• No results found

Principal, Mean and Gaussian Curvature

In document Geodesics on Surfaces (sider 34-42)

Comumente, a representação cômica do Bumba-Meu-Boi que é denominada pelos pesquisadores como auto, varia de região para região, sendo encontradas várias versões da mesma, assentada, contudo, num eixo básico que se encontra em todas as representações. A denominação possui raízes europeias, conforme assinala Lima (s/d, p. 82):

O que é um auto? Segundo as enciclopédias, é, entre outras cousas, representação dramática, com argumento bíblico ou burlesco; composição alegórica ou satírica; de cunho místico, pedagógico ou moral. Constituem os autos uma das formas mais populares do antigo teatro medieval.

Integrando um vasto conjunto de outras contribuições da herança da oralidade inerente à brincadeira, a história mais famosa tem como personagens principais Catirina, uma escrava que tem o desejo, por estar grávida, de comer a língua do Boi mais valioso da fazenda de seus patrões; um negro vaqueiro,marido de Catirina, conhecido como Pai Francisco, um homem branco dono da fazenda e o Boi. Outros personagens também fazem parte da trama, como os caboclos, vaqueiros, as índias, os índios, o rapaz, o pajé, o padre, o médico, o palhaço, o miolo do Boi, a burrinha e os cazumbas, dentre outros (MARQUES, 1999).

Tal história é a mais conhecida dentre os brincantes de Bumba-Meu-Boi da capital, bem como da população em geral. Admite-se que tenha sido cristalizada, ou seja, que essa história, pelo fato de ser a mais conhecida e difundida, seja considerada por muitos com sendo a única, a original. A maioria dos brincantes de grupos de Bumba-Meu-Boi do interior do estado, contudo, desconhece o significado da palavra auto. Como explica Carvalho (2011, p. 72):

Ao designar indiscriminadamente como autos as diferentes representações cômicas que eventualmente ocorrem no Boi, diversos autores têm confundido e encoberto, sob essa categoria de unidade, os múltiplos sentidos evocados pela brincadeira, ao mesmo tempo em que contribuem para o obscurecimento das formas de expressão que não correspondem àquela que tomam por tradicional...Para as representações no interior, muitas delas feitas em “porta de casa” e tendo como único insumo a comida e a bebida fornecidas pelo dono da casa, guardam-se outros termos: matança – mais comum – e também comédia, palhaçada ou doidice. A propósito, tais representações preservam imensa liberdade de criação e improvisação na montagem das histórias, que parecem não se ligar obrigatoriamente ao “núcleo temático básico” identificado como o auto do Boi.

A história começa quando Catirina, que mora nas terras de um rico fazendeiro que possui milhares de cabeças de gado ao lado de seu marido, Pai Francisco, tem o desejo de comer a língua do Boi, que não pode ser qualquer Boi, mas um Boi muito bonito e especial que sabe dançar, preferido do dono da fazenda.

Para realizar o desejo de sua mulher grávida em comer a língua do Boi, o esposo de Catirina resolve furtá-lo. O Boi é morto e a escrava tem seu desejo

atendido. O vaqueiro da fazenda, dando falta do Boi, comunica o ocorrido ao patrão, que manda achá-lo de qualquer jeito. Obediente, o empregado reúne as índias, boas conhecedoras das matas que, à luz da lua, partem armadas de arco e flecha em busca do Boi desaparecido, atravessando morros e cantando para afastar os maus espíritos e o Caipora (CARVALHO, 1995).

O Boi não é encontrado, então, o vaqueiro retorna à fazenda dizendo que há alguns dias havia uma escrava grávida desejando comer a língua do Boi. O casal Catirina e Francisco é então procurado, submetido a interrogatório e, após admitirem a culpa pela morte do Boi, recebem ameaças do senhor da fazenda.

Mãe Catirina e Pai Francisco ficam muito aflitos com a situação e, na iminência de séria punição, pensam numa maneira de ressuscitar o Boi. O casal chama o médico que tenta trazer de volta à vida o animal, sem sucesso; o padre também é acionado, mas também fracassa; então apelam para o pajé, que faz seus rituais xamanísticos, conseguindo como num passe de mágica trazer o Boi especial de volta à vida. Depois da ressurreição do Boi, é dada uma grande festa que reúne todos os moradores da fazenda e das redondezas (CARVALHO, 1995).

