobretudo, nas publicações organizadas pela mesma para a divulgação de projetos da entidade da qual faz parte.

E no que é relativo ao representante da CUFA, escolhemos o coordenador estadual da instituição e, antes de tudo, recomendamos que se verifiquem os dados deste agente no quadro 17.

Quadro 17 – Dados para realização do perfil do representante da CUFA.

Nome Agente três

Idade 30 anos

Cargo na Instituição Coordenador estadual Tempo de Trabalho na Instituição 04 anos

Escolaridade Ensino médio completo

Escolaridade dos Pais Ensino médio completo (pai) Ensino médio completo (mãe)

O agente três foi escolhido para o mesmo mapeamento do perfil de representante da CUFA, pois em São Luís ele acumula funções na entidade, assim como é o coordenador estadual da CUFA e, também, reúne a maioria dos fatores levados em conta pela instituição para a inserção como agente na mesma.

O representante da CUFA possui, no nosso entendimento, os quatro atributos os quais representam os trunfos que mencionamos anteriormente. O agente três possui um capital escolar que vai ao encontro do que é preconizado pela ONG, ou seja, o misto da “educação da vivência” – nas palavras do entrevistado - com alguns atributos acadêmicos e/ou profissional que possa ser oferecido como forma de se adquirir a chamada cidadania e o protagonismo na sociedade. O agente mencionado, por exemplo, ministrava aulas de dança na instituição da qual faz parte.

Ele também tem como trunfo o capital militante, pois foi voluntário e militante, desde a idade de quinze anos, em movimentos sociais baseados na promoção por igualdade de oportunidades de jovens de regiões periféricas. Ele também possui o capital social como trunfo, visto que ele se considera resultado de um projeto social que congregava projetos de dança, do mesmo modo que a chamada inclusão social para aquisição da cidadania.

E, finalmente, o agente três possui a chamada gramática especializada do espaço social das ONGs, pois frequentemente faz alusão a termos como “protagonismo juvenil”, “direito de reivindicações sociais”, “luta pela atuação das comunidades excluídas”.

Assim, no que é relativo à consecução dos perfis dos representantes das ONGs, percebemos uma enorme aproximação de seus recursos – os quais consideramos aqui como trunfos – assim como de seus repertórios linguísticos em consonância com os pressupostos de cada instituição. Desta forma, a representante da LBV tem características marcadamente assistencialistas e religiosas em seus objetivos e em seu histórico; já a representante da Formação reúne as prerrogativas da militância educacional tal como a entidade da qual faz parte; e, finalmente, o agente escolhido da CUFA tem como seus objetivos os mesmos desta instituição, ou seja, um forte envolvimento com a cultura de rua onde há a preconização pela igualdade de oportunidades entre os jovens.

CONCLUSÃO

O esforço teórico-metodológico que trouxemos para esta pesquisa estava ligado, primordialmente, com o desejo de contribuirmos para a produção acadêmica acerca do espaço social das ONGs. Mas os desdobramentos deste estudo acabaram por nos apresentar outros possíveis eixos de análise a partir da complexificação do espaço citado.

Se antes buscávamos analisar as ONGs educacionais, posteriormente concluímos que as bandeiras de cada ONG, hoje, são muitas. Então, nenhuma organização desta natureza é puramente educacional ou ligada somente à promoção de direitos, por exemplos. A perspectiva é multivariada e apesar da educação ser, sim, a temática mais assinalada como primordial por estas instituições, ela perpassa por outras áreas de atuação destas ONGs que não se limitam a uma única causa.

Igualmente, se no passado as ONGs eram instrumentos da sociedade civil para a contestação do status quo, hoje a perspectiva de parceria e consonância com o Estado – e com toda a gramática compartilhada pelos dois agentes – é a realidade mais em voga, visto que a grande maioria destas organizações almeja se tornar uma organização social, ou OS, para poder angariar recursos públicos para seus projetos e ter uma maior visibilidade no espaço social das ONGs, cada vez mais especializado e fortemente relacionado com as exigências do mercado de trabalho.

Fazer parte de uma ONG não difere em muitos fatores de se fazer parte de uma empresa, não somente pelos fatores de ordem salarial, mas porque os requisitos para que um indivíduo adentre numa instituição destas são inúmeros e altamente assemelhados com os elementos exigidos pelo mercado. Domínio de idiomas, formação superior, desejável especialização são apenas algumas destas semelhanças. Porém, estar numa ONG, hoje, inclui, também, a posse não só de um capital escolar elevado, mas de trunfos específicos como uma gramática especializada no setor de ONGs; um capital social notável; e, mais ainda, um capital militante que credencie seus membros como agentes aptos a disseminarem os objetivos da instituição.

