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Nesta caracterização inicial da teoria de Santos, foi possível avaliar alguns pontos importantes. O primeiro deles é a destacada tendência ao idealismo contida em suas formulações, entendendo por isso a importância que o autor atribui a certas formulações sobre o real em detrimento da própria realidade que ele pretende demonstrar. Santos propunha, desde o início, uma avaliação crítica da realidade, especialmente sobre os desdobramentos da ciência no período entre as décadas de 1960 e 1970, tentando constituir uma linha de estudos que tratasse desse campo específico sem deixar de considerar os aspectos e fatores exteriores à sua constituição e legitimação internos. Seria claro, então, que ele seguisse em sua argumentação pela avaliação dos aspectos sociais, políticos e econômicos, tal como ele mesmo sugere, remetendo à importância de Marx. Mas o que ocorre em seguida é o contrário. Suas análises recaem de maneira bastante intensiva sobre questões epistemológicas, relegando os aspectos exteriores à ciência em si a outra dimensão analítica, mais empobrecida em análise.
Este empobrecimento da análise que se pretendia a mais decisiva na avaliação da ciência decorre justamente desse apego epistemológico. O uso da noção de paradigma é exemplar no caso, pois que ilude o leitor, e talvez até mesmo o próprio Santos, a acreditar que o estudo crítico de aspectos extrínsecos a um campo qualquer da realidade, no caso a ciência, podem ser levados a cabo apenas pela citação e descrição de determinados fatores, sem que haja um exercício de avaliação das possíveis conexões existentes entre eles. Ao contrário, o uso do termo paradigma não garante por si só a avaliação adequada dos determinantes sociais mais gerais de um campo, e, ainda, pode contribuir à sobrevalorização de seus elementos internos. Não à toa, o caminho de Santos é da avaliação do paradigma científico para o paradigma societal, ou seja, a exposição realizada por ele corrobora para um entendimento do
suposto fenômeno da crise paradigmática como que gestada no paradigma científico, e não na sociedade. Perde-se aqui, mesmo que involuntariamente, o sentido do processo histórico; a ciência, produto mais tardio do que a sociedade, passa a determina-la. Não está se negando aqui, e que fique claro, que a ciência influencie de maneira direta a sociedade. Existe, sim, uma relação mútua entre os diversos complexos da vida em sociedade, na qual uma determina a outra, quase na mesma medida. Mas é preciso considerar que existem aspectos fundamentais nessas relações, que, dentro de sua processualidade, garantem a predominância de certos complexos sobre outros. No caso, o conjunto da sociedade é mais importante do que um complexo apenas. Assim, Santos, por mais que faça remissões históricas, não o faz demonstrando os processos que as caracterizam. Ou seja, a história é utilizada como pano de fundo para apresentar o caminho da crise, da crise do paradigma moderno, em especial o científico, que se desdobra na sociedade, como uma crise societal expressa nos problemas do capitalismo. Renegando a processualidade histórica, apresentando apenas os desdobramentos vinculados a ideia de que se tem de história derivados da ideia de constituição do paradigma científico moderno, Santos tende seriamente ao idealismo.
