Os planos para o futuro de filhos/as adultos/as que vivem com os pais, apesar de envolver a saída de casa, indicam que nem sempre essa saída está prevista em curto prazo. O projeto de sair do lar parental foi estudado por Gallagher et al. (2013). As autoras observaram, nos filhos cangurus entrevistados, quatro do sexo feminino e quatro do masculino, objetivos traçados a médio e longo prazo. As autoras pontuam o paradoxo envolvido nessa questão, uma vez que a vivência na contemporaneidade é baseada no imediatismo, mas a permanência na casa dos pais acontece em função da presença de outro ritmo, certamente mais lento.
Henriques (2009) aponta que a saída de casa de filhos e filhas cangurus pode ser motivada por fatores como uma mudança de cidade em função de trabalho, uma pós-graduação, um
intercâmbio no exterior ou para morar sozinho na mesma cidade. A saída de casa pode decorrer ainda para estabelecer uma vida conjugal, seja por meio do "morar juntos” ou do casamento.
É importante frisar, no entanto, que a saída de casa não representa necessariamente a aquisição de identidade autônoma. O filho ou a filha podem morar fora de casa e continuar ligados aos pais e à estrutura da casa de origem. Podem, por exemplo, manter parte das refeições na casa dos pais, trazer comida congelada da mãe, deixar as roupas para lavar na casa dos pais ou ainda utilizar a mesma diarista que eles. Esses filhos e filhas acabam, dessa forma, diminuindo as responsabilidades sobre o novo lar e sobre si mesmos/as, além de possibilitarem aos pais a manutenção de um monitoramento sobre eles. Essas situações podem funcionar como estratégias de enfrentamento para a saída de casa. Idas e vindas, aproximações e afastamentos entre pais e filhos/ as que deixaram o lar parecem ser necessárias para a construção de uma nova relação e para a afirmação da autonomia de filhos e filhas. Por outro lado, podem dificultar o estabelecimento de limites saudáveis nas relações pais e filhos/as adultos que saem de casa (Wendling & Wagner, 2014).
Carter e McGoldrick (1995) pontuam que a mudança de status na relação entre pais e filhos/ as adultos/as que saíram de casa requer uma forma de relacionamento mutuamente respeitosa e pessoal. A construção dessa nova forma de se relacionar dará aos filhos/as a possibilidade de apreciar os pais como eles são, sem precisar transformá-los naquilo que eles não são e sem culpá- los por aquilo que não puderam ser. Uma separação adequada dos/as filhos/as nessa fase, de acordo com as autoras, seria aquela que não envolvesse rompimento ou fuga, mas ressignificação da relação com os pais.
Os filhos devem ser capazes de escolher emocionalmente o que levarão da família de origem, o que deixarão para trás e o que irão construir sozinhos (Aylmer, 1995). Ao saírem de casa direto para o casamento, essas escolhas tornam-se ainda mais críticas, uma vez que envolvem a construção de uma nova rotina ao lado de um parceiro/a que também possui questões com sua
família de origem. Wendling e Wagner (2014), ao estudarem o fenômeno da saída de casa, observaram que os/as filhos/as consideraram essencial certo distanciamento dos pais após a saída de casa, a fim de experimentarem seu novo espaço de adulto/a. Da mesma forma, também perceberam como importante o contato frequente com os pais. Essas percepções deixam claras as ambiguidades presentes no sistema familiar nesse momento do ciclo de vida.
A saída dos/as filhos/as da casa dos pais é um momento de transição do ciclo de vida da família e, por isso, um momento complexo. Na literatura internacional de terapia familiar, essa fase é denominada de ninho vazio ou lançando os filhos e seguindo em frente (Carter & McGoldrick, 1995). Lançar os/as filhos/as ao mundo e seguir em frente é considerada a fase mais longa e uma das mais difíceis do ciclo vital da família.