Estes trunfos permitem nos dizer que, hoje, existe uma “filantropia especializada”, onde eles são decisivos para uma ONG fazer parte de uma grande concorrência por financiamento de projetos, onde os editais para os mesmos são cada vez mais complexos e sua decorrente disputa cada vez mais acirrada. Cada organização destas, então, de fato é um somatório dos trunfos de cada um de seus agentes.

Se a especialidade de um indivíduo encontra-se no campo educacional e se a ONG da qual faz parte tem suas bases neste tipo de causa, tanto mais valioso o mesmo será para a instituição; e ele proporcionará mais conquistas no que tange a recursos para projetos e a divulgação do trabalho empreendido pela organização. A contrapartida da instituição para com os agentes cada vez mais especializados são salários mais altos e uma maior valorização destes em outros tantos quesitos.

Estes agentes especializados, muitas vezes, tornam-se os próprios emblemas de suas instituições. Por exemplo, se uma instituição tem um viés mais ligado à área da assistência social, seus agentes mais bem posicionados dentro da organização são não só os mais especializados na mesma área, mas os que, igualmente, possuem mais repertório que vai ao encontro da instituição. Então, não só as ONGs são somatórios dos trunfos de seus agentes, mas estes também acabam se tornando as personificações das causas pelas quais lutam. Isto faz com que verifiquemos, ainda, aspectos da chamada militância clássica mesclados a aspectos mais modernos, como o aumento do aparelho burocrático dentro das instituições e da acirrada disputa por posições de trabalho nelas.

Escolhemos três ONGs que, apesar de fazerem parte de um mesmo espaço social, acabam tendo disparidades que nos proporcionaram comparações interessantes. Uma era o típico exemplo de ONG clássica, com métodos antigos e largamente apoiados na maneira antiga de se fazer filantropia; outra era altamente especializada numa determinada militância por uma causa, com aspectos novíssimos sobre o aperfeiçoamento de seus membros; e, a última, mais jovem tanto no quesito tempo de vida da instituição, quanto no que se referem às formas de mobilização de suas atuações em projetos.

Outro aspecto que não podemos deixar de falar é sobre a diferenciação entre o indivíduo que ocupa uma posição estratégica – e bem remunerada – na instituição e o que é apenas voluntário dela. Ao nosso modo de ver, todas as ONGs pesquisadas prescindem da militância e da divulgação proporcionadas por seus voluntários, mas ficou clara para nós a questão da precarização do trabalho do voluntário. Ao conversarmos com alguns destes indivíduos, notamos que a maioria não exercia tal função apenas por ser fiel a uma luta política, por exemplo, mas porque almejavam, através desta experiência, galgarem uma posição remunerada dentro da própria instituição ou, ao menos, conseguir credibilidade no mercado de trabalho. Todos os entrevistados lembraram o quanto a noção de responsabilidade social está em voga, bem como a riqueza das experiências advindas do aprofundamento das relações interpessoais.

Desta maneira, ser voluntário em alguma época da vida já é quase uma obrigação para quem concorre a uma vaga de trabalho no país, fato comprovado em pesquisas de sites de colocação de empregos; se voluntariar a uma causa é ser ético, ser proativo e lúcido com as chamadas questões sociais. Não discutimos, aqui, valores religiosos, éticos e morais, que isto fique claro, mas a tendência à precarização do trabalho do voluntário é notável para nós, visto que as ONGs tem ciência do retorno buscado por este tipo de modalidade de profissionais citados.

Vale ressaltarmos que esta precarização do trabalho do voluntário é uma perspectiva de análise nova dentro da sociologia, visto que ainda é válida a discussão sobre os direitos trabalhistas deste tipo de modalidade de engajamento. Podemos afirmar que a noção de precarização do trabalho do funcionário de uma ONG já é uma realidade, porém, no que tange ao trabalho do voluntário notamos que o terreno de estudo é ainda pantanoso, pois carece de análises mais profundas sobre as biografias e recursos desses voluntários.

Concluímos este estudo verificando que as propostas educacionais das ONGs pesquisadas por mais que, inicialmente, vão de encontro com as que estão em voga pelo Estado, acabam todas por se mostrarem saídas complementares às iniciativas clássicas educacionais; independentemente de seus valores os mais variados, as ONGs são, de fato, pretensões de a sociedade civil mexer em questões emblemáticas da esfera do Poder Público. Agora, se as respostas angariadas por estas iniciativas são positivas à educação, ou a qualquer outra área que enfrente problemas, e se as ONGs não buscam somente nichos de mercado para se firmarem em seu espaço social, já seriam temas para outras pesquisas.

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