Considerando a sua resposta à crise, a proposição das sociologias das ausências e das emergências, bem como do trabalho de tradução, o idealismo pode se tornar um obstáculo às suas pretensões emancipatórias. Coloca-se esta questão em aberto, no campo da possibilidade, pois que análise precisa ser mais aprofundada para avaliar de maneira adequada suas tendências. Até o momento, é possível inferir que o idealismo de Santos compromete seu próprio projeto, pois que o diálogo pretendido entre as diversas formas de saber, numa relação de equidade, é cindido, desde seu início, por uma consideração apriorística sobre a falácia do conhecimento moderno em geral, especialmente da teoria revolucionária moderna. Ora, um pensamento que pretende combater a indolência da razão moderna não pode cometer o mesmo pecado, desprezando de antemão um tipo de conhecimento que, por mais que se considere obsoleto em suas respostas e dogmático em sua defesa, não deixa de ser expressão humana consciente de uma tentativa de intervenção na realidade. Aceitar os procedimentos de Santos significa negar outro conjunto de teorias, caracterizando um conflito de ideias. A solução para esse conflito não pode estar no fechamento de determinado grupo numa rodada interna de debates. Por mais que esse grupo possa ser heterogêneo, ainda está fundado nos mesmos pressupostos, e o fechamento para ideias contrárias aos seus pressupostos não caracteriza outra coisa senão uma tendência dogmática. Vê-se, então, que um pensamento heterogêneo, plural, pode ser tão dogmático quanto um pensamento considerado homogêneo, unitário. É possível, a partir disso, suspeitar que a origem dos conflitos na batalha das ideias
não reside no aspecto retórico, expositivo das próprias formulações ideais. Estas não deixam de ser manifestações claras desse conflito, mas não passam disso, manifestações que são expressões de um conjunto maior de determinações que não se apresentam de imediato às pessoas. A origem destas determinações é algo que está fora do alcance da teoria de Santos, justamente por seu caráter idealista, promotor de uma solução que tende a se fechar em si mesma, renegando aspectos históricos cruciais em detrimento da apresentação e desenvolvimento de sua própria teoria. E tudo isso, deve-se enfatizar, sem que isso seja a real intenção de Santos. Eis a condição interessante vivida por Santos: por mais bem-aventurado que ele possa ser – e o é, ao menos no nome, diga-se de passagem –, isso não lhe garante a elaboração de uma solução ao problema. Não garante a ninguém, por sinal.
Até o momento, não há condições de forjar uma resposta à solução de Santos. É necessário entender as origens históricas da teoria de Santos para depois ousar uma resposta que, embasada na avaliação dos determinantes históricos da teoria que se pretende refutar, tentando evitar os equívocos contidos naquela. Isto só é possível através da apresentação e análise do debate referencial do qual Santos extrai, invariavelmente, de uma maneira mais ou menos direta, elementos para compor sua argumentação, deve ser feita a partir da constatação parcial das características obtidas na análise do sociólogo português. Tenta-se evitar, com esse procedimento, que o pesquisador trate os referenciais anteriores a teoria que ele tem por objeto como outra resposta qualquer, sem atentar para as mediações concretas existentes entre o processo de produção das teorias que servem de base para a argumentação em questão e o próprio processo de apropriação destas teorias, através da argumentação, na elaboração da teoria que o pesquisador toma por objeto.
Deste modo, a continuação desta dissertação versará sobre os debates que municiam Boaventura de Sousa Santos com os elementos já conhecidos de sua argumentação. A batalha das ideias na qual Santos é produto, e também debatedor. Os debates serão trabalhados tendo em vista os objetivos dispostos na introdução deste trabalho. Portanto, eles não serão alongados pela discussão sobre especificidades que lhes são próprias, ficando restrita a análise aos elementos que os conectam ao objeto principal, o trabalho de Santos sobre a crise da modernidade.
Diante da análise preliminar realizada sobre o conjunto teórico produzido por Boaventura de Sousa Santos, é possível observar que suas formulações são estruturadas sobre três grandes pontos, cada um remetendo a um conjunto de ideias com especificidades próprias. Especificidades estas que se referem tanto a características internas de teorização quanto aos seus determinantes históricos
O primeiro deles é com relação ao pós-moderno. Este termo, tal como já foi escrito sobre o uso da palavra paradigma, não é criação de Santos. Ele envolve um debate denso sobre a crítica aos valores modernos, identificados com o Iluminismo, e a proposição de uma nova agenda política, bem como de um novo modo de pensar. Apenas com esta descrição, é possível relacionar diretamente o debate com a proposição de um novo paradigma feita por Santos. Este ponto será tratado no capítulo a seguir.