Este é o momento, segundo Carter e McGoldrick (1995), em que os pais estão envelhecendo, estão deixando suas atividades profissionais e se aposentando e, ao mesmo tempo, entrando no papel de cuidadores dos seus próprios pais, que podem se tornar dependentes deles. As mudanças geradas nessa etapa podem promover plenitude, gratificação e crescimento para os membros da família ou potencializar conflitos familiares (Wendling & Wagner, 2014).
Complementarmente, os/as filhos/as que saem de casa para casar estão vivenciando o início do ciclo de vida de uma família (Carter & McGoldrick, 1995). O seu processo emocional chave seria o de aceitar a responsabilidade emocional e financeira pelo eu. Nesse sentido, as autoras colocam como tarefas a serem desenvolvidas por jovens adultos/as que deixam a casa dos pais:
a. Diferenciação do eu em relação à família de origem;
b. Desenvolvimento de relacionamentos íntimos com adultos iguais;
c. Estabelecimento do eu com relação ao trabalho e independência financeira.
Aylmer (1995) discorre sobre jovens adultos/as em pós-faculdade, financeiramente independentes ou quase independentes e que deixaram fisicamente a família de origem. O autor
propõe que o desenvolvimento do/a filho/a adulto/a fora do lar parental esteja relacionado a fatores individuais do/a filho/a, do sistema familiar, da carreira e da intimidade.
Os fatores individuais dizem respeito ao desenvolvimento do/a filho/a enquanto uma pessoa adulta responsável pelo seu próprio sustento e cuidado, sendo capaz de manejar de forma independente sua vida em geral (Aylmer, 1995). O autor complementa:
Esta, certamente, não é uma tarefa fácil, e requer imensas reservas de coragem, energia, tolerância em relação à ambiguidade, e disposição para arriscar. Não surpreende que tantos jovens adultos não consigam entrar nesse estágio, ficando em casa como adolescentes 'atrasados'; não progridam nas questões de desenvolvimento da independência e da identidade, e, embora fisicamente separados, fiquem se debatendo em termos vocacionais e interpessoais; ou pulem o processo desenvolvimental de independência através do casamento prematuro e do assumir responsabilidades por uma nova família (Aylmer, 1995, p. 171).
Do ponto de vista do sistema familiar, a resolução satisfatória dessa etapa requer renegociações dos relacionamentos familiares originais, ou seja, a capacidade de tolerar a separação e a independência, e conseguir permanecer, ao mesmo tempo, conectado. Além desses fatores, fazem parte também a tolerância em relação à ambiguidade presente no processo de construção da identidade profissional dos/as filhos/as adultos/as e a aceitação da variação das ligações emocionais intensas e dos estilos de vida fora da família (Aylmer, 1995).
As questões de carreira e de intimidade são expostas como os principais elementos da realidade de filhos/as adultos/as que saem do lar parental. A capacidade de estabelecer uma identidade no mundo do trabalho, administrando as ansiedades e ambiguidades presentes, e o estabelecimento de vínculos amorosos saudáveis, em que o eu é compartilhado, são vistos como necessários para a boa evolução nessa fase do ciclo.
As relações amorosas do/a filho/a adulto/a podem funcionar como um termômetro do grau de diferenciação que ele/a alcançou em relação à sua família de origem. É comum que filhos/as pouco diferenciados envolvam-se em relações fusionadas em que o outro acaba sendo uma extensão do eu substituto (Aylmer, 1995; Carter & McGoldrick, 1995). Nesse tipo de relação, sobra pouco espaço para as individualidades e um acaba misturando-se no outro. Além disso, altos níveis de ciúme e possessividade são característicos de relações marcadas por baixo grau de diferenciação e podem trazer à tona questões não resolvidas com a família de origem. Sair de casa não necessariamente resolve essas questões e, em alguns casos, o/a filho/a adulto/a pode encontrar no relacionamento íntimo amoroso uma fuga das relações não resolvidas na família e fazer da nova relação um refúgio emocional substituto (Carter & McGoldrick, 1995).
