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5. PRICE STRUCTURE

5.5.2 The Financial Instruments

TRABALHO DE TRADUÇÃO

No texto Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências, Santos faz afirmações categóricas sobre os resultados obtidos por ele em todos os anos anteriores de pesquisa com o tema. Para ele, é possível tirar três conclusões, que só fazem enfatizar aquilo que foi posto anteriormente: 1) de que a experiência social do mundo é maior do que pensa a ciência tradicional; 2) esta experiência está sendo desperdiçada; e 3) para combater tal desperdício é necessário um novo modelo de racionalidade.

A indolência da razão moderna, como ele agora a caracteriza, acontece sob quatro formas distintas: primeiro, a “razão impotente”, um tipo de racionalidade que nada produz por avaliar que nada pode ser realizado frente a uma necessidade concebida como exterior a ela própria, derivando numa forma de ação conformista muitas vezes travestida de rebelde; em segundo, a “razão arrogante”, que se exime de exercer qualquer influência na sociedade, pois se considera livre; a terceira razão, a “razão metonímica”, que se coloca como única forma de racionalidade, de tal forma que nenhum conhecimento é passível de ser entendido como verdadeiro, a não ser que seja incorporado dentro de sua própria lógica, exercendo, assim, um papel totalitário perante as outras formas conhecimento; e a última, a “razão proléptica”, que não pensa o futuro, pois que, para a mesma, o futuro pode ser considerado como um presente contínuo. (SANTOS, 2006, pp. 779-780).

Estas duas últimas formas de racionalidade moderna são para Santos as formas fundantes do paradigma em crise. Sua conjunção permite a criação de uma teoria da história pautada no equacionamento de raízes e opções que observamos na seção anterior.

Na razão metonímica, prevalece a noção de totalidade – o todo é maior do que as partes – aliada à uma concepção ordenada dessa hierarquia. Assim, esta forma de razão tem como principal consequência o domínio destrutivo sobre outras formas de saber através da homogeneização das diferenças relativas das partes em detrimento do todo, que se constitui, na verdade, não como o conjunto dessas partes, mas como uma parte específica que se instaura, de maneira violenta, como forma hegemônica.

A razão proléptica é capaz de contrair o presente dilatando o futuro. Pautando-se numa visão de mundo linear e progressiva, toma o futuro infinito em possibilidades e, por isso, essencialmente indefinido. Abundante em possibilidades, mas potencialmente indeterminado e, portanto, homogêneo, este pensar o futuro só pode derivar numa postura que pensa que aquilo que é indefinido não pode, e não precisa, ser pensado.

Como perspectiva crítica dessas duas formas de racionalidade, Santos propõe os três procedimentos listados acima. Vejamos de maneira mais pormenorizada cada um deles.

A sociologia das ausências visa superar os desdobramentos lógicos próprios à razão metonímica. Santos considera que esta criou cinco lógicas ou modos de produção da não existência. São elas: 1ª) monocultura do saber e do rigor do saber, que consiste na transformação da ciência moderna e da alta cultura em critérios únicos de verdade e de qualidade estética, respectivamente; 2ª) monocultura do tempo linear, tendo como princípio que a história tem sentido e direção únicos e conhecidos; 3ª) monocultura da naturalização das diferenças, assentando-se em atributos que negam a intencionalidade da hierarquia social;

4ª) lógica da escala dominante, onde esta escala, constituída essencialmente nas formas do universal e global, é adaptada como primordial, invalidando todas as outras possíveis escalas; e a 5ª) lógica produtivista, que tem como referência os critérios da produtividade capitalista (SANTOS, 2006, pp. 787-789).

A sociologia da ausência visa mudar a condição de não existência de outras formas de conhecimento criada pela razão metonímica. Deste modo, a sociologia das ausências é uma forma de investigação “que visa demonstrar que o que não existe é, na verdade, ativamente produzido como não existente, isto é, como uma alternativa não-credível ao que existe” (SANTOS, 2006, p. 786). Tratar-se-ia de uma nova forma de concepção do realismo, que cultivaria a ideia de que a realidade não pode ser reduzida ao que existe, entendendo essa existência como algo socialmente construído.

A sociologia das emergências complementaria o procedimento da sociologia das emergências. Mas enquanto esta última pretende expandir o presente, aquele se colocaria a contrair o futuro expandido demasiadamente pela razão proléptica.

