• No results found

Explaining destination image and tourist satisfaction relationship

Chapter 4. RESULTS

4.4. Explaining destination image and tourist satisfaction relationship

Os movimentos de maio de 68, por sua vez, provocaram efeitos amplamente contraditórios sobre o paradigma estruturalista, não demarcando seu declínio de maneira tão evidente como por vezes somos levados a pensar. Esses efeitos contraditórios são percebidos ao se constatar que maio de 68 fora, paradoxalmente, o sucesso do Estruturalismo e o seu enfraquecimento. A modernização da universidade permite ao

119

DOSSE, F. (1993) Benveniste: a exceção francesa. In: História do estruturalismo. Ensaio: Campinas, 1993.

Estruturalismo ganhar espaço a favor de uma aceleração da história a partir de maio de 68. Nesse contexto de contradições e paradoxos de grande complexidade, que não serão aqui aprofundados, a questão sobre o discurso ganha força maior e a disciplina Análise do Discurso surge a partir dos trabalhos pioneiros de Michel Pêcheux. A noção de discursividade é também destacada por Michel Foucault, ao procurar colher as consequências da conjunção entre os efeitos do estruturalismo e de maio de 68.

Em um período em que se contestava a noção de autor, fruto do próprio movimento de maio, Foucault lança a pergunta “o que é um autor?” em conferência proferida perante a Sociedade Francesa de Filosofia em 22 de fevereiro de 1969. A idéia de uma “morte do autor”, também abordada por Barthes, é retomada por Foucault que, de acordo com Dosse (1993), afirma que a marca do escritor nada mais é que a singularidade de sua ausência. O fundamental da discussão de Foucault sobre a noção de autoria é o fato de o mesmo destacar não autores, mas fundadores de discursividade: Freud e Marx. Para Foucault, Freud e Marx fundaram uma possibilidade indefinida de discursos. Para Dosse:

Essas fundações discursivas implicam a legitimidade de um movimento de

“retorno a...”, e abrem a porta para uma postura mais historiadora do que

nunca em face das formações discursivas, a fim de discernir as próprias modalidades de sua existência. (Dosse, 1993, p. 151)120

Foucault anuncia uma apreensão do sujeito que considera os seus pontos de inserção e as condições de seu surgimento. Essa tomada de posição permite uma ressignificação do retorno a Freud, empreendido por Lacan na década de cinquenta, assim como os demais retornos do Estruturalismo, dentre eles, o retorno a Saussure por parte dos linguistas.

120

DOSSE, F. (1993) Benveniste: a exceção francesa. In: História do estruturalismo. Ensaio: Campinas, 1993.

De fato, a exposição de Foucault fornece a Lacan uma contribuição para a fundação de sua teoria dos quatro discursos construída no Seminário 17 O avesso da psicanálise, do biênio 1969-70, permitindo uma aproximação mais estreita entre a psicanálise e as teorias linguísticas sobre o discurso.

Para Dosse (1993), é a primeira vez que Lacan vê confirmar, do ponto de vista filosófico, a exatidão de sua postura de retorno a Freud. O próprio Lacan participa da discussão e agradece a Foucault por corresponder inteiramente à sua expectativa do verdadeiro sentido de seu retorno a Freud. O interesse mais específico pela noção de discurso, em contrapartida, surge no âmbito da Escola de Lacan no próprio ato de sua fundação, em 1964, ainda que a questão sobre o discurso esteja presente desde o início de seu ensino.

Naquele que ficou conhecido como o maior corte institucional do movimento psicanalítico, Lacan fundou a Escola Freudiana de Paris em 27 de junho de 1964, após uma longa querela institucional com a IPA que culminou em sua excomunhão como analista didata. Lacan abriu sua Escola para os não-analistas e alguns alunos da École Normale a ela aderiram e se agruparam através de um cartel cujo objeto de interesse foi: Teoria do Discurso. Não é fato irrelevante pontuar que um dos primeiros cartéis estabelecidos na Escola Freudiana de Paris teve como objeto de estudo o discurso.

O Seminário 17 de Lacan, dedicado aos quatro discursos, datado de 1969-70, é o ápice da correspondência de Lacan à noção de discurso que ganhara espaço na Linguística após os movimentos de maio de 68, ainda que esses movimentos tenham apresentado resultados contraditórios que não necessariamente colaboraram para o declínio do Estruturalismo, mas para o seu paradoxal fortalecimento. A construção lacaniana sobre os quatro discursos apresenta uma concordância cronológica com a exposição de Foucault no ano de 1969, marcando uma evolução no sentido da discursividade, confirmada pelo seminário do ano posterior: De um discurso que não fosse semblante.

A questão sobre o que é um discurso, quais suas especificidades, seus modos de organização e funcionamento são amplamente abordadas nessa dupla de seminários. O conceito de semblante é introduzido como um novo elemento para se articular as relações existentes no tripé, discurso-objeto-campo do Outro. O semblante pode ser descrito como um anteparo ao real, como as formações simbólicas e imaginárias que, na estrutura do discurso, mascaram o furo irredutível no campo do Outro encarnado pela função do objeto a, possibilitando a inscrição e a circulação de um discurso. O seminário parte de uma pergunta por parte de Lacan: há um discurso que não seria de semblante? Há algum discurso que possa dispensar os semblantes?

