3.7 Summary
4.1.1 Tests using one-month recordings of a motor
Com o objetivo de analisar a realidade do país e do mundo em suas difusas interpretações, a revista dedicou espaço para ciência, arte, cultura, literatura, política, sexo, comportamento. De 1966 até o fim de 1968, esses assuntos foram tratados de maneira clara, acessível e sem preconceitos. “Assumia mesmo, perante seu corpo de jornalistas e perante
seu público leitor, a imagem de um órgão para o qual não havia tabus, no sentido de que se dispunha a avançar sobre o que não se discutia ou sobre assuntos a respeito dos quais se discutia timidamente” (Faro, 1999, p. 107). Para compreender melhor a diversidade de temas e de enfoques propostos pela publicação, é necessário enumerar alguns exemplos de assuntos apresentados na revista.
No que diz respeito à família, pode-se citar a reportagem sobre controle de natalidade feita por Oriana Falacci em 196621. A matéria trazia um viés político-econômico, abordando a necessidade de limitação do crescimento populacional do país no contexto de produção de riquezas e desmitificava o uso de métodos contraceptivos. Com diferentes pontos de vista – inclusive o da Igreja Católica – sobre o assunto, a revista tocou ainda na questão da legislação em torno do aborto no Brasil. A denúncia se dirigia aos abortos provocados sem assistência médica. Mais de dois anos depois, a revista trouxe uma reportagem de Norma Freire específica sobre o aborto22. Mais uma vez, a revista questionava a proibição do procedimento, que arrastava milhares de mulheres por ano para a ilegalidade e o risco de morrer.
O divórcio também seria abordado nas páginas de Realidade. José Carlos Marão analisou o tema, lançando mão de recursos literários para compor o texto e incluir as opiniões de um padre, um jurista, um defensor do divórcio e um defensor da família. Ainda de acordo com Faro (1999, p. 115), a reportagem foi feita no momento em que se abria a discussão do projeto de um novo Código Civil e “deixa entender o engajamento da revista em favor da adoção do divórcio pela legislação brasileira”.
A educação sexual foi alvo de reportagens em mais de uma edição da revista. Em novembro de 1968, por exemplo, analisou pesquisa feita com 2.400 pessoas23. Destas, 99% afirmaram que a educação sexual torna as pessoas mais felizes, 81% acreditavam tratar-se de um assunto “importante e agradável”, e 75% afirmaram crer que ela deveria ser oferecida desde a infância, e que pais e professores deveriam estar envolvidos na transmissão desse tipo de conhecimento (FARO, 1999, p. 123).
21“Brasil: 60 milhões de pílulas por ano”, maio de 1966. 22“O aborto”, junho de 1968.
Em 1967, a revista dedicou uma edição inteira24 à mulher. Foram 1.200 mulheres entrevistadas em diversas regiões do país, pela própria equipe de Realidade. Do perfil de religiosas ao da atriz Ítala Nandi, passando pelo parto e pelas questões sobre a saúde da mulher, o trabalho de uma mãe de santo e uma mãe solteira que se dizia orgulhosa da sua condição e, na última página, o questionamento sobre se a mulher devia ou não manter a virgindade até o casamento. Com grande diversidade de aspectos em torno da mulher, a edição não deixou de falar sobre nenhum tabu da época. O resultado foi a apreensão daquele número, por ordem de dois juízes de menores, um de São Paulo e o outro da Guanabara, que consideraram o conteúdo ofensivo à dignidade da mulher (FARO, 1999, p. 129).
Religião também foi assunto da revista, e dos mais recorrentes. Tantas reportagens sobre o assunto “parecem indicar que Realidade estava atenta para as novas orientações pastorais que emergiram no seio da instituição a partir do pontificado de João XXIII e que ganharam destaque em meados dos anos 1960” (FARO, 1999, p. 150). As mudanças na Igreja dividiram espaço com a crendice popular, cultos sincretistas, candomblé, espiritismo, curandeirismo, celibato dos padres, militância política clerical.
A economia brasileira apareceu sob a forma de matérias dedicadas ao destino do dinheiro público, orçamento da União, produção cafeeira do país e até à matriz de transportes, com o incentivo ao transporte rodoviário em detrimento das ferrovias e hidrovias. A indústria pesada, o trabalho nas minas de carvão, a fome e a seca no Nordeste, menores abandonados no Recife e o consumo de drogas também foram abordados. Com a ajuda de um policial, Narciso Kalili acompanhou o dia-a-dia de um viciado, para a edição de maio de 1967.
A cobertura de temas internacionais da revista foi estruturada de forma a relacioná- los com a realidade brasileira. Além disso, nas matérias sobre o que se passava no exterior, havia uma presença forte de referenciais objetivos de informação, e uma presença menor de recursos literários. De acordo com Faro (1999, p. 216), essas reportagens vinham carregadas de elementos quantitativos como percentuais de alfabetização, tiragens de livros, dados de população e de produção econômica, informações voltadas a tornar a revista fonte
de conhecimento sobre assuntos desconhecidos para boa parte de seu público: “A intensidade dos recursos literários e ficcionais diminuía na medida em que o objeto da matéria se afastava do referencial nacional da audiência de Realidade”. Para exemplificar algumas das matérias sobre assuntos estrangeiros pode-se citar a situação em Cuba, em 196825, os textos sobre Che Guevara, em maio26 e em agosto27 de 1968.
