Chapter 2. CONCEPTUAL FRAMEWORK
2.8. The conceptual model
A preocupação lacaniana em resgatar o caráter fundador da linguagem na constituição do sujeito pode ser encontrada, de maneira satisfatoriamente sintética e ilustrativa, na lição Da imagem ao significante no prazer e na realidade, pertencente ao seminário 5, As Formações do Inconsciente (1999)84. Nessa lição, Lacan parte de uma pergunta sobre a problemática do simbólico e do simbolismo no meio analítico de seu tempo e de como tal problemática aparece no que diz respeito à constituição do eu. Tal crítica recai, mais especificamente, sobre a Escola Inglesa de Melanie Klein e em sua ênfase no imaginário da relação mãe-bebê em detrimento do complexo sistema simbólico que está
em jogo no ser falante, ponto de partida da descoberta freudiana.
Para os primeiros pós-freudianos da Escola Inglesa, a relação de um recém nascido com o mundo externo é marcada por uma possibilidade de repetição alucinatória, em outros
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LACAN, J. (1972-73) Seminário 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. 84
termos, imaginária, de uma experiência de satisfação primordial, sendo o seu modelo a primeira amamentação. Quando o objeto falta, essa satisfação pode ser suprida no plano alucinatório, ao ativar os traços mnêmicos dessa primeira experiência de satisfação do desejo. De acordo com essa abordagem, o sujeito adulto seria aquele que buscaria encontrar na realidade um objeto que proporcionaria uma satisfação correspondente, em maior ou menor grau, a essa primeira experiência.
A esse respeito, Lacan coloca uma questão: se os processos psíquicos criam uma satisfação para eles próprios, por que as pessoas não se satisfazem? A resposta é elaborada a partir daquilo mesmo que marca a diferença fundamental entre o mundo humano e o mundo animal: a linguagem como um sistema simbólico. A existência da linguagem por si só coloca um problema para uma concepção essencialmente imaginária da relação do sujeito com o mundo externo, pois o significante deturpa e desarmoniza tal relação. Para Lacan, não há uma necessidade pura no ser falante, pois a incidência da cadeia significante marca a transformação da necessidade em demanda, sendo o desejo a sua manifestação. A cadeia significante, que se manifesta inicialmente sobre a forma do Outro, coloca as suas exigências e barreiras desde a mais primordial relação da criança com a mãe, tornando impossível situar essa relação no plano estritamente imaginário. O suposto objeto de satisfação só pode ser concebido como uma ausência de objeto, ao se considerar a lógica do significante. Lacan vai mais além, e afirma que esse objeto não apenas é um significante, mas apresenta um elemento de signo:
Um signo não se caracteriza unicamente pela sua relação com a imagem, na teoria dos instintos. (...) Ele se situa numa certa relação com outros significantes (...) Ele se situa num conjunto já organizado como significante, já estruturado na relação simbólica, na medida em que aparece na conjunção de um jogo da presença com a ausência, da ausência com a presença – um jogo, por sua vez, comumente ligado a uma
articulação vocal em que já aparecem elementos discretos, que são significantes. (Lacan, 1999, p. 228)85
Sem entrar aqui no mérito das aproximações e divergências do termo significante em Linguística e na Psicanálise lacaniana, o parágrafo acima atesta a importância fundamental da linguagem e do pensamento linguístico para a apreensão da noção de sujeito no campo psicanalítico. O significante, ou em outros termos, a linguagem como um sistema simbólico, é, ainda seguindo o raciocínio lacaniano da década de cinquenta, uma realidade originária para o ser humano. Na vertente lacaniana, se falamos de linguagem e psicanálise, estamos no campo que o próprio Lacan denominou de simbólico. A citação a seguir demonstra um Lacan eminentemente preocupado e voltado para questões que, a princípio, são preocupações relativas ao universo do linguista:
Existe linguagem, há fala no mundo e, por causa disso, há toda uma série de coisas, de objetos, que são significados, e que de modo algum o seriam se não existisse significante no mundo. (1999, p. 230)86
A inserção do ser falante na realidade, seja essa realidade qual for, jamais é dada de maneira direta e imediata; ela é sempre e necessariamente mediada pela linguagem que antecede a própria existência do sujeito. Isso faz o processo de simbolização ser algo extremamente arcaico e já estar presente na mais primordial relação de um bebê com sua mãe, muito antes da aprendizagem formal da linguagem ser apreendida pelo sujeito. Considero pertinente apontar aqui outra citação onde Lacan coloca em confluência a constituição do sujeito e fundamentos linguísticos:
...a partir do momento em que a criança começa simplesmente a opor dois fonemas, eles já são dois vocábulos. E, posto que existem dois, aquele que
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LACAN, J. (1957-58) Seminário 5: As formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
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os pronuncia e aquele a quem são dirigidos, isto é, o objeto mãe, já existem aí quatro elementos, o que é suficiente para conter em si virtualmente toda a combinatória da qual irá surgir a organização do significante. (Lacan, 1999, p. 231)
A problemática da simbolização, questão inaugural da lição de Lacan, que proponho comentar aqui, recebe novos contornos ao se partir da doutrina do significante como fundadora da realidade humana, questão já aqui discutida. A dimensão do símbolo é indispensável para que a criança possa se subjetivar, situar sua posição diante do mundo e de outros sujeitos. Como consequência, a dialética fechada da relação mãe-criança, de acordo com o concebido pelos pós-freudianos, como, por exemplo, em Melanie Klein, encontra-se quebrada de origem.