Apesar de estar ainda hoje sempre presente na memória dos brincantes, pesquisadores e da população, a ideia da existência de um auto do Bumba-Meu- Boi recebeu veemente contestação de CAVALCANTI (2009, p. 94):

A literatura existente sobre os folguedos do boi é extensa e variada. Grande parte dela, no entanto, é perpassada pela insidiosa ideia de fundo de que esses folguedos corresponderiam à encenação de um “auto do boi”. No contexto do folclore e da cultura popular, a palavra auto designa uma forma tradicional de teatro popular, alusiva às formas alegóricas do teatro medieval trazidas pelos jesuítas para terras brasileiras. Valendo-se desse auto, que supriria um roteiro para a brincadeira, os grupos de brincantes encenariam uma trama sobre a lenda da morte e da ressurreição do precioso boi...Tudo seria razoavelmente simples, não fosse a constatação etnográfica de que, em sua suposta integridade dramática, esse auto parece nunca ter sido encontrado tal e qual na realidade. Já em 1906, Artur Azevedo comenta: “É mesmo provável que o bumba-meu-boi, na forma primitiva, fosse um auto composto, com todas as regras do gênero, por algum poeta do povo [...]. Hoje é simples folguedo, sem significação alguma, exibindo vários personagens cujas funções não estão logicamente determinadas”...Vale observar, no entanto, como o sentimento da falta do auto exerce presença ativa no universo dos folguedos do boi. Efeito paradoxal, tal presença de uma suposta falta configurou o que denominei de “o problema do auto”, compreendendo o mesmo não como uma encenação concreta, outrora efetivamente encontrada nos folguedos, e sim um tipo de narrativa.

A suposta ausência de um auto original, como foi descrito por alguns pesquisadores, vem sendo questionada por alguns autores como Maria Laura

Cavalcanti, citando Arthur Azevedo, que não vê significação alguma no Bumba- Meu-Boi. No entanto, é provável também que não tenha sido um observador atento.

Figura 6 - Pesquisador Roldão Lima em trabalho de campo

No seu relato ele se referiu a personagens no Boi, o que pode indicar algum tipo de representação, mesmo que caótica. Sendo assim, quando descreve o Boi, deve ter assistido a alguma ou a algumas dessas apresentações. Para Azevedo, talvez o auto do Bumba-Meu-Boi fosse realizado na origem do Bumba- Meu-Boi, representação que ele não testemunhou. No entanto, o fato de não se presenciar algo não significa que ele não exista. Talvez o auto fosse, ainda em 1906, realizado em locais do interior do estado aos quais Azevedo não teve acesso.

Ainda a despeito do auto, antigamente, em São Luís, tal passagem nas apresentações era chamada na verdade de matança ou comédia, designação que perdura em grupos do interior do estado, como é o caso do Bumba-Meu-Boi de Alcântara. Sobre essa questão, assim se reporta Carvalho (1995, p. 116):

Hoje, nas apresentações do Boi, já não se faz a “matança” completa, cerimônia antiga onde se misturam, num enredo cômico, entre diálogos e toadas, várias personagens: o engraçado “Nego Chico, Chico, Pai Francisco ou Nego Velho”; a sua tentadora companheira, “Mãe Catirina ou Catarina”; a “Dona Maria”, mulher do amo; os “pajés ou doutores Faísca, o Sabe Não Diz, da Juntaria”; vaqueiros, rapazes, índios, palhaços, Caipora, Cazumba...,além da figura dominadora do “amo”, o fazendeiro, e do cobiçado “Boi”.

Encenava-se um “auto dramático sobre as peripécias da vida do boi, sua morte e ressurreição, o que constituía ‘uma representação muito bonita, bem ensaiada e dramatizada com todo primor’. Por isso, são lembrados, ainda, os tempos em que essa comédia era o ponto alto do boi, sendo assistida com gosto por uma plateia que tinha paciência pra acompanhar toda aquela palhaçada comprida, um monte de conversa fiada, de relaxo, de ramandiola”.