O surgimento da geração canguru chama atenção para um contexto relacional no qual filhos/as adultos/as não possuem um espaço próprio para resolverem essas tarefas desenvolvimentais. A teoria de Carter e McGoldrick (1995) não prevê uma etapa do ciclo que contemple filhos/as adultos/as no lar parental. A corresidência prolongada faz com que o cumprimento das tarefas previstas no ciclo vital, ou parte delas, aconteça na própria casa dos pais – ou durante as fases seguintes do ciclo vital familiar. Aqueles que saem de casa para casar podem, assim, levar questões não resolvidas para o casamento.
A adaptação à fase de saída dos/as filhos/as de casa é necessária também por parte dos pais. A separação pais e filhos/as adultos/as pode desencadear nos pais sentimentos de perda da função parental, principalmente naqueles pais que priorizaram a parentalidade em detrimento da conjugalidade. Pais que criaram sua relação de casal excessivamente em função dos filhos apresentarão dificuldades em retomar seus projetos de vida e lidar com a solidão do ninho vazio (Carter & McGoldrick, 1995; Cerveny & Berthoud, 2002; Wendling & Wagner, 2014).
O fato é que a saída dos filhos/as de casa demanda dos pais que o casamento e os projetos de vida pessoais e conjuntos sejam retomados. Os pais podem voltar a investir no casamento, dando a
ele um novo significado e diminuir o foco no cuidado dos/as filhos. Nesse contexto, eles podem compartilhar novas experiências com os/as filhos/as adultos/as e vice-versa, o que inclusive oportuniza melhorias na relação entre pais e filhos/as. Os pais também podem perceber que o casamento não é mais uma realidade possível e seguir para o divórcio (Berthoud, 2003; Figueiredo, 2008; Henriques et al., 2004).
Aqueles pais que realizaram suas saídas de casa de forma tranquila e resolveram seus problemas de separação, intimidade e autonomia em relação às suas próprias famílias de origem terão mais facilidade em responder às dificuldades dessa fase com o/a filho/a adulto/a (Aylmer, 1995; Bowen, 1991; Carter & McGoldrick, 1995). Wendling e Wagner (2014) indicam que, quando os pais conseguem evocar nas experiências passadas o desenvolvimento pessoal que tiveram em seus processos de deixar o lar parental, tornam-se mais sensíveis e capazes de apoiar seus/suas filhos/as no processo de saída deles.
A saída da casa dos pais enquanto um processo dinâmico, ambíguo e negociado entre os membros da família também é descrita por Henriques et al. (2016). Esse estudo buscou compreender como se articulam os diálogos no momento da saída de casa de filhos/as adultos/as. A saída da casa dos pais, conforme as autoras observaram, é um processo negociado entre pais e filhos/as e acontece como um jogo com possíveis avanços e recuos. Nesse contexto, foi constatada a presença de tensões. As autoras identificaram que os/as filhos/as descrevem o ambiente da convivência parento-filial como um lugar ao mesmo tempo tranquilo e desconfortável. A relação entre pais e filhos/as em casa se constitui por meio da presença de ambiguidade que, por um lado, afeta a previsibilidade das ações e, por outro, capacita vivenciar o aumento das fronteiras entre eles. Além disso, o processo de deixar a casa ocorre segundo o tempo do relacionamento. Esse tempo dura até pais e filhos/as compreenderem a si mesmos no nível relacional. Uma vez que é um processo negociado, a saída de casa pode ser considerada como um acordo resultante das negociações e renegociações diárias (Henriques et al., 2016).
Diante de todas as dimensões expostas acerca da geração canguru, fica a curiosidade de refletir e compreender sobre como essa geração se comporta no casamento. Sem dúvida, os aspectos da contemporaneidade, de obtenção de prazer, felicidade, fragilidade dos laços, individualismo, incertezas, instabilidades nas relações e no mundo do trabalho, aliados aos processos que marcam as dinâmicas pessoais e relacionais da geração canguru, afetam diretamente o casamento e os ideais trazidos pelos cônjuges. Avançaremos nesse capítulo teórico apontando, a seguir, os principais movimentos e desafios relacionados ao casamento na atualidade.