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Chapter 2. CONCEPTUAL FRAMEWORK

2.5. Facets of tourist destination

No que concerne à questão do sujeito, há um exemplo clássico em Freud que pode ser interpretado como uma análise da estrutura do enunciado em relação à enunciação, ou do dito em relação ao dizer, que é o pequeno artigo de 1925 sobre a Verneinung, termo de difícil tradução, melhor interpretado como denegação. Trata-se de um exemplo a ser compreendido com o devido cuidado para não cair em um psicologismo: a Psicanálise não tem e não deve fazer sentido no nível da objetividade pura. No caso em questão, um paciente de Freud lhe relata um sonho em que há uma pessoa que ele não sabe dizer quem é, sendo que imediatamente o comunica: “Não é minha mãe”. Freud não deixa de observar que, entre todos os seres humanos, o seu paciente escolhe a mãe para justamente dizer que não se trata dela. Há aí um “é minha mãe”, precedido pela posição

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CABAS, A. G. (2009) O sujeito na psicanálise de Freud a Lacan: da questão do sujeito ao sujeito em

que o sujeito assume frente ao próprio dito ao colocar a marca da negação. Dessa forma, o significante “mãe” está presente no dito e, como tal, é distinto do índice negativo que modifica a relação do sujeito com ele. A negação, como estabelece Freud, é um índice do recalque, sendo que uma representação recalcada no inconsciente só é admitida apresentando a marca da negação. É um enunciado que porta, para Freud (2007, p.

147)66, a seguinte enunciação: “É como se o paciente tivesse dito: ‘Com relação a essa

pessoa, de fato pensei na mãe, mas não tenho a menor vontade de deixar essa ideia

valer´”.

A discordância fundamental entre o dizer e o dito; e enunciado e enunciação é a pedra angular da interpretação analítica e da abordagem discursiva da linguagem, não sendo possível conceber a linguagem que se manifeste sem que o efeito de sujeito não esteja aí desde já. Em um mesmo dito, há sempre uma disjunção entre o próprio dito e a posição do sujeito que o enuncia, não havendo discurso que não coloque entre aspas, que não insira uma modalização no discurso anterior. A modalização na língua é praticamente infinita e muito sutil. O sujeito pode, então, de acordo com Miller, ser compreendido como uma caixa vazia onde se inscrevem as variações da posição subjetiva:

Que é o sujeito? É essa caixa vazia, o lugar vazio onde se inscrevem as modalizações, que encarna o lugar da sua própria ignorância, e também o fato de que a modalidade fundamental que deve surgir, através de todas as

variações, é a seguinte: “eu (o paciente) não sei o que digo.” E, nesse

sentido, o lugar da enunciação é o próprio lugar do inconsciente. (Miller,

1997, p. 247)67

A modalização inerente ao discurso propicia que um sujeito coloque entre parênteses aquilo que ele mesmo diz, encarnando o lugar da própria ignorância do sujeito, da incerteza frente ao que enuncia. Eis o sentido da associação livre proposta por Freud,

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FREUD, S. (1925) A negativa. In: Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente. Rio de Janeiro: Imago, 2007.

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conhecida como a regra de ouro para o tratamento analítico: fazer existir no lugar da enunciação o próprio lugar do inconsciente. Em outros termos, fazer coincidir o sujeito da enunciação com o sujeito do inconsciente.

Em uma análise, logo, há uma prevalência da enunciação em detrimento do enunciado e do dizer em detrimento do dito. A interpretação analítica visa a disjunção entre enunciado e enunciação, propiciando que o sujeito se depare com o que ele mesmo produziu. No próprio momento da interpretação, o analista, que não ocupa lugar de

sujeito, como ilustra o discurso do analista68, fala de um lugar em que sua enunciação

prima sobre o enunciado. Esta, então, visa não o esclarecimento de um sentido, mas

colocar a dimensão do equívoco. Miller69 evoca uma bela frase de Lacan, proferida em

Conférences et entretiens dans des universités nord-américaines, conferência de 1976

inédita no Brasil, que resume esse posicionamento: “A interpretação não deve ser

teórica, sugestiva, ou seja, imperativa. Ela não é feita para ser compreendida; ela é feita para produzir ondas.

É possível esquematicamente ilustrar a oposição entre enunciado e enunciação a partir do chamado Esquema L, que encerra a primeira teorização de Lacan sobre o lugar do analista. Trata-se de uma teorização que foi sofrendo progressiva mudança em seu ensino, mas que é bastante válida. Tem-se um eixo imaginário, lugar da relação do Eu (imaginário) com seu semelhante (o pequeno outro), no caso, a pessoa do analista (eixo a-a´). Paralelamente, há um eixo simbólico que representa o inconsciente, onde o processo analítico se desenrola, no qual o analista ocupa o lugar do Outro (A) e interpreta o analisante em seu lugar de sujeito (S). O eixo A-S é o próprio eixo da enunciação inconsciente, que rompe o eixo imaginário e vai além ou aquém do enunciado, que é sempre imaginário. O lugar ocupado pelo analista manifesta uma

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Lacan, a partir de 1964, teoriza a posição do analista como semblante do objeto a. O desenvolvimento sobre os discursos, dentre eles o discurso do analista, encontra-se no Seminário 17 O avesso da

psicanálise.

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MILLER, J. A. (2005) Peças avulsas. In: Opção Lacaniana No 44. Belo Horizonte: Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, 2005.

subtração a essa relação imaginária, devendo o mesmo desaparecer enquanto eu (moi), operando no lugar de grande Outro.

S _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ a´

a _____________________________ A

A primazia do eixo do simbólico para Lacan, também chamado de eixo da enunciação inconsciente, ratifica a importância por ele conferida à linguagem para o campo psicanalítico, questão por ele detalhadamente desenvolvida em seu texto de 1953, Função e campo da palavra e da linguagem em psicanálise. Observo, mais uma vez, que a própria Psicanálise faz empréstimo de conceitos como de sujeito, enunciado e enunciação, o que a coloca em uma posição de contato com os estudos linguísticos e as teorias discursivas.

Dessa maneira, o que opera em uma análise pode ser comparado com o que opera na Linguística do Discurso: o próprio mal entendido em detrimento do saber e da compreensão do ser falante sobre o que ele mesmo produz. O Esquema L, ao esquematizar a situação analítica, ilustra essa diferença fundamental ao demonstrar que as trocas simbólicas entre os parceiros do discurso não devem operar no registro do imaginário, da relação dual onde reinam as identificações imaginárias, mas sim a partir do apoio na cadeia de significantes do analisando.

A orientação lacaniana, mais além de refundar a Psicanálise sobre a ótica do pensamento linguístico, recupera a idéia freudiana de texto da palavra do analisando

que sustenta a prática analítica. Se o analista, por seu lado, possui o poder do questionamento da palavra do analisante, ele é apenas o agente da interpretação. É o analisando que a elabora. A disjunção entre enunciado e enunciação, por fim, faz-se fundamental tanto para o discurso do analista quanto para o analista do discurso. Em ambos os casos, é imprescindível distinguir sempre, não apenas o enunciado da enunciação, mas, paralelamente, o dito do dizer.