O sujeito, como venho demonstrando, é intimamente dependente da linguagem nas teorizações de Lacan. Por essa razão, a própria criança assume o papel de série de significantes o que corresponde a dizer, nas palavras de Lacan, assumir o papel de hieróglifos, tipos, formas e representações que pontuam a realidade com certos referenciais, para fazer dela uma realidade recheada de significantes. Dessa forma, o conceito lacaniano de objeto possui uma elaboração bastante distinta do objeto imediato da realidade defendido pelos pós-freudianos. O objeto lacaniano, por ser marcado pelo significante, não pode ser situado na vertente puramente imaginária. O caráter imaginário do objeto é um puro engodo, pois, pelo fato de existir linguagem, esse mesmo objeto não exerce para o sujeito humano uma função de imagem, como o objeto sexual o faz para os animais. Ele exerce sua função como significante, preso a uma cadeia de significantes que é o próprio lugar do Outro da linguagem. Ele é também o objeto da demanda que põe em movimento o desejo como uma pura falta que se desloca de demanda em demanda, sendo definido por Lacan, a partir de sua leitura de Jakobson, de objeto metonímico.
A significação desliza e se furta de significante em significante, o que faz desse objeto ser errante e inapreensível, daí o seu nome de objeto metonímico. Isso possibilita uma resposta paradoxalmente simples e extremamente complexa para a questão inicial de Lacan; as pessoas não se satisfazem pelo simples fato de serem falantes. Para o ser falante, nenhuma satisfação é adequada e seu objeto é inapreensível. No entando, é importante ressaltar que o objeto metonímico é uma elaboração distinta do objeto a, construído no Seminário10, A Angústia, do biênio 1962-63. Se o objeto metonímico é articulado ao significante e ao registro do simbólico, o objeto a, como já afirmei, é um próprio resíduo irredutível a toda e qualquer simbolização.
Toda essa exposição, confrontando o ensino de Lacan com a orientação psicanalítica praticada pela IPA, é ilustrativa para demonstrar a maneira como o encontro lacaniano com a Linguística Estrutural foi fundamental para recuperar as bases fundadoras do pensamento freudiano, severamente deturpadas pelo já citado psicologismo praticado pelos pós-freudianos. Esse psicologismo, por sua vez, é uma resposta ao cientificismo, ao pragmatismo e ao discurso da eficácia característicos do mundo pós-1945, cujos valores haviam sido solapados pela realidade da Segunda Guerra. Esse “não querer saber” sobre o mal-estar e sobre o que há de mais distópico no humano é uma defesa esperada para quem viveu os horrores da guerra.
No meu ponto de vista, essa breve localização histórica é bastante importante para evitar o simplismo de se culpar e condenar essa geração de analistas por haver diluído o que há de verdadeiramente subversivo na doutrina freudiana e transformá-la em uma psicologia adaptativa. O encontro com a Linguística Estrutural possibilitou a Lacan recuperar a pedra de toque perdida do freudismo e, ao final de Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise, Lacan nos fornece outro sólido ponto de apoio para se demonstrar a intrínseca articulação existente entre a teoria e prática analítica com a linguagem e a instância do discurso:
A experiência psicanalítica descobriu no homem o imperativo do verbo e a lei que o formou à sua imagem. Ela maneja a função poética da linguagem para dar ao desejo dele sua mediação simbólica. Que ela os faça compreender, enfim, que é no dom da fala que reside toda a realidade de seus efeitos; pois foi através desse dom que toda realidade chegou ao homem, e é por seu ato contínuo que ele a mantém. (Lacan, 1998, p. 323)87
A despeito da fundamental importância epistemológica e política que a Linguística Estrutural cumpriu no retorno a Freud, empreendido por Lacan, considero importante brevemente comentar que o entusiasmo lacaniano com o estruturalismo linguístico teve
como consequência um eclipse da pulsão, termo cunhado por Miller (2005)88. Os
seminários e textos mais recentes de Miller demonstram de que maneira, no primeiro ensino de Lacan, a linguística estrutural promoveu uma significantização do gozo, deixando em segundo plano o real e o conceito freudiano central que traduz a dimensão corporal e não-semântica de satisfação de um sintoma, que é a pulsão. Foram necessários dez anos para que a dimensão do corpo e do sintoma como gozo (e não como sentido) na experiência analítica fossem valorizados por Lacan. É esse o momento que se inicia no Seminário 10 A Angústia, do biênio de 1962-63.