Os Estados Unidos também estiveram presentes nas páginas da revista. A matéria28 feita na guerra do Vietnã, onde José Hamilton Ribeiro perdeu a perna após pisar em uma mina terrestre, não foi a única sobre o conflito. A primeira29, em maio de 1966, tinha como autores dois repórteres franceses. Em março de 1968, Oriana Fallaci descreveu o cenário de guerra, na reportagem “Eles querem viver”. Em abril do mesmo ano, a repórter voltaria ao tema30, em edição que teve outro texto sobre o assunto, de autoria de Raymond Carter31. Em junho de 1968, José Hamilton publicaria a matéria original que fora escrever no Vietnã, antes de sofrer o acidente. Em “Guerra é assim”, ele analisou o cotidiano político e social do conflito. De acordo com Faro (1999, p. 221), no texto Ribeiro expôs as dificuldades que os Estados Unidos enfrentavam para sustentar a intervenção: “Na verdade, a Guerra do Vietnã havia se tornado um problema internacional de difícil solução”.
Além da guerra, os problemas da sociedade estadunidense foram retratados por meio da cobertura de outros assuntos. É o caso do racismo, em reportagem em que Carlos Azevedo32 trouxe à discussão a questão do preconceito racial de lá e daqui do Brasil, destacando a maneira como a cultura de paz de Martin Luther King cedera espaço para ações guerrilheiras, especificamente os conflitos entre o partido dos Panteras Negras e o Estado. Em agosto de 1968, os repórteres Milton Coelho e Geraldo Mori enganaram a polícia haitiana para fazer uma reportagem33 sobre Papa Doc, ditador no poder há uma década. O socialismo marxista-leninista também apareceu em Realidade. A China foi
25“Cuba”, abril de 1968.
26“Meu amigo Che passou por aqui”
27“Che revela: Fidel ia morrer naquela noite” 28“Eu estive na guerra”, maio de 1968. 29“Vietnã: 25 anos de guerra”, maio de 1966. 30“São os Bonzos de Saigon”, abril de 1968. 31“Guerra sem saída”, abril de 1968.
32“Agora é guerra”, outubro de 1967. 33“Viagem ao país do medo”, junho de 1967.
visitada por Duarte Pacheco, quando a Revolução Cultural estava em construção no país34. Mylton Severiano da Silva publicou um texto35 no cinquentenário da Revolução Russa de 1967.
A cultura de massa apareceu em diversas reportagens de Realidade. A revista dedicou, ainda, uma sessão mensal ao tema, onde o leitor encontrava comentários e críticas sobre o que estava sendo produzido na cena cultural do período. Nas primeiras edições, a sessão se chamou Panorama e, posteriormente, Roteiro. Da música de protesto36 à Jovem Guarda37, passando por uma crítica ao programa de rádio do governo, A Voz do Brasil38, a diversidade de produtos culturais e assuntos da época esteve refletida na revista. João Antônio, objeto desta pesquisa, contribuiu para essa variedade com um perfil39 da cantora Aracy de Almeida, em 1968.
A revista abordou ainda temas de ciência e educação. A possibilidade da ida do homem à Lua40, a expectativa de vida do brasileiro41, produção de energia nuclear42. Uma apuração criteriosa, marca da revista, visava levar a informação mais clara possível sobre assuntos, até então, desconhecidos para boa parte dos leitores. Psicanálise, psicologia e outros temas ligados à saúde mental apareceram em diversas edições da revista. A educação, principalmente do ponto de vista da reformulação do ensino que surgia no Brasil. “A avaliação diferenciada que Realidade fazia da questão educacional tinha vínculos com propostas pedagógicas surgidas em outros países”, descreve Faro (1999, p. 253).
A urbanização do país dividiu espaço com textos sobre a violência e a criminalidade. José Carlos Marão escreveu sobre o esvaziamento da vida rural em 196643. A utopia urbana, por sua vez, foi simbolizada por Brasília, na época com sete anos de
34“Eis a China”, outubro de 1966. 35“A Revolução Russa”, março de 1967. 36“Política dá samba?”, maio de 1966.
37“Vejam quem chegou de repente”, maio de 1966. 38“A voz oficial fala sozinha”, agosto de 1966. 39“Ela é o samba”, outubro de 1968.
40“O preço da Lua é a vida de um homem”, abril de 1966. 41“Do que morre o Brasil”, janeiro de 1968.
42“Estamos na era do átomo” março de 1967. 43“Nossa cidade”, maio de 1966.
fundação44. Narciso Kalili foi o autor da primeira reportagem policial45 da revista. João Antônio desvendaria o universo dos informantes da polícia dois anos depois46. O repórter retratou este tipo social como alguém totalmente marginal. Aos olhos da sociedade, ele é bandido. Aos olhos dos bandidos, ele é informante da polícia.
O futebol foi um dos assuntos mais frequentes nas pautas da revista. Desde o número um, que trazia Pelé na capa47, o esporte esteve presente. Foram matérias que, se não falavam sobre o esporte especificamente, tratavam de variados aspectos: o imaginário do torcedor, ídolos das torcidas, times, a mobilização de multidões ao redor do Brasil e outras atividades relacionadas ao futebol. Pelé seria o personagem de uma matéria extensa48, em novembro daquele ano. Garrincha também teria seu perfil49, em 1968. A euforia das torcidas foi tema de mais de uma matéria. Por exemplo, a rivalidade entre atleticanos e cruzeirenses, em Minas Gerais, foi contada por João Antônio50.
A diversidade temática da revista estendeu-se a outros esportes, como o boxe, a concursos de miss e até mesmo o universo da sinuca. A própria imprensa foi objeto de reportagens, como a narrativa sobre o dia a dia da redação do Jornal do Brasil51, então chefiado por Alberto Dines. Em outras oportunidades, a revista refletia sobre si própria, como ocorreu ainda no segundo número52, em que a própria Realidade atribuiu seu sucesso à variedade de assuntos e ao enfoque diferenciado dado a esses temas.