Dosse (1993)121 destaca ainda outro evento determinante para o avanço de Lacan em

direção à discursividade que é resultante de haver sido banido da instituição universitária, a École Normale Supérieure, sendo-lhe retirada, por Robert Flacelière, a sala onde se realizava seu seminário. Lacan encontrará refúgio em um lugar próximo, em um anfiteatro da Faculdade de Direito. Esse acontecimento provocou nele a convicção de que era necessário um novo ataque contra o discurso universitário de sua época e as pretensões da Filosofia. Na ocasião da primeira sessão de seu seminário na Faculdade de Direito em 26 de novembro de 1969, que corresponde à primeira lição do Seminário 17, Lacan faz a primeira menção do termo discurso no sentido específico de que será sua teoria sobre os quatro discursos a ser desenvolvida no decorrer de todo aquele seminário. Para brevemente localizar o leitor, pois não é meu objetivo nesta tese abordar a teoria lacaniana sobre os quatro discursos, os discursos são reduzidos a uma estrutura tetraédrica em que seus quatro elementos circulam para produzir cada um desses quatros discursos. É a partir do giro dos elementos em seus lugares na estrutura que se obtêm os discursos, que são: o discurso do mestre, o discurso da histérica, o discurso do analista e o discurso da universidade A referência para os discursos não é o sujeito, embora o discurso o determine: sua referência são seus lugares (o agente, a verdade, o outro e produção) e seus elementos (o significante-mestre, o saber, o sujeito e o objeto mais-de-gozar):

121

DOSSE, F. (1993) Benveniste: a exceção francesa. In: História do estruturalismo. Ensaio: Campinas, 1993.

O agente  O outro A verdade A Produção

S1 – Significante-mestre S2 – O saber $- o sujeito a- mais-de-gozar

O discurso só pode ser enunciado como algo que se articula a partir de uma estrutura, em alguma parte da qual ele se acha alienado de maneira irredutível. Isso justifica seu dizer de que o discurso não é de um sujeito particular, mas se funda em uma estrutura que opera com a distribuição e o deslizamento de seus termos. Tomo como exemplo o discurso do mestre, o primeiro discurso proposto por Lacan e também identificado como o discurso do inconsciente. Ele ilustra a proposição do inconsciente estruturado

como linguagem (o Outro como um sistema de oposição entre significantes, S1  S2),

o sujeito como efeito do significante ($) e o objeto a como produto, ponto irredutível e inassimilável no ser falante:

S1  S2 $ a

Encontramos nesse matema uma dicotomia estruturalista (um S1 ligado a um S2), articulada a dois conceitos que se encontram para além do estruturalismo: o sujeito ($) e o resíduo real da simbolização (a). O objeto a, como venho demonstrando, é esse elemento heterogêneo à linguagem, um resíduo da operação de simbolização, irredutível ao significante e que cai como objeto perdido. Ao discurso é, então, impossível conferir uma consistência, pois todo discurso porta um fracasso, uma perda de gozo e, no lugar dessa perda, surge a função do objeto perdido: objeto a.

Dando continuidade aos comentários sobre as imediatas repercussões de maio de 68, é notável o avanço do cientificismo nos primeiros tempos que seguiram o acontecimento,

uma “sede científica” por parte dos homens das letras e uma onda de racionalismo por parte dos estudantes que se voltaram maciçamente para os cursos de lógica. Isso é resultado direto da insatisfação com os moldes de transmissão do saber, aspirando uma mudança tanto na estrutura quanto nos métodos pelo qual o saber é transmitido pela via do ensino universitário.

O grande paradoxo desse período que mais intimamente interessa apontar nesta tese é o sucesso que a Linguística atingiu como disciplina científica e operacional naquele momento histórico, coincidindo com o surgimento da disciplina Análise do Discurso e a um retorno do sujeito nos estudos sobre a linguagem. Duas perspectivas sobre a linguagem sendo reforçadas e ganhando força no mesmo contexto histórico e social. No pós-68, a Linguística garante novamente visibilidade como ciência piloto para outras disciplinas e áreas do saber, sendo novamente considerada como elemento de união das ciências humanas, tal como estivera fortemente em voga na década de cinquenta. Sabemos que a Linguística foi o ponto de partida de Lacan em 1953 para a refundação lacaniana da psicanálise, usando um termo de Miller (2005)122.