Praticamente desaparecido das apresentações realizadas nos arraiais e terreiros da capital maranhense, o auto do Bumba-Meu-Boi era tido, anteriormente, como de suma importância na brincadeira. Essa mudança no contexto das apresentações dos grupos é comentada por muitos pesquisadores, de forma crítica, como é o caso de Lima (s/d, p. 130):

O auto foi definitivamente banido de tais apresentações. É longo (alguns duram até 4 horas), cansativo, e só interessa aos estudiosos do folclore, da antropologia, - é o que alegam. Ora, qualquer assunto é desinteressante para todo espectador alienado. Além do mais, as inovações cabem aos artesãos, aos brincantes, sem interferências de elementos da cultura dominante, uma regulação endógena e não reformas que integrem o Boi e o entreguem ao mercado e ao turismo.

Admitamos que a representação completa que antigamente demorava horas tornou-se inexeqüível nos tempos atuais, em que não se tem tempo para nada. Todavia, ao menos uma adaptação, um resumo, uma síntese da história motivadora da brincadeira – sua própria razão de ser e existir. Até como justificativa de ali estarem pessoas fantasiadas e dispostas em volta do Boi: Para quê? Por que motivo? Com que objetivo?

A brincadeira, assim como está sendo feita, não tem começo nem fim. Ou melhor, pode começar e interromper-se a qualquer momento sem prejuízo (ou lucro) de qualquer espécie.

A preocupação com a influência do mercado e do turismo no Bumba- Meu-Boi (LIMA, s/d) também se estende a outros pesquisadores do assunto. Dessa forma, diz Araújo (2000, p. 17):

É preciso estar alerta porque o turismo traz consigo um poder de destruição que deve ser contido por parte tanto do poder público quanto da comunidade, com o objetivo de resguardar o sentido maior dessa festa. O Bumba-Meu-Boi é singular, tem que impor respeito junto ao visitante sobre sua forma de expressão em defesa de sua continuidade como manifestação viva e representativa da cultura popular maranhense. Caso contrário, com o passar dos anos criar-se-á uma falsa realidade cultural, transformando o Bumba-Meu-Boi em mais um produto de consumo de uma economia de mercado.

Desde o início do governo de José Sarney, no Maranhão (1966) que a brincadeira do Bumba-Meu-Boi começou a se transformar sob a imposição do estado (LIMA, s/d). A ideia dos governantes era primeiramente se aproximar, maquiar e, posteriormente, vender a manifestação cultural como um produto

turístico, sujeito às regras do mercado da demanda e da procura. Lembrando Canclini (1997, p. 32):

Enquanto os teóricos e historiadores exaltam a autonomia da arte, as práticas do mercado e da comunicação massiva - incluídos às vezes os museus - fomentam a dependência dos bens artísticos de processos extra-estéticos.

Na história do folguedo, a estrutura do Boi (objeto de madeira) era inicialmente pintada, como se verifica em relatos do final do século XIX (MELLO, 2004), sendo posteriormente coberta por veludo bordado com miçangas, paetês e canutilhos, num processo de mudanças que visavam sempre apresentar novidades de ano para ano.

No entanto, a partir das apresentações da brincadeira fora do ciclo tido antes como tradicional, as modificações do Bumba-Meu-Boi se aceleraram e adentraram a forma das apresentações, alterando-a significativamente. A eliminação da apresentação do auto do Bumba-Meu-Boi na grande maioria dos grupos que se apresentam em São Luís está inserida em tal processo, e um dos motivos apontados para essa mudança é a utilização da brincadeira como um produto turístico. Cabe refletir sobre a dinâmica da influência do turismo no contexto da cultura popular, provocando alterações significativas no folguedo.

De forma sistemática, o turismo começou a se expandir no ocidente no final do século XIX e início do século XX, sendo considerada expressão de consumo de massa após o término da II Guerra Mundial (PI-SUNYER, 1989, p. 191). A investigação do turismo como fenômeno social cresceu na medida em que essa atividade econômica também se disseminou pelo mundo inteiro.

No âmbito das Ciências Sociais, os estudos sobre o turismo se desenvolveram a partir da década de 60 do século passado. Na década de 70, vários pesquisadores começaram a estudar as relações entre os turistas e os hospedeiros em várias comunidades, suscitando interesse antropológico tanto na área urbana quanto na rural, envolvendo, inclusive, comunidades étnicas (NASH, 1996). O turismo é um fenômeno complexo, objeto de estudo da antropologia, ramificado em várias facetas, dentre as quais se destacam a da mercantilização cultural e a do turismo étnico.

