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Com o recrudescimento da censura e da mão-de-ferro dos militares, com uma prática discursiva que se baseava na “moral e nos bons costumes”, na “família e na tradição”, a revista sofreria restrições que culminariam na dissolução da equipe original. Naquele momento, não havia muitas certezas a respeito do que deveria, e do que não

44“Esta é uma cidade criança”, abril de 1967. 45“O tira”, junho de 1966.

46“Quem é o dedo-duro”, julho de 1968.

47“Ganharemos em Londres? Brasil tricampeão”, abril de 1966. 48“Pelé”, novembro de 1966.

49“Obrigado, Garrincha”, março de 1968. 50“É uma revolução”, novembro de 1968.

51“A aventura da notícia. Vinte e quatro horas na vida de um jornal”, outubro de 1966. 52“Voto de confiança”, maio de 1966.

poderia ser noticiado. “Certamente, é essa contradição que explica o fato de que tenha existido no país, no período que se estende de 1964 a 1968, um momento de insegura liberdade de expressão, hesitante mesmo, em razão da ameaça policial sempre presente” (FARO, 1999, p. 57).

O ano de 1968 marcaria o fim do que se considera a melhor fase da revista. Em 28 de março, no Rio de Janeiro, a Polícia Militar atacou um grupo de estudantes que demandavam melhorias no restaurante Calabouço, bandejão do centro da cidade onde os alunos se alimentavam por 60 centavos de cruzeiro, por refeição. “Acusavam-no de ser um covil de agitadores e estudantes profissionais quando, na realidade, era apenas um refúgio de pessoas que não tinham onde comer” (GASPARI, 2002, p. 277). Durante o ataque, o estudante Edson Luís de Lima Souto, 17 anos, foi atingido no peito por um tiro. Os colegas o levaram à Santa Casa da Misericórdia, próximo dali, mas ele chegou morto ao hospital. Era o primeiro cadáver da luta entre estudantes e o regime militar. Edson Luís foi levado pelos estudantes à Assembleia Legislativa, e no dia seguinte, os jornais estampavam o garoto morto em suas capas. Quando se espalhou a notícia da morte do menino, os teatros suspenderam sessões, e houve rebuliço nos bares da moda. O cortejo que acompanhou o corpo da Cinelândia ao cemitério São João Batista, local do sepultamento, tinha mais de 50 mil pessoas, ainda que o caminho estivesse às escuras. “Edson Luís foi sepultado à luz de velas e de archotes improvisados – e ao som do Hino Nacional cantado pela multidão. Depois, já se retirando, todos entoaram a Valsa do Adeus.” (VENTURA, 2008, p. 98).

A narração deste episódio é necessária porque a morte do garoto seria um momento decisivo para os acontecimentos de 1968 – e as consequências do que aconteceu desde aquele ano até a abertura, com o movimento “Diretas Já”. Na quinta-feira, 20 de junho, cerca de 1.500 jovens invadiram a reitoria da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi realizada uma assembleia em que os professores e o reitor foram forçados pelos estudantes a falar e a ouvir suas reivindicações. O reitor, Clementino Fraga Filho, teve entendimentos com o chefe do policiamento que cercara o local, no sentido de assegurar que os manifestantes pudessem sair sem ser incomodados. Além disso, obteve do governador, Negrão de Lima, a garantia de que os estudantes sairiam tranquilamente. “Eles saíram e foram massacrados – da maneira como os jornais mostraram no dia seguinte. Todos tinham sido traídos, inclusive, ao que tudo indica, o próprio governador” (GASPARI, 2002, p.

129). Muitos jovens apanharam dos PMs nas calçadas, outros tantos fugiram, mas cerca de 200 deles foram encurralados no campo de futebol do Botafogo, perto dali. Espancados e humilhados, filhos da classe média assim apareceram nos jornais da manhã de 21 de junho. Não se tratava de um garoto pobre que precisava comer no bandejão. Eram os filhos da elite, e com essa atitude, o regime incomodava a classe média. Na quarta-feira seguinte, 26, a Passeata dos Cem Mil reuniria artistas, padres, deputados, estudantes, arquitetos, professores, bancários, mães, jornalistas, enfim, representantes de todos os segmentos que, àquele momento, estavam insatisfeitos com o regime. O protesto transcorreu sem incidentes. Naquele dia, a polícia não saiu à rua para reprimi-lo.