Foi nesse ambiente, marcado por paradoxos e antagonismos tão evidentes, convivendo lado a lado, que os reconhecimentos da Psicanálise e do ensino de Lacan cresceram fortemente. O psicanalista francês é visto como aquele que, nas palavras de Dosse

(1993)123, pôde curar as feridas do fracasso, das ilusões perdidas de uma ruptura

totalmente desejada com o mundo antigo. A constatação de que é impossível mudar o mundo, a grande “ressaca” do pós-maio de 68, encontra substituto na possibilidade que cada um tem de mudar a si mesmo. Consequentemente, numerosos veteranos do movimento se tornaram analisantes de Lacan, em uma tentativa de compreender as dificuldades inerentes à transgressão da lei e elaborar as ilusões próprias da revolução que o movimento de 68 deixara tão evidentes. Esse fracasso inerente da revolução como ruptura global e radical inevitavelmente alimenta o fracasso da doutrina estruturalista e

122

MILLER, J.A. (1994-95) Os paradoxos da pulsão de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

123

DOSSE, F. (1993) Benveniste: a exceção francesa. In: História do estruturalismo. Ensaio: Campinas, 1993.

Lacan encarna o recurso de apoio nesse particular momento, anunciando a hora da revolução impossível e o real impossível inerente a toda revolução.

Os efeitos contraditórios de maio de 68 reverberaram de forma evidentemente forte em diversas áreas do saber, dentre elas a Linguística da Enunciação de Benveniste e a Psicanálise de orientação lacaniana. Maio de 68 não colaborou para o sucesso e nem para a extinção do paradigma estruturalista, mas provocou um forte deslocamento de suas bases epistemológicas em direção ao seu inevitável declínio nos anos que se seguiram. A própria modalidade de estruturalismo, surgida no pós- maio de 68 denuncia isso, o chamado ultra-estruturalismo. O ultra-estruturalismo já marca o esfacelamento do programa, ao se abrir para a pluralização, para conceitos que passaram a se fortalecer no pós-maio de 68, como as teorias da enunciação. Fatos como esses submetem as categorias anteriormente rechaçadas pelo movimento estruturalista a uma crítica desconstrutora no sentido de uma pluralização e abertura para a heterogeneidade.

Dosse (1993, pg. 159)124 sintetiza todo esse processo ao dizer que “Maio de 68 fez

explodir, sobretudo, a noção de fechamento da estrutura.” Trata-se de uma estrutura aberta, suscetível à contingência, às rupturas, às desconstruções, ao múltiplo, e sensível às diferenças e ao Outro, em outras palavras, ao sujeito. O declínio inexorável do Estruturalismo a partir dos anos setenta, em mais um movimento paradoxal, encontra seu germe e suas forças desestabilizadoras no próprio movimento estruturalista. A partir da década subsequente aos movimentos de 1968, diversas vertentes teóricas, como as teorias da enunciação, ganham espaço e contribuíram para a dissolução do paradigma estruturalista.

Toda essa digressão histórica torna mais compreensível o fato de Benveniste e seus estudos sobre a enunciação apenas alcançarem visibilidade a partir de 1970, ano de

124

DOSSE, F. (1993) Benveniste: a exceção francesa. In: História do estruturalismo. Ensaio: Campinas, 1993.

publicação do Aparelho formal da enunciação. No que diz respeito aos desdobramentos desse longo e tortuoso percurso em direção ao reconhecimento da obra de Benveniste e de seus trabalhos de vanguarda no âmbito dos estudos enunciativos, cabe ressaltar que a sua teoria da enunciação ganha impulso a partir dos anos oitenta, conferindo ao sujeito um lugar cada vez mais destacado nos estudos sobre a linguagem. Como consequência direta, percebe-se uma aproximação cada vez mais visível entre o campo linguístico e o campo psicanalítico. A distinção lacaniana entre enunciado e enunciação é consequência direta de seu encontro com o pensamento linguístico de Benveniste na década de cinquenta e é o cerne de sua separação entre fala plena (enunciação) e fala vazia (enunciado). A rigor, o termo enunciação refere-se ao discurso simbólico do inconsciente, em detrimento do discurso imaginário do eu, que é da ordem do enunciado, como exemplifica essa breve passagem de Posição do inconsciente:

Por conseguinte, não podemos deixar de incluir nosso discurso sobre o inconsciente na própria tese que o enuncia, a de que a presença do inconsciente, por se situar no lugar do Outro, deve ser buscada, em todo discurso, em sua enunciação. (Lacan, 1998, p. 848)125

Ainda seguindo a pesquisa de Dosse (1993)126, Benveniste estabeleceu a história do

desenvolvimento da Linguística a partir de uma tripartição de idades: a idade filosófica (que corresponde ao período da reflexão dos pensadores gregos sobre a língua); a idade histórica a partir do século XIX com a descoberta do sânscrito e a idade estruturalista do século XX, na qual, em suas palavras, a noção positiva do fato linguístico é substituída pela relação. Esse terceiro tempo dá acesso ao complexo campo da cultura que é o fenômeno simbólico que interessa tanto a Benveniste quanto a Lacan (mais propriamente ao primeiro classicismo lacaniano, expressão de Milner já discutida). Na visão de Dosse, o domínio do simbólico manteve, pelo período da década de cinquenta,

125

LACAN, J. (1960) Posição do inconsciente. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. 126

DOSSE, F. (1993) Benveniste: a exceção francesa. In: História do estruturalismo. Ensaio: Campinas, 1993.

ambos os pensadores em uma estreita proximidade e diálogo, articulando questões linguísticas e psicanalíticas a partir da doutrina do sujeito.