O turista procura, dentre outras coisas, a diferença, o exótico, que pode ser encontrado no nativo e nas suas manifestações culturais. Para o nativo, por sua

vez, o turista também é visto como exótico, e essa diferença provoca inevitáveis mudanças. Alguns autores já se debruçaram sobre a questão Ao mesmo tempo em que o nativo se mostra, também recebe influência daquele que o vê, o que modifica algumas manifestações culturais (GRÜNEWALD, 2001).

Esse impacto do turismo nas comunidades era preocupação inicial da antropologia do turismo. O contato poderia provocar mudanças no comportamento dos nativos, levando-os a alterarem seu modo tradicional de viver, até então independente da lógica do capitalismo globalizado. Tais comunidades seriam absorvidas pelas imposições do desenvolvimento turístico (SMITH, 1989), modificando, em razão dessas imposições, seus saberes tradicionais.

Por outro lado, a necessidade de continuar parecendo exótico e, portanto, permanecer despertando a curiosidade do turista, leva o nativo a buscar a autenticidade das suas manifestações, alimentando uma ideia de fidelidade às raízes culturais da comunidade à qual pertence. Quanto mais tradicional se mantiver a manifestação, mais atração terá sobre o turista interessado nas manifestações culturais das comunidades.

Tais mudanças, em boa parte, são acompanhadas por uma reorganização da população nativa em linhas étnicas, orientadas para o turismo. Essas novas orientações induzidas das etnicidades surgem, contudo, de forma fragmentada nas comunidades, embora sejam reveladoras de um espaço de fala necessário a se contrapor às forças globalizadas existentes na diversidade do mundo contemporâneo, em busca de uma identidade cultural que justifique a existência desses sujeitos sociais.

A identidade cultural, ou seja, aqueles aspectos da identidade que surgem do pertencimento a culturas étnicas, linguísticas, religiosas e nacionais estão sendo descentradas, isto é, deslocadas ou fragmentadas, em termos globais. Esse abalo faz-se sentir, nas sociedades periféricas, de forma cada vez mais intensa. Como adverte Hall (2001,p. 7):

(...) a assim chamada “crise de identidade” é vista como parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social.

Mesmo assim, esse movimento de um retorno às raízes provocou uma espécie de revitalização cultural dessas comunidades, ameaçadas de extinção em

função de declínio econômico local. Então, o turismo funcionou e funciona como elemento de revitalização das manifestações culturais, salientando-se como válvula de escape econômica para muitas brincadeiras, dentre as quais a do Bumba-Meu- Boi.

Se, por um lado, o turismo pode manter viva determinada manifestação cultural, reforçando a etnicidade em algumas sociedades, fortalecendo a tradição existente nas mesmas, o fenômeno da aculturação provocada pelo impacto do turismo nas comunidades é a outra face dessa moeda. Podemos afirmar que somos uma testemunha ocular desse processo de mudança.

No final dos anos 60, comecei a frequentar a casa de Dona Zelinda Lima, folclorista maranhense então ligada ao Departamento de Turismo do estado. A residência de dona Zelinda se localizava no bairro do Apeadouro, na Avenida João Pessoa, esquina com a Rua Astolfo Marques. Nesse local, na rua (que ficava interditada, nessas ocasiões), assisti a muitas apresentações de grupos de Bumba- Meu-Boi (trazidos ali por Dona Zelinda e seu marido, o historiador Carlos de Lima) que, às vezes, se demoravam no local, brincando durante a noite inteira.

Naquela época, o chamado auto do Bumba-Meu-Boi era realizado em sua plenitude, só que as representações dramáticas eram denominadas de comédias. Além de integrar o corpo da brincadeira, esse momento também servia para que os tocadores, cantadores e brincantes pudessem descansar, beber e comer.