Sucederam-se ações terroristas, de esquerda e de direita. Bombas, coquetéis Molotov, ataques a teatros, sequestros, atentados, greves se multiplicavam, a tortura a presos políticos estava denunciada nos jornais, “praticada pela meganha nas delegacias de polícia, eterno foco de violações de direitos humanos de cidadãos humildes, ela reaparecia a serviço do regime, mas distanciada dos quartéis” (GASPARI, 2002, p. 312-313). Até setembro, o presidente Costa e Silva evitara tomar qualquer grande decisão em relação à crise que se instalara em seu governo.

No dia 2 de setembro de 1968, o deputado Marcio Moreira Alves ocupou a tribuna da Câmara para condenar a invasão da Universidade de Brasília. Em 29 de agosto, cem agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), protegidos por 200 PMs, invadiram a UnB para prender o presidente da Federação dos Estudantes Universitários de Brasília, Honestino Guimarães, e mais quatro colegas. Cerca de 500 estudantes resistiram ao cerco e refugiaram-se no Instituto Central de Ciências. A batalha durou 20 minutos, e os estudantes, rendidos, foram levados à quadra de basquete. Vários parlamentares se dirigiram ao campus para tentar encontrar seus filhos, estudantes da UnB. No dia seguinte, o clima era de indignação na Câmara, e o discurso de Moreira Alves não foi o único sobre o assunto. Entretanto, o governo decidiu pedir permissão à Câmara para processar o deputado. Com isso, instalou-se a crise entre aquela Casa legislativa e as Forças Armadas, pois a Câmara estava empenhada em negar a licença. Conforme previsto pelo senador Daniel Krieger, presidente do partido governista, o pedido foi negado por 216 votos, contra 141 a favor e 12 em branco, na tarde do dia 12 de dezembro de 1968.

No dia seguinte, às 17h, em uma reunião do Conselho de Segurança Nacional, presentes as 24 autoridades mais poderosas do país, o presidente Costa e Silva apresentou o Ato Institucional nº 5. O AI-5 foi aprovado por 22 votos, ou seja, todos, menos o vice- presidente, Pedro Aleixo, que havia discursado antes da votação contra o ato, e o próprio Costa e Silva, que o propôs. Na mesma noite, o ministro da Justiça, Luiz Antônio da Gama e Silva, anunciaria o texto diante das câmeras de TV. O locutor da Agência Nacional, Alberto Curi, anunciou as medidas (GASPARI, 2002, p. 340). A partir daquele momento, o Congresso Nacional estava fechado por tempo indeterminado, com direito a demissões sumárias, cassações de mandatos e suspensões de direitos políticos autorizadas. As liberdades de expressão e reunião estavam suspensas. O Ato também previa que um cidadão pudesse ser proibido de exercer sua profissão, e autorizava o confisco de bens. O artigo nº 10 suspendia o habeas corpus nos casos de crimes políticos contra a segurança nacional.

De acordo com Gaspari (2002), antes do AI-5, ainda no dia 13, os jornais estavam sob censura. Na quinta-feira, dia 12, censores foram enviados às redações a fim de impedir a veiculação de notícias sobre a sessão da Câmara em que o governo fora derrotado. O Estado de S. Paulo foi proibido de circular no dia 13, e o Jornal da Tarde, apreendido. O País conseguiu driblar a censura, mas seu diretor, Joel Silveira, foi preso ainda na sexta- feira. No dia 14, a capa da Folha de S. Paulo anunciava o recesso do Congresso Nacional, por tempo indeterminado (GOVERNO, 1968, p. 1). A matéria principal trazia uma cronologia dos fatos ocorridos no dia anterior. Todos esses acontecimentos modificariam a rotina das redações de veículos de imprensa até o fim da vigência do Ato Institucional, que só seria revogado pouco mais de dez anos depois, durante o governo de Ernesto Geisel.