O funcionamento do casal tem sido objeto de estudo das diferentes abordagens psicológicas existentes. O início dos estudos da conjugalidade foi influenciado pela hegemonia psicanalítica, que afirmava que as questões emocionais se restringiam ao intrapsíquico. O aspecto individual e inconsciente era a única explicação valorizada para a origem do sofrimento emocional. As causas dos problemas eram descritas de forma linear, com base em uma relação causa-efeito. Assim, o casal era visto a partir da individualidade de cada membro (Féres-Carneiro & Ponciano, 2005).
As escolas de terapia familiar começaram a surgir na década de 1950 em um movimento de diferenciação das abordagens vigentes na época. O novo olhar trazido por essas escolas privilegiava os relacionamentos no presente e não apenas o indivíduo e sua história, conforme pregavam as demais abordagens (Féres-Carneiro & Ponciano, 2005; Nichols & Schwartz, 2008).
Satir (1995) descreve que as sementes das nossas experiências de casal estão nas primeiras experiências de aprendizagem. A maioria das pessoas, de acordo com a autora, é ensinada a obedecer e a se conformar às normas externas, sobretudo das famílias de origem, sob ameaça implícita de serem abandonadas ou rejeitadas.
Pesquisadoras contemporâneas de orientação sistêmica enfatizam que o processo de ser casal é influenciado pelos modelos de relações amorosas provenientes do casamento dos pais e de casais próximos a cada um (Ozório, Féres-Carneiro, & Magalhães, 2017; Wagner, Mossmann, Levandowski, Costa, Zordan, & Rosado, 2015). Féres-Carneiro et al. (2007) ressaltam que a identificação com as figuras parentais e o processo de transmissão geracional, de modo mais amplo, são fundamentais “para o estudo das relações que existem entre as concepções, motivações e projetos dos jovens para o casamento e o sentido dado à vivência da conjugalidade dos pais” (p. 26). Além disso, as imagens e conceitos que a sociedade apresenta sobre “ser casal” em cada época, também molda o processo de conjugalidade de cada casal. As pesquisadoras Wagner et al. (2015) pontuam:
Assim, inicia-se na infância a construção de um estilo de relacionamento amoroso, que vai se desenvolvendo e se transformando ao longo da vida, passando por diferentes etapas que matizam as experiências aprendidas com a vivência pessoal. Essa conexão íntima, que se forma entre dois indivíduos que buscam se unir afetivamente, se desenvolve à medida que eles fortalecem o vínculo entre si e aperfeiçoam sua capacidade de ser casal, apoiados em suas experiências individuais e nas vivências com a sua família de origem (Wagner et al., 2015, p. 19).
A perspectiva familiar sistêmica, de modo geral, introduz a percepção do casal composta de três partes: dois indivíduos e uma relação: eu, você, nós (Satir, 1995). Assume-se que o vínculo conjugal constitui-se de duas individualidades e uma conjugalidade. Segundo essa perspectiva, a dinâmica relacional do casal passa a ter mais destaque do que a individual. Satir (1995) salienta que o pensamento sistêmico aplicado ao casal entende que qualquer coisa que um integrante faz, requer que o outro responda. Paralelamente, a resposta do outro molda seu próprio eu. Essa sequência repetida dá origem a um modelo de funcionar que se traduz em normas para a relação. É, portanto, a especificidade relacional do casal que a perspectiva sistêmica coloca em evidência. Essa é a visão que norteia esta tese.
Whitaker e Bumberry (1990) descrevem a conjugalidade como sendo um processo que vai além do “ele” e do “ela” e procura pelo “nós”. Esse “nós” é o local de intersecção e de integração do casal, cujo equilíbrio, apesar de difícil, deve ser buscado. Os autores apontam que a noção de compromisso no casamento procura assegurar que há uma concordância sobre tentar crescer juntos, comunicar-se mais honestamente e valorizar as necessidades de seu cônjuge.
Satir (1995) defende que a possibilidade de um casal possuir um funcionamento sadio depende de cinco pontos principais: a capacidade de haver um senso de igualdade entre a díade, a possibilidade de homens e mulheres encontrarem espaço para desenvolverem suas partes intuitivas e cognitivas na relação, a necessidade de cada cônjuge encontrar a si mesmo por trás dos papéis de
esposo(a), pai, mãe, profissional, dona de casa, ambos os cônjuges possuírem uma boa autoestima e, por fim, se perceberem enquanto seres espirituais.
Para Minuchin (1982), o subsistema conjugal possui tarefas específicas que são vitais para o funcionamento da família. Nesse sentido, o casal deve desenvolver padrões que favoreçam o apoio de cada cônjuge no funcionamento do outro. O subsistema conjugal pode, dessa forma, se tornar um refúgio para os estresses externos e a matriz de contato com outros sistemas sociais.
A união de um casal com a intenção de formar uma família marca o começo formal de uma nova unidade familiar. Minuchin (1982) ressalta, entretanto, a existência de diversos passos entre a iniciação formal de uma família e a criação de uma unidade viável. Diante disso, o autor pontua:
Uma das tarefas que um novo casal enfrenta é a negociação de seu relacionamento com a família de origem de cada cônjuge. Além disso, cada família de origem deve se ajustar à separação ou separação parcial de um de seus membros, à inclusão de um novo membro e à assimilação do subsistema do cônjuge dentro do funcionamento do sistema familiar. Se as estruturas das famílias de origem, há muito estabelecidas, não mudam, podem ameaçar os processos de formação da nova unidade (Minuchin, 1982, p.30).
Um casamento em que a família de origem ainda esteja muito em cena pode oferecer obstáculos para a relação. O casal deve, assim, estabelecer ao seu redor fronteiras nítidas. As fronteiras de um subsistema são definidas por Minuchin (1982) como as regras que estabelecem, quem participa das relações e como. Sua função é a de proteger a diferenciação do subsistema em relação ao sistema maior: “Devem ser definidas suficientemente bem para permitir que os membros do subsistema levem a cabo as suas funções, sem interferência indevida, mas devem admitir contato entre os membros do subsistema e outros” (Minuchin, 1982, p. 59). Nesse mesmo sentido, Whitaker e Bumberry (1990) afirmam que um casal recém constituído precisa diferenciar-se claramente de cada família de origem, embora deva ter conhecimento dos aspectos de cada uma que valem a pena ser preservados.
Ser casal envolve um processo de amadurecimento pessoal mútuo e uma condição para construir um espaço de intimidade. A conexão íntima do casal, conforme Wagner et al. (2015), não é estabelecida e nem mantida com facilidade e está relacionada com o grau de satisfação que se colhe da relação.
Ao discutir a conjugalidade a partir de uma perspectiva sistêmica não temos a pretensão de abordar os conceitos de forma exaustiva. Seria impossível esgotar a caracterização do casal, uma vez que cada conjugalidade é única e inclui múltiplas possibilidades de vivências. Além disso, nosso intuito não é resumir o entendimento do casal ao contexto familiar somente, mas sim destacá- lo como um contexto essencial em nosso estudo sobre casamento.