O Brasil, num primeiro momento considerado receptor de imi- grantes, na década de 1980 vê o processo se inverter quando passa a enviar mão de obra para o exterior. Na atualidade, deparamo-nos com a volta dos pais dekasseguis e seus filhos para o Brasil. Essas crianças estão fortemente vinculadas às terras de seus bisavós, tra- zendo um mundo japonês dentro de si. Será possível, então, pensar numa nova construção identitária? Qual é a identidade desse novo sujeito contemporâneo?
Stuart Hall (2005), em seu livro A identidade cultural na pós-
-modernidade, coloca em discussão as novas identidades contempo-
râneas dentro de uma visão social. Hall aponta que, durante muito tempo, as velhas identidades na modernidade viram o sujeito como
um ser unificado. Atualmente, há um desabamento dessas velhas identidades, fragmentando o sujeito pós-moderno e dando origem a novas identidades. Essas desconstruções identitárias contemporâneas compõem o que Hall (2005, p.7) chama de “crise de identidade”.
A assim chamada “crise de identidade” é vista como parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social.
Hall (2005, p.8) afirma que a identidade do sujeito na moderni- dade está “descentrada”. Considera que é um assunto novo e difícil pela sua complexidade, e gera, portanto, amplas discussões para os sociólogos. Além disso, o autor explicita que o conceito de identi- dade ainda não está definido, pois requer maior compreensão no campo da ciência social.
O sujeito da pós-modernidade está vivendo um processo de mudanças que se iniciou na era moderna, no final do século XX. As transformações que vêm ocorrendo nas sociedades contemporâneas têm alterado as nossas próprias identidades, alerta Hall (2005, p.9), “abalando a ideia que temos de nós próprios como sujeitos integra- dos” e levando à “perda de um sentido de si estável”. Esse processo de mudança acaba alterando as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, modificando a maneira de ser de cada indivíduo no planeta.
Hall (2005) explica que o sujeito contemporâneo passa a não ter uma localização social sólida. O indivíduo perde a sua referência de lugar no mundo social e cultural e de si mesmo. A esse respeito, Mercer (1990, p.43 apud Hall, 2005, p.9) comenta que “a identidade somente se torna uma questão quando está em crise, quando algo que se supõe como fixo, coerente e estável é deslocado pela experiên- cia da dúvida e da incerteza”.
Então, podemos dizer que o sujeito pós-moderno surge numa identidade que está em movimento? Para Hall (2005, p.10), o sujeito
DESAMPARO PSÍQUICO NOS FILHOS DE DEKASSEGUIS... 63 pós-moderno pode ser visto como sujeito “pós”, de modo relativo, não pertencente a uma identidade fixa, porém que busca compreen- der e fundamentar a subjetividade do homem.
Hall (2005) apresenta três concepções de identidade: sujeito do Iluminismo, sujeito sociológico e sujeito pós-moderno. Segundo o autor, essas concepções de identidade são distintas uma das outras.
O sujeito do Iluminismo era o indivíduo como centro de tudo, dono de suas próprias capacidades intelectuais, de consciência e de ação. Portanto, desde o nascimento até a sua morte, ele permane- ceria sendo o mesmo sujeito, por toda a sua vida. Hall (2005, p.11) considerava “individualista” essa concepção do sujeito e da sua identidade, já que o próprio sujeito do Iluminismo era falado no gênero masculino. O eu do sujeito era formado na própria relação de si mesmo.
O sujeito sociológico era formado na relação com o outro. Surge a visão de mundo interno e externo. O homem toma consciência de suas fraquezas e impotência, buscando valores, sentidos para o seu mundo. Mead e Cooley (apud Hall, 2005, p.11), juntamente com os interacionistas simbólicos na sociologia, definiram a “[...] concepção interativa da identidade e do eu”. Dessa maneira, dentro da sociolo- gia clássica, entende-se que “[...] a identidade é formada na interação entre o eu e a sociedade” (Mead; Cooley apud Hall, 2005, p.11). En- tão, o indivíduo nasce com um eu interior que pode ser construído de forma contínua com o mundo exterior.
De acordo com Hall (2005), usamos mecanismos de projeção e internalização para interagir com o mundo externo. De forma auto- mática, colocamos para fora nós mesmos e recebemos de fora para dentro do nosso eu significados que vão construindo parte de nós. Assim, associamos os nossos sentimentos aos lugares que ocupamos geográfica, social e culturalmente. Portanto, a identidade liga o su- jeito à estrutura, ajustando, antecipadamente e de forma unificada, o sujeito ao seu mundo cultural.
Enfatiza Hall (2005, p.12) que as coisas estão “mudando”. Antes, o sujeito tinha uma identidade estável e unificada. Atual- mente, o sujeito está se tornando fragmentado e “senhor” de várias
identidades. Dessa forma, não se pode contar com uma estrutura externa para assegurar subjetivamente as próprias necessidades, em razão das “mudanças estruturais e institucionais”. Surge no sujeito um novo processo de identificação de mundo, que Hall chama de “provisório, variável e problemático”.
Esse processo produz o sujeito pós-moderno, conceptualiza- do como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se uma “celebração móvel”: formada e transfor- mada continuamente em relação às formas pelas quais somos repre- sentados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam.
[...]
É definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito as- sume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um “eu” coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos ou uma confortadora “narrativa do eu”. (Hall, 1990 apud Hall, 2005, p.12-3)
Hall (2005) afirma que não existe uma identidade plena, unifi- cada, segura e coerente, pois, se assim fosse, seria uma fantasia. Os sistemas de significação e representação cultural vêm se multiplican- do e nos desestabilizando, e compõem diversas identidades com as quais poderíamos nos identificar momentaneamente.