No início dos anos 70, alguns grupos começaram a se apresentar fora do período do ciclo do Bumba-Meu-Boi, além da época junina, adentrando o mês de julho, o que caracterizou nova mudança na brincadeira. Tais grupos foram então denominados de Bois de Turista por muitos pesquisadores ligados ao setor cultural do estado. Sobre esse momento, informa Lima (s/d, p. 140):

No governo de José Sarney, Dona Zelinda Lima, trabalhando para tentar amparar e desenvolver o artesanato, o turismo e o folclore, numa das várias ocasiões em que interferia contra a ação policial, o governador perguntou-lhe como poderia ajudar as manifestações folclóricas locais no sentido de não só reerguê-las como emprestar-lhes prestígio perante a sociedade.

- “Traga V.Exa. o Boi para palácio e atrairá a simpatia de todos para ele”. Até então, nada de mais. Seria mais uma visita a uma casa de família: a casa da família do governador. Mas deu outra consequência: desde essa memorável noite, as chamadas classes elevadas tomaram-se de paixão

pelo Bumba-Meu-Boi...Logo a TV descobriu tão rico filão, o poder público passou a fomentá-lo e financiá-lo, organizá-lo e explorá-lo com vistas ao turismo. Proliferam os grupos de Bumba-Meu-Boi. Não demorou muito os grupos se constituíram em sociedades, com diretoria, e por exigência das próprias circunstâncias, com conta aberta nos bancos. Transformaram-se quase todos em empresas, naturalmente fazendo contratos de apresentações em arraiais, hoteis, e mesmo fora da temporada junina. Tornou-se popular e comercial, com a produção e venda de CDs e filmes. Diante da popularidade alcançada, o desaparecimento das perseguições policiais e da forte demanda turística, as apresentações dos grupos em São Luís começaram a ser comprimidas em espaços de tempo cada vez mais curtos, gerando, dentre outras mudanças, o desaparecimento das apresentações do auto (comédias).

Inicialmente, como cheguei a presenciar várias vezes no início dos anos 70, os grupos de Bumba-Meu-Boi começaram a se apresentar para caravanas de turistas, na Fonte do Ribeirão, Centro Histórico de São Luís, disseminando-se, posteriormente, para outros locais, como pátios de hotéis, por exemplo. Nessas apresentações, que sempre eram curtas, as comédias foram abolidas.

Sempre desconheci, até então, a denominação de auto do Bumba-Meu- Boi. As apresentações que nos despertavam o riso eram chamadas de comédias, e constituíam a parte mais demorada do folguedo. Segundo Lima (2012):

A primeira vez que escutei a denominação auto foi através do folclorista Domingos Vieira Filho, após assistir a uma apresentação do Bumba-Meu- Boi de Rosário. Perguntei ao meu marido, o historiador Carlos de Lima, a razão pela qual Vieira Filho chamava então a comédia de auto, mas, ele não soube me explicar. Naquela época, década de sessenta, começamos a receber os grupos em nossa casa: Maioba, Boi de Laurentino, Boi de Leonardo da Liberdade, Boi de Axixá, de seu Naiva, e tantos outros. Eles chegavam, cantavam uma Boa Noite, faziam o Guarnicê, depois o Reunir, ao redor da fogueira, aí então cantavam o Lá Vai e, logo após, era iniciada a Comédia - às vezes, eram apresentadas até três comédias durante uma única noite – que sempre possuía um repertório diferente, com uma encenação que mudava de ano para ano. O Laurentino era mestre nisso, mantinha as comédias sob sigilo absoluto antes dos ensaios anuais começarem. Eu me lembro que, logo após a chegada do homem à lua, quase todos os grupos de Bumba-Meu-Boi de São Luís fizeram as comédias baseados nesse fato. Laurentino vestiu Pai Francisco de astronauta, era mais parecido com um robô, com uma roupa de papelão e, na cabeça, tipo uma nega maluca, ele colocou várias lâmpadas que piscavam, foi incrível isso. Eu me lembro também de comédias que falavam do Mobral, da carestia, todas muito engraçadas.

As mudanças que ocorrem na sociedade são fruto de uma dinâmica cultural inerente às mesmas. Dessa forma, a cultura popular, integrando o contexto sociocultural das comunidades, também se modifica ao longo do tempo. A tradição

não é algo imóvel, fixo. Ela se articula com a modernidade e se reinventa, estabelecendo de forma dialética uma espécie de convivência entre o antigo e o

In document Geodesics on Surfaces (sider 34-42)