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Em março de 1940, Artigas iniciou sua atuação didática na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, como assistente do Professor Anhaia Melo na cadeira de Composição Geral e Urbanismo. De um documento de 1942, consta a informação de que ele

145 ARTIGAS. Terceira entrevista em 28 de junho de 1983. 146 ARTIGAS. Terceira entrevista em 28 de junho de 1983.

147 Não foi o que ocorreu ao se olhar a foto da elevação norte da Casa Luiz da Silva Prado, de 1930, no

Pacaembu. XAVIER, Alberto; LEMOS Carlos e CORONA, Eduardo. Arquitetura moderna paulista. São Paulo: Pini, 1983, p. 2 e 3.

ocupou o lugar de “substituto, em 1941, por impedimento do nobre Professor”. Em outro documento, esse de março de 1944, enviado ao reitor pelo Diretor da Poli, encontrei a proposta de nomeação de “Fernando Flavio de Almeida e João B. Vinalova Artigas, respectivamente segundos adjuntos das cadeiras nº. 8 e 20 desta Escola”.148

Eu era seu assistente no ateliê de Arquitetura (…) para os aspectos que se chamavam “composição”. Aí eu tinha força para orientar os meus jovens estudantes (…) sem que o Anhaia dissesse “não faça isso, não faça aquilo”, porque ele estava interessado nas questões de urbanismo. (…) não havia debate nenhum naquele tempo. O menino queria fazer isso, queria fazer aquilo, eu orientava. Começava com uma casa mínima ou não sei, (…) mas aprendiam a fazer uma casinha com dois quartos, cozinha e banheiro. Viam como é que se fazia a armação do telhado e isso e aquilo, no segundo ano. No terceiro começavam a fazer outras coisas. No quinto ano, podiam se dar ao luxo de fazer o que se chamava de “Grandes composições”.149

A propósito, a Revista Politécnica, edição de maio de 1944, publicou o trabalho de um Hotel (fig. 3.12, 3.13 e 3.14) de autoria do estudante Leopoldino W. Paganelli, aluno de Villa Nova Artigas.

Apreciando as apresentações das vistas externas desse exercício, percebi a plástica atualizada, já modernista, na escolha de uma linguagem limpa, de boas proporções, sem dúvida não referenciada aos princípios estéticos do Cubismo e, sim, muito mais à maneira aerodinâmica do art decó. Com o uso da perspectiva “vôo de pássaro”, a representação gráfica acentua um efeito anguloso, agudo, sugerindo a energia e o dinamismo da vida moderna, junto a um bonito jogo gráfico de sombras e alguns riscos soltos à mão livre. Imaginei de ter sido essa a possível capa do conjunto de pranchas do trabalho. O desenho indicado como “fachada um” mostra a maior extensão do bloco de menor altura e, à esquerda, o de porte médio, ambos com a indicação do conjunto de esquadrias. A empena de volume das enfermarias, pela verticalidade, enfatiza a interligação com os diversos andares, somada a sua importante presença na contraposição elegante das linhas e volumes. As três pranchas das plantas dos vários pavimentos reunidas em uma só página nesse periódico, por sua vez, apresentam um desenho elementar primário, em uma escala reduzida, em nível, no máximo, de um “risco preliminar”, expondo do modo mais sucinto a distribuição dos vários ambientes.

– Esforcei-me imensamente, enquanto fui assistente do Professor Anhaia Mello no período anterior à fundação da Faculdade de Arquitetura, e já introduzi no curso de engenheiros arquitetos da Politécnica, figuras de composição que saíssem desenho dos aspectos “fachadísticos”. Algo mais: os desenhos de plantas, o significado que as tipologias pudessem ter.

148 Reitor da USP: Professor Jorge Americano; Diretor da Poli: Professor Paulo de Menezes M. da Rocha. 149 FICHER, Sylvia. Entrevista com Dr. João Batista Vilanova Artigas, 1982.

Fig. 3.12, 3.13, 3.14. Vilanova Artigas professor da Escola Politécnica Trabalho de um seu aluno, publicado na Revista Politécnica em 1944

Evidentemente, com resultado muito pequeno, quase insignificante. Mas, já nesse tempo, se sentia o germe do professor que eu vim a ser mais tarde quando, em 48, ajudei a fundar a Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo. É interessante que te diga, porque a gente faz a experiência de quinze em quinze minutos na vida (ri). Não por indicação de alguém.150, 151

Foi professor da Escola Politécnica no curso para engenheiros arquitetos a partir de 1941 até 1956. Passou a ensinar, ao mesmo tempo, na FAU-USP, em 1948, tendo a oportunidade de desenvolver e ampliar a importância de sua atuação, atingindo a condição cultural e criativa de uma indiscutível liderança docente. Em 1962, propiciou uma reforma de ensino dessa faculdade, a qual pôs um ponto final em qualquer resquício do ensino acadêmico tradicional, o que repercutiu nacionalmente. A partir da sua liderança, o atelier de projeto se constituiu em espinha dorsal, em torno da qual se moviam todas as demais disciplinas.152Essa ótica envolvia, além do projeto de Arquitetura, o planejamento ligado ao urbanismo e ao paisagismo, incluindo o curso de Desenho Industrial. Isso resultou no convite a vários novos professores, inclusive de história e teoria, que lá iniciaram a pesquisa e a produção de publicações. Ao lado do seu projeto didático, a construção do edifício da FAU, de 1961, no

campus da USP, resultou na realização plástica que explicita a sua preparada inteligência de antevisão espacial, respaldada na prática profissional. Essa, por sua qualidade, deu-lhe o lugar de mestre de Arquitetura, fundador da “escola paulista”, dentro do Modernismo Brasileiro.