Sua tentativa de contrair o futuro baseia-se na proposta de eliminar a discrepância entre o futuro da sociedade e o futuro dos indivíduos, supostamente comum ao pensamento emancipatório moderno. Para ele, o futuro dos indivíduos coloca-se de forma limitada, em função da duração de suas próprias vidas, diferentemente do futuro da sociedade que, pensando dessa forma, é posto como ilimitado. O pensamento emancipatório da modernidade igualaria o futuro dos indivíduos ao futuro da sociedade, promovendo uma forma de pensamento deslocada de tempo e lugar.

Deste modo, se as promessas modernas eram grandiosas e universais, a sociologia das emergências traz expectativas medidas por possibilidades e capacidades concretas que apontam para os novos caminhos da emancipação social.

A sociologia das emergências é a investigação das alternativas que cabem no horizonte das possibilidades concretas”, procedendo “a uma ampliação simbólica dos saberes, práticas e agentes de modo a identificar neles as tendências do futuro sobre as quais é possível atuar para maximizar a probabilidade de esperança em relação à probabilidade de frustração (SANTOS, 2006, p. 796).

O conceito que norteia a sociologia das emergências é o Ainda-Não, forjado por Ernest Bloch. Como o próprio Santos descreve

O Não é a falta de algo e a expressão da vontade de superar essa falta. É por isso que o Não se distingue do Nada. Dizer não é dizer sim a algo diferente. O Ainda-Não é categoria mais complexa, porque exprime o que existe apenas como tendência, um movimento latente no processo de se manifestar. O Ainda-Não é o modo como o futuro se inscreve no presente e o dilata. Não é um futuro indeterminado nem infinito. É uma possibilidade e uma capacidade concretas que nem existem no vácuo, nem estão completamente determinadas (SANTOS, 2006, p. 795).

Posto desse modo, sua proposta sociológica traz consigo um duplo componente de incerteza contido no fato das condições estarem postas apenas parcialmente, enquanto potência e potencialidade – o que existe e o que pode existir a partir disso. Tem-se assim a possibilidade vitoriosa da Utopia, como também a da barbárie.

Por isso é necessária a ampliação do presente e a valorização de um futuro concreto. Tal valorização estaria nas mãos dos novos movimentos sociais, os grupos que são os mais tolhidos pela modernidade e que, por sua vez, como resposta a isto, apresentam as características mais diversas e as propostas mais diferentes, à transformação da sociedade. Mas o fato dos grupos sociais conterem perspectivas diferentes, bem como as diferentes expectativas dos indivíduos, traz consigo, pelo menos, duas grandes dificuldades para a execução das duas sociologias: a fragmentação do real através de várias fontes constitutivas e a impossibilidade de conferir um sentido único e preciso à emancipação social.

Para contornar tais dificuldades, Santos propõe um terceiro procedimento, que permite a mediação entre as formas de saber não existentes trazidas à tona pela sociologia das ausências e as formas práticas de interferência na realidade já existentes em estado latente e que se tornariam evidenciadas pela sociologia das emergências. Seria o trabalho de tradução, que visa à criação de uma “inteligibilidade recíproca entre as experiências do mundo, tanto as disponíveis quanto as possíveis [...]. Trata-se de um procedimento que não atribui a nenhum conjunto de experiências nem o estatuto de totalidade exclusiva nem o estatuto de parte homogênea” (SANTOS, 2006, p. 802).

O trabalho de tradução assume a forma de hermenêutica diatópica. Como o próprio nome sugere, trata-se de um procedimento compreensivo de análise, que pretende estabelecer os domínios específicos de dois ou mais discursos envolvidos e procurar estabelecer pontos de toque e distanciamento entre eles. Em outras palavras, este procedimento pretende compreender como culturas diferentes apreendem os mesmos problemas e respondem a eles de maneira completamente diferente.

O trabalho de tradução permitiria o diálogo entre as diferentes culturas, sem estabelecer um principio hierárquico entre elas. À medida que nenhuma cultura detém padrões universais e globais de conhecimento, o inter-relacionamento entre elas poderia garantir um aprimoramento de cada uma delas através de um possível aumento do arcabouço de experiências sociais. No que tange a transformação social, o trabalho de tradução possibilitaria também a avaliação das práticas dos diferentes grupos entre si, dando chance à formação de alianças entre os diversos movimentos num único sentido.