Em dezembro de 1968, Artigas foi aposentado compulsoriamente da USP pelo Ato Institucional n.º5. Seu desempenho como professor, cujo reconhecimento extrapolou o âmbito nacional, justificou sobremaneira o:

Prêmio “Jean Tschumi”, em 1972, fornecido pela União Internacional dos Arquitetos, pela sua atividade didática na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, durante os últimos trinta anos, contribuindo de maneira determinante na formação e desenvolvimento da mais recente geração de arquitetos brasileiros.153

Exatamente, 20 anos antes, em 1952, no Congresso de Arquitetura, em Varsóvia, Artigas se destacou por sua atuação em prol da fundação da União Internacional dos Arquitetos (UIA). Sobre esse encontro, o arquiteto falou no IAB-SP, em agosto de 1970, relatando-o em seu testemunho:

150 ARTIGAS. Segunda entrevista, em 14 de junho de 1983.

151 Um dos mais conhecidos exemplos de “fachadismo” é a construção antecipada das frontarias corridas dos

futuros prédios residenciais ao longo da Rue de Rivoli, em Paris, para só depois serem levantados os edifícios correspondentes propriamente ditos; cenário urbano desenhado por Percier e Fontaine, em 1806, arquitetos de Napoleão Bonaparte. Algo semelhante se fez em Londres, em 1812: o Regent’s Park, de John Nash. BENEVOLO, Leonardo. Aux Sources de l’urbanisme moderne. Paris: Horizons de France, 1972, p. 21-32.

152 Atualmente, não mais levada a sério em muitas instituições universitárias. 153 SANTOS, José Teles dos (org.). Memorial Vilanova Artigas, v. I, 1981.

Este mundo, dilacerado, aparece nessa reunião com três níveis de países facilmente constatáveis (…) Os altamente desenvolvidos, os medianamente desenvolvidos, como nós, e os baixamente desenvolvidos (…).

Ora, hoje o tema que se coloca abrange o universo no seu conjunto, poderia dizer até com alguma ambição. Qual é a responsabilidade dos arquitetos, como humanistas, para que a vida humana seja organizada nas sociedades nas quais nós vivemos.

Daí surge uma definição nova ou uma palavra que nós francamente não temos. Digamos: é a palavra ‘projeto’. Para nós, ela extravasa da noção de projeto desenhado enquanto edifício que se produz, tem mais a significação da palavra inglesa design.

Se pode (sic) fazer o design de um edifício, mas pode-se fazer o design da sociedade. Que sociedade nós devemos ter? Ou o design do objeto. Então, qual o design que nós devemos fazer para a natureza tal como ela se apresenta, hoje em dia, em termos gerais, extra-edifícios. Até o planejamento urbano evidentemente, (…)

Que tipo de formação precisa o arquiteto que, abrindo mão do desenho do peitoril da janela ou do caixilho, passa a projetar outros aspectos, pois aqueles anteriores já foram consumidos, ultrapassados e resolvidos no nível da indústria? Então, a formação do profissional de Arquitetura começa a ter uma abertura muito maior. Os estudos, por exemplo, de economia, sociologia, política, da psicologia, no caso até de comportamento, então a avaliação de reações sociais ou individuais em relação com a forma, começam a ser aquele tipo de formação que se faz necessário dessa etapa para frente.

É certo que poderia perguntar: mas, para os três tipos de países que lá estiveram as escolas podem ser as mesmas?

Evidente que não (…).154

(…) Nós, em face do avanço tecnológico contemporâneo, abandonamos a nossa condição de uma proposta artística para o mundo? O avanço científico terá criado condições de avanço tecnológico a tal nível que a ciência absorve a arte, e a tecnologia a engole? Esta é a questão.

É certo que a tecnologia é um meio, não é um fim, e quanto mais o homem ganha armas para dominar o real, certamente é com o poder dessas armas que ele irá criar a arte nova. O que se fez com o avanço científico foi precisamente dar à arte um novo significado. (…) porque se ela no domínio do mundo amplia ao infinito o total das possibilidades, a escolha de uma tem que ser de tipo humano e de tipo artístico.

(…) Aí o planejamento da cidade ou da região isolada nas suas conjunturas, mas a consideração do que se poderia chamar “o universo do environnement’”. Ou seja, o universo do meio ambiente (…).155

154 Essa referência de Artigas levou-me à leitura de Referências para a formação de quadros para a Arquitetura

na República Popular de Angola. In: SVENSSON, Frank. Arquitetura criação e necessidade. Brasília: Edunb, 1991, p. 19-68. Levou também aos projetos de Arquitetura e aos livros publicados pelo egípcio Hassan Fathy.

155 “O Encontro de especialistas sobre o ensino de Arquitetura”. Palestra proferida no IAB-SP, em agosto de

1970, sobre o encontro organizado pela Organização das Nações Unidas para a Educação e Cultura (Unesco), em Zurique (Suíça), em junho daquele ano. Ele participou na qualidade de Professor da FAU-USP, como Membro do Conselho Superior do IAB-SP e como representante do Brasil. ARTIGAS, Vilanova. Caminhos da Arquitetura. São Paulo: Lech, 1981